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Escritor e o Cidadão «Teria Sido um Bom Futebolista...»

Escrito por  Jacques Arlindo dos Santos

entrevista de Aguinaldo Cristóvão

As interrogações que se colocam fora das formais conversas revelam, geralmente, importantes discussões. Homem de longo currículo e reconhecido «activismo» cultural, Jacques Arlindo dos Santos é dos escritores com quem se pode falar de uma infinidade de temas, pois neles actua. Mas, nesta entrevista, curiosamente, ele revela em dois momentos diferentes que, se pudesse, seria futebolista e depois empresário. Como contraponto, questiona a sobrevivência dos escritores angolanos.

 

 

 

As interrogações que se colocam fora das formais conversas revelam, geralmente, importantes discussões. Homem de longo currículo e reconhecido «activismo» cultural, Jacques Arlindo dos Santos é dos escritores com quem se pode falar de uma infinidade de temas, pois neles actua. Mas, nesta entrevista, curiosamente, ele revela em dois momentos diferentes que, se pudesse, seria futebolista e depois empresário. Como contraponto, questiona a sobrevivência dos escritores angolanos.

As interrogações que se colocam fora das formais conversas revelam, geralmente, importantes discussões. Homem de longo currículo e reconhecido «activismo» cultural, Jacques Arlindo dos Santos é dos escritores com quem se pode falar de uma infinidade de temas, pois neles actua. Mas, nesta entrevista, curiosamente, ele revela em dois momentos diferentes que, se pudesse, seria futebolista e depois empresário. Como contraponto, questiona a sobrevivência dos escritores angolanos.

P: Dois títulos: ABC do Bê Ó e Chove na Grande Quitanda. Concorda que se diga que no primeiro há uma intenção histórica e no segundo uma intenção puramente literária?

R: Deste facto inegável, fica apenas subjacente a ideia de terem sido tratados em modelos diferentes de escrita, diferentes modos de vida, ideias, usos e costumes da cidade de Luanda. Enquanto ABC do Bê Ó pretendeu ser um ensaio, remetendo-nos às década de luta pela emancipação e liberdade, Chove na Grande Kitanda é uma ficção realística da Luanda que, a 8 anos de distância, se mantém actual.

P: Passado este tempo todo, desde que escreveu Chove na Grande Quitanda, considera Luanda uma kitanda, que extravasa o sentido literário a que deu título?

R: Por muito que nos custe admitir o contrário e pese todo o modernismo que se lhe pretenda conferir, a nossa Luanda é ainda uma grande kitanda.

P: Há uma nítida posição social do autor em cada livro. Vejamos em Chove na Grande Quitanda, Casseca e ABC do Bê Ó. O que determina este posicionamento? A sua posição social ou o quotidiano?

R: De certo modo, tudo quando tenho escrito é consequência do meu envolvimento na sociedade, na vivência dos seus múltiplos problemas. Daí que esta «posição social» a que alude não seja mais do que o dia-a-dia de muitos anos que me tem permitido ter esse olhar sobre as coisas que me foram cercando e me cercam.

P: No passado já escreveu mais crónicas e livros de caracter histórico. Exemplo disso é o livro sobre a história dos seguros em Angola. Considera que se sentiria em casa no jornalismo, como praticou há anos?

R: Sou um apaixonado pelo jornalismo. Não fosse a clara falta de talento que tenho, teria abraçado certamente a profissão.

P: Afinal, qual é a maior inclinação de Jacques: o folclore, os seguros, a literatura, a política ou os livros em si?

R: Teria sido um bom futebolista e de seguida transformar-me-ia num grande empresário. Foi, no entanto, o futebol que me levou para os seguros, uma profissão que abraço há 35 anos. Mas, a par dos seguros, sou um homem de cultura, sensível a todas as suas manifestações.

P: Qual das facetas acima citadas ocupa em si mais tempo no escritor Jacques e qual delas mais influencia na sua veia artístico-literária?

R: Tem que haver, necessariamente, uma distribuição equitativa do meu tempo onde, naturalmente, os seguros, pela responsabilidade que o cargo que tenho na instituição, ocupam lugar primordial. Mas, não posso deixar de referir que todas esta facetas representam muito para mim, sendo hoje parte permanente dos actos que pratico.

