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«O Escritor é um Ditador no Momento da Escrita»

Escrito por  Pepetela

Entrevista de Aguinaldo Cristóvão

Artur Pestana dos Santos, escritor angolano, teve na guerrilha o epíteto que hoje lhe vale para a literatura: «Pepetela». É este o nome que encabeça a lista dos escritores angolanos mais lidos e conhecidos, também, no estrangeiro. Para ele, o Estado angolano deveria adoptar uma política para fomentar o gosto pela leitura. Os intelectuais têm o direito e o dever de exprimir as suas opiniões e até revoltas, mas aos leitores cabe a tarefa de interpretar um livro como quiserem.

 

P- Ir à sua terra natal dá-lhe a sensação de reentrar no ventre materno, disse certa vez. Que locais que fizeram parte do seu passado frequenta, quando visita Benguela?

R- Tenho de passar por toda a cidade, mas sobretudo o Casseque, o antigo Tanque dos Bois, o Bairro Benfica, a Peça.

P- Existem objectos que considera amuletos, que são inseparáveis do escritor?

R- Não. Os meus feitiços estão no que escrevo.

P- Pepetela é frequentemente indicado como autor-guerrilheiro. Como encara essa conotação surgida do passado?

R- Não dou grande importância. Nem às escolas literárias ou coisas assim. Essas são makas para os historiadores da literatura que têm de inventar ficheiros ou gavetas onde enfiar as coisas. Tanto me faz ser enfiado numa gaveta de metal ou de madeira, é sempre uma gaveta. E isso não aprecio.

P- Os romances de Franz Kafka [por exemplo, O Processo] tiveram notoriedade após a morte do autor, do mesmo modo que Sócrates, Shakespeare ou Camões foram incompreendidos na sua época. Teremos muitos casos destes entre nós?

R- Pode acontecer. Penso que a obra de Henrique Abranches tem sido muito injustiçada interna e externamente.

P- Fala-se dos escritos de cárcere. A literatura revolucionária deve servir de vector de comunicação para as gerações vindouras?

R- Toda a literatura deve. A revolucionária e a outra. Até porque muitos revolucionários deixam de o ser quando têm a pança cheia.

P- Disse certa vez que, na época da guerrilha, escrevia para si, sem nenhuma pretensão de publicar, livre de condicionalismos ideológicos ou políticos. Em que alturas mais se dedica à escrita ou à leitura?

R- Vai dependendo das épocas e das condições. Escrevo quando me apetece, quando sinto necessidade de o fazer. Quanto à leitura, é diferente, estou sempre a ler.

P- Uma professora de literatura dizia que a idade já não lhe permite mentir. Essa mesma idade fornece a tal maturidade que todo o escritor, ainda que talentoso, precisa?

R- A idade dá maturidade e experiência, claro. Mas creio que, aos trinta anos, se houver suficiente vivência, já se tem maturidade suficiente e, sobretudo, tem-se capacidade e paixão, o que talvez se vá perdendo com o desgaste do tempo.

P- Concorda que Angola invista numa Academia de Letras, havendo já uma Faculdade?

R- São coisas diferentes. Pessoalmente acho ridícula essa ideia de Academia: vamos copiar os franceses, que foi o que os brasileiros fizeram. E essa Academia é que vai estabelecer as normas da boa escrita? Poupem-nos! Já bastam as togas e os chapéus hilariantes que algumas universidades querem impor aqui aos seus professores ou novos licenciados… Há coisas mais sérias em que pensar.

P- É-lhe difícil escrever na sua língua materna, o umbundu?

R- Esqueci o umbundu, como esqueci o mbunda que aprendi no Leste. Tenho péssima memória para línguas, entre outras coisas. A minha língua materna é o português e nela escrevo.

P- Depois de anos nas frentes de combate e no maquis, que patente hoje lhe é conferida no quadro das Forças Armadas Angolanas onde já ocupou, inclusive, a função de Comandante?

R- Não tenho nenhuma patente.

P- Queria que falasse do que sabe sobre os autores que, como Pepetela, participaram nas guerras de libertação de Angola, quanto aos aspectos condicionantes e determinantes das suas carreiras.

