testeira-loja

Da Extensão do Conto ao Romance

Escrito por  Celestina Fernandes

Entrevista de: Aguinaldo Cristóvão

Que mais pode dar prazer a um escritor do que escrever um livro prevendo factos e, precisamente na altura em que ele é editado, a literatura torna-se realidade. Maria Celestina Fernandes tem esse mérito. A escritora infanto-infantil, como prefere acentuar, nunca escondeu o amor que nutre pelas crianças. Amor esse que a deixa angustiada de ver menores a sofrer, sem a possibilidade de ler um livro, ou, na pior das hipóteses, sem saber ler.

 

 

 

Que mais pode dar prazer a um escritor do que escrever um livro prevendo factos e, precisamente na altura em que ele é editado, a literatura torna-se realidade. Maria Celestina Fernandes tem esse mérito. A escritora infanto-infantil, como prefere acentuar, nunca escondeu o amor que nutre pelas crianças. Amor esse que a deixa angustiada de ver menores a sofrer, sem a possibilidade de ler um livro, ou, na pior das hipóteses, sem saber ler.

Que mais pode dar prazer a um escritor do que escrever um livro prevendo factos e, precisamente na altura em que ele é editado, a literatura torna-se realidade. Maria Celestina Fernandes tem esse mérito. A escritora infanto-infantil, como prefere acentuar, nunca escondeu o amor que nutre pelas crianças. Amor esse que a deixa angustiada de ver menores a sofrer, sem a possibilidade de ler um livro, ou, na pior das hipóteses, sem saber ler.

P: Porque se diz que é tão difícil escrever para crianças?

R: Escrever para crianças, no meu caso particular, torna-se difícil porque é um adulto a projectar-se no mundo da criança. Portanto, a literatura infantil tem que ter muito de imaginário, de sonho, poesia, para poder de facto cativar a atenção da criança, porque, mesmo que a gente aborde um assunto sério, o tema deverá ser abordado de uma forma leve, singela, onde corre a imaginação que obriga a criança a sonhar... É ali onde surge a dificuldade para escrever para crianças. Se estiver a escrever para um adulto, não vou ter estas preocupações, porque é um adulto a transmitir o seu pensamento a um outro adulto, ao passo que, ao escrever para a criança, procuro retroceder no tempo, para poder então atingi-la.

P: Sempre se poderá dizer que o escritor de literatura infanto-juvenil deve voltar ao seu tempo, à sua infância?

R: Eu pessoalmente procuro situar-me no lugar da criança, ou mesmo recuar aos tempos da meninice, o que muitas das vezes não é fácil, porque da nossa memória se vão esfumando os factos à medida que a idade avança. Raramente a gente se lembra do que fazia, do que gostava quando era criança, porque, naquela altura, a nossa capacidade de memorizar não é ainda tão desenvolvida ao ponto de absorver e conservar as emoções, os sentimentos, os afectos, os prazeres que tínhamos naquela fase, não é? Portanto, é praticamente a convivência com a criança que me faz retornar ao mundo da fantasia, o retorno ao passado.

P: O que é que Celestina Fernandes traz da sua infância nos seus livros?

R: Por exemplo, como sabe, geralmente, nós, os africanos, temos sempre alguém em casa dos nossos pais, um sobrinho, um primo, um afilhado, etc. O meu pai era originário de Malanje, mais propriamente de Kalandula, e pela nossa casa passavam sempre muitas pessoas vindas do interior. Entre elas, durante a minha infância, viveu connosco uma prima do pai, prima como irmã, minha tia, portanto. Ela foi para a nossa casa adolescente e trazia muitas histórias do mato, do sítio de onde provinha, e é engraçado que eu não me recordo das estórias que ela contava, mas lembro-me que eram estórias de homens enfeitiçados que se transformavam em sapos, estórias de três kalubungos etc. Isto tem-me servido de base... Isto e outros episódios que, embora nublados, deles sempre ficou qualquer coisa, mesmo daquelas estórias que li em criança ficou qualquer coisa. E é este rememorar, embora pálido, do que ficou para trás, que se foi, vai avivando, com a vivência com crianças, particularmente os meus filhos, que em muito contribuíram para que hoje eu seja uma escritora de literatura infanto-juvenil, pois foi para eles que comecei a escrever, e não sei mesmo se não foi o facto de ter sido mãe que me fez ser a escritora infanto-juvenil que hoje sou.

P: Certa vez disse que na sua infância lia «livros proibidos». De que se tratava?

