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«O Escritor Deve Ter a Liberdade de Escrever Sobre Tudo e da Maneira Que Entender»

Escrito por  João Melo

Entrevista de Aguinaldo Cristóvão

Ao prefaciar o livro Tanto Amor, o escritor angolano Manuel Rui chama a atenção, ainda em 1989, para o arrojo inaugural de João Melo no contexto sócio-literário angolano. Referia-se a «coincidência da busca da nudez verbal com a sublimação do corpo, do gesto e da totalidade de existir na fugacidade orgásmica». Este foi o primeiro passo de João Melo rumo a uma estilística que se ajusta à sua maneira de encarar a poesia: o escritor deve incomodar às vezes, mas, sobretudo, deve ser livre de criar.

 

P- O que podemos saber da sua infância?

R- A minha infância foi mais ou menos normal, apesar de o meu pai ter saído do país por causa da luta, quando eu tinha apenas seis anos de idade. Eu e o meu irmão fomos educados, na verdade, sem a presença do nosso pai, mas sabíamos onde ele estava e o que fazia. Isto de certo modo compensava a ausência física dele. Por outro lado, nunca deixámos de ter o carinho familiar. Em primeiro lugar, da minha mãe, que foi e é uma mulher extraordinária. Durante muito tempo ela foi mãe e pai e sempre soube conduzir a sua vida de maneira a cuidar de nós com muito carinho e muito rigor. Tínhamos, além disso, o apoio da nossa família. Como sabe, felizmente, na nossa cultura, a família é uma coisa muito importante. Portanto, nós tivemos o apoio dos avós, dos tios, dos primos etc. Finalmente, depois, fomos também educados eu e o meu irmão pelo nosso padrasto, que também foi e é um pai para nós. Tivemos sorte neste aspecto e tivemos por causa disso uma infância normal como a de outras crianças, que felizmente não passam muitas dificuldades. A nossa família não era uma família rica, era uma família ligada ao funcionalismo público, mas também não passámos, felizmente, grandes privações. Tivemos a oportunidade de frequentar a escola. Em suma, repito, tivemos aquilo a que se chama uma infância «normalmente feliz».

P- João Melo viria a tornar-se escritor. A melhor maneira de falar de si é citar um poema do seu livro Canção do Nosso Tempo (poesia, Luanda, UEA, 1991). Dele extraímos «Regresso à infância», que pode ser entendido como um olhar para o passado. Escreve muito sobre a sua infância?

R- Não. Na verdade, pelo menos até agora, não tenho escrito muito sobre a infância. Quem escreve muito sobre a infância é o Luandino Vieira, por exemplo, Arnaldo Santos, agora o Ondjaki, também, um pouco. Eu, realmente, tenho pouquíssimos textos sobre a infância. Na verdade, embora eu tenha dito há pouco que tive uma infância normal e feliz, a verdade é que eu tenho poucas lembranças da minha infância. Eu lembro-me de pouquíssimas coisas que me aconteceram quando criança. Lembro-me da minha bisavó apenas, lembro-me de três ou quatro episódios que aconteceram comigo quando era criança. Na verdade, não sei porquê, não tenho uma lembrança muito detalhada sobre a infância. Pode ser que, como eu disse nesse poema, à medida que for ficando mais velho estas lembranças passem a ser mais fortes e presentes.

P- Aníbal de Melo, seu pai, influenciou-o na sua vida, ao ponto de ser jornalista e «activista social» como ele foi. Considera que bebeu ou puxou muito do sangue paterno?

R- Infelizmente, talvez tenha bebido menos do que desejaria, porque na verdade convivi pouco com ele. Quando ele foi para a luta, eu tinha seis anos de idade; quando voltou, eu tinha 20 e depois disso só convivemos um ano, mais ou menos. E nada fazia prever o desfecho que a vida dele infelizmente teve. Por outro lado, aquele tempo, 1974/1975, era muito intenso. Todos nós estávamos envolvidos, principalmente nós, os jovens, 20/21 anos naquela altura, com uma série de coisas. Eu conversei pouco com ele, infelizmente. Portanto, talvez tenha bebido menos do que desejaria. Mas há coisas que funcionam, com certeza. Acho que há um certo factor hereditário, genético que funcionará sempre. Justamente uma das poucas lembranças que eu tenho do meu pai é a de frequentar a redacção e a tipografia de jornais que tínhamos em Luanda. Não sei se isso ficou no meu subconsciente, que me tenha levado mais tarde a enveredar pelo jornalismo. Seja como for, além desse lado paterno, eu também tenho uma herança do lado materno. Também tenho uma herança de tios, primos e da minha própria mãe, de pessoas ligadas à actividade criativa, nomeadamente à literatura, artes plásticas, etc. Eu sou sobrinho de Henrique Guerra, Mário Guerra. A minha avó era Pinto de Andrade. Ou seja, quer do lado materno quer o lado paterno há sempre esse traço genético e, por outro lado, esse ambiente familiar, doméstico me encaminhou para este mundo: o mundo da linguagem, o mundo da literatura, do jornalismo e da cultura em geral.

