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Da Mitologia Tradicional ao Universalismo Literário «Eu Sou Um Narrador à Maneira Tradicional»

Escrito por  Henrique Abranches

Entrevista de Aguinaldo Cristóvão

Entre os seus talentos, as letras ocupam lugar privilegiado. Henrique Moutinho Abranches é um angolano que não precisa dizer que tem nacionalidade adquirida. Abriu portas para muitos no mundo da literatura e tem no seu histórico os rótulos de criador do primeiro livro angolano de ficção, de «obrigar» intelectuais a inferir o conceito de realismo animista que se atribui a muitos dos seus livros. A maturidade faz com que escreva obras que considera universais, ao mesmo tempo que reconhece que a literatura angolana já está na idade adulta.

 

Entre os seus talentos, as letras ocupam lugar privilegiado. Henrique Moutinho Abranches é um angolano que não precisa dizer que tem nacionalidade adquirida. Abriu portas para muitos no mundo da literatura e tem no seu histórico os rótulos de criador do primeiro livro angolano de ficção, de «obrigar» intelectuais a inferir o conceito de realismo animista que se atribui a muitos dos seus livros. A maturidade faz com que escreva obras que considera universais, ao mesmo tempo que reconhece que a literatura angolana já está na idade adulta.

P: A primeira questão que trazemos resulta de um facto curioso. A semelhança fisionómica entre Henrique Abranches e Búffalo Bill...

R: Isso tem que perguntar aos meus pais. Eles é que me fizeram. Está ali a fotografia de Búffalo Bill (aponta para o retrato na parede). Está a ver? É parecido comigo, mas a foto não é minha.

P: Na década de 60, Henrique Abranches foi perseguido pela PIDE. Esteve na Argélia, Portugal e Paris. Que tempo tinha para escrever durante todo esse período?

R: Tínhamos muito tempo. Porque havia alguns angolanos na Argélia no Centro de Estudos. Neste Centro de Estudos, a gente recolhia informações de jornais, fazia recortes de jornais, juntava documentação interessante para o Partido nessa altura o Movimento e para a guerra, para a condução da guerra, sobre o estado em que estavam os portugueses e a economia portuguesa. Eu ia vendo e ia interpretando aquelas coisas. Havia também outras coisas que criávamos. Escritos de carácter cultural, etc.

P: Nesta altura, este material recolhido servia para abstracção e justaposição de textos literários?

R: Para nós serviu, porque dava-nos dados e a gente poderia fazer, tal como fizemos, uma banda desenhada que se chamava «Contra a Escravidão», que foi patronada pelo camarada Agostinho Neto. E ele é que lhe deu o nome, não tenho a certeza. Essa é a estória de dois rapazes de Luanda, que enfrentam aquela situação que se viveu depois do 4 de Fevereiro. Foi uma situação muito dura que se viveu em Luanda. Eles enfrentaram esta situação e acabaram por entrar no MPLA e vir para a guerrilha. Essa estória foi feita para mobilizar gente para a guerrilha. Ela é muito conhecida pelo nome de André Bufo, porque havia lá um taberneiro português deveria ser bufo, deveria ser André e alguém escreveu na parede «André Bufo». E a juventude, quando falava daquilo, porque era clandestino, viam as estórias do «André Bufo».

P: Alguns dos manuscritos que levava consigo neste seu percurso na clandestinidade perderam-se. Fale-nos mais sobre este facto.

R: Eu fui preso dois dias depois do 4 de Fevereiro. Depois de ser preso, fui expulso de Angola pelo Governador e fui para Lisboa, com residência fixa. Eu e mais outros camaradas. A certa altura, eu estava a ser procurado outra vez. Tive que me esconder, como se diz, passar à clandestinidade. Fiquei cerca de seis meses em razão de clandestinidade em Lisboa. Depois, neste tempo, alguém conseguiu arranjar o esquema necessário para eu poder fugir. E realmente fugi pelas montanhas do Vale do Douro. Foi bastante difícil, porque, na hora, a polícia espanhola estava do outro lado à espera de mais, tinham apanhado três, mas emigrantes económicos. Mas foi preciso que o passador desse lá umas coisas e dissesse «ele vem amanhã, veio só ver o primo Manuel de não se de onde». De maneira que me deixaram mesmo numa aldeia de fronteira; depois veio uma camioneta e fui para Valência. Em Valência, ao fim da tarde, vi e tomei um comboio e fui para Paris.

P: Nesta altura tinha manuscritos?

