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«O Huambo é o meu Lugar de Encontro Com o Futuro»

Escrito por  João Maimona

Entrevista de Aguinaldo Cristóvão

«A multiplicidade os exemplos de adjectivação patentes na minha obra, reafirmava o meu desejo de concretização de um projecto com função gramatical: homenagear, em percursos da expressão sugestiva da metáfora, da metonímia e do símbolo, um magnífico tempo verbal: o pretérito imperfeito do indicativo. E decidi oferecer à sociedade por escrito e em universo poéticos estes versos (...)» In: Lugar e Origem da Beleza

 

P- A melhor maneira de abordar um poeta é indo à sua génese. Durante 15 anos, viveu na actual República Democrática do Congo (RDC), país que o tornaria num poeta bilingue. Que recordações guarda deste período?

R- Desde a primeira infância, aprendi a conviver com os obstáculos do quotidiano. Aprendi, sobretudo, a contemplar com sentido de avaliação os sucessivos passos do meu percurso. É esta imagem que aparece, hoje, suficientemente consolidada na página das recordações que eu acumulei ao longo da minha estadia em Léopoldville (hoje, Kinshasa). Ainda me lembro das inúmeras imagens que me transmitiam sinais de que eu amava os meus pais, os meus irmãos e todos aqueles que me eram próximos. O presente testemunho ficaria empobrecido se não evocasse aqui os valores que adquiri na infância e adolescência : o respeito, o trabalho, a generosidade e a solidariedade. A flutuação entre o conteúdo da troca de palavras dos diferentes períodos do dia era sintomática nos instantes de coabitação com os meus pais. É curioso notar que era apenas uma criança (um jovem) que vivia na pacífica periferia de Léopoldville. Um jovem dotado de capacidade e predisposição para transmitir aos outros o mistério da festa do saber e conhecimento. E eu tinha como Festa o contacto com as leituras, diversificadas e intensas. Por tradição dos programas curriculares e, sobretudo, por imperativos do espírito de geração, eu frequentava os diferentes centros culturais dispersos por Kinshasa. A aquisição dos métodos de trabalho e a consolidação dos valores já adquiridos constituíam o que eu poderia designar por concentração mental. A estes elementos gostaria de associar o inesquecível compartimento musical e desportivo. Ainda carrego as marcas dos sons provenientes da música africana da época (anos 60 e 70). Com imensa nostalgia falaria do magnífico rol de contribuições artísticas de Papa Wendo, do Grand Kallé‚ Docteur Nico Kasanda‚ Luambo Makiadi (Franco), dos conjuntos emergentes na época, como Zaiko Langa-Langa‚Viva la Musica, Bella-Bella (RDC); Manoel de Oliveira (Portugal), Sam Manguana (Angola); Manu Dibangu e Eboa Lotin (Camarões); Franklin Boukaka (do Congo-Brazzaville). Uma das melhores recordações reside na convivência que mantive e desenvolvi com colegas de escola através da disciplina de Educação Física. Aluno medíocre em basquetebol e triplo-salto‚ era em futebol que revelava qualidades impressionantes. Participei em diversas competições inter-escolares e inter-bairros. Era sempre o capitão das sucessivas equipas que integrava. Os meus coéquipiers diziam que eu era um sublime pourvoyeur.

P- Em Kinshasa, o director da escola primária não acreditava que tinha sete anos. Conte-nos esta história.

R- O quadro quotidiano que consistia em ver crianças deixarem as suas casas para a escola proporcionava uma felicidade carregada de sentido de descoberta de outros horizontes. As conversas que mantinha com os meus pais, no final do dia, davam-me a possibilidade de descobrir as minhas origens étnicas, a base social da família e o sentido do percurso que os meus pais desejavam: um percurso dotado de savoir-faire, sagesse, harmonia e isento de loucuras. A inscrição para a frequência da instrução primária verificou-se entre Julho e Agosto e iria completar sete anos a 08 de Outubro de 1962. Lembro-me de ter saído de casa muito cedo com o meu pai. Poucos elementos me restam daquele dia extraordinariamente decisivo para os momentos admiráveis que vivo hoje. A imagem que retive dessa promenade foi a minha presença no gabinete do Director da Escola primária Saint-Pierre. A minha compleição física reunia a confirmação de elementos que pudessem transmitir a ideia de que eu tivesse na altura quatro anos. A minha alegria foi crescendo quando recebi das mãos do meu pai uma meia dúzia de cadernos, uma ardósia, um ponteiro e um lápis. Eu acabava de viver um dia brilhante. Estava tão encantado que se dilatava em cada instante o olhar que eu endereçava ao meu material escolar. Ainda hoje, considero aquele material um tesouro, uma autêntica fortuna. A imagem destes utensílios para o mundo do conhecimento espiritual representa para mim toda a cerimónia que se encontra ligada à minha actividade profissional, ao trabalho de pensamento e à minha acção política. Nos primeiros anos de frequência da escola Saint-Pierre, o Director, um psico-pedagogo, natural de Matadi, mostrava sinais de ternura que apagavam a mais sólida sombra de tergiversação que se verificara no dia da minha inscrição. Em 1966, com a quarta classe concluída, a família mudara-se para a área da conhecida Universidade Lovanium , hoje Campus de Kinshasa. Esta mudança precipita a minha transferência para a escola Saint-Augustin.