P- Em 1974/75, era desencadeada uma luta que viria a trazer a independência de Angola. De que forma João Melo participou na vida política?

R- A minha participação efectiva começa aí. Não começa antes. Quando eu acabei o Liceu, com 18 anos, fui para Coimbra estudar e o 25 de Abril [revolução ocorrida em Portugal] apanha-me em Coimbra. Com o 25 de Abril, eu tive a oportunidade de conhecer uma série de pessoas, entre elas o Manuel Rui [escritor angolano], que na altura já era advogado e vivia em Coimbra, mas também outros de Angola, Moçambique e Cabo Verde, ligados ao processo de luta dos nossos países pela independência. Eu tinha uma memória e um conhecimento disso por razões familiares. Não só por causa da opção que o meu pai fez, mas, também, porque pessoas da minha família estavam envolvidas na luta; algumas estavam presas em Angola, como o meu tio Henrique, que eu visitei algumas vezes na cadeia. Por outro lado, mesmo aqui no Liceu, antes de eu ir para Coimbra, nós, os jovens daquele tempo de 16/17/18 anos, já sabíamos o que se passava…

P- Os estudantes tinham já um papel político importante?

R- Nós já sabíamos o que se passava, embora não pudéssemos verbalizá-lo ou fazer manifestações públicas, mas sabíamos o que se passava, comentávamos entre nós. Lembro-me perfeitamente que foi um grande acontecimento que mexeu com nós todos, a fuga da Gi, que estudava connosco no Liceu e que, quando estava no sexto ano, deu o salto. Isto tudo criou um certo burburinho entre os colegas dela do Liceu. Quer dizer, eu tinha um conhecimento, uma informação muito vã de tudo o que acontecia. Mas participação efectiva militante ou orgânica, comecei a tê-la já com 20 anos. Justamente depois do 25 de Abril, quando nós, um grupo grande de estudantes angolanos, principalmente de Direito, que estava em Lisboa e em Coimbra, decidiu, após uma passagem do Presidente Neto por Portugal voltar para Angola e participar no processo de ascensão do país à independência, naquela fase de transição. É nessa altura que eu venho, em Dezembro de 74, e ingresso no MPLA formalmente. E é também nessa altura que começo a trabalhar, em Março de 75, na Rádio Nacional. A Rádio Nacional sofreu, como outros sectores, o êxodo de uma série de jornalistas e, na altura, alguns de nós, que tinham alguma vocação para escrever, fomos então conduzidos para a Rádio Nacional. É aí que começa a minha vida quer profissional como jornalista, quer como militante dentro do partido, porque logo depois dessa altura comecei a militar. Cheguei inclusive a coordenador do comité de acção do MPLA na Rádio Nacional e por aí fora…

P- Nesta altura, em Dezembro de 75, João Melo integra os 22 membros fundadores da União dos Escritores Angolanos. Nessa altura já tinha algo escrito?

R- Eu comecei a escrever os meus primeiros textos com 15 anos de idade. Dos poemas que eu fiz naquela altura, sobreviveu apenas um, «O aprendiz de quimbanda», que eu depois incluí no livro Poemas Angolanos. Vim a publicar os meus primeiros textos na imprensa em 73, tinha eu 17 anos. Publiquei os poemas numa revista que havia aqui em Luanda, chamada Semana Ilustrada [fundada a 01 de Julho de 1967 por Alfredo Diogo Júnior]. Era uma revista semanal que havia aqui onde eu publiquei alguns dos meus poemas.

P- Como acabou sendo um dos membros fundadores da UEA apenas com 20 anos de idade?

