testeira-loja

Procuro Escrever Sobre a Actualidade Sem Fazer História

Escrito por  Ismael Mateus

Entrevista de: Aguinaldo Cristóvão

O jornalista e o escritor, embora em muito sejam diferentes, podem coabitar no mesmo homem. Ismael Mateus é dos mais conhecidos jornalistas angolanos emergidos na época pós eleitoral. Já tem no mercado dois livros literários e uma colectânea de crónicas difundidas na imprensa luandense. Na conversa, Ismael Mateus reitera que o jornalista é o cronista do seu tempo, e que ainda não se considera um escritor de facto. As explicações vêm a seguir.

 

O jornalista e o escritor, embora em muito sejam diferentes, podem coabitar no mesmo homem. Ismael Mateus é dos mais conhecidos jornalistas angolanos emergidos na época pós eleitoral. Já tem no mercado dois livros literários e uma colectânea de crónicas difundidas na imprensa luandense. Na conversa, Ismael Mateus reitera que o jornalista é o cronista do seu tempo, e que ainda não se considera um escritor de facto. As explicações vêm a seguir.

P: Qual foi o ponto de partida do seu primeiro livro, Tempos de Yaka Ya La?

R: O ponto de partida é sempre a vivência. Eu procuro escrever sobre a actualidade angolana sem fazer história naturalmente. Digamos que é uma forma de passar mensagens sobre a actualidade, preocupações de actualidade. Portanto, o nosso ponto de partida foi o nosso passado recente, a forma como a sociedade está descaracterizada, a forma como a desregra do nosso país pode permitir que uma pessoa como Bartolas Matias galgue o que puder até chegar a primeiro-ministro. Ele foi nomeado primeiro-ministro.

P: Como é feito o retrato, ainda que ficcionado, da nossa realidade, descrita no livro?

R: Um retrato ficcionado é sempre ficcionado. A minha preocupação não é fazer história. Longe disso. Não tenho essa preocupação em trazer retratos históricos, em servir para o estudo de coisa nenhuma. A minha ideia, a minha forma de estar na escrita é me comunicar com os leitores. E, portanto, os meus são sempre ficcionados. É evidente que não é possível fazer-se qualquer ficção sem ter a realidade como referência. Há sempre reflexos da realidade, há muito da visão do indivíduo. É exactamente esta opção que faço. É fazer retratos ficcionados mas fornecendo nestes retratos os meus olhares sobre a sociedade. E, portanto, é o meu olhar crítico da desregra da sociedade que juntei em tudo isso as personagens que entram, a começar do Bartolas Matias que é a figura central mas pegando noutras realidades.

P: Como o público recebeu o livro?

R: Há muitas pessoas que se reconheceram neste livro. E muitas delas vieram me perguntar «mas você aqui estava a falar do fulano, do beltrano...». Acho que, quando as pessoas leram aquilo, as pessoas viram, ou pelo menos identificaram ali figuras que estão na nossa sociedade. Portanto, a mensagem era essa, se calhar ridicularizando até um bocado algumas destas figuras, mostrar que qualquer coisa não está bem na nossa sociedade. Eu penso que a mensagem passou, apesar da nossa situação. Eu sou um ser muito crítico em relação à forma como a literatura é analisada no nosso país.

P: Onde começa o escritor e termina o jornalista nos livros já publicados?

R: Para mim são campos completamente diferentes. O jornalista não se confunde em momento nenhum com um escritor. Eu sei que muitas pessoas, sobretudo quando viram Os Tempos de Yaka Ya La, uma das críticas que me foi feita era que era uma escrita muito jornalística. Eu aceitei esta crítica e agora, nas Sobras da Guerra parece que isso não é tão marcante. Mas eu também não tenho nenhum complexo; eu sou jornalista e portanto faço este concurso.

P: Que análise faz dos seus livros ao relê-los?

