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Sinto-me em Casa na Maior Parte nos Países das CPLP Destaque

Escrito por  Aguinaldo Cristóvão

 

José Eduardo Agualusa é dos escritores angolanos que mais representa o país em fóruns internacionais onde se fala de cultura e literatura africana. Premiado com uma bolsa de criação pela fundação Calouste Gulbenkian, o autor de A Conjura concedeu, via on-line, uma entrevista exclusiva ao semanário angolano A Capital, que a UEA digital retoma.

 

 

 

José Eduardo Agualusa é dos escritores angolanos que mais representa o país em fóruns internacionais onde se fala de cultura e literatura africana. Premiado com uma bolsa de criação pela fundação Calouste Gulbenkian, o autor de A Conjura concedeu, via on-line, uma entrevista exclusiva ao semanário angolano A Capital, que a UEA digital retoma.

P: Com que impressão ficou do movimento literário angolano, depois da sua recente visita ao país?

R: Mesmo vivendo fora mantenho contacto com escritores angolanos em Angola e no resto do mundo. Creio que a literatura, como toda a restante produção cultural, está largamente dependente da situação económica do país isto é, está mal. É muito, muito, mas mesmo muito difícil formar um escritor. Só poderá florescer em Angola uma literatura forte, duas ou três gerações, senão mais, depois de termos conseguido vencer o analfabetismo e de instalar bibliotecas em todas as principais povoações do nosso país. Também me parece importante encorajar o aparecimento de literaturas em línguas nacionais. Tudo isso irá levar muito tempo. Espero viver o suficiente para ler essa literatura. P: Estas mudanças, na sua opinião, terão sido ditadas pelas mudanças sociais e políticas do país?

R: O facto de haver hoje liberdade de expressão poderá certamente contribuir para o aparecimento de novos escritores. Mas, como disse antes, isso não basta para o surgimento de uma verdadeira literatura, com capacidade de afirmação internacional. Isso ainda não existe. E são necessárias mudanças políticas mais significativas é necessário um governo, um verdadeiro governo, desde logo e muito, muito tempo.

P: Sonha em receber um prémio literário como o Prémio Nacional de Cultura e Artes?

R: Certamente. É sempre bom receber um prémio. Qualquer prémio.

P: Todos os anos se instala a polémica em relação à atribuição do Prémio Camões. O facto de o Nobel ter recaído em 2003 para um africano impulsiona no movimento literário deste continente?

R: Sem dúvida. A atribuição do Prémio Nobel a J. M. Coetzee, um escritor excepcional, chamou uma vez mais a atenção para todo o continente. Isso beneficia todos os escritores, sem excepção.

P: Sente que os escritores angolanos estão mais unidos?

R: Julgo que em todos os países existem inimizades entre alguns escritores, movimentos antagónicos, diferentes maneiras de ver o mundo e a literatura. Isso não constitui um problema, pelo contrário, significa apenas que existe liberdade para expressar essas diferenças. O importante é que os debates sejam abertos, sinceros e honestos.

P: Preocupa, nalguns sectores da intelectualidade nacional, a xenofobia que algumas editoras denotam. Quer dizer, algumas preferem escritores negros, outras brancos. Sentiu este clima?

R: Não. De forma nenhuma. Não compreendo como é que a cor da pele pode influenciar, positiva ou negativamente, a qualidade literária de uma determinada obra. Ninguém acredita que V. S. Naipaul, Prémio Nobel da Literatura, e um dos mais importantes escritores do nosso tempo, deva o seu enorme sucesso ao facto de ter nascido com a pele escura. Ele, Rushdie, Soyinka, Senghor, Patrick Chamoiseau, e tantos, tantos outros. Estive há alguns anos num congresso internacional onde estavam três importantes escritores ingleses e nenhum deles era branco. Aliás, alguma da melhor, e mais vendida, literatura inglesa é produzida hoje por não-brancos (indianos, sobretudo, mas também negros, mulatos e até anglo-chineses). Isso não parece ser um assunto que preocupe os críticos literários ingleses por que haveria?

P: Entre nós, chegou, em tempos, a informação de que Agualusa é dos poucos angolanos que já foi manchete num dos diários portugueses. Quer comentar?

R: Isso já aconteceu muitas vezes. Felizmente os meus livros vendem muito bem em Portugal. Estou além disso publicado no Brasil, em Espanha, Alemanha, Itália, Suécia, Holanda, Dinamarca, França, e sempre com críticas muito boas. Sou um homem feliz!

P: Integrou em 2003 uma colecção portuguesa, dos mais importantes escritores da lusofonia, ao lado de Pepetela. Sente que há maior protagonismo da literatura angolana na diáspora?

R: Não da literatura. Mas há três ou quatro escritores que começam hoje a ser reconhecidos a nível internacional Pepetela, Ruy Duarte, Ana Paula Tavares.