R- Devo esclarecer que, para além de mim, também um outro escritor foi membro fundador da União com a mesma idade que eu. Refiro-me ao Botelho [Adriano Botelho de Vasconcelos]. Mas, no meu caso, isto aconteceu a convite de alguns escritores mais velhos que já sabiam que eu escrevia e que eu já tinha publicado na imprensa alguma coisa. Nomeadamente o Manuel Rui, que faz parte do grupo dinamizador da União, juntamente com o Luandino, o Ndunduma, o Pepetela, o António Jacinto, etc. O Manuel Rui conhecia-me de Coimbra, portanto, conhecia os meus poemas. Inclusive, ele esteve para editar, através de uma editora muito conhecida que havia em Coimbra chamada Vértice, um primeiro volume que eu tinha organizado em 74. Não cheguei a publicar este volume. Seja como for, ele conhecia os poemas e foi assim que eu fui convidado para ser um dos membros fundadores da União. E, naquela altura, como quase ninguém tinha os seus livros publicados, o critério era que tivéssemos pelo menos alguns textos publicados na imprensa ou de uma outra forma qualquer.

P- Soube que houve um burburinho a este propósito, porque era o mais novo e não tinha livro publicado. É verdade?

R- Eu não sei a que burburinho se refere francamente. Naquela altura eu não me apercebi, não chegou ao meu conhecimento burburinho algum. Antes pelo contrário, fui muito acarinhado pelos mais velhos de então. Acho que este burburinho a que se refere é uma coisa posterior alimentada por pessoas que certamente desconheciam esta história. Mas naquela altura não houve burburinho nenhum.

P- Entretanto publica o seu primeiro livro, 10 anos depois da proclamação da UEA, em 1985. Fale-nos deste período, apesar de ter adiantado que muitos poemas já escritos não foram publicados

R- O meu primeiro livro é Definição (poesia, Luanda, UEA, 1985). Aliás, eu não gosto mais deste nome, gostaria mais que ele se tivesse chamado Certas Verdades, como é o nome de um dos poemas do livro. Mas era o primeiro livro e até para escolher o título eu tive alguma dificuldade. Este primeiro livro é uma selecção de poemas de cunho predominantemente social e político. Eu não incluí neste livro outros textos líricos de amor e etc. que já tinha escritos. Mas, por uma razão de coerência e de unidade do livro, eu não os incluí nessa primeira obra. Essa é a primeira nota. A segunda nota é que este livro foi publicado em 1984/85, mas já estava pronto há muito tempo. Levou muito tempo para sair. É um livro que inclui poemas escritos em 10 anos, desde 1970 até 1980. Neste aspecto, é um livro datado, embora muitos dos poemas que constam deste livro mantenham a sua actualidade, o seu valor, até hoje. Mas eu tinha uma preocupação quando escrevi este livro, que foi de passar uma mensagem de cunho social e político através ou por intermédio da poesia. Por isso, seleccionei poemas deste tipo apenas. Deixei os outros de lado e resumi-me a este período de 1970 a 1980.

P- Disse que o livro já estava pronto. Porque sai só mais tarde?

R- Por uma razão muito simples. Eu hoje posso contar isso. Naquela altura, poucas pessoas souberam porque o livro saiu muito tempo depois de já estar pronto. É que o livro tinha um prefácio do Costa Andrade, o Ndunduma, que, aliás, é também o autor da capa do livro. Quando o livro estava para sair, estava na gráfica, o Ndunduma foi preso, em 82, creio eu, por causa do envolvimento dele no célebre episódio da peça e do quadro. Eu tinha duas hipóteses. Ou retirar o prefácio do Ndunduma e publicar o livro em 82 ou não publicar o livro sem o prefácio, enquanto não houvesse condições para isso. E optei pela segunda escolha. Quer dizer, retive o livro. Pedi à União para não publicar o livro enquanto ele não pudesse sair tal como estava concebido desde o início, isto é, com o prefácio do Ndunduma, a capa dele, etc. Portanto, foi preciso esperar algum tempo. Isto hoje, para nós, talvez possa parecer estranho, mas estamos a falar de 1980 e poucos em Angola e foi preciso aguardar um tempo para que o livro finalmente saísse, como saiu.

P- E considera como muitos que este livro encerra uma «intenção performativa da palavra»?