R- Penso que essa participação pode ter sido uma boa fonte de inspiração, sobretudo de conhecimento do país e da sua gente; uma experiência insubstituível. Na época, não havia pretensão nem possibilidades de publicar, de modo que penso que os escritores escreviam muito mais para si próprios, o que implica grande liberdade de criação, sem preocupação com o que se poderia pensar sobre a sua obra.

P- Eram, afinal, «intelectua» na guerrilha ou guerrilheiros intelectuais?

R- Eram fundamentalmente intelectuais que lutavam pelo seu país. Ocasionalmente estavam na guerrilha, como poderiam ter lutado de outra maneira. A vida permitiu que essas pessoas tivessem conseguido chegar a participar directamente na luta. Conheço outros intelectuais que não tiveram essa oportunidade, embora o tentassem.

P- Disse certa vez, numa entrevista, que o desenvolvimento de Angola peca por falta de ousadia de pensar o país de uma maneira inventada por nós. Para tal, sugere a criação de «novo mito» que faça unir e mover as vontades, tal como aconteceu na luta pela independência. Quer-nos explicar isto melhor?

R- A luta pela independência teve essa capacidade de unir as vontades, embora de formas separadas, como se pode constatar pela existência de diferentes Movimentos de Libertação. Mas a ideia de independência era comum, como um mito renovador. O que tenho dito é que nos está faltando esse novo mito que una a Nação para um projecto comum. E deveria ser um projecto criado, inventado por nós, não copiado do exterior, que é o que não paramos de fazer.

P- Foi apontado em 2002, ao lado de Mário Pinto de Andrade, como um dos 100 escritores africanos mais importantes. O objecto da nomeação foi a sua obra A Geração da Utopia. Que representou para si este título?

R- Há que relativizar prémios e títulos. Neste caso, acho que o facto realmente não merece importância. Basta dizer que Moçambique teve duas vezes mais escritores nomeados que Angola, só porque um dos membros do júri era uma senhora moçambicana ou porque a coisa se passava na África do Sul. Se compararmos o peso das duas literaturas, Angola deveria ter o triplo de nomeados… Portanto, levemos a sério apenas aquilo que merece ser levado a sério.

P- Fale um pouco da sua experiência de dar aulas numa universidade norte-americana. Como avalia o conhecimento e o grau de interesse pela literatura africana?

R- Foi uma experiência gratificante, por se tratar de uma universidade de enorme prestígio na América e por ter encontrado alunos muito interessados nas nossas coisas e em números que admiraram os próprios responsáveis da universidade. Dir-se-ia que começa a surgir nos EUA interesse pelas nossas coisas. O meu trabalho foi dar-lhes a conhecer o que é Angola e não só através da literatura, até porque não sou professor de literatura e sim sociólogo.

P- Surgiram há algum tempo querelas linguísticas sobre o futuro da língua portuguesa. Recordo-me que já se falava da possibilidade de ela evoluir [no Brasil] para o portunhol. Acredita que a língua há-de evoluir tão drasticamente como aconteceu com o latim ou há-de tornar-se uma «língua morta»?

R- A língua está a evoluir. Provavelmente terei uma opinião contra a corrente. Penso que a tendência será a de ficar mais padronizada, mais próxima de continente para continente, com os novos meios de contacto que os tempos modernos põem à nossa disposição. Essa coisa de que cada país «lusófono» vai ter o seu português cada vez mais diferente dos outros não parece resistir a uma análise séria. O que acontece é que cada vez mais os portugueses vão usar palavras e formas discursivas propriamente angolanas e nós cada vez mais formas brasileiras. Sobretudo por causa da televisão, mas também da Internet e, espero, das visitas de país a país.

P- O discurso de Pepetela contra o derrube do palácio D. Ana Joaquina mostrou que os intelectuais têm esse importante papel na sociedade. Concorda com aquela frase latina segundo o qual «as armas devem ceder à toga» (cedam arma togae)?

R- Os intelectuais têm o direito e o dever de exprimir as suas opiniões e até revoltas. Os governos têm de aprender a conviver com isso como coisas normais. Só quando as palavras deixam de ter impacto social, porque são censuradas e, portanto, as aspirações de grupos de população não são atendidas, é que há a tentação de utilizar outros meios, entre os quais as armas.