P- Um aspecto importante que foca na sua vida é o papel da sua mãe. Fale-nos dos conselhos que a Dona Joana Marta lhe dava?

R- A minha mãe nasceu na segunda metade da década de 30 do século XX, na freguesia de M’banza Mongo, concelho de Maquela do Zombo. Tudo o que dizia respeito à formação e ao desenvolvimento individual fazia parte do universo das preocupações que carregava. A articulação da sobrevivência com os simbolismos da maternidade, num futuro próximo, habitava os seus pensamentos. Descobri a Joana Marta, minha mãe, mergulhada na mais total das conturbações que a poligamia engendra. A Joana Marta teve a felicidade de ser a primeira e ofereceu ao meu pai os primeiros filhos: a Sissa Anne, falecida precocemente em 1977 com apenas 23 anos de idade (a primogénita, a quem é dedicado o poema da página 43, em Trajectória Obliterada), o Autor d’As Abelhas do Dia e o Emmanuel, ex-aluno da Escola Nicolau Gomes Spencer (Huambo), falecido no Bié, no conflito pós-eleitoral (referenciado na dedicatória grafada no livro Traço de União). O analfabetismo de Joana Marta contrastava com a sabedoria que exibia e a enorme capacidade que demonstrava em reunir os meios necessários para enfrentar a dura prova quotidiana numa cidade tão cosmopolita como era a capital Léopoldville: a alimentação, o vestuário, a habitação, os encargos inerentes à educação, à saúde e ao transporte. A abordagem deste tema sempre foi um instante comemorativo da minha infância e adolescência. Joana Marta era portadora de dois atributos: a coragem e a perseverança. Hoje, residente na Petrangol, na periferia de Luanda, em companhia de alguns de seus netos, ainda exibe essa predisposição em simplificar as coisas mais difíceis. Protestante praticante, não cessava de reconhecer a sua incapacidade por não ter convencido os filhos a seguir a mesma tendência religiosa. Considero musicais os instantes que passei com a minha mãe ao longo dos quinze anos em Léopoldville. Tudo o que ela proferisse em relação à minha formação e ao meu percurso era profundo. Eram sequelas de reflexões arrastadas pela história, pelo passado de dores. Como mulher de palavras serenas, tinha uma inclinação singular para conselhos que valorizassem a dignidade humana. Tinha a capacidade de retomar as ideais que formulava. Sentia-se complexada por não falar as línguas que os filhos dominavam. Dirigia-se a nós apenas em Kikongo. O universo de Joana Marta, traduzido em conselhos, tem as suas raízes em quatro pontos cardeais: o respeito, o trabalho, a generosidade e a solidariedade.

P- Queria, a propósito, que focasse esse cruzamento entre a cultura angolana e congolesa a que foi «submetido», no domínio dos usos e costumes que teve de conciliar?

R- A saída maciça de angolanos para alguns países da África Central representa, em meu entender, um acto cultural, se considerarmos que a Cultura participa no desenvolvimento da consciência do indivíduo e da definição de suas escolhas, decisões e acções. Os valores de que somos portadores definem a nossa identidade cultural. Não seria novidade para ninguém se sublinhasse aqui que os valores culturais se desenvolvem e se transformam no seio das colectividades humanas. E aqui intervêm dois simbolismos fundamentais: o que ocorre nos comportamentos e o que ocorre nas representações. A minha estadia no Congo-Kinshasa deu-me a possibilidade de estabelecer um diálogo com outras culturas. É evidente que não estará esse horizonte cultural todo contido nos meus comportamentos ou representações. Pude absorver conscientemente algumas manifestações que eu considerava fortemente africanas. E falaria aqui dos hábitos alimentares, do aproveitamento da ambição social que as comunidades locais exibiam... Todos nós temos, no recanto do coração, fragmentos de horizontes culturais das localidades com as quais estabelecemos contactos ainda que esporadicamente.

P- Li um comentário feito sobre a sua carreira que julgo curioso. Realça-se o facto de ter mantido a «unidade gramatical» da língua portuguesa memorizada. Como empreendeu este desafio?