R- Eu tenho uma tese e uma conduta como escritor. Eu defendo que o escritor deve ter a liberdade de escrever sobre tudo o que quiser e da maneira que entender. Não sou fundamentalista, nem num sentido nem no outro. Portanto, eu não entendo porque é que muitas pessoas têm preconceitos, porque são preconceitos mesmo, em relação à poesia social e à poesia política. Do mesmo modo que não entendo porque é que outras pessoas têm preconceitos em relação à poesia mais experimental, mais formalista, às correntes mais ou menos herméticas. A questão que se põe é se os estilos são literariamente conseguidos ou não. De resto, o autor, consoante a sua maneira de ver as coisas, o seu estilo de vida, a sua opção, a sua sensibilidade, o seu estado de espírito, de acordo com a conjuntura em que vive, pode num dado momento escrever textos de um tipo e textos de outro tipo. Portanto, eu não alinho muito e nem gosto de alimentar este falso debate entre literatura performativa – que eu não sei bem o que é ou discursiva; e literatura simbolista e literatura formalista e experimental, etc. De resto, eu tenho escrito um pouco de tudo. O que importa, repito, é que os textos estão bem conseguidos do ponto de vista literário, porque, afinal, literatura é acima de tudo linguagem. Nenhum escritor que se preze deve perder de vista este facto.

P- Mais tarde publica Fabulema (poesia, Luanda, UEA, 1986), que apresenta contornos literários particulares, ao utilizar formas simbólicas e alegóricas de elementos da natureza. Aliás, o título já o sugere

R- Sim. Isto foi um conjunto de exercícios que eu resolvi fazer a uma dada altura, pegando em procedimentos que a literatura universal já usa há muito tempo. Afinal de contas, fábulas existem desde que o homem é homem. Eu apenas tentei contar algumas fábulas em poesia, no género poético e não em prosa, actualizando algumas destas fábulas, isto é, inserindo-as num contexto muito mais actual. E acho que foi um exercício que me deu um certo prazer. É um livro que até hoje muita gente se refere a ele, embora do ponto de vista global, de conjunto, não seja o meu livro preferido.

P- Que livro, de entre os que escreveu, mais lhe cativa?

R- O livro que poesia que eu editei em 97, Limites e Redundâncias.

P- Mais adiante falaremos sobre ele. Na década de 80, João Melo publicou outros dois livros, Poemas Angolanos (poesia, Luanda, UEA, 1989), de que falámos atrás, e outro livro de poemas com conteúdo mais erótico, que veio a chamar-se Tanto Amor (poesia, Luanda, UEA, 1989). Falemos deste, porque todos os livros que escreveu depois dele passaram a apresentar a mesma componente estilística…

R- Sim. Tanto Amor também me deu muito trabalho a fazer. Primeiro para escrever e depois para organizar na forma como ele saiu. Muitos dos poemas foram escritos e rescritos várias vezes. E mesmo assim há três ou quatro com cujo resultado final eu não estou muito de acordo. Foi um livro que me deu muito trabalho, mas ao mesmo tempo muita satisfação também, porque permitiu-me dar a conhecer aos meus leitores uma outra vertente da minha criatividade e da minha sensibilidade, que é essa vertente mais intimista, ligada ao amor, ao erotismo, etc., que se constituiu, a partir daí, sem sombra de dúvidas, como um dos pilares da minha poesia. Tive também outra satisfação particular, porque o livro foi bem recebido, principalmente pela juventude, o que prova que as pessoas, naquela altura, já estavam à espera de coisas novas. Isto foi particularmente grato para mim.

P- A década de 80 revelou-se muito frutífera para si em termos literários. Publicou quatro livros, dois dos quais no mesmo ano. Que condições propiciaram este labor literário?

