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«A Marca da Minha Poesia é a Sua Diversidade de Leitura»

Escrito por  João Tala

Entrevista de Aguinaldo Cristóvão

Poeta de longa carreira, prosador, ex militar e hoje médico, João Tala encerra uma vida repleta de momentos, os mesmos que compõem os níveis da sua composição poética. Para ele, o tratamento poético é, muitas vezes, irracional, embora exija do seu autor determinados conseguimentos estético-temáticos para alcançar o produto final. E explica como “coseu” o seu primeiro livro de prosa

 

Poeta de longa carreira, prosador, ex militar e hoje médico, João Tala encerra uma vida repleta de momentos, os mesmos que compõem os níveis da sua composição poética. Para ele, o tratamento poético é, muitas vezes, irracional, embora exija do seu autor determinados conseguimentos estético-temáticos para alcançar o produto final. E explica como “coseu” o seu primeiro livro de prosa

P - João Tala estreou-se na prosa com Os Dias e os Tumultos (UEA, ficção, 2004). A criação literária que impõe, num discurso em interactivo, faz-nos pensar que ele terá sido inspirado exactamente no seu passado. Das saudades de Malange, terra onde nasceu, do Huambo, província para onde o serviço militar o fixou, e da Medicina, profissão que abraçou. Estamos no caminho certo?

R - Posso dizer que sim. Porque as vivências de um escritor influem muito naquilo que escreve. Foram vivências marcantes. Falando do Huambo, acontece precisamente nos tempos em que me iniciava na literatura. Nos tempos em que eu dava os primeiros passos. Nestas influências, do ponto de vista temático, há que anotar sobretudo os momentos que eu vivi nos últimos tempos. Todo aquele espectro de guerra, de desequilíbrios sociais foram reflectidos quer na maneira de fazer os contos, quer na maneira de expor os factos que passaram.

P - Que momentos mais marcantes recorda-se quando pensa em Malange e no Huambo?

R - O primeiro aspecto está mais relacionado com a infância. A infância marca sempre um tempo que permanece consistente na vida do indivíduo. O Huambo foi o facto de lá ter ido em serviço militar. De ter rompido com um ambiente do qual já estava encaminhado, para entrar num outro ambiente. Um ambiente que diria militarizado. Tudo isso tem influências no que venho escrevendo. Quer em Malange, como no Huambo. Posteriormente posso me referir também à Lunda-Norte. Há muitos aspectos da minha poesia que são ditados, não muito em termos programáticos, mas em termos um bocado não racionais, que tem a ver com a continuação do cumprimento do serviço militar, mas desta vez já como médico destacado na Lunda-Norte.

P - Como se deu o contacto com os escritores já existentes no Huambo?

R - Eu fui ao Huambo para o cumprimento do serviço militar. Só que, na altura, eu era uma pessoa que gostava de ler, levava determinados conhecimentos que se limitavam ao nível da leitura, e talvez por uma certa nostalgia, uma sensação de estar a trilhar caminhos diferentes, eu comecei a fazer poesia. Isso levou-me a contactar depois alguns escritores, amantes de literatura que residiam no Huambo. Posteriormente viria então com estas personalidades a fundar a Brigada Jovem de Literatura do Huambo.

P - Tudo acontece ainda no Huambo? R - Sim. No Huambo eu inicio a Faculdade de Medicina. Fui obrigado depois a continuar o ciclo clínico já em Luanda. Concluído o curso de Medicina fui colocado na Lunda-Norte. Na Lunda-Norte fiquei até 1994, e regressei para Luanda. Publicaria então o meu primeiro livro, em 1997, que tinha sido objecto do Prémio Primeiro Livro da União.

P - Em Luanda limitou-se a entregar os manuscritos ou manteve contactos com escritores?

R - Conheci alguns. Eu conhecia, por exemplo o João Maimona, o Conceição Cristóvão, o Kudijimbe, etc. Mas em termos de contactos, eu contactei na altura apenas o João Maimona.

P - Tala é por excelência um poeta. E na visão de José Luís Mendonça um poeta como poucos da sua geração. Este comentário deixa-lhe mais à vontade para a criação literária?