R- No meu percurso do estudo da língua portuguesa, tive vários ciclos. Eram visíveis harmonias abertas entre a fase passiva da aprendizagem e a fase activa. Na primeira, eu exibia uma enorme faculdade em acumular um capital lexical significativo que, posteriormente, desenvolvia com o concurso de outras línguas, tanto africanas como ocidentais. Era um estudo saudável pelos caminhos que eu pretendia seguir: conferir atenção primacial ao capital lexical e ao poder do verbo. Expressar-me essencialmente em língua portuguesa no ambiente do meu primeiro emprego (Refinaria de Luanda) era uma experimentação tranquila e alegre.

P- O Congo é considerado como o centro do misticismo da região Austral de África. Deixou-se levar por isso ou aproveitou essas estórias para a literatura

R- Como católico, sou portador de uma fé religiosa intensa. O sentimento religioso adquire uma importância capital numa sociedade cristã como o Congo. Mas o que eu queria sublinhar aqui, em poucas palavras, é o desvio ao sentimento religioso, predominante na sociedade congolesa: é o que eu designo por coabitação pacífica. A superstição passa por verdadeira entidade susceptível de orientar o quotidiano do indivíduo. A linguagem da emoção, da paixão e da confiança que a superstição engendra estabelece a expressão da esperança e das angústias do indivíduo. Só os meus leitores poderão dizer se existem ou não elementos ligados ao misticismo em função da brevíssima caracterização que aqui aparece.

P- Apesar de ter claramente toda uma inclinação para a literatura, formou-se em medicina veterinária. Porquê?

R- Sozinho ou convivendo com amigos e colegas, eu gostava de conferir uma atenção primacial ao vocábulo literatura. Teria o poeta o poder de transgredir determinadas ordens estabelecidas? Qual seria a fonte de palavras propícia para o poeta edificar um universo com valência suficiente e características peculiares do fenómeno poético? Qual a relação entre a poesia e outros espaços como a filosofia, a antropologia, o absurdo e as artes plásticas, por exemplo? Eram essas as interrogações que eu formulava no magnífico ambiente das minhas reflexões. Estava eu no período feliz de transição entre as humanidades científicas e o ingresso na Faculdade de Ciências do Campus de Kinshasa: Julho de 1975, em vésperas da independência de Angola. Embora as ciências exactas fossem a prioridade para a formação universitária, a literatura misturava-se com os compromissos académicos que eu procurava consolidar. A medicina veterinária não surgia no meu pensamento como uma das opções primeiras… A medicina, sim, enviava alguns sinais de aproximação. Nessa altura, o meu pai e o meu avô materno, que já se encontravam em Quibocolo, antes da Revolução dos Cravos, manifestavam preocupações sobre a minha formação, o meu futuro… Em mensagens que me chegavam de Maquela do Zombo, ambos insistiam que eu acelerasse o meu regresso ao país. O que viria a acontecer em Setembro de 1976. Eu dedicara uma semana inteira a descobrir e efectuar a fixação do mapa da província de Luanda. Vivia em Viana (Estalagem Leão). Por opção, eu usava o comboio e, por vezes, preferia fazer o trajecto a pé. Essa cultura da descoberta começou a desenhar-se na infância e traduzia a vontade de adquirir um conhecimento aprofundado do habitat. Em Abril de 1977, inicia-se o contacto com a Refinaria da Petrangol, depois de ser aprovado num teste psico-técnico. Infelizmente, a direcção da Refinaria não oferecia uma disposição horária que permitisse aos técnicos a continuação de seus estudos: eu estava matriculado na Faculdade de Ciências (Curso de Geofísica) e apenas podia frequentar as aulas nos chamados dias de folga, pois trabalhava em regime de turno, na Unidade 100, responsável pela produção de asfalto. Foi a partir de 1978 que me vinha à memória a sugestão de meu avô: «gostaria que fizesses medicina veterinária». Em Maio de 1978, apresentei-me na Reitoria da Universidade Agostinho Neto, solicitando o meu ingresso na Faculdade de Ciências Agrárias (Huambo). E decidi abandonar a Refinaria da Petrangol sem aviso prévio. A 14 de Maio, fixei residência no Huambo. Este acto representa um compromisso de memória, uma missão de história definida pelo meu avô materno, João Kivoloka. O meu contacto com as Humanidades Científicas transmitia a esse novo percurso uma confiança sólida. Eu sabia que esse novo percurso seria uma sinfonia cuja execução poderia levar seis anos (duração normal da formação) ou sete a oito anos, contando com alguns incidentes de percurso. O meu contacto profundo com as principais explorações pecuárias do Planalto Central levar-me-ia a cultivar uma paixão enorme pelo reino animal.

P- Com uma bolsa que obteve das Nações Unidas, enquanto refugiado, pôde frequentar as melhores escolas de Kinshasa. Conte-nos o ponto de partido para o estudo de Humanidades Científicas e das leituras que fez?