R: Eu escrevi na prisão o primeiro rascunho daquele primeiro romance, A Konkhava de Feti. E havia também uma banda desenhada feita por mim que mais tarde veio a dar um outro livro um bocado diferente. Um outro livro que foi O Clã de Novembrino. Este Clã de Novembrino não estava escrito, era em banda desenhada. Depois tive que deixar tudo na fronteira luso-espanhola. O camarada que me recebeu disse-me: «não podes levar isso, porque se te apanham te identificam imediatamente». E havia uma fotografia no Diário de Notícias a pedir a minha captura e a pedir as indicações sobre a minha estadia, e ia dar um prémio até, a quem me capturasse, de 500 contos, do género onças dos cowboys americanos. Assim, nestas condições, deixei isso com ele, com o tal camarada. E considerei aquilo perdido praticamente. E andei para frente, preferi escrever outras coisas. Quando cheguei a Luanda, muito mais tarde, Angola já era independente, apareceu o Luandino que trazia o rascunho do romance e a banda desenhada.

P: Foi nesta trajectória que conheceu António Cardoso, Petetela, Luandino e outros nomes da literatura angolana?

R: O Luandino e o António Cardoso eu conheci no Liceu, o Pepetela era muito mais novo, de tal modo que eu conheci o Pepetela na Casa dos Estudantes do Império.

P: Já havia entre vocês a inclinação ou direcção para a literatura?

R: Claro que temos. Eu já tinha escrito muito. Já tinha publicado muita coisa no Lubango, em vários sítios. E o Luandino já tinha feito aquele livro dele que deu a maka toda. A Vida Verdadeira de Domingos Xavier, não me lembro bem. Eu também tinha acabado de publicar Diálogos que foi uma coisa tramada , de tal maneira que o Mário António chamou-me a atenção para aquilo, e foi dar uma entrevista à televisão, na Gulbenkian, a dizer que aquilo era muito interessante, etc., etc. E a polícia foi a correr atrás daquilo; só que, com a propaganda que o Mário António fez, e a PIDE também – falaram coisas do livro, as pessoas que tiveram tempo compraram tudo. Daí fui para Paris; estive seis meses à espera de decisão até que apareceu o camarada Agostinho Neto, o camarada Lúcio Lara e mais outros. Tivemos uma conversa, e ele disse que eu não poderia ir ainda para a guerrilha. Havia uns problemas, o povo não estava habituado a ver um branco com arma na mão a lutar contra outros brancos. Aqui poderia se fazer confusão, e de facto houve confusão. Então perguntou-me se eu tinha alguma ideia. Eu disse que sim, que tinha ideia de estudos análogos do Centro de Estudos Angolanos. E ele achou que sim, que era uma boa coisa, e recomendou-me que tentasse agarrar toda a gente. Porque isso foi numa altura em que – isso foi em 1968, não me recordo bem, sei que tinha havido uma crise muito severa no MPLA muitos nossos camaradas fugiram do Ghana e foram para a Argélia, que era um país recém independente e muito prestativo, bastante liberal.

P: Poder-se-á dizer, por estas e outras, que um escritor não tem nacionalidade?

R: A nacionalidade pode ser tomada de várias maneiras. Uma é o comportamento que a pessoa tem, aquilo que a pessoa faz, toda a nação a que pertence, todos os seus amigos, etc. Este é o sentido literário; também tem o sentido oficial. Há um bilhete de identidade que diz natural de... Por exemplo, eu tenho nacionalidade angolana porque o artigo seis da Constituição diz que todos os que lutaram pela independência de Angola são automaticamente angolanos.

P: O contacto humano que teve mais tarde, no campo, sobretudo no Cunene e na guerrilha, com as pessoas deu-lhe bases mais sólidas sobre convivência humana que traz nos seus livros?

R: Eu acho que o maior curso que eu tirei, a maior lição que eu recebi, foi na guerrilha. Depois de estar anos na Argélia, a fazer todos aqueles trabalhos que tinha dito, fui finalmente chamado para a guerrilha. E aí foi uma coisa espantosa. A solidariedade entre os guerrilheiros era uma coisa espantosa, tremenda. Também havia makas, as pessoas são pessoas e toda a gente tem os seus problemas. Havia confusões e coisas assim. Havia chefes um bocado brutos, sobretudo com as miúdas. Havia coisas complicadas. Não no sentido de faltar ao respeito às miúdas, mas a querer fazer coisas que naquele tempo não se poderia fazer. Por exemplo, obrigar uma miúda a atravessar um rio com a instalação. Foi preciso pessoas como eu, o Picas, mais um ou dois para dizer ao Comandante «epá, senhor comandante, tenha paciência mas não pode fazer isso! Ela não está em situação de poder atravessar o rio».