R - De facto. Quando nós fizemos alguma coisa, sobretudo no domínio das artes, nós pretendemos que tenhamos reconhecimento. Quando um escritor da craveira do José Luís Mendonça diz isso, começamos a nos sentir compreendidos e reconhecidos. E até mesmo, dá-nos uma energia interior para dedicarmo-nos mais naquilo que acreditamos. Nesse caso, a escrita.

P - Nos seus anteriores livros, de que falaremos daqui a pouco, João Tala é mais intimista, dá mais a conhecer a sua faceta até romântica. Em Lugar Assim (UEA, poesia, 2004) apresenta-se mais preocupado com o meio que o rodeia. Existe realmente uma mudança no objecto da sua construção poética?

R - Sim. Não podemos ou não devemos escrever sempre as mesmas coisas, porque são muitos os momentos vividos, e muitos os momentos por se viver. Em A Forma dos Desejos, eu trago uma poética dominantemente dedicada ao amor. Há quem diga mesmo uma poética erótica. Em O Gasto das Sementes há minimamente uma inspiração bucólica. A Forma dos Desejos III é composta por um conjunto de poemas que já havia publicado, mas outros inéditos. Aí o espectro é maior, porque há uma diversidade temática, que cruzam-se com um certo formalismo, com um certo tratamento simbólico dos textos. Já no Lugar Assim, começo a reflectir muitas das nossas preocupações sociais. E é impossível fugir-se a isso. É impossível para mais quando se trata de um poeta que dedicou à poesia grande parte do seu tempo que até tinha como militar. Isto influencia, é marcante. As coisas surgem muito involuntariamente, diria mesmo um pouco irracionalmente. O tratamento poético é muitas vezes mais irracional do que racional. É muito menos pensado. Porque nós temos determinados conseguimentos ao nível da estética e ao nível da temática. Vamos escrevendo e as coisas saem fluidas demais. Sem às vezes termos que parar muito para pensar no tipo do verso, a qualidade do verso, etc. Tudo foi ditado por tempos já vividos e por experiências conseguidas.

P - Uma característica que notei, particularmente em Lugar Assim, é uma mudança temática que poderíamos rotular como «radical». Notamos versos mais serenos (como em «A Tradução do Amor»), mas noutros o poeta exprime uma melancolia. Isto é a congregação dos momentos a que se referiu?

R - É uma leitura possível, porque uma coisa que marca a minha poesia é a sua diversidade de leitura. É possível que cada vez que leres o texto, ele renasce. O texto começa de novo. É isso que marca a minha poesia. Tu fazes esta leitura, eu faço outra leitura.

P - Analisemos a poesia «A Tradução do Amor»...

R - Aquilo é sobretudo um canto do amor, que surge no meio de uma poesia onde os problemas sociais são preocupantes e esta poesia de amor é como se fosse um intervalo. É como se fosse amenizar tudo. Para mais, porque a poesia do amor também pode traduzir determinados factos sociais. Eu posso estar a falar do amor, mas a preocupação dentro do poema em si são problemas altamente sociais. Vejamos, vou lhe dar um exemplo, não da minha poesia, mas da poesia de António Jacinto. Ele fala na Carta do Contratado. O poema é ao mesmo tempo um poema de amor, mas um poema de forte cariz social. Naquela altura um indivíduo podia ser preso por causa daquele poema. E nós não vamos dizer que ele foi preso por ter feito um poema de amor. É mais ou menos esta perspectiva onde os poemas de amor se infiltram.

P - Ainda acerca deste livro, o autor toma posições claras: sobre a economia, sobre política, mostra-se observador social atento, mas não deixa de dar o seu contributo para debates como o das língua nacionais. A poesia é dos géneros que mais dá liberdade, neste sentido, ao escritor...

R - Dá muita liberdade, mas em certo nível oprime um bocado. Quando nós temos que «mascarar» as coisas para dizê-las em termos apenas altamente metafóricos. Aí talvez haja um pouco de opressão. Porque eu penso assim: se disser do modo mais simples possível não vai ser verso de poesia. A preocupação aí é expressar as coisas utilizando versos que sejam versos de poesia. Por outro lado, há muita liberdade para contrariar esta opressão, se for entendida assim: quando nos debruçamos ou valorizamos a palavra pelo seu valor polissémico, que nos remete para muita liberdade. Quando a palavra toma vários significados é um aspecto que tem a ver com vários aspectos da poesia.