R: Quando leio os meus textos, a nota mais curiosa é a desilusão. Acho que sempre falta qualquer coisa. Acho que deveria ter melhorado alguma coisa. Acho que algumas coisas deviam ser diferentes. E isso faz-se com o trabalho. Eu já estou a trabalhar no próximo livro. E isso se faz com o trabalho. Não acredito que um dia eu possa ler um livro e ficar contente com o que vejo, mas também acontece de alguma forma em algumas páginas em que eu olho para uma frase que está conseguida e me sinto bem. Acho que a ideia é trabalhar, de modo a que os livros tenham mais páginas como estas em que eu gosto mais do que a desilusão geral que me assalta quando pego nos meus livros. Por exemplo, muita gente me fala do Bué de Bocas, que é uma colectânea, e eu não consigo ler aquilo, quer dizer, não me reconheço nem hoje em dia. Reconheço-me nos princípios e nas ideias, porque acho que continuo a defender as mesmas ideias, mas é uma escrita tão ingénua, tão infantil... também já lá vão quase vinte anos. Mas também hoje não me reconheço. Portanto é um processo de crescimento, também, que eu vou sentindo nestes vários escritos.

P: Há quem encontre nestes seus dois livros três notas: uma base jornalística, uma característica política e a natural componente literária. Concorda?

R: Concordo com a política e com alguma literatura. Mesmo nos Tempos de Yaka Ya La, onde a vida se passa num mundo político, entre os políticos, não é um livro sobre política. É um livro sobre a sociedade. Muito menos as Sobras da Guerra, que não tem nada, no meu ponto de vista, de político. Entendido político, o questionar da vida política ou um levantar dos problemas da vida político-partidária. O resto, tudo é política: falar da guerra, falar das opções políticas do País, isto tudo é política. Neste ponto de vista eu não concordo que o meu livro aborde uma matéria política. Acho que faço intencionalmente por não passar por aí. Falo sobretudo da sociedade, a minha grande comunicação com as pessoas é sobre a sociedade. Quanto à escrita jornalística, nós já falámos. É uma coisa que penso que é natural. Também não vejo porque se irritar. Há tantos escritores famosos, com esse cunho jornalístico. Não há nenhum problema. Há inclusive um género jornalístico, que é um género também literário, a crónica, também não tenho que rejeitar isso. O outro ponto que tem a ver com traços literários, eu espero sinceramente que as pessoas encontrem algum! Senão mal de nós! Eu espero que a coisa não seja muito difícil, que não seja preciso uma lupa para encontrar alguns traços literários na minha escrita.

P : Um jornalista é sempre um potencial escritor?

R: Eu acho que depende. Há pessoas que são jornalistas e fazem um percurso pela entrevista, enfim, pelos outros géneros. Agora todo aquele jornalista que faz um percurso pela reportagem, pela escrita de artigos, de crónicas, têm uma grande tendência de vir a ser potenciais escritores. O escritor é determinado pelo leitor. Porque são géneros jornalísticos que requerem do executante de quem escreve uma capacidade de criação, uma capacidade de descrição de factos e acontecimentos que propiciam que estas pessoas ganhem um certo traquejo neste estilo de comunicação. Quer dizer, nos estilo de comunicar com as pessoas com alguma literatura, com a escolha das palavras, com o efeito das palavras. No fundo, a literatura é isso. É a capacidade que nós adquirimos para usar as palavras da melhor forma possível para nos comunicarmos com as pessoas. E são duas as capacidade que vêm da reportagem e da crónica. E é sobre isso uma extensão natural.

P: O Ismael Mateus já se sente, de facto, um escritor?