P: É essa experiência baseada no espírito de solidariedade que norteia alguns dos seus livros?

R: Detalhadamente essa experiência não está, mas, desde a guerrilha até hoje, eu tenho me servido da experiência humana e não só. Como é possível que nós não morrêssemos todos ali com fome, e conseguíssemos vencer o inimigo? Porque a nossa vitória pode não ser totalmente militar, mas tem uma base militar. O 25 de Abril foi produto do desgaste que o povo português teve com a guerra. Havia imensas, não sei se eram mais de 30 mil, pessoas feridas e estropiadas com a guerra, por causa das emboscadas que a gente fazia, com os bombardeamentos

P: Poderemos então fazer um percurso pelas principais obras literárias. No seu primeiro livro, Diálogos, o escritor deixa o leitor confuso. Trata-se, afinal, de um desabafo ou simplesmente de uma intenção literária?

R: Não é uma coisa nem outra. A propósito da sua pergunta sobre a nacionalidade do escritor, é uma intenção nacional. Aquilo é uma interpretação no pensamento nacional, que correspondia às aspirações do nosso povo. Naquelas estórias estão metidas coisas que correspondiam a isso, e outras coisas que contrariam. E o povo apercebe-se. De maneira que, a partir daí, eu fui sempre escrevendo com um sentido: naquilo que o povo pensa. Não quero dizer a maneira, porque o povo não sabe tudo. Nós sabemos mais porque estudamos, etc. Isso fez com que toda a minha literatura estivesse altamente marcada pelo objectivo mediato mais importante, que era o de criar uma nação. Não era só fazer a independência. Isso já tínhamos feito. Depois eu escrevi muitos livros. Mas criar uma nação não quer dizer fazer a independência de um país. É criar um espírito nacional. A consciência nacional. Quase todos os escritores daquela época trabalharam para fazer esta consciência nacional, de tal maneira que há um inquérito que o Presidente mandou fazer por insistência de Fidel de Castro, sobre a questão do nacional. Em que estado é que está essa consciência nacional. Havia cientistas cubanas da Academia de Ciências e das universidades que vieram para cá, e depois nós. Um dos cientistas angolanos fui eu. E era eu, o chefe da parte angolana e o chefe da parte cubana. Os cubanos tinham formação soviética, à base do socialismo soviético, que não tinha respostas objectivas para os problemas. Então, eles fizeram uma sociologia empirista e com afirmações que não se pode nada dizer. Senão vamos lá ver: as relações entre os ovimbundu e os kimbundu são maiores ou menores que a relação entre os kimbundu e os kwanyama? Isso é para explicar a formação da consciência única. E não explicava nada. Por uma razão muito simples. Quem é que tem mais casamentos? Os kimbundu com kwanyama ou os kimbundu com os ovimbundu? É claro que os kimbundu com os kwanyama não pode ser porque é muito longe.

P: Mais tarde publica Canto Barroco, também tido como o marco inicial da sua carreira poética. Que lhe vem à memória quando o tema é a Colina de Calomboloca?

R: Coisas que eu vi. Eu assisti àquele drama todo de Icolo e Bengo. Inclusive fui quase testemunha da revolta da Baixa de Cassanje. Eu tenho dois livros chamados Diálogos. Um são vários diálogos de duas pessoas a falarem uma com a outra, a dizer coisas que são muito importantes. De onde se podem tirar muitas ilações. Por exemplo, há um diálogo em que um tipo tem duzentos bois e tem serventes, pastores, que já não são escravos, mas é como se fossem, porque também os escravos eram tratados da mesma maneira. E estava a conversa do senhor dos 200 bois com um dos seus pastores a tentar cambulá-lo, para que ele se venda por um boizinho. E ele vendeu-se por um boizinho. Isso mostra que, mesmo dentro do nosso povo, há contradições muito fortes entre explorados e exploradores. São de carácter agrário, mas podem criar burguesias agrárias em vários sítios.

P: A poesia «Sobre a Colina de Calomboloca» é uma homenagem aos mortos

R: uma homenagem aos tipos que foram mortos que eu vi, porque fui obrigado a ver praticamente, aliás, eu queria ver. E está lá escrito. A maneira como eles morreram: deram-se as mãos. No livro de homenagem que me fizeram, tem este poema e a interpretação de Michel Laban. Porque havia um branco que estava na estrada, que era um cantoneiro. Os brancos ainda, naquela altura, alguns tinham profissões humildes. E o branco estava vestido como um trabalhador negro, de bicicleta, com uma picareta etc. E eu e os meus rapazes que andavam comigo estávamos todos a achar que entre ele e o ajudante havia muita semelhança. E, de repente, o tipo larga uns bafos ao ajudante dele, negro. E os meus companheiros, que no fundo tinham muito mais experiência daquela convivência do que eu eu fiquei furioso com o tal cantoneiro recomendaram-me que fosse um cliente.