P - A metáfora pode ser entendida aqui como um artifício que o escritor usa para não dizer determinadas coisas ou dizê-las de forma diferente?

R - Também isso, mas a metáfora surge mais num contexto de simbolismo.

P - Diz o poeta em «O Que as Mãos Tropeçam»: «o meu salário é aquilo que as mãos tropeçam / é um ganho insatisfeito / eis o meu caminho detrás de outro caminho. Já o meu sonho é ganhar a época.» Está consciente deste comprometimento social que transmite neste tipo de poesia?

R - Eu estou comprometido, a sociedade também tem que entender a este nível. Este poema traduz um dos aspectos mais negativos da sociedade em que estamos inseridos. A falta de dignidade, ou, em linguagem mais simples, o salário dignifica o homem. Quando o homem trabalha e o salário é insignificante é como se estivesse a tropeçar no seu próprio esforço. Afinal ele trabalha, mas, depois, não consegue comprar nada, ou compra muito pouco. Quer dizer aquilo que não é recompensado. «Ganhar a época» é talvez a esperança que nós vamos tendo, através dos tempos. É talvez aquilo que a gente vai fazer hoje para ganhar o amanhã. O ontem, o hoje, o amanhã, o momento exacto em que estamos aqui, eu traduzo numa simples palavra: época. Agora deve o leitor fazer-se entender daquilo que eu quero dizer.

P - Há um pormenor neste livro, que o leitor fica sempre curioso por aprofundar. Trata-se a visão objectiva do poeta que se reflecte no poema «Filosofia da Mulher e do Homem». Estamos, sem curvilíneas, a falar da mulher africana...

R - Da mulher africana e não só. Há um elemento que a gente pega e põe no centro do cenário em representação de todas as mulheres. Então para esta mulher eu fui buscar precisamente a mulher africana. Porque o que se passa neste poema pode ser muito bem compreendido, mesmo que não seja num contexto puramente africano.

P - Retirei do prefácio de O Gasto da Semente uma interessante constatação do escritor José Luís Mendonça, para o qual o que o antropólogo, o historiador ou o romancista dizem de maneira geral, di-lo o poeta de maneira até indizível. Encara a poesia desta maneira?

R - Se não for assim então não é poesia, é prosa.

P - Neste livro, as suas poesias são ritmadas, como que cantadas. Essa harmonia das palavras é essencial para um bom poeta?

R - Essencial é, de facto. A poesia fundamenta-se muito no ritmo. Às vezes o ritmo é muito bem conseguido, às outras vezes menos bem conseguido; às vezes muito explícito, mas às vezes menos explícito. Todos estes elementos foram-se integrando no poema também a aprendizagem do poeta no decurso da sua vida como escritor, como homem, como poeta. Estes aspectos surgem muitas vezes já de modo irracional. Às vezes já estão integrados no cérebro sob uma forma inconsciente eu não sou psicólogo, não sei se o termo é apropriado. Muitas vezes os termos saem depois de algumas tentativas de fazer poesia. A maior parte dos poemas, isto para qualquer escritor, não sai logo à primeira mão. Vai riscando p’ra aqui, tentando p’ra ali. Há vezes em que o poema não acontece. E um dia destes, ele está a escrever e aquilo que andava no cérebro sai inesperadamente. E isso acontece muito em poesia.

P - A Forma dos Desejos, outro dos seus livros, traz em poemas como «O Chão de que Falavas» e «O Perfil que se Desmorona» uma construção estrófica singular. No mesmo poema podemos encontrar dois temas que se ligam por linhas intercaladas...

R - Sou fraco de memória em relação a muitos poemas. Há poemas de que já não me lembro; como sugiram e como aconteceram. Precisaria de ter o livro e fazer mais uma vez uma leitura. Porque às vezes há, também, o problema das repetições. Acontece às vezes que, sem o desejarmos, um tema pode se reflectir num poema e no outro e confundirmos os dois poemas. Estes dois poemas foram escritos nos anos 90 e publicados em 97. As minhas preocupações têm se dirigido mais noutros textos. Só voltando a ler estes textos é que eu poderia falar com mais propriedade sobre eles.