R- Eu beneficiei de uma coincidência na minha vida pessoal, que certamente contribuiu muito para este facto, porque realmente nestes anos eu publiquei muito. Pude dar-me mais realmente à escrita. Acontece que, em 84, eu fui para o Brasil como correspondente de imprensa; fui abrir o escritório da Angop lá. Estive oito anos na delegação da Angop e isto foi-me altamente benéfico como escritor e como pessoa. Viver num outro país durante algum tempo é sempre bom, eu acho. E essa minha estada lá permitiu-me amadurecer muito, como pessoa e como escritor. Desde logo, porque tinha mais tempo livre para poder dedicar-me à escrita, apesar de que eu fazia jornalismo e estudava também de noite, mas o tempo era melhor repartido. Não tinha de ir à procura de gás, nem à procura de latas de sardinha para comer, como naquela altura, infelizmente, aqui em Angola. Isto deu-me uma outra disponibilidade para a escrita. Por outro lado, havia um certo distanciamento físico de Angola, apesar de estar ligado todos os dias através das notícias, dos telefonemas, etc., mas um certo distanciamento físico, que nos permite olhar as coisas mais abrangentemente. Quer dizer, estamos menos envolvidos com a realidade e podemos olhar para ela de uma outra maneira. Em seguida, também beneficiei por viver num país culturalmente muito desenvolvido, especialmente se compararmos a vida cultural brasileira com a vida cultural angolana, em especial naquele tempo. Tive acesso a livros que eu não conhecia, a autores que eu não conhecia, tive acesso ao teatro, ao cinema, à informação. Então isto permitiu que eu amadurecesse muito, como cidadão e principalmente como escritor. E foi assim que pude acabar vários livros, começar outros, etc.

P- Até que ponto o meio que o rodeia e as suas transformações influenciam o escritor? Falava há pouco que, na década de 80, Angola trilhava pela via socialista. O seu trabalho também reflecte estas realidades?

R- Acho que sim. Isto é inevitável. Mesmo quando o escritor opta por produzir uma obra mais intimista, mais hermética, isso não deixa de constituir uma resposta a essa pressão e aos apelos do meio, do contexto, etc. Nós podemos reagir ao contexto que vivemos de maneira diferente, de maneira activa ou não. Isto é inevitável.

P- O que representa para o autor Canção do Nosso Tempo (poesia, Luanda, UEA, 1991), o primeiro livro a ser publicado na década de 90?

R- Este livro, que juntamente com Limites e Redundâncias é o meu preferido dos que eu publiquei até agora em termos de poesia, é uma espécie de livro-síntese. Está estruturado do ponto de vista formal como uma espécie de síntese, em que eu trato de duas ou três grandes questões que me são caras. A primeira questão é a arte poética. Quer dizer, o que é a poesia, para que serve, etc. A segunda é a relação entre a literatura e a poesia e, digamos, o meio social. E a história, a política, etc. E o terceiro grande tema é, sem dúvida, o amor entre homens e mulheres, a relação íntima entre duas pessoas. Estes temas eu já os tinha abordado fragmentariamente nos meus livros anteriores. Mas nesse livro, Canção do Nosso Tempo, eu faço pela primeira vez uma síntese e abordo estas grandes questões já com um olhar mais maduro, provavelmente, já com um olhar mais questionador. É como se fizesse uma espécie de balanço comigo próprio e com a minha obra e me preparasse para novos desafios.

P- Jornalismo e Política (1991) foi um livro que se demarcou do estilo poesia e que, ao mesmo tempo, encerra os seus conhecimentos adquiridos no Brasil, como jornalista e académico. Fale-nos um pouco do contexto em que foi escrito?

R- Aquele livro é um livro especial. Em primeiro lugar, constituiu a monografia da tese da minha licenciatura em Jornalismo. É um livro que também levou algum tempo para sair. Por isso, talvez, quando tenha saído estivesse já relativamente, ou um pouquinho, desfasado, porque, a partir dos anos 80 e início dos anos 90, os acontecimentos em Angola começaram a mudar muito rapidamente. O livro tinha uma intenção, que era fazer uma crítica ao próprio sistema no seu interior. Essa era a ideia, uma ideia programática da minha parte, assumo isso, porque eu não estava de acordo e a minha reflexão, os meus estudos, a minha prática como jornalista levaram-me a questionar profundamente as práticas e as opções jornalísticas que predominavam naquela altura, ainda em pleno regime de partido único. Eu achava, em suma, que, mesmo sem mexer no sistema, era possível produzir um outro tipo de jornalismo, um pouco mais profissional, um pouco mais diversificado, etc. Talvez hoje, à distância, nós possamos dizer que eu estava a ser ingénuo, mas essa era a intenção que eu tive naquela altura. O curioso é que, mesmo hoje, já com mais de 10 anos de experiência democrática, certas práticas jornalísticas, principalmente nos meios públicos, mas não só, ainda enfermam dos mesmos vícios e dos mesmos erros que eu criticava neste livro.