P: Boa parte dos escritores da sua geração, Pepetela, Ndunduma, António Cardoso, entre outros, passaram alguns pela Argélia e outros pela Casa dos Estudantes do Império. Todo este contacto, todo este percurso ajudou-lhes de que forma naquilo que vocês escrevem e apresentam sob a forma literária?

R: Sim, porque nós trocávamos muitas impressões no Centro de Estudos. A Casa dos Estudantes do Império foi também muito boa, uma escola cultural e revolucionária, onde a gente aprendeu muitas coisas. Sobre a independência, sobre a luta e sobre literatura. Sobre a maneira de se falar disso. Como é que se contam as estórias. Cada um tem a sua forma de contar. Por exemplo, o Pepetela distinguiu-se muito cedo. Num concurso que a Casa fez, o Pepetela, com um pequeno conto, teve uma menção honrosa ou coisa assim. E era ainda muito miúdo, muito jovem. As estórias que hoje são pequenas, naquele tempo, eram grandes. Enfim, ficámos todos muito admirados e verificou-se que era, de facto, um escritor em potência, e era mesmo. E outros. Houve muita troca de impressões, muita troca de sensações positivas e negativas...

P: Uma questão periférica: em que se traduz a peculiaridade da literatura angolana, que a distingue das demais, dos países africanos de expressão portuguesa?

R: A literatura fala daquilo que conhece. Aquilo que vive pessoalmente. Mas a partir de um certo momento, as literaturas tornam-se «adultas», e começam a ser não só nacionais como universais. Eu, por exemplo, tenho várias obras que podem ser consideradas de carácter universal. Não podem ser consideradas só angolanas. As Marés de Bacilon se passa num planeta qualquer, só que aqui são problemas que nós temos, também. E talvez poderiam ter existido em qualquer país.

P: Concorda se disser que O Clã de Novembrino é um percurso ficcionado que Henrique Abranches faz de um estado de natureza a um estado «democrático»?

R: Pois. Na realidade, foi um grupo de prisioneiros políticos que foram levados para o Brasil, e que pelo caminho houve uma tempestade. A partir de certa altura, começou a nascer a ideia porque aquilo era um país de prisioneiros se tentassem escapar para o Brasil era serem prisioneiros outra vez. Era um bocado o problema do «Amistad»: se fossem para Cuba eram escravos, se fossem para os Estados Unidos também. Isso é um bocado parecido. Onde há condições para bulhas, brigas, elas surgem. Só que lá, eram políticas. Foi o que aconteceu n’O Clã de Novembrino. Até que houve uma luta muito séria entre uma esquerda, muito pouco definida, e uma direita, também muito pouco definida.

P: Os seus livros têm uma fase inicial geralmente monótona, em ritmo lento, para depois ganhar dinâmica. Escreve desta maneira, a estas «velocidades»? R - Eu escrevo mais ou menos assim. Aliás, quase todos os escritores fazem isso. Não começam de repente. O único que eu conheço que começa com acção é o Pepetela. Começa um livro a dizer «portanto» (risos), quer dizer, já se passaram muitas coisas. Eu não, começo a criar situações e as pessoas vão lendo como é que a realidade se apresenta.

P - Kissoko de Guerra foi um dos livros mais importantes que escreveu. Preferia que falasse na primeira pessoa sobre o livro.

R: É a mesma coisa. A construção de uma nação. A luta pela preservação da independência. É um grupo de guerrilheiros que se forma, fogem para uma base invadida por sul-africanos. E eles vão aumentando em solidariedade para o povo, com a ajuda do povo, dos mukubais. E vão se transformando, vão criando situações muito complicadas porque em princípio não há água. Como é que se consegue viver num sítio qualquer, num país, numa ilha sem água? Eles conseguiram, porque descobriram uma coisa: a inteligência, o engenho criativo. Eles tinham vários postos de vigilância, mas não tinham rádios nem nada disso. Então eles inventaram sistemas de comunicação entre os postos com espelhos. Para dizer «vêm aí os sul-africanos. Os carcamanos». Se não houvesse sol, havia um sinal com umas pedras que caíam; eles já sabiam tudo isso. E preveniam-se, quando as tropas chegavam eles já estavam todos nos seus lugares de combate.