P: Ser deputado altera a sua visão crítico-social ou aguça o seu sentido crítico como debitava há anos na sua literatura?

R: De modo nenhum. Pelo contrário, no exercício do cargo parlamentar, mais sinto o dever de estar atento e apontar, no sentido da sua solução, aquilo que considero serem males da nossa sociedade.

P: Jacques, o editor. Como livreiro, como encara a questão dos livros? No passado, disse que levaria a questão ao parlamento. Hoje, na pele de deputado, já voltou a pegar neste assunto?

R: Coincidentemente, começa-se, a nível parlamentar, a tocar neste assunto delicado, que é o da inexistência de uma adequada política do livro. É evidente que não deixarei de me envolver e defender o que penso ser justo, assim que me sejam dadas oportunidades para o fazer. Não descarto igualmente a ideia de, em conjunto com outras sensibilidades, desencadear acções nesse sentido.

P: Tem representado de forma airosa Angola no exterior. Mais do que a criatividade e domínio da língua pressupostos para uma boa literatura , concorda que há pouca divulgação externa do que se faz aqui particularmente neste domínio?

R: Claramente. O mundo exterior apenas tem conhecimento da existência de meia dúzia se tanto de escritores angolanos e, naturalmente, das suas obras.

P: Sempre que sai um livro seu, vemos em primeira instância o retrato de uma cidade que geralmente se assemelha a Luanda, com todo um aparato do poder central. Poder-se-á dizer que Jacques dos Santos ficciona de forma «aberta» a cidade de Luanda?

R: Pode ser, mas também pode não ser...

P: Escreveu Berta Nyari ou o Pretérito Imperfeito da Vida, livro vencedor de um prémio transaccional de literatura. O aumento dos prémios literários irá melhorar a nossa literatura, ou a questão passa por preparação de base?

R: Já repararam que Berta Nyari, esta tal que ganhou prémios, nunca foi comentado pelos nossos críticos literários? Daí vem-me o pensamento de que é absolutamente necessário que a nossa literatura terá de passar por um processo de melhoria da sua estrutura e ela terá de abarcar a qualidade de escrita, da linguagem, da crítica, etc.

P: Há questões que, tanto quanto se sabe, nunca respondeu. Por exemplo, que tipo de livros mais escreve com maior dificuldade?

R: Há quem tenha capacidade para escrever um romance em três meses. Há os que levam anos para o fazer. No meu caso, ABC do Bê Ó deu me bom bocado de trabalho, enquanto que Kasakas e Cardeais saiu quase ao correr da pena.

P: A literatura do Brasil e de Portugal invade o mercado angolano. A diferenciação na grafia tem preocupado muitos, já que alguns livros de escritores angolanos – sob capa de um pseudo-estilo – têm apresentado de forma desordenada estas duas orientações. Que lhe sugere a questão?

R: A influência brasileira na cultura angolana é um facto incontornável. As novelas, a música, estão aí para confirmar o que digo. É natural, pois, que na literatura se verifique essa tendência de imitar os brasileiros. Eu sou dos que se preocupam com o fenómeno, já que julgo que uma literatura tem que ter a sua própria identidade.

P: Passados vários anos desde o início da sua trajectória literária, já pode considerar que a sua terra natal tem grande influência no que faz, pelo menos do ponto de vista temático?

R: Não, se quer referir-se especificamente a Calulo ou à Angola geral. Deixe que lhe diga, entretanto, que não me vejo a escrever, mesmo ficcionando, que não veja sobre Angola e sobre Calulo.

P: Concorda que a «jovem» literatura angolana tem trazido uma «ruptura» ao estilo e temáticas literárias de escritores de «gerações» anteriores?

R: Absolutamente. E a tendência será para acentuar dessa ruptura.

P: A literatura angolana ocupou espaço privilegiado e de transcendência no espaço PALOP. Para quando a lusofonia?

R: Para se guindar ao nível de Portugal e do Brasil, os autores e a literatura angolana de um modo geral terão de vencer um sem número de barreiras que passam pelo desfrute de condições de ordem económica e social. Um grande passo foi dado nesse sentido com a criação da Faculdade de Letras.

P: Uma questão que tenha ficado por fazer e que gostaria de responder?

R: Terá ficado ausente a pergunta sobre como sobrevivem, enquanto autores, os escritores angolanos. Eu responderia que não podem sobreviver.

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