R- Foi na abertura do ano escolar de 1973-1974 que passei a beneficiar da bolsa de estudo das Nações Unidas na qualidade de refugiado angolano no Congo. Foi na fase crepuscular das Humanidades Científicas, pois faltavam dois anos para a sua conclusão e o ingresso no ensino superior. A obtenção desse subsídio de formação representava para mim a abertura de um contexto novo, tranquilizador e reconfortante, que me transmitia a convicção de erguer novas ambições. Com esse subsídio, aumentara a frequência a bibliotecas, livrarias especializadas e centros culturais. Foi nessa altura que comecei a consolidar uma démarche que iniciara já no final do ciclo preparatório: estabelecer a destrinça entre leituras obrigatórias e leituras de opção individual. Aqui residia a ideia da formação e transformação; a descoberta do sentido das palavras. Eu amava o período de transição que consistia em suspender temporariamente o contacto com o universo da Matemática, Física, Química, Biologia, e mergulhar, por exemplo, no magnífico universo de ideias de Cheick Anta Diop; na poesia do político, ensaísta e poeta senegalês Léopold Sédar Senghor ou do poeta e dramaturgo congolês Tchicaya U Tam’si; mergulhar ainda nas ideias do filósofo francês Claude Bernard, que procurou definir os princípios fundamentais da investigação científica com a sua Introduction à l’Étude de la Médecine Expérimentale; do historiador burkinabé Joseph Ki-Zerbo. Depois vinha o René Descartes, filósofo, matemático e físico francês, cujas pesquisas representam passos significativos na evolução da ciência moderna. Em prosa e poesia, as leituras obrigatórias situavam-se nos segmentos literários estabelecidos por Victor Hugo, com uma extensa e riquíssima obra onde se destacavam os poemas satíricos contidos em Châtiments, a colectânea lírica das Contemplations e Les Misérables et Les Travailleurs de la Mer. Apareciam também Emile Zola, Albert Camus, Marcel Proust, Paul Claudel, Saint-John Perse e La Fontaine. Outras leituras vinham preencher o espaço de formação. Eram leituras de complemento indispensável: Shakespeare, Antoine de Saint-Exupéry e Blaise Pascal.

P- Fale-nos do contacto que teve com Zaida Dáskalos, no Huambo, onde escreve a primeira fase da sua obra?

R- O encontro com Zaida Dáskalos aconteceu no limiar da década de 80. Ela acabava de ingressar no quadro de pessoal da Faculdade de Ciências Agrárias como responsável da Biblioteca. Muito cedo descobri o seu sentido de organização, o seu rigor eminentemente linguístico e uma preocupação e um carácter voltados para a aquisição permanente do conhecimento. Sempre que a minha disposição horária o permitisse, dirigia-me à abundante biblioteca que ela cuidava com carinho, ao seu agradável apartamento do Largo Kussy para tomar café e trocar impressões sobre assuntos muito seleccionados. Zaida Dáskalos proporcionou-me uma ajuda imensa ao enriquecimento dos meus conhecimentos sobre o percurso político de autores surrealistas como Léo Ferré, Maurice Blanchot, Louis Aragon, André Breton e Paul Éluard. Foi com as suas indicações que desenvolvi os meus contactos de leitura de Nicolas Guillén, Alejo Carpentier, Miguel Torga, José Régio e Gabriel García Márquez. A verdadeira surpresa surgiu quando descobri que Zaida era uma iluminada francófila. Encantava-me o seu vasto conhecimento da cultura e civilização francesas. Ela mostrava uma espectacular predisposição em juntar e transmitir-me elementos sobre a música sinfónica do mais clássico dos criadores modernos franceses (Maurice Ravel) e sobre a obra de artistas plásticos franceses como Henri Rousseau e Henri Matisse. Dizia-me de memória os nomes de algumas figuras ilustres que residiam no Panthéon de Paris. O instante mais feliz da nossa amizade nasce com a atribuição, em 1984, pelo Instituto Nacional do Livro e do Disco, do Prémio Sagrada Esperança (Poesia) ao original Trajectória Obliterada, da autoria de João Maimona, e do Prémio Manguxi (literatura infanto-juvenil) ao original Duas Histórias, da autoria de Zaida Mendonça de Oliveira Dáskalos. No dia da entrega dos prémios e da divulgação das obras (17.09.1985), apercebi-me de que estava a viver alegrias autênticas e momentos admiráveis. Acabava de testemunhar o nascimento de uma obra que era a síntese de um trabalho que eu iniciei na segunda metade da década de 70. A Zaida não escondia que Trajectória Obliterada era naquela época o seu livro de cabeceira. Hoje, a imagem que me ficou de Zaida é a de uma intelectual brilhante, que sabia transmitir conhecimentos com honestidade e modéstia, no exercício da sua qualidade de bibliotecária.

P- É estudioso da obra poética de Agostinho Neto. Até que ponto a poesia identifica o homem. Existe uma margem entre o poeta e o homem?