R: Bem, a leitura desses livros já foi numa fase mais adulta, propriamente já adolescência. Naquela altura, éramos todos adolescentes. Colegas e amigos. Eram os rapazes que geralmente tinham ideias mais avançadas. Eles liam e falavam de livros revolucionários para a época, os tais livros proibidos. Por outro lado, o meu pai tinha estreitas ligações com vários nacionalistas, que frequentavam a casa e que também liam. A bem dizer, cresci num meio onde se lia e se ouvia falar de coisas muito sérias. Eram coisas interditas, mas a curiosidade falava mais alto... De modo que qualquer coisa ia chegando aos nossos ouvidos e olhos. Desde crianças que ouvíamos o nosso pai, nossos tios, falarem da repressão colonial, depois houve o 61, em que muitos dos nossos amigos e familiares foram presos. Dos livros que circulavam, de mão em mão, lembro-me de ter lido A Cabana do Pai Tomás, A Mãe, Não Matem a Cotovia, Na Pele de Um Negro, Chora Terra Bem Amada, entre outros tantos, a par da literatura infanto-juvenil.

P: Nesta altura, começaram a ganhar o gosto pela leitura...

R: Nós já líamos muito, porque, no tempo colonial, os livros de leitura, desde a primeira classe, continham lindos textos e muita poesia. E nós declamávamos a poesia, e ainda hoje, passados tantos anos, ainda me lembro de muitos destes poemas, por exemplo «Balada de Neve»: «Batem leve, levemente / como quem chama por mim / será chuva? será gente? / gente não é certamente / e chuva não bate assim» de Augusto Gil. Eram textos que vinham nos livros da primeira, segunda, terceira e quarta classes, e havia disputa a ver quem decorava mais e melhor. As redacções também ajudavam muito, fazer aquelas composições dava desenvoltura de escrita e raciocínio. Era dado um tema e a partir daí o aluno dava largas à sua imaginação. Há coisas que se perderam um pouco porque os que estão a transmitir também não receberam, e então fica difícil dar o que não se tem.

P : Os seus livros são sempre uma lição de vida. É esse, na realidade, o seu propósito?

R: É assim: quando a gente aborda um tema sobre o amor, amizade, ganância, egoísmo, ou solidariedade, tudo isto são valores que a criança deve começar a aprender e a distinguir a partir do berço. E se forem bem incutidos, creio que estes valores serão preservados. Quando se torna adulto, seguramente que vai continuar a cultivá-los. Com o crescimento, ela vai tendo a percepção exacta de tais valores. Ela tem que começar desde pequenina a saber o que é a amizade, o valor de ter um amigo, a importância de ter um amigo, o outro com quem partilhamos desinteressadamente as nossas alegrias e tristezas. Eu já fiz um conto sobre a amizade. Naquela história, uma abelha encontrou no campo uma flor triste e perguntou-lhe porque chorava: – Porque choras, flor do campo? E ela disse: Eu tinha uma companheira com quem falava, com quem desabafava, e infelizmente passou um homem que a levou para enfeitar a lapela do casaco, agora estou triste, estou sozinha, não tenho ninguém com quem partilhar a minha vida. E a abelha, depois de consolar a flor, respondeu: Eu também estou sozinha, não tenho ninguém, queres ser minha amiga? Evidentemente que a outra aceitou e tornaram-se amigas inseparáveis. São valores onde a brincar, ludicamente, se demonstra o sentido e o valor das coisas. Neste caso, o valor da amizade, a necessidade da amizade, a fidelidade de uns para com os outros, e, portanto, tudo isto não são valores só dirigidos a crianças, não, abarcam toda uma sociedade, a humanidade.

P: Daria o exemplo da obra A Rainha Tartaruga. Esta maneira pedagógica como transmite as suas mensagens deveria também ser levada ao ensino primário, no ensino das nossas crianças?

R: Penso que sim, mas, não sei como é feita a selecção dos textos do ensino primário. Os meus textos são infanto-juvenis, são textos dirigidos a crianças até à faixa etária dos 13 anos. Eu não sei, por acaso, não tenho acompanhado os texto que agora fazem parte das selectas do ensino primário, mas penso que textos com este cariz, e não só, deveriam ser incluídos. Pois a brincar conseguem-se mais facilmente transmitir valores, o objectivo é precisamente este, ensinar brincando.

P: No livro O Presente, poder-se-ia considerar a paz um presente, no contexto literário que traz naquele livro?