P- «A fidelidade do intelectual a uma determinada formação política ou social não deve significar a castração da sua liberdade para analisar de modo independente a realidade que lhe rodeia» (Roderick Nehone, in «Literatura e poder político»). Gostaria que enquadrasse este comentário à luz da realidade da classe intelectual angolana.

R- Estou inteiramente de acordo com o Roderick. Mas isso depende das pessoas, há os que são capazes de analisar a realidade de forma independente das suas fidelidades e outros que são meros trombones do que os seus partidos exigem que eles digam. Infelizmente, são capazes de ser raros os primeiros. Tenho tido muitas decepções nesta vida, vendo intelectuais que se deixam arregimentar e traem as ideias que defendiam antes, ou para estarem próximos de um poder, qualquer que ele seja, ou, ultimamente, para receberem benesses materiais.

P- É herdeiro do idealismo nacionalista da «Geração da Mensagem» como propõe Inocência Mata no livro Literatura Angolana, Silêncios e Falas de uma Voz Inquieta?

R- Parece que sim. Continuo um idealista. Alguns chamam-me burro e por isso não sou rico.

P- Fale-nos um pouco da sua relação com a editora Dom Quixote e os resultados de anos de trabalho. Afinal, Pepetela tem publicado a maior parte dos seus livros nesta editora portuguesa...

R- Publico pela Dom Quixote para Portugal desde 1985, quase vinte anos, portanto. Sempre foi uma relação de total confiança e liberdade. Eu mando um manuscrito e eles publicam, sem sequer o lerem. A menos que eu exija ter uma opinião antecipada, o que já aconteceu. Mas esta relação não é exclusiva para Portugal. No Brasil, tenho sido publicado pela Ática e pela Nova Fronteira e, ultimamente, pela Record. E, aqui em Angola, antes era publicado pela UEA e agora pela Nzila, com a qual tenho tido uma relação também de grande confiança e amizade.

P- Ao lado do moçambicano José Craveirinha, Pepetela é o africano que recebeu o prémio Camões de Literatura, o mais importante no espaço da CPLP. Acredita que deveria ser dada maior atenção à literatura dos países africanos, onde as suas populações precisam de mais incentivo para ler?

R- É uma pergunta muito vasta e que poderia ser apreciada em diversos ângulos. Falo só de Angola. Acho que o Estado angolano devia dar mais importância ao livro. Deveria haver uma política para fazer as pessoas lerem mais, política que passaria pela escola, pelas bibliotecas escolares, pela indústria livreira e com subsídios para que os livros fossem baratos, com incentivo à abertura de bibliotecas regionais, municipais, etc., etc., de forma a que as pessoas tivessem facilmente acesso a livros e que estes fossem baratos. O Estado não se pode demitir disto, é sua obrigação, é condição sine qua non para o desenvolvimento do país. Toda a gente que tem algum poder político já sabe (quem disser que não sabe está a mentir) que o primeiro factor de desenvolvimento de um país é a instrução pública. O livro enquadra-se na instrução pública.

P- Algumas divergências no seio dos combatentes e as dificuldades existentes descritas em Mayombe são reais. Pode contar-nos mais sobre este período da sua vida?

R- Esse livro foi escrito em total liberdade, até porque não tinha pretensão de o publicar. Eram mais reflexões sobre o que se ia passando, em forma de romance. Poderia ser um diário, mas nunca gostei de diários. Uma parte foi escrita à noite, nas bases do interior de Cabinda, enquanto os companheiros dormiam. Uma segunda parte foi escrita em Dolisie, no Congo, perto da fronteira, onde tínhamos a base mais importante de apoio à guerrilha. E a parte final foi escrita em Brazzaville. Ele foi acompanhando a minha vida nessa época de Cabinda e por isso tem muitas referências verídicas, embora as personagens não correspondam a pessoas reais. Uma ou outra tem traços que a um momento dado até confundiram os intervenientes, mas eram apenas um traço aqui, outro traço ali.

P- O Cão e os Calús apresenta uma narrativa constantemente «cortada» por várias propostas de alternativas. É o caso das duas «versões possíveis» do livro. Essa é uma fuga ao formalismo narrativo?