R- Em todos os meus ensaios sobre a obra poética de Agostinho Neto transparece a minha visão de homem identificado pela sociedade como poeta. É na poesia que se situa o nosso lugar de encontro: o diálogo de dois poetas. Neste lugar de encontro, o emissor e o receptor estabelecem harmonias isoladas. O receptor afasta-se da sua contemplação para mergulhar na trama textual e recriar o percurso estético do emissor. Nas ideias do receptor-ensaísta, misturam-se a atitude de concentração que possibilita a libertação dos signos de interpretação e o sentimento nobre de acreditar na voz universal do emissor-poeta.

P- Que relação encontramos entre a sua alma poética e a língua que nela cultiva?

R- Os meus poemas constituem um conjunto heterogéneo que é a imagem nítida da relação íntima que mantenho e desenvolvo com a palavra poética. Uma relação que se estabelece entre o poeta, neste caso entidade cultural, e a palavra poética como entidade linguística. Esta relação passa por linhas de crescimento que o poeta tonifica por intermédio da sua capacidade de invenção e de imaginação. E no meu caso particular, já o disse noutras ocasiões, essa relação sobrevive à custa de um substrato substancial: trata-se de uma ponte sólida que se estabelece entre o clima espiritual do meu habitat e a língua que nele se desenvolve. Festa de Monarquia e Lugar e Origem da Beleza formam a ilustração mais acabada dessa relação. Os poemas desta colectânea lançam luz sobre a especificidade de um utensílio decididamente demasiado sólido e fundamental para a construção permanente da humanidade: a alegria.

P- A maior parte da sua obra é recheada de opiniões de críticos literários. Estes são unânimes quando, como Xosé Lois Garcia, dizem que ela vem sugerir «mudanças profundas no seu percurso particular e na poesia do seu país» (in Festa de Monarquia). Contudo, a crítica literária ainda tem poucos cultores em Angola...

R- Em Angola, há gente dotada de capacidade para desenvolver uma crítica construtiva em louvor da literatura angolana, uma das mais destacadas do continente africano. Não citarei nomes O que me transmite satisfação é o facto de constatar que essa reduzida comunidade de críticos literários vai desenvolvendo uma cultura de tomada de consciência da crítica literária. À nossa paisagem literária falta aquela crítica permanente. Uma crítica que apresente ideias e opiniões sobre a autenticidade e o valor de uma obra literária de forma sistemática e regular. O que predomina actualmente é uma crítica circunstancial; uma crítica interna e ocasional: aquela que surge em sessões de apresentação de livros. O que limita a expansão da nossa crítica literária, embora se reconheça a sua natureza sólida, honesta e rigorosa; a sua atitude que dá sentido à evolução da nossa literatura. Acredito, no entanto, que este terreno espiritual, em adiantada fase de crescimento, venha a receber valiosas contribuições de jovens críticos provenientes de círculos universitários.

P- O seu percurso literário tem como ponto de partida o livro Trajectória Obliterada (poesia, INALD, 1984, 69 págs.), que se afasta da «consciência literária» da época. João Maimona foge à temática generalizada e individualiza-se na poesia. Porquê?

R- Foi na segunda metade da década de 70 que comecei a dialogar com a palavra poética. Quando o choque poético me pôs em contacto com este maravilhoso universo que é a literatura, fi-lo com a consciência de erguer novas ambições para a poesia angolana, em particular, e africana, em geral. Fi-lo com a consciência de desencadear uma ruptura com o que se produzia no passado. Procurei introduzir novas linhas de expressão poética: moldar uma nova dimensão poética onde o símbolo, o verbo e a metáfora aparecessem implicados no amplo projecto de construção de um novo edifício poético. Trajectória Obliterada, como livro de estreia, é a direcção assumida para a construção do admirável edifício cujas cores ou tonalidades, cujos motivos ou acentos paisagísticos são os outros títulos que, hoje, são alvo de atenções especiais e objecto de estudos aprofundados em diversos círculos académicos. Estou de acordo com um estudioso do Ocidente que afirmou que tenho o privilégio de ser autor de uma poesia que confere uma segunda dimensão ao universo poético africano.

P- Analisemos a este respeito, a poesia «Trevas» (Trajectória Obliterada). Apesar de ter acolhido linha própria, não foge à angústia que a época lhe acoitava?

R- Como os outros poemas da Trajectória Obliterada, «Trevas» surge como registo momentâneo do olhar sobre um passado (que ainda é sinónimo de presente) conturbado e é o somatório de estados múltiplos: a alegria, a tristeza, a angústia, o testemunho de solidão e conturbação. Trajectória Obliterada é um longo texto em constante transformação. Um texto actual: são imagens fotográficas de paisagens diversas, gravuras com sítios e instantes de várias localidades de África em busca de emancipação social. É um conjunto de sinais de esperança.