P- Por exemplo…

R- O excessivo oficialismo, por exemplo, do noticiário. Basta ouvir, basta analisar a estrutura do noticiário da televisão, por exemplo, para concluirmos isso. Seja como for, eu preciso de arranjar tempo para escrever um novo livro Jornalismo e Política. Quero fazer uma edição revista deste livro, mas que esteja de acordo com o sistema em que estamos a viver agora e com as mudanças que ocorreram entretanto, não só no mundo, mas também em Angola.

P- No seu livro seguinte, O Caçador de Nuvens (poesia, Luanda, UEA, 1993), há, na visão da professora Inocência Mata, um «excessivo experimentalismo técnico». Concorda com esta análise?

R- Não tanto, porque o livro, se bem me lembro, terá uns 40 poemas. Tem um bloco de 10 poemas experimentais. Portanto, 10 em 40 não é um peso assim excessivo. Pelo menos experimentais do ponto de vista gráfico, visual, etc. Foi também um exercício que eu quis fazer, que me ocorreu fazer naquela altura. Não sei se voltarei a fazer isso, francamente não sei, mas ocorreu-me naquela altura fazer. Mas este livro tem outras coisas também, tem outros procedimentos que, na prosa, outros autores, como, por exemplo, Luandino, Boaventura etc., já usam há muito tempo e que, na poesia, apenas João-Maria Vilanova tenha usado, que são justamente certos exercícios formais a partir de uma linguagem muito mais popular e transformar isso em poesia. É um livro que tem alguns poemas que me são muito caros até hoje.

P- Este livro já tinha aquele pendor erótico iniciado em Tanto Amor...

R- Sim, tenho também um conjunto de poemas amorosos, que também não deixei de escrever desde Tanto Amor. Aliás, eu não deixei de escrever, digamos, desde que comecei a escrever. Alguns dos meus primeiros poemas, ainda com 15/16/17 anos, foram poemas de amor. Alguns dos meus primeiros poemas que eu publiquei na revista Semana Ilustrada foram poemas líricos e poemas de amor. Embora eu não os tenha incluído nos primeiros livros até à publicação de Tanto Amor, a verdade é que sempre os fui escrevendo.

P- Aquilo a que os leitores ou os críticos literários chamam poesia erótica, João Melo chama poesia amorosa. Porquê?

R- O amor sem erotismo não é amor. É amizade. Portanto eu acho que o erotismo é uma componente importante do amor. Refiro-me ao amor entre duas pessoas que não têm uma relação de parentesco directo.

P- Limites e Redundâncias (poesia, Luanda, INALD, 1997), já o disse, é um dos seus livros favoritos. Com este livro inaugura uma nova etapa da sua carreira. Nele, o leitor pode inferir fortes ligações com o livro posterior, Imitação de Sartre & Simone de Beauvoir.

R- Estes dois livros, na verdade, foram escritos entre os finais dos anos 80 e início dos anos 90. Limites e Redundâncias foi escrito quando eu ainda estava no Rio de Janeiro, em 1991. Imitação de Sartre foi escrito antes, em 1989. Foram publicados mais tarde, mas eles foram escritos nesses tempos. Limites e Redundâncias é também um livro-síntese, como Canção do Nosso Tempo. A diferença é que eu uso outros procedimentos estilísticos. Portanto, é um livro em prosa poética, que permite um exercício mais aprofundado com a linguagem. E como eu disse é, sem dúvidas, dos livros de poesia, o meu preferido.

P- Será neste livro que podemos apontar, no seu estilo, uma nova semântica, como notam os críticos?

R- Os críticos às vezes descobrem coisas que nem nós, autores, estávamos a pensar. Eles lá sabem! O que posso dizer como escritor é que eu sou um escritor inquieto. Sou um escritor que gosta de experimentar; gosto de abrir novos caminhos, usar novos recursos, abordar novos assuntos, novos temas, sem muitas preocupações com aquilo que é ou deixa de ser politicamente correcto, como hoje se costuma dizer. Mas ao mesmo tempo sem perder de vista a comunicabilidade da minha obra eu não procuro o novo pelo novo. Eu acho que uma obra de arte não pode perder a sua comunicabilidade com as pessoas, com a comunidade em que foi produzida. Neste aspecto, eu diferencio-me deliberadamente daqueles autores que, de tão experimentalistas, depois acabam por não dizer nada.

P- A menção honrosa que este livro mereceu no Prémio Sagrada Esperança acirrou o seu gosto por ele...