P - João Tala pertence a uma geração de escritores oriundos da Brigada Jovem de Literatura Alda Lara. Que nomes, entre os seus confrades, subsistem na literatura e que hoje fazem vincar a literatura angolana?

R - Falar de nomes hoje, e numa altura como esta, podemos ser mal compreendidos. Eu evitaria falar de nomes. Numa fornada como aquela são muitos os que escreveram que têm livros. E todos gostariam de ser citados...

P - Que dificuldades vocês encontravam na altura para serem escritores como tal?

R - As dificuldades daquela altura são idênticas às de hoje. Se as pessoas se dirigem a uma BJL é porque têm intenção de escrever. O recado que vai receber das gerações acima é que tem que trabalhar muito, e tem que ler muito. Há muitas pessoas que foram lá por uma espécie de modismo, e desprezavam os conselhos que se dava: muita leitura, muito trabalho, discutir, participar em eventos culturais. Tentar distender-se mais.

P - Como traduz hoje estes conselhos?

R - É o seguinte: quer ser escritor, poeta, romancista, tudo bem. Mas ele não vai se limitar a ler uns poucos livros e acabou. Não dá. Quer ser poeta e lê só poesia, quer ser romancista e lê só romance, não dá. Há que se fazer a assunção de todo o mundo que anda à volta das artes. Aí é já a tentativa de cultivar o belo. O belo não é só poesia. E não é só o romance, a arte varia muito. Temos por exemplo as artes plásticas, temos a dramaturgia, então vai buscar alguns aspectos nestas artes que remetem para o belo. Que dão um conhecimento maior ao nível dos conhecimentos que seriam importantes para a sua formação estética. E formação estética não é estática e não é unívoca. Vai buscar lugar em muitos aspectos das artes. Vou lhe dar um exemplo: nos anos 80, quando comecei a escrever, a televisão começou a emitir aquele programa com o Jerónimo Belo, Clube de Jazz. Na altura eu não conhecia Jazz. Então sentei todos os domingos em frente ao televisor. Porquê que esse homem fala tanto de Jazz? Será que ele é maluco ou nós somos ignorantes? E comecei a gostar de Jazz. E aprendi que aquilo é mestria em artes, mestria em música. Isso é que é preciso entranhar nas pessoas que se querem dedicar às artes. Tínhamos na Brigada pessoas que entraram lá apenas por modismo, entusiasmo, etc., e não conseguiram abarcar outros aspectos que seriam importantes na sua formação como escritores. Fundamentalmente isso: trabalho e leitura.

P - Que recordações tem das tertúlias que teve no Huambo, enquanto brigadista, com Conceição Cristóvão, João Maimona, Amaro Tati ou Kudijimbe?

R - Éramos estudantes na altura, quando decidimos formar a BJL. E as nossas tertúlias aconteciam sobretudo na casa de integrantes do grupo, Dra. Bela Neto e o seu parceiro na altura, o Dr. Júlio Graça. Nós aparecíamos lá surgidos de diferentes caminhos, sobretudo à tardinha, para falarmos de literatura. Também para programarmos diferentes trabalhos que visavam mesmo a própria formação da Brigada. Foi lá que eu ouvi falar de muitos nomes que eu até desconhecia. Foi lá que eu ouvi falar da poesia de Eugénio de Andrade, da poesia de Carlos Drummond de Andrade. Passámos em revista muitos aspectos da nossa literatura nacional, emprestar livros, falar do último Vida & Cultura. O núcleo principal era formado por estes que citou, e mais tarde o Zé Coimbra.

P - Alguns escritores não têm dúvidas de que a literatura ainda se concentra em Luanda. Que dificuldades passa um escritor que vive nas províncias para publicar um livro?