P- Diz a estudiosa Maria Nazareth Fonseca que este livro deixa transparecer a sua visão sobre a impotência da poesia diante da realidade angolana em ruínas. Concorda?

R- Eis uma pergunta fundamental para o acto de iluminar ou dissipar áreas cinzentas que povoam Trajectória Obliterada. Enquanto eu sustento que T.O. é um conjunto de sinais de esperança, Maria Nazareth Fonseca levanta a questão da degradação ou da ruína. Ela viu com os seus olhos as trevas do meu e nosso percurso, identificou e caracterizou de forma profunda o caminho doloroso das coisas. Mas no seu ensaio, Maria Nazareth reconhece a existência, na minha obra, do nascimento de um espaço em constante transformação. O testemunho de degradação ou de ruína reencontra o seu lugar na linguagem do olhar. As outras linguagens (a dos valores, da acção, do espírito e do desejo) dispõem de imagens para tonificar a démarche susceptível de debelar o estado de degradação e de ruína. São válidas as formulações de Maria Nazareth Fonseca.

P- Seriam estas voltas de curvas e contracurvas da vida que Maimona chama uma «trajectória obliterada»? Por exemplo, da condição de refugiado à de deputado.

R- Estamos perante uma pergunta ambígua. Embora tenha uma vertente essencialmente voltada para o futuro (a sublime ideia de providência), desanichei nela uma vertente profundamente humana. Trajectória Obliterada constrói-se na glorificação do conteúdo histórico. Há nesta colectânea uma espécie de associação íntima entre o passado e o futuro ainda por construir e diferenciar. T.O., como texto poético, terá, evidentemente, a sua diversidade e multiplicidade de leituras e interpretações. No entanto, nunca me ocorreu que se pudesse estabelecer uma relação entre o conteúdo histórico de T.O. e a minha condição de ex-refugiado (até Setembro de 1976) e de deputado (desde Novembro de 1992). T.O. entrou em incubação na década de 70. E só em 1984 passou a ser considerada uma entidade poética com a atribuição do Prémio Sagrada Esperança. T.O. tem afinidades estreitas com os abusos da memória. Nas sociedades de hoje, ainda existe o espírito ou a tendência que procura dissolver ou congelar valores, talentos e cérebros valiosos. É essa desastrosa forma de violência humana que T.O. procura caracterizar. É fundamental que se consolide a ideia de que as Nações se constróem com a unidade geográfica e histórica; com a diversidade de pensamentos e correntes conscientemente assumida. As Nações também se constróem com a convergência de projectos comuns e do somatório de perdas e ganhos da memória colectiva.

P- O que falta para a edição em português de Les Roses Perdues de Cunene [As Rosas Perdidas do Cunene] (editora Jean-Marie Bouchain, Lausanne, 1985) e Empire Ephémère au bord du Sang [Império Efémero à Beira do Sangue]?

R- Mais uma vez encontro-me perante uma pergunta que me coloca na flutuação entre o que se faz, os projectos e o horizonte temporal de divulgação do produto final. Nunca foi minha a opção de anunciar os projectos que tenho em carteira. Abraço a ideia do escritor nigeriano Wole Soyinka segundo a qual o tigre não proclama a sua tigritude mas mata a sua presa e devora-a. Apenas uma palavra sobre a tradução do título: esta tradução à letra não me satisfaz. A versão portuguesa do livro em referência terá como título As Lágrimas do Império.

P- A sua poesia tem visibilidade internacional. Foi publicada uma crítica sobre Traço da União (poemas, Luanda, 1987) no Jornal de Letras [quinzenário português de letras, artes e cultura]. A distinção internacional que recebeu no Brasil é prova disso. Fale-nos da obra e do prémio?

R- Ainda estava no Planalto Central quando recebi a informação, por carta, da Academia Brasileira de Letras (Rio de Janeiro), relativa à atribuição do prémio (Medalha de Bronze). Tratava-se de uma carta-convite para efectuar a deslocação ao Brasil e participar no acto de entrega dos prémios. Não pude efectuar a deslocação ao Brasil por insuficiência de recursos financeiros. A União dos Escritores Angolanos não dispunha de recursos para cobrir os encargos de viagem. Participei no referido Concurso com um conjunto de textos que integram o livro As Abelhas do Dia. Esse conjunto de textos tinha como titulo Por Sobre Todo o Planeta.

P- Disse certa vez, em entrevista, que o seu maior anseio é fazer da sua poesia «o berço das palavras renováveis e requalificáveis». Quer explicar-nos melhor?