R- Não, assim que eu acabei de escrever este livro, e à medida que o ia escrevendo, aliás, eu vi que era um livro que realmente me deu muito prazer, muita satisfação. Isso não tem nada a ver com prémios. Isso não tem nada a ver a com a menção honrosa que tive neste prémio.

P- Falemos de Imitação de Sartre & Simone de Beauvoir (contos, Luanda, UEA, 1998). Este livro, o seu primeiro de contos, foi muito comentado pela linguagem usada pelo autor. Ele reflecte angústias, mas debruça-se sobre uma figura central, que é a mulher...

R- Sim. Eu já tinha escrito, quando tinha pouco mais de 20 anos, alguns contos. Mas, durante muito tempo, nunca desenvolvi esta vertente. Quando cheguei ao fim dos anos 80, de repente, senti a necessidade de passar para o papel algumas histórias. Eu conhecia algumas e algumas delas de as ouvir. Eu sou um bom ouvinte, embora pessoalmente as pessoas achem que eu falo pouco, mas eu prefiro francamente ouvir do que falar muito. Então, deu-me este impulso de passar para o papel algumas histórias e sentei-me durante alguns meses e escrevi as estórias que compõem este livro. E o tema que eu elegi para este livro foi, realmente, as relações amorosas entre homens e mulheres. O livro, segundo a maioria dos leitores e críticos, e eu estou de acordo com eles neste ponto, tem uma imagem simpática, positiva da mulher, mesmo quando ela passa por dificuldades. É que para mim, realmente, um dos grandes mistérios da humanidade é a mulher. Então, este livro é, de certo modo, até uma homenagem a elas. E, acredito, uma tentativa de descrevê-las, embora sem conhecê-las a fundo, por acho que isso é impossível.

P- Ainda assim, neste livro dá-se mérito a João Melo por tentar dizer o indizível. Precisamente aquilo que só as mulheres sabem, o escritor di-lo de uma forma qualquer

R- Os escritores têm essa capacidade, essa vocação de serem a voz daqueles que não têm voz. De dizerem o indizível, de se porem no lugar do outro. Acho que isso é que torna a actividade de escrita e o papel do escritor tão fascinantes.

P- Publica mais tarde Filhos da Pátria (contos, Luanda, Chá de Caxinde, 2001), um livro que, como poucos, gerou polémica no círculos intelectuais de Luanda. Sentiu a necessidade de escrevê-lo?

R- Eu tinha de escrever este livro. Até por toda a minha trajectória, toda a minha vivência, pela maneira como tento posicionar-me na vida como cidadão, como escritor. Eu tinha de escrever aquele livro. Eu acho que, se aquele livro não saísse, eu qualquer dia, digamos assim, explodiria. O livro no fundo é uma grande reflexão sobre quem somos nós, angolanos, sobre a forma como nos relacionamos uns com os outros e sobre a forma como nós queremos levar o nosso país. No fundo, é uma grande reflexão sobre isso.

P- Também um desabafo...

R- Mais do que um desabafo, é a defesa de uma tese. Eu acho que pelos 10 contos daquele livro passa uma tese, que é a seguinte: o conceito de angolanidade só faz sentido se for entendido de uma maneira aberta, dinâmica, que implica uma constante transformação. Por outro lado, todos nós temos responsabilidades e devemos beneficiar da construção do nosso país. Acho que essa é a tese que perpassa por este livro. É claro que o escritor diz coisas que alguns podem considerar incómodas, mas um escritor que não incomoda ninguém… é melhor ir fazer uma outra coisa qualquer.

P- The Serial Killer (romance, Luanda, Nzila, 2004) é um romance que podemos entender, também, como uma nova etapa do seu percurso literário

R- Este livro ainda não é um romance. É um livro de contos, mas, por uma gralha qualquer, na folha de rosto do livro saiu a palavra romance. Mas não é um romance. São contos. E são contos diferentes de Filhos da Pátria ou mesmo de Imitação de Sartre. Estes dois livros tinham, de certo modo, uma unidade temática, já The Serial Killer não. É um livro de estórias várias abordando temas diferentes, ambientados em cenários também muito diferentes, desde Luanda dos tempos de hoje, que é um grande cenário, até ao campo, até cidades estrangeiras. Portanto, é um livro mais diversificado que os dois primeiros de contos. Por outro lado, é um livro em que o humor, talvez, seja levado a um extremo que eu não tinha levado ainda nos dois livros anteriores, apesar de ambos serem muito marcados pelo humor, pela ironia. Há vários tipos de humor que são explorados em The Serial Killer, desde a ironia simples até ao sarcasmo, aqui ou ali umas pitadinhas de humor negro. Mas é um livro mais diversificado em que, a brincar a brincar, eu como escritor também quis dizer algumas coisas que é preciso dizer.