R: É engraçado, que ele saiu ao público já depois da assinatura do acordo do cessar-fogo, já em plena paz. Mas quando eu escrevi aquele conto, estava longe de pensar que haveria paz, não havia sinais disso. Quando foi lançado sim, a paz era verdadeira, satisfazendo a ânsia das duas crianças, personagens do livro, separadas pela guerra, que, julgando-se distantes, estavam tão perto uma da outra, acabando por se reencontrarem quando menos esperavam, operando-se assim um reencontro familiar, como os que temos vindo a acompanhar através do «Nação Coragem» e outros meios. Portanto, é uma mensagem para toda uma nação, o desejo de paz, que todos tínhamos. Estivemos estes anos todos a nos digladiarmos, a nos matarmos, para quê? A todos nós a guerra roubou um bocado, como eu digo no conto «A Bola de Fogo», que fala de um menino órfão de guerra que, depois de passar por tantas vicissitudes, resolve entrar no mar à procura da bola de fogo, o sol... e acaba no céu junto dos pais.

P: Por que género literário começou?

R: É engraçado. Muita gente pensa que eu escrevia apenas literatura infanto-juvenil, só depois comecei a escrever poesia. Mas, na verdade, eu fui fazendo os dois géneros praticamente em simultâneo. Apanhei o gosto pela escrita fazendo igualmente poesia. Eu escrevo os contos, e, nos momentos de maior recolhimento, faço poemas. Qualquer acontecimento que me toca, por exemplo, a morte de uma amiga, e o primeiro livro foi, de facto, uma selecção daqueles poemas escritos simultaneamente com os contos para crianças e não só. Só que, como foram saindo primeiro os livros infantis e muito mais tarde a poesia, as pessoas pensam que eu comecei a fazê-la muito depois, mas não. Os poemas compilados no segundo livro, O Meu Canto, também foram escritos ao longo de vários anos, até ter a oportunidade de os ver publicados pela União dos Escritores, tudo passa também por uma questão de oportunidade. Embora sendo os contos pequenos textos, através deles fui adquirindo traquejo na prosa. O romance que hoje aparece foi uma extensão dos contos, porque eu também já tenho um livro de contos para adultos, Retalhos da Vida. É uma colectânea de três contos. Quando me questionam se mudei de género, se deixei de escrever para as crianças, eu respondo simplesmente que nunca deixei de escrever para crianças, e penso continuar a escrever, temos que escrever para as nossas crianças.

P: Muitos escritores, como Cremilda Lima, Maria Eugénia, Dario de Melo, entre outros, que antes se dedicavam quase exclusivamente à literatura infanto-juvenil, abraçam outros estilos, como a poesia. É uma tendência natural?

R: Eu não posso falar pelos outros. A minha experiência é a que acabei de referir. Eu iniciei escrevendo contos infanto-juvenis em paralelo com a poesia. Escrevi aquele livro de contos de adultos e agora surgiu o romance. A maior parte da minha obra é em prosa, embora seja para crianças, não deixa de ser prosa.

P: Dizia o livreiro angolano Ricardo Manuel que os livros de Celestina Fernandes estão entre os mais vendidos, quando se fala de literatura infantil. Tem consciência da repercussão da sua obra?

R: Para ser sincera, sempre que escrevo qualquer coisa os meus filhos são os primeiros a ler. Dão a sua opinião, muito responsável, e posso dar mais a alguém. Tenho o prazer de sentir que há pessoas que gostam do que eu escrevo, mas não acompanho de perto as vendas. Gosto quando alguém diz «olha, li o teu livro, gostei». Há pouco tempo recebi um e-mail de Portugal da Doutora Inocência Mata a dizer que tinha adorado a obra O Presente. Portanto, eu sinto-me lisonjeada quando uma pessoa da dimensão de Inocência Mata diz que adorou o meu livro, e um livro infantil, isto é muito gratificante. Eu escrevo por prazer. O prazer que me dá escrever é o mesmo prazer que eu almejo dar aos leitores. E penso que tenho conseguido em certa medida. É uma felicidade para mim.

P: Há um dia dedicado à literatura infantil. Que faria nesse dia, do seu agrado?