R- Fazer do jogo de palavras a fonte do prazer da leitura. A ambição desse empreendimento é a descoberta do sentido das palavras. É no conflito permanente entre os jogos de palavras que procuro renovar e requalificar a memória do texto. Acabo por aparecer como mediador deste maravilhoso e pacífico conflito. O meu poema é um tecido linguístico em constante requalificação. É um tecido linguístico consolidado por inesperadas adições de imagens que denunciam instantes de amadurecimento e de prazer. A finalidade primeira é a de produzir um texto que possa simbolizar a nova identidade do poeta.

P- Publica também um livro de dramaturgia, Diálogo com a Peripécia (teatro, Luanda, 1987), que figura numa antologia. Como resumiria esta peça?

R- Diálogo com a Peripécia mostra, em dois actos, o drama do quotidiano de uma localidade do Norte de Angola, materialmente deficiente, onde predomina a injustiça social. Os diálogos entre personagens-chave, marcados por risos, lágrimas e inquietações, acabam por fornecer elementos para a compreensão dos fenómenos sociais que se desenvolvem nas aldeias africanas.

P- É com As Abelhas do Dia (poemas, Luanda, 1988) que afirma ter conquistado a sua consagração. O que lhe dá esta convicção?

R- O discurso poético patente em As Abelhas do Dia é a consolidação das linhas de expressão que desenvolvi em títulos anteriores: Trajectória Obliterada, Les Roses Perdues de Cunene e Traço de União. Com a publicação d’As Abelhas do Dia, aproximava-se a conclusão da primeira fase da minha produção literária. Com esta colectânea, eu vivia um cenário de alegria e felicidade. As palavras de elogio e reconhecimento que me chegavam de vários pontos do país, de África, da Europa e das Américas eram surpreendentes. Apercebi-me de que as palavras que pronunciara, em Agosto de 1988, no programa Livro Aberto da TPA, apareciam como uma espécie de profecia: «Comecei a dialogar com a palavra poética no limiar da década de 70. Quando escrevi pela primeira vez uma coisa tida como poesia ou parecida com ela, senti que existia em mim uma espécie de tensão poética. Não hesitei em acreditar na força da palavra que eu acabava de criar. E tomei consciência da amplitude do caminho que se abria diante de mim. Esta precoce tomada de consciência reflectia o que eu descobria na minha obra: uma espécie de destino, uma massa de palavras que a sociedade do meu tempo iria conhecer e abraçar com toda a sinceridade».

P- Mais tarde, em Quando se Ouvir o Sino das Sementes (poesia, Luanda, UEA, 1993) faz uma espécie de antologia poética, incluindo poesias inéditas. Assume a corrente da poesia simbolista ou concretista-retratista, como Jorge Macedo [crítico literário angolano] lhe imputa?

R- O meu quotidiano sempre se dedicou à invenção de um olhar poético. Um olhar carregado de simbolismo. É nos símbolos que encontro o nicho privilegiado para o crescimento de signos que são portadores de uma longevidade inquestionável. A palavra poética deixa de pertencer a quem a concebe para eleger um habitat peculiar na língua de quem tem o privilégio de abraçar o exercício da interpretação e da interrogação. Os símbolos têm um peso maior no estabelecimento deste pacto e Quando se Ouvir o Sino das Sementes surge como um fragmento do património de simbolismo na poética africana.

P- Quando a poesia inspira um escultor, estamos em presença de um casamento de artes. O que dizer das esculturas do angolano Massongui Afonso, inspiradas no seu livro Idade das Palavras (poemas, Luanda, 1997)?

R- Massongui Afonso é um artista plástico que soube escolher conscientemente os caminhos da imaginação e criatividade; um dos mais destacados escultores angolanos. Há no Massongui Afonso uma dinâmica que nos conduz para o reencontro com o prazer de pensar. As riquíssimas peças que Massongui Afonso apresenta em O Falar das Máscaras evidenciam a sua capacidade em penetrar no universo da poesia e dedicar momentos ímpares para descodificar, desmontar, interpretar e celebrar a palavra poética.

P- Em Festa de Monarquia (poesia, Luanda, Kilombelombe, 2003), assume a sua maturidade literária. É uma visão premonitória que o impele a carrear os leitores em hipérboles e metáforas?

R- Em Festa de Monarquia, abundam metáforas surpreendentes que se enquadram na prática da pedagogia da virtuosidade que procurei introduzir na minha obra poética. É o teatro da palavra poética de extrema contemporaneidade que se pretende mostrar. É a marca de uma celebração poética que se inicia com Trajectória Obliterada. Festa de Monarquia é o caminho da tranquilidade com metáforas que consolidam uma escrita de ruptura com traços convencionais.

P- A poesia com o mesmo título (vide pág. 110) revela que a «festa de monarquia» é, em síntese, o contraste, ou seja, a harmonia dos contrários. Concorda?