P- Como justificar, então, o título The Serial Killer?

R - É uma provocação aos leitores, não vou aqui confessar qual é essa provocação. Espero que quem leia o livro já tenha descoberto qual é.

P- Publicou A Luz Mínima (poesia, Luanda, UEA, 2004), cuja capa sugere logo algo ao leitor. Foi João Melo quem propôs um corpo nu na capa?

R- A forma como, no segundo título desta colectânea, João Melo se apropria do espaço físico do papel é, para Laura Padilha, que prefacia o livro, uma forma de encontrar outros e surpreendentes sentidos e efeitos poéticos. Como traduz a sombra máxima e a luz mínima?

P-Temos já um escritor feito; apesar de os seus amigos dizerem que é, deixa-se levar pelo ócio literário. Escreve quando quer ou sequencialmente?

R - Eu não sou muito disciplinado a escrever, realmente. Não sou como Drummond, por exemplo, que todos os dias de manhã sentava-se em frente a uma folha de papel em branco. Faço tantas coisas na minha vida; tenho empresa, sou deputado, dou aulas, enfim, não posso ter essa rotina. E às vezes, à noite, também tenho de ir dar uma voltinha. Não posso passar a vida toda a escrever. Então acontece que há período em que a escrita se mostra como um impulso insuportável. Nestas épocas, eu recolho-me mais. Fico mais tempo em casa a escrever. Acordo mais cedo, mas é por ondas. Eu não tenho, digamos assim, uma rotina. Para escrever algumas coisas, talvez eu me devesse impor uma rotina. Por exemplo, eu quero escrever um romance. Escrever um romance é daquelas coisas que implica essa rotina. Quero também dedicar-me um pouco mais ao ensaio, sobretudo ao ensaio sobre cultura e sobre comunicação. Isso então exige uma grande rotina. Não sei se já chegou a hora de impor esta rotina ou não, a verdade é que eu também gosto muito de viver.

P- Disse-o há pouco: as múltiplas tarefas não lhe permitem impor-se regras muito rígidas. As actividades que desenvolve colidem ou favorecem o escritor?

R- Colidir, acho que não colidem. Em primeiro lugar, dão-me uma experiência variada de vida, o que é bom para quem escreve. Colidir não colide, porque eu, como escritor, defino-me como um livre pensador, portanto, não levo muito em conta certas exigências mais burocráticas impostas pela política, por exemplo. Por outro lado, ser professor é uma coisa pela qual eu sou profundamente apaixonado. Eu gosto de dar aulas, gosto de ensinar, sobretudo porque isso permite-me manter contacto com pessoas mais jovens, o que é sempre bom, para que nós possamos continuar a aprender. E que, independentemente dos anos, possamos continuar a ter as ideias permanentemente novas.

P- Falava, num workshop, sobre a identidade angolana. Estamos em presença de uma falsa questão?

R- Eu acho que esta discussão que os intelectuais gostam muito de fazer, no nosso caso, talvez seja a prova de que afinal de conta temos de consolidar a nossa nação. Porque, na verdade, não há povo sem identidade cultural. Os povos sabem quem são, não precisam que ninguém lhes diga quem são. E a identidade cultural normalmente define-se por oposição ao outro. «Eu sou diferente do outro neste ou naquele aspecto». É isso, no fundo, que é a identidade. Só que a identidade não é uma coisa estática, ao contrário do que muita gente defende na prática. A identidade está sempre em transformação, porque as sociedades são sempre dinâmicas. E hoje em dia, graças ao grande desenvolvimento das comunicações e dos meios de transporte, os diferentes grupos, as diferentes comunidades, locais e internacionais, estão cada vez mais em maior contacto umas com as outras. Então isso provoca mudanças que são inevitáveis. A identidade de hoje pode não ser a mesma do amanhã. O que há a fazer, no meu entender, é não discriminar ninguém, nem dar as mesmas oportunidades de expressão e circulação de valores a todos os grupos e deixar ver o que é que acontece. Porque a identidade não se impõe por nenhuma lei ou decreto.

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