R: Geralmente, nesta altura, eu tenho organizado palestras em escolas, para falar um bocado sobre o meu trabalho e também dos outros escritores. Geralmente, o que eu faço é compilar tudo o que possuo, eu tenho quase todas as obras dos escritores infanto-juvenis angolanos e de alguns internacionais. O que faço é carregar todo este material e ir conversar com os miúdos que eu adoro. Mas geralmente saio dessas actividades com uma certa angústia porque, quando se pergunta quem são os nossos escritores infanto-juvenis, há um ou outro que fala. Falam em Pepetela, Agostinho Neto. Mas propriamente escritores infanto-juvenis eles não conhecem. Eles conhecem a Branca de Neve e o Capuchinho Vermelho. Mas nós temos as nossas obras que se inserem na realidade angolana. É importante que as crianças conheçam mais sobre a sua cultura. As crianças não podem ficar com um conhecimento tão limitado.

P: Defende a massificação da literatura infanto-juvenil angolana?

R: Evidentemente que sim! É isso mesmo. Os livros angolanos que se editam são pouco divulgados, têm uma tiragem pequena, de aí mil exemplares. Esgotam-se. E há outro problema: nunca se reeditam obras… eu tenho obras que já desapareceram no mercado, não estão reeditadas; por outro lado, os livros ficam-se por Luanda; Angola não é só Luanda. Portanto, tem que haver uma maior tiragem, uma subvenção dos custos do livro, para qualquer pessoa ter acesso a ele. Porque não é fácil a aquisição com preços tão elevados. Nós estamos numa fase de crise em que há fome, miséria, não há hábitos de leitura; então, para se incutir o hábito, há que facilitar as coisas. Deveria haver bibliotecas expandidas pelos bairros onde os livros fossem colocados de modo a que todos tivessem acesso.

P: É advogada. Como cidadã, concorda que se diga que os direitos das crianças são respeitados. Ainda que seja o direito da criança ao livro?

R: O problema é exactamente esse. Quando nós temos crianças que passam um dia inteiro sem uma refeição. Muita criança não conhece o sabor do leite. Crianças a dormirem na rua. Crianças na mendicidade. Crianças de tenra idade nauseabundas, transportadas por gente igualmente nauseabunda, penso que propositadamente para extorquir a compaixão dos passantes, que são expostas na rua todo o dia, de manhã à noite, ao sol e à chuva, sob o olhar indiferente de quem de direito. Isto é respeitar os direitos das crianças? Enquanto se assistir a este tipo de situações tão repugnantes e condenáveis, nunca poderemos dizer que os direitos das crianças estão a ser respeitados. Há uma citação de uma balaria americana, Isadora Duncan, que diz «enquanto se permitir que as crianças continuem a sofrer, não haverá paz verdadeira no mundo». E está tudo dito.

P: Quanto menos o direito da criança ao livro ou, antes disso, à educação!

R: Se a criança não tem acesso a um copo de leite, não tem acesso a um livro. Aliás, a criança nem sabe ler. Portanto, vamos primeiro alfabetizá-la. Porque, enquanto ela estiver a mendigar na rua, a que horas vai à escola? E na rua, o que está a fazer? A drogar-se, a roubar e a prostituir-se ou então a ser explorada. Isto é um atentado contra os direitos das crianças.

P: Numa leitura atenta do seu primeiro livro de poesia, O Meu Canto, ressalta uma questão. O seu canto é o seu sonho?

R: É o meu sonho, é a minha prece. Portanto, o meu canto é como se fosse uma oração quotidiana. O meu canto começa com o acordar. Eu começo por acordar; o facto de eu ter acordado para mim já é uma graça. Eu bendigo a Deus por ter passado mais uma noite e ver o raiar do outro dia. O meu sonho de não ver mais crianças a sofrer, até culminar no amor, que no fundo é base de tudo. Se colocarmos o amor à frente de todas as coisas, acho que elas ficam muito mais fáceis, os objectivos são mais facilmente concretizados, principalmente o problema da criança que acabamos de focar. Porque o amor é a base de tudo. Tudo passa pelo amor, pelo respeito. E porque as crianças são os homens do amanhã têm que ser plenamente amadas.

P: Há um mérito em Celestina Fernandes: mantém-se fiel, mesmo escrevendo poesia, ao seu grande tema, a criança. Há um interesse altruístico da escritora ou um sentimento de mãe?

R: É mais um sentimento natural de mãe. De mulher que já gerou vida. Ser altruísta é uma grande virtude, mas... enfim, eu não posso ver crianças a sofrer. Eu nunca poderei ser feliz numa sociedade onde eu me deparo a cada passo com crianças deitadas na rua, a mendigar, a carregar baldes pesadíssimos de água e outras coisas. Tudo isso é uma angústia. Eu não posso ser feliz quando à minha volta há tanta miséria e promiscuidade, sobretudo o estado degradante em que se encontra uma grande parte das crianças. Nesta altura, ainda muitas crianças estão sem saber o paradeiro dos seus pais. Não sabem se estão vivos ou estão mortos. É tempo de se pensar seriamente nesta questão. Isto é um problema social.