R- As palavras unem-se a um belo quotidiano que envia um quadro de alegria. A casualidade da tempestade autoriza o dia a celebrar o drama e a tragédia que perturbam o repouso das crianças. E os sábios do planeta reinventam a matemática moderna. As sentinelas entrincheiradas nas avenidas da cidade transcrevem em termos visivelmente profundos o discurso do Imperador. As raparigas de seios concretos visualizam elegantes pernas masculinas: era a festa que se transformava em festa.

P- Em Lugar e Origem da Beleza (poesia, Luanda, Kilombelombe, 2003), temos um livro mais diversificado em temas e motivações literárias. Com as ilustrações as poesias ganham vida. É essa mensagem que, também, tenta passar?

R- O que impressiona em Lugar e Origem da Beleza é o caminho do acasalamento entre a densidade da palavra poética e o belíssimo ritual de imagens. O mais extraordinário é a riqueza que resulta dessa simbiose. É uma espécie de Universidade de todos os caminhos: o saber, as cores, os sinais de sedução, o mistério da natureza feminina, a sumptuosidade da gestão do domínio masculino, a salvação da beleza que cada um de nós concebe e fortalece no seu dia-a-dia.

P- No Útero da Noite (Luanda, Nzila, 2003) saiu numa altura de grande produção literária de Maimona. O leitor tem em mãos um produto resultante do íntimo do poeta, embora ele não o assuma claramente?…

R- No Útero da Noite é essencialmente uma obra enigmática e polifónica: a flutuação entre os traços característicos da primeira e segunda fases da minha produção poética. Como título surge na segunda metade da década de 80. Passou pela Comissão de leitura do INALD com parecer favorável para publicação. No entanto, a língua que veiculava não vinha em meu auxílio pelos seus elevadíssimos sinais de hermetismo. E decidi congelá-la e, posteriormente, submetê-la à reformulação. Durante duas décadas, procurei consolidar uma aventura que consistia em tornar No Útero da Noite uma espécie de nobreza da felicidade de criatividade, reflexão e imaginação. Uma alternativa que vai conhecer o seu jubileu em Agosto de 2001, data de sua publicação.

P- Não poderia terminar esta conversa sem deixasse registada a sua visão do Huambo, seu berço natal, que norteou os principais momentos da sua vida.

R- A Marguerite Yourcenar tem, na sua vasta bibliografia, um título que considero preponderante e feliz: O Tempo, Esse Grande Escultor. Diariamente, o tempo aparece como um interlocutor, efectuando uma gravitação em torno das nossas ideias, opções, decisões e perspectivas. Houve, na minha infância e mocidade, momentos que apareciam como sentinela dos meus passos, actos e atitudes. O tempo começou a revelar-se como signo estável dos meus comportamentos. O tempo parece ter uma relação peculiar com o lugar. Torna-se difícil afirmar se é o tempo que alimenta o lugar ou o inverso. O lugar é o que aparece escrito na nossa memória. Há lugares que me enviam, em cada instante, sinais de abalo, de profunda alegria, de nobreza da felicidade, da amplitude do combate e da celebração da vitória. Permanecem na minha memória nomes de cidades que aparecem como compartimentos inseparáveis do meu habitat. São localidades que reflectem o quadro da minha realização como cidadão que adora servir a Nação. Kinshasa, Luanda, Huambo, Nancy, Paris, Garoua, Dakar, Brazzaville, Lagos, Nairobi, Lisboa, Stockholm e Estugarda surgem como cidades que me dedicam diariamente manuscritos de recordações de invulgar esplendor. Huambo é o meu lugar de encontro com o futuro. Foi no Huambo que eu redescobri as maravilhas da formação superior; foi no Huambo que eu me casei (a 15 de Outubro de 1980); foi no Huambo, na meternidade da Fátima, que testemunhei o nascimento dos meus primeiros três filhos; foi no Huambo que se verificou a divulgação do meu livro de estreia, Trajectória Obliterada (a 17 de Setembro de 1985). Em suma, foi no Huambo (onde cheguei a 14 de Maio de 1978) que juntei elementos mais soberbos do meu percurso como médico veterinário, político e homem de letras. Numa outra entrevista, eu evocara um conjunto de aspectos que me encantavam quando pronunciasse a palavra Huambo: a simpatia da população humana, a clemência do clima, a diversidade e a riqueza do universo animal e vegetal, a serenidade do meio ambiente, embora perturbado, esporadicamente, pelo clima de instabilidade e deficiência de paz social. Lembro-me do Huambo como a cidade onde desenvolvi e mantive contactos frutuosos com os escritores Conceição Cristóvão, João Tala, Kudijimbe e Domingos Florentino. Lembro-me do Huambo como cidade onde tive o privilégio de conhecer eminentes intelectuais como Azancot de Menezes, Fernando Marcelino, Victor Duarte, N’Salambi David, João Felizardo, Pinda Simão, Luís Konjimbe, Dom Francisco Viti, David Bernardino, Domingos Culolo e outros.

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