R - Primeiro, é a despreocupação das entidades ligadas à Cultura nas próprias províncias. Digo isso porque estive no último Encontro dos Escritores, no Lubango, que não teve apoio quase nenhum das autoridades sediadas lá, no Lubango. Por outro lado, por causa de alguns momentos difíceis que mesmo aqui em Luanda nós vivemos, que era a falta de verbas para a publicação de livros. Até há bem pouco tempo a UEA só publicava um ou dois títulos por ano porque não tinha verbas. A Chá de Caxinde publica uns tantos, a Nzila é nova no mercado. Agora é que há um leque de disponibilidades para a publicação de livros. E é possível também que as pessoas que estão nas províncias não saibam. Porque se tiverem qualidade e contactarem estas estruturas de certeza que os livros serão publicados. Depois também a concentração das pessoas em Luanda. Muitas vezes as pessoas que escrevem estão ligadas a determinadas profissões, sobretudo com formação média ou superior. E pensam que encontram mais mercado de trabalho em Luanda. Quando um dia começar a acontecer a descentralização de Luanda, muitos de nós vamos parar às províncias de novo e vamos escrever lá, vamos publicar lá. Até porque eu já estive no Huambo e na Lunda-Norte. Eu só saí da Lunda-Norte por força das circunstâncias: guerra. Senão eu estaria no Dundo e os meus livros poderiam ser publicados lá.

P - Hoje as Brigadas Jovens de Literatura, paradoxalmente, são cada vez mais escassas ou inexpressivas. Que experiência pode passar a estes movimentos, no sentido da dinamização da Literatura e da Cultura angolanas?

R - As BJL só podem evoluir com acção dos próprios jovens. Não podemos impor nada. Aquilo não é uma estrutura juvenil como as estruturas partidárias. Por exemplo, sobre os jovens do MPLA, da JMPLA, o próprio Partido pode influir para dinamizar; e penso que num passado recente a Cultura até já fez alguma coisa. Mas como é que nascem as Brigadas? As brigadas nascem numa atitude de jovens. Nós formamos as Brigadas começando do nada, com o espírito de querença. Queríamos a Brigada aí e trabalhámos, corremos e fizemos tudo. E muitos de nós ganharam experiências nisso. Muitos de nós nunca tinham tido uma entrevista, por exemplo, com um Director ou Delegado para a Cultura, e foram obrigados a marcar audiências, a fazer programas de trabalho e ganharam-se experiências. E isso ainda nota-se em pessoas que hoje integram estruturas partidárias e estão aí bem colocadas. Não tínhamos à frente mais velhos. Por exemplo, a Brigada Jovem de Literatura de Angola que tem sede aqui, e se fores lá ver quem são os dirigentes, tem algum jovem? Porque um indivíduo já a roçar os 50 anos de idade, por exemplo, não tem lógica estar na Brigada. Já falei com alguns: é tempo de vocês passarem a Brigada para os mais jovens. Eles que façam os seus programas. Eles é que têm que prever o futuro das suas Brigadas. Eu digo de viva voz que assim não estamos a fazer nada! Os jovens aparecem a reclamar que não têm apoios. Eu também sinto o brigadismo e sou dos primeiros a dar o apoio necessário à Brigada, mas não nestes moldes, porque senão vamos todos parar novamente à Brigada e, se conseguir verbas, sai mais outro livro meu! É preciso compreender a Brigada neste sentido. Há coisas que foram feitas assim: nascem, crescem e desenvolvem-se. Se não conseguir que desapareçam. Há coisas que foram feitas também para morrer. Para mim a coisa é clara. Os jovens devem conseguir empurrar a sua brigada, e quando se diz que vão trabalhar com estruturas, como por exemplo a Cultura, a UEA, os Governos Provinciais, que seja num âmbito sincero e que aí vão sair jovens escritores. E quais são os jovens ultimamente revelados como escritores?...

P - Com o seu primeiro título, A Forma dos Desejos, venceu o Prémio Primeiro Livro, para mais tarde vencer no Prémio Sagrada Esperança uma menção honrosa com O Gasto da Semente. Os escritores dizem sempre que, quando relêem, encontram lacunas nos livros. Que acresceu nos livros seguintes, que pensa ter faltado nestes?