P: Em todos os seus livros, desde Cântico Barroco a As Marés de Bacilon, encontramos figuras, desenhos de Henrique Abranches. Elas servem de complemento da estória?

R: Elas são ornamentos da estória. Todas as coisas são ornamentos das coisas activas. Eu gosto muito de desenhar. Não resisto, às vezes. Eu comecei a desenhar na primária; ia chumbando na terceira classe porque eu não estudava, não tinha tempo para estudar, estava sempre a desenhar coisas. O D. Afonso Henriques e não sei mais o quê, que eu não conhecia naquela altura, nas margens dos livros de história.

P: Essas mesmas figuras fazem ainda recordar os Omakissi ou Nkisi Nkisi, as figuras míticas que encontramos nas suas gravuras. O que significam para si?

R: Omakissi ou Nkisi Nkisi são a mesma coisa em línguas diferentes. São monstros da mitologia tradicional que comem os pastores, que atacam as pessoas, etc. Por isso é que eu escrevo, também, porque eu não sou senão um narrador à maneira tradicional. Porque há muitos narradores que contam estórias dessas, do tipo que venceu os omakissi, mas não é porque tinha mais força, mas porque tinha mais miolo na cabeça. E eu fiz a mesma coisa, contei muitas estórias.

P: Esses Omakissi são conotados como nota característica do realismo mágico. Concorda com a classificação?

R: Eu acho que não está certo. Não é mágico. Mágico tem outras conotações. No cinema e na literatura americana, o mágico é uma pessoa que faz um gesto e outra pessoa aparece com um chapéu alto. Quem deu o melhor nome foi Pepetela. Pepetela chamou a isso uma vez. Disse que eu havia inventado o realismo animista. É claro que não se pode fazer declarações assim sem um estudo mais sério, mas ele tem muita razão. O que eu faço muitas vezes são estórias à roda de um realismo animista, que é um realismo que anima a natureza. Que, na realidade tradicional, são qualidades animistas. Não são mágicas. Aquilo está baseado em antepassados e em poderes que existem na natureza.

P: Como é que é, na literatura angolana, Henrique Abranches escrever o primeiro livro de ficção científica, e com a complexidade que Titânia apresenta?

R: Não é muito complexo. Eu inventei uma coisa que não existe. Uma flor, a flor de titã, e há um satélite que tem atmosfera. Então, os viajantes que foram a Titã trouxeram vários exemplares da planta. Mas ao fim e ao cabo não se sabe se é uma planta ou se é um animal. Porque é uma planta-animal. Vive como uma planta; há plantas femininas e plantas masculinas; e as plantas femininas engravidam e dão à luz.

P: Soube que Titânia é o nome de uma das netas de Óscar Ribas. Qual é a sua relação com o decano da literatura angolana?

R: Eu conheço mal Óscar Ribas. Conheço pouco. Acho que, quando Óscar Ribas andava por aqui, eu ainda era miúdo. Eu não nasci cá, não se esqueça disso. Conheci o Óscar Ribas, mas só mais tarde. Mas você acaba de me revelar uma coisa que eu não sabia, porque eu não sabia que ele tinha uma neta chamada Titânia. Coitadinha, porque a Titânia é uma flor assassina. O importante a considerar é isso. Ela é uma flor assassina porque os homens são assassinos. Quer dizer a planta toma a personalidade da pessoa com quem está em contacto.

P: Os caminhos da sua vida afastaram-no cedo da vida civil, levaram-no à clandestinidade e à guerrilha, culminando com essa paixão pela literatura, a que se dedica até hoje. Será, isso, tema suficiente para pensar numa autobiografia?

R: Não. Porque eu não gosto de falar de mim. Dar uma pequena entrevista ainda posso. Escrever eu? Eu iria mentir com certeza! (risos)

P: É conhecido como o homem dos sete talentos. Pessoalmente, quantos talentos julga ter?

R: Não são talentos. São trabalhos adquiridos: a literatura, pintura, desenho, antropologia, museologia, topografia

P: O que mais gostaria de fazer na literatura e na vida que até à data não teve a oportunidade?

R: Agora colocou uma pergunta embaraçante. Queria não ter fim, e continuar a escrever sempre. E depois de dizer isso não digo mais nada. Se eu pudesse, viveria eternamente para escrever eternamente. Agora eu vou parar um bocadinho porque estou doente, mas já estou velho também, escrevo muito menos, tenho que descansar mais. Mas gostava de escrever muito mais. Depois, se a gente se puser a pensar, há material para tudo!...

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