R- Não tenho pretensões de fazer teorias. Esse livro saiu assim porque na época não tinha disponibilidade para escrever de forma continuada (estava no Governo). Quando tinha um momento, uma ideia surgia, eu ia escrevendo. Para que se não notassem quebras, escrevi de propósito com quebras. Mudando o foco narrativo, os meios de narração, etc. Quando foi para publicar, arrumei as coisas. Daí esse formato, aparentemente caótico, mas que eu considero um romance. Ainda nenhum crítico contestou essa minha afirmação que deveria ser mesmo muito controversa.

P- Inocência Mata, professora de literaturas africanas da Universidade de Lisboa, diz que o autor recusa, face ao estatuído, uma visão uniforme do mundo. Concorda?

R- Bem, eu não concordo ou discordo daqueles que dizem algo sobre os meus livros. Faz parte da liberdade do leitor interpretar um livro como achar bem.

P- Todavia, projecta os livros com a delicadeza de um sociólogo, assumindo até um cariz pedagógico, que não se esgota em As Aventuras de Ngunga. Fá-lo de forma metódica e assumida?

R- Não posso fugir à minha formação, a qual escolhi aliás para poder compreender a realidade e escrever sobre ela. Por isso, deve ser fatal ter um certo pendor sociológico nos meus livros. Ficaria aliás muito preocupado se assim não fosse. Como a preocupação de ser claro. Afinal, sou professor

P- Não resisto a esta questão: Augusto Ngangula e Ngunga, a sua personagem [de As Aventuras de Ngunga], podem ser rotulados em comum como sendo heróis da sua pátria?

R- Até o nome é próximo, embora tenha sido coincidência. Ngunga é sem dúvida um herói da minha pátria, na medida em que o concebi como tal. Tão herói, tão herói, que até desaparece, não se sabe mais dele. Portanto, não se corrompeu, como outros que se consideram ou consideraram heróis…

P- Falando de As Aventuras de Ngunga, considerei o filme «Na cidade Vazia», da angolana Maria João Ganga, como uma metáfora a este livro. Que impressão teve quando viu parte da sua obra ser passada para o cinema?

R- Eu já conhecia o roteiro, tinha-o lido nos anos 90 e depois reli a versão final. Portanto, sabia o que seria o filme e não sofri o efeito de surpresa. Mas foi muito bonito isso que a Maria João fez, uma homenagem ao Ngunga que povoou os sonhos da infância dela, ela mesma o disse. Quando vi o filme disse para mim próprio: valeu a pena escrever esse livro.

P- Concorda que se diga que com A Gloriosa Família (Prémio Camões 1997) inaugurou uma nova fase na construção narrativa, para além da responsabilidade acrescida que o prémio lhe dá?

R- O Prémio Camões é dado ao conjunto da obra e não a um livro em particular. Mas acho que esse prémio não mudou (espero) nada na minha maneira de escrever ou de encarar o mundo. Deu um maior sentido de responsabilidade, sim, é claro. Embora a visibilidade desse prémio não ultrapasse as fronteiras da língua portuguesa e mesmo aí… Por exemplo, no Brasil, ninguém conhece esse prémio senão os escritores e alguns académicos.

P- Pepetela é considerado como um autor cujos livros têm sempre um cariz histórico. Yaka e Lueji são exemplo disso. Sei que fez uma pesquisa para escrever este último...

R- Como já se viu anteriormente, nem todos podem ser considerados de cariz histórico, havendo alguns sobre a actualidade, até. Os dois mencionados são e exigiram uma ampla pesquisa, assim como A Gloriosa Família. Mesmo que seja para enganar a História, é preciso conhecê-la antes. O Lueji é diferente, porque não se trata de História, mas de um mito, do qual encontrei versões diferentes e algumas diferenças são mesmo substanciais. Ninguém sabe o que se passou na Lunda naquela época, pode apenas haver conjecturas. O que me facilitou a vida. Estava mais à vontade para inventar outro mito sobre essas diferentes versões.

P- Lueji é, também, o nome da sua filha. Foi escolhido em homenagem ao livro ou à raiz africana?