P: Já se disse que é um escritor transnacional. Como vê a aculturação em países de expressão portuguesa?

R: Sinto-me em casa na maior parte dos países onde se fala a língua portuguesa, em particular Portugal e o Brasil além de Angola, claro. Nesse sentido sou de facto um cidadão transnacional. Acho óptimo. Mas não há nisso nada de inédito. Entre os escritores poderia citar vários que gozaram ou gozam de idêntico privilégio V. S. Naipaul (inglês, antilhano e indiano), Salman Rushdie (inglês e indiano), Fernando Pessoa (português e inglês), Vladimir Nabokov (russo e americano), Amin Maalouf (libanês e francês), etc., etc.

P: Numa entrevista passada disse que as literaturas africanas são caracterizadas pela «identidade crioula». Quer-nos explicar melhor?

R: Não posso ter cometido tão grave imprecisão. «Literaturas africanas» é uma designação vastíssima vai desde as riquíssimas literaturas árabes às literaturas da África do Sul. Cada caso é um caso. Sim, existem em África literaturas crioulas. Por exemplo, em Cabo Verde, em Madagáscar, na Maurícia ou na África do Sul. E existem outras literaturas, inúmeras, de diverso tipo, muitas delas em línguas banto.

P: Recortamos uma citação sua para comentar: «se houvesse democracia em Angola eu estaria lá». Poderá dizer-se que a conjuntura mudou?

R: Está a mudar. Ainda não existe em Angola uma democracia, mas também já se não pode falar em ditadura. Estamos a atravessar um período de transição para uma democracia plena. Quero viver estes dias ao lado dos meus amigos e companheiros de pensamento, ao lado de todos os democratas de sempre.

P: A Conjura é, entre nós, um importante documento histórico e literário. Acredita que, hoje, a aposta dos nossos escritores deputados poderia estar virada mais para testemunhos e pesquisas históricas?

R: É importantíssimo encorajar a produção de testemunhos. Temos pessoas em Angola que viveram experiências excepcionais, que foram agentes da História, e é fundamental recolher o seu testemunho.

P: O Ano em que Zumbi Tomou o Rio gerou grande polémica em Angola, pelo seu carácter tendencioso. Escreve a ficção com alguma motivação sarcástica?

R: Tendencioso? Não há nenhum romance que não defenda uma determinada perspectiva. Nos meus romances tento defender todas. E sim, aprendi a ironia com Eça de Queirós, e acredito no seu poder transformador.

P: Em Portugal, estão Luandino Vieira e Óscar Ribas, literatos que marcaram a apetência para a leitura de muitas gerações. Que mais vale a um escritor em idade avançada: o apoio que recebe do país onde nasceu ou os gestos de conforto?

R: As duas coisas são importantes. E os dois escritores que referiu mereciam maior carinho por parte dos nossos governantes.

P: Além de escritor é jornalista. Como encara o desenvolvimento da mídia doméstica?

R: Com um enorme entusiasmo. Creio que em Angola o jornalismo independente tem vindo, com muitas falhas, é certo, a desempenhar um papel fundamental no debate de ideias e na reconciliação dos espíritos.

P: Essa sua ausência do país permite-lhe olhar mais «friamente» os factos que se passam por cá, ou o preocupa não poder dar pessoalmente o seu contributo?

R: Sim, de alguma forma tenho mais tranquilidade e uma perspectiva talvez mais lata. Mas também é importante um olhar interior.

P: Tem publicado crónicas quinzenais que têm os seus reflexos na sociedade angolana. Esta é, digamos, uma das formas que encontrou para exercer a sua cidadania?

R: Gosto de pensar que sim. A possibilidade de participar nos grandes debates que se travam em Angola, de forma mais directa, deixa-me muito feliz.

P: Quer seja como jornalista quer como escritor sempre estaremos em presença de um «animal político»?

R: Todos nós, a partir do momento em que vivemos em sociedade, somos animais políticos. Eu esforço-me sobretudo por ser honesto e justo e por manter intacta a minha capacidade de indignação.

P: Tem-se falado muito de um dos seus mais recentes livros, Nação Crioula?

R: Nação Crioula é um romance já com alguns anos, que surgiu logo a seguir à Estação das Chuvas. É o meu romance mais traduzido e está a ser transposto para o cinema por um realizador brasileiro, tendo como principal protagonista a bela Camila Pitanga. Só para conhecer a Camila já valeu a pena ter escrito o livro.

P: Por fim, como praxe, uma consideração que queira fazer, à margem das questões aqui debitadas...

R: Queria aproveitar para felicitar A Capital e todos os jornalistas independentes, verdadeiros heróis destes dias tumultuados de transição para a democracia. Um dia alguém terá de escrever esse romance.

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