P: O seu livro O Presente traz precisamente esta mensagem de esperança. Chama a atenção da sociedade para valores como a solidariedade, a coragem. Estas mensagens são dirigidas directamente para os adultos?

R: Sim. Eu até costumo dizer que para ler O Presente não é preciso ser criança. Quando eu escrevi aquele livro, não pensava que o livro fosse publicado já numa altura de paz; felizmente isso aconteceu! Para mim foi o que de melhor poderia acontecer na minha vida. Foi o primeiro livro que lancei em paz efectiva. Toda a minha obra, surgida a partir da década de 80, foi escrita em plena guerra. O Presente, como podeis ver, está «recheado» de episódios de desmembramento familiar causado pela guerra, da saudade e necessidade da família, do Natal e das mensagens de amor e solidariedade para com o próximo que ele nos traz, e, para grande alegria minha, o livro veio à luz, como disse, em tempo da paz ansiada por todo o povo. Já se verificava a reunificação de muitas famílias. De facto, aquele livro, aquela publicação, foi um presente que me causou grande felicidade. E pode-se ver que, embora escrito na altura conturbada, a estória continua, no entanto, actual. Continuamos a ver crianças deslocadas, muitos se calhar já não verão os pais nunca mais; felizmente a Vitória e o irmão Segunda encontraram-se. E muitas mais Vitórias se reencontrarão com os seus.

P: Uma análise necessária ao que é feito hoje, em matéria de literatura infanto-juvenil...

R: Uns vão dizendo que não escrevem mais para crianças, porque as crianças são analfabetas. Eu refuto esta forma de ver as coisas. A falecida Gabriela Antunes não publicava há muito tempo obras inéditas, mas agora ouvi dizer que durante o período que esteve em tratamento no exterior escreveu umas estórias novas; a Cremilda está com alguma produção inédita. Já saíram duas obras e penso que está à espera de outras publicações. Penso que somos ainda poucos, mas se destes poucos alguns cruzarem os braços, por isso ou aquilo... Temos é que ser persistentes, continuar a escrever. Pressionar para que mais crianças possam ter acesso ao livro lá onde elas estejam, não importa onde, sem se pensar só em termos da capital. Isto é um trabalho colectivo, e eu acho que devíamos estar mais unidos. Estamos muito dispersos. Não há o hábito de nos encontramos, de discutirmos em tertúlias, etc.

P: Falou atrás do seu primeiro romance, Os Panos Brancos. Um exercício que disse ser a extensão dos contos que escreve...

R: É um livro com mais de 200 páginas. O título é Os Panos Brancos porque é a estória de uma menina que se fascina pelos panos que a mãe lavava no rio. Na altura, a menina não sabia que aquilo se chamava lençóis. Ela via a mãe lavar a roupa dos colonos, os patrões. Entretanto, ela sai do kimbo, vai para outra casa onde lhe põem a deitar numa cama com lençóis. Mas ela tem medo de se deitar sobre aqueles panos tão branquinhos, tão lisinhos,... E quando lhe perguntaram a razão, ela respondeu «tenho medo de estragar estes panos». Só se deitou depois da senhora a convencer. A partir daquela altura em que ela toma contacto com aqueles panos brancos tão delicados, fica fascinada, de tal maneira que, depois, na idade adulta, passa a coleccionar lençóis brancos. Para além desta paixão, existe um grande enredo, porque a ficção tem início em meados da década de 40 e vai até aos nossos dias. Apanha o período colonial e o pós independência...

P: Neste romance, também, Celestina Fernandes traz o seu tema favorito. É a vida de uma criança até à idade adulta?

R: Acaba sendo. Porque a história de Glorinha, que é o personagem principal do livro, começa quando ela era ainda criança e vai-se desenrolando até ao estado adulto. Há a criança aí.

Ler 4245 vezes

Contacto

AV. Ho-Chi-Min, Largo das Escolas
1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

Telefone: (222) 322 421 Fax: (222) 323 205

e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Blogs

blogspotuea1    blogspotueamulembeira           blogspotueanguimba
         
ytlogo2   blog-poetenladen   logotips