R - Diria que não faltou nada. O que faltou não é logo perceptível. Simplesmente eu tinha que continuar a trabalhar e a maturidade vinha por si. A superação de nós próprios vem com o trabalho que nós vamos apresentando e não procurando o que é que faltou. Também podemos procurar o que faltou, quando a gente aceita que tivemos muitos erros nestes livros. Eu não encontro erros. Eu acho que por aquela altura era o livro possível. O resto viria mais tarde com a maturidade.

P - Foi-lhe difícil construir, no meio de tantos livros e manuscritos de poesia, estórias para ficção como foi em O Dia e os Tumultos?

R - Houve já uma tentativa de escrever prosa. Um dia resolvo recomeçar com a prosa. Peguei um texto concebi-o, pus na gaveta. Fui pensando se estava bom ou não estava. Não tinha grande experiência em termos de auto-consciência crítica para a prosa. E em tempos de boa inspiração peguei nalgumas estórias, algumas delas até me tinham sido contadas. As diversões lá no meu bairro. E partindo do final da estória construí um texto. São coisas que aconteceram que a gente só se lembra delas para rir, mas tinha o final. Então eu arranjei o enredo. Outras partiram mesmo do nada. É como, por exemplo, o primeiro texto, «A Explosão», que partiu do nada. Mas há aí um título, «Relatório Médico»: eu estava em casa de família, estávamos a conversar e a beber algumas cervejas, e porque não então fala-se de alguém que morreu por uma congestão. E alguém aventou a hipótese de que a congestão só aconteceu porque comeu determinados alimentos à noite. E a minha cunhada pergunta: ó, afinal, a barriga também já sabe se é de noite ou de dia! Nós rimos e ficou. E a partir daí eu construí um texto, já não com os mesmos personagens, pondo outras figuras. Há aí um texto, «Luanda Anedótica», em que me contaram de alguém que tinha roubado um balde fino no óbito. O conto foi contado de uma maneira engraçada que eu depois arranjei o texto próprio, já com outro cenário, outros personagens. «O Caso do Chenju», que é o último texto, foi vivido por mim e o Dr. Júlio Graça. Mas aí resta apenas o fim. Porque realmente aconteceu que, estando na casa do Dr. Júlio Graça, apareceu uma empregada com os dois filhos. Chegavam um bocado atrasados e foram se dividindo tarefas. E parece que ela manda os dois miúdos irem buscar água numa cacimba. Passados alguns minutos aparece o miúdo mais velho a dizer que provavelmente «já não vamos mais tirar a água, porque o Chenju caiu na cacimba». Eu e o Dr. Júlio Graça na época éramos até estudantes, não éramos médicos ainda, pensámos numa só coisa: que era o miúdo pequeno, que estava com ele, que caiu na cacimba. E saímos disparados para a cacimba do vizinho, numa agitação tanta que apareceram pessoas, e alguém até telefonou para os bombeiros que apareceriam mais tarde. Há um miúdo que arranja uma escada metálica, vai lá ao fundo da cacimba e traz um balde. E disse «não, lá não há corpo nenhum». Todos ficámos assim pasmados. Passados alguns minutos, o suspeito miúdo que nós pensávamos ter caído na cacimba, lá vinha aí. Então perguntaram o que é que foi. E dissemos que «o miúdo mais velho apareceu aí a dizer que o Chenju caiu na cacimba». E todo o mundo pôs-se a rir, porque na língua umbundu o chenju é o balde de colecta da água da cacimba, e foi um riso autêntico. Então eu construí a estória com alguns elementos vivos, que partem mais de mim, que confluem mais para a própria estética literária.

P - Estaremos em presença de um surrealismo, como diria o prefaciador?

R - Não foi só o prefaciador. Alguém também da comissão de leitura que havia lido antes o texto para recomendar diz também que são textos com fortes elementos do surrealismo, raras vezes tecidos em Angola. Por este facto foi recomendada a obra. Entre os factos vividos e o surrealismo, aí já entra a construção do próprio texto.

P - É considerado pelo escritor João Maimona como uma das mais importantes revelações da década de 90. A modéstia permite-lhe aceitar este título?

R - Houve alturas que eu não aceitei, mas há cada vez mais asserções a confluírem neste sentido. Sobretudo com os dois últimos livros.

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