R- Quando conheci a primeira versão do mito, a qual descrevi na História de Angola publicada em 1965 na Argélia, fiquei apaixonado pela figura de Lueji. Decidi então que haveria de ter uma filha chamada Lueji e que haveria de escrever um romance sobre a princesa. A minha filha nasceu mais de dez anos antes do livro. Os dois factos estão pois relacionados com o meu amor por essa figura mítica e magnífica de uma mulher que rompe os tabus sociais e a tradição para seguir o coração.

P- Como poderá o académico entender o cruzamento de duas épocas a que se propôs em Lueji, O Nascimento de um Império (1989)?

R- Isso dava para outro livro. Foi um desafio, escrever num romance duas estórias cruzadas e separadas não só por séculos (nem sabemos quantos) mas por toda uma envolvente social, uma num ambiente rural e tradicional e outra num ambiente urbano e moderno, uma estória questionando a outra. Eu achava não ser possível fazer isso, portanto, tentei. Afinal era possível, mas eu só poderia saber depois de ter feito.

P- O livro A Geração da Utopia ainda hoje é alvo de diferentes análises. Esta «Geração das Incertezas» é apontada como a do passado que acreditava na paz e na justiça social que traria a independência como a do futuro mais jovem, desorientada e céptica. Que análise mais se aproxima da pretensão do autor?

R- Eu seria a última pessoa a orientar o leitor para a interpretação de um livro meu. Apenas digo que as coisas estão sempre todas ligadas, e as gerações também. São apenas maneiras cómodas de enquadrar as coisas.

P- Há ainda, na sua Obra, inúmeros textos teatrais. Vemos isso em O Cão e os Calús («Elogio da Ignorância») e, antes disso, em A Corda e A Revolta da Casa dos Ídolos, uma efabulação das primeiras relações de comércio entre Portugal e o «Reino do Kongo». Estes contributos à literatura dramática terão continuidade?

R- Não sei, pode acontecer. Mas precisaria de um estímulo muito forte. Poderia acrescentar a isso uma tentativa de seriado ou mini-série para Televisão, as «Vidas Ocultas». Teatro, televisão, circo, todos são meios bons para contar estórias.

P- Quem lê Jaime Bunda, Agente Secreto deleita-se com a narração e descrições que fluem. Explique-nos como construiu a trama, as razões que o levaram a alternar os narradores.

R- Eu nunca faço uma coisa totalmente pensada antes. As boas ideias ou vão nascendo à medida que as coisas evoluem ou então não nascem e é um fracasso, desisto do tema. A um dado momento, acho que é preciso mudar de narrador, bem, mudo. Foi o que aconteceu e entrei eu próprio, o autor, para explicar isso, alguma coisa me incomodava naquele narrador, devia dar uma chicotada psicológica. Como sou um ditador (qualquer escritor o é no momento da escrita) despedi um e arranjei outro. E outro…

P- Érica Antunes, professora brasileira e Mestre em Letras, critica Jaime Bunda e a Morte do Americano, apontando-o como uma quase repetição do primeiro, escrito para cumprir agenda da editora, o que lhe retirou o valor estético. Quer comentar?

R- Nunca comento qualquer observação feita por um crítico a um livro meu. A única coisa que posso dizer é que não tenho, nunca tive, agenda de editora. Se tenho algo para publicar, publico, depende de mim e não da editora.

P- Esta professora considera também que a própria personagem Jaime Bunda perde o ar parvalhão para assumir ares respeitosos, deformando sua personalidade original. «As denúncias e ironias, tão refinadas em Jaime Bunda, Agente Secreto, tornam-se, em Jaime Bunda e a Morte do Americano, escassas e insossas, revelando uma trama extremamente linear e, por isso, altamente previsível». Como reage a esta crítica?

R- Não reajo, como é óbvio. Qualquer leitor tem todo o direito de fazer a sua leitura e ter a sua opinião. O escritor tem a obrigação de respeitar os seus leitores e as suas opiniões, quaisquer que sejam.

P- Finalmente, sei que Pepetela concede inúmeras entrevistas para falar sobre a sua Obra em Angola e no estrangeiro. O espaço que se segue destina-se a responder a uma questão ainda não suscitada, que gostaria que ficasse registada.

R- Esta entrevista já vai longa e não quero perder leitores, por exaustão. Só aproveito para repetir, o Estado angolano tem o dever de promover o ensino e a leitura. Será avaliado por isso, mais cedo ou mais tarde.

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