R: Isso parece uma tendência das pessoais. Eu não me sinto escritor não é porque não tenha publicado ou qualquer coisa. É que nós não temos o retorno da crítica, não temos o retorno do leitor. Portanto não sou. Não sei de facto se sou lido. E gostava de ter a oportunidade de debater com as pessoas. As pessoas podem comprar-me apenas porque sou um jornalista conhecido, tenho um nome mais ou menos firmado na praça. Isso não faz de mim um escritor, faz de mim um vendedor de livros. O meu problema é, ponto número um, a existência da crítica, que permite que do ponto de vista da análise séria de quem tem capacidade para isso, analise uma obra e a defina ou não como literatura. Os padrões. A crítica também é muito discutível, mas se nós tivermos cinco críticos a dizerem que determinado livro é literatura, quem escreve o livro fica mais convencido que tem algum conhecimento nessa área e que tem capacidade de se tornar um escritor. Por outro lado, é a questão dos leitores, é importante que os leitores tenham a possibilidade de falar com quem escreve, de falar sobre os livros para que nós, para que nós percebamos que as pessoas leram, que mensagens as pessoas apreenderam. Portanto, enquanto o país não garantir esse retorno eu terei muita dificuldade em me considerar um escritor de facto.

P: Poder-se-á considerar como legítima a tendência, nesta fase, de se retratar este período guerra que o país galgou?

R: Porque é que havemos de escrever sobre o Sambizanga de há não sei quantos anos? Porque é que nós, jovens, vamos escrever sobre os musseques, só sobre o maquis? As nossas histórias são essas. São essas agora, as recentes desta Angola que vivemos, e eu faço esta aposta. Acho que nós devemos escrever sobre esta realidade, não sendo repito sob o ponto de vista histórico, mas escrevendo sobre ela da forma como nós quisermos; ficcionada, em poesia, mas sobre esta realidade. Não quero só escrever sobre isso. Mas acho que há tantos dramas sociais, há tantas coisas da nossa vida e eu acho que é possível. O meu próximo livro retrata novamente a nossa sociedade dos nossos dias. Eu não vejo nenhum problema nisso, antes pelo contrário, é preciso que façamos isso porque, durante muito tempo, o que nos impingiram no bom sentido são histórias do passado colonial, a colonização, porque os escritores eram os mais velhos daquela época e tinham vivido aquela realidade. Temos que dar um salto. E esse salto deve ser geracional, e deve ser feito à medida que aparecem outros escritores. Vejamos o Jacinto de Lemos, que não escreve sobre o passado. Escreve sobre coisas de agora. Outros escritores que aí temos tanto em poesia como noutras áreas escrevem sobre coisas de agora. Portanto, é um problema geracional também. Estamos a quebrar um percurso de colonização, do colonialismo, de histórias dos musseques para entrar em outras preocupações: Angola, a falta de luz; que tem a ver connosco, com os nossos traumas, tem a ver com a nossa vida e tem a ver com o retrato da realidade.

P: Como escritor, o que mais lhe envaidece?

R: Eu não diria dizer isso, mas me envaidece ver as pessoas discutirem comigo personagens que foram simplesmente criadas por mim. E as pessoas discutem como se aquelas pessoas fossem realmente figuras existentes, com vida. Eu sinto que qualquer coisa foi criada ali. Quem escreve tem essa capacidade, de comunicar a tal ponto que alguém venha dizer «epá, eu acho que o Bartolas deveria ter outro fim» ou «eu adoro a figura x». Há aí esta capacidade que é um poder que não se atinge pelo poder da televisão, não se atinge pelo poder da rádio, não se atinge no simples artigo de um jornal. É um poder que só o livro tem. É o poder de podermos criar uma personagem. De criarmos vícios, defeitos e de criarmos personagens que as pessoas que olham para elas se identificam com elas, e que vivem com elas, que lhes dão vida, que lhes dão expectativas. Este é o poder de comunicação que o livro tem e é o poder que me atrai: o poder de comunicar por esta via e de poder ser à nossa pequena dimensão daquele livro, um bocado deus, também. Porque criamos ali figuras e com elas fazemos as alegrias e as tristezas dos outros.

P: Disse que já escreve o seu próximo livro. Quer-nos adiantar o seu conteúdo?

R: É um romance. Tem a ver com uma história geral de um indivíduo que saiu de Angola e que viveu fora durante muito tempo. E volta ao país em busca da sua identidade. Encontra vários problemas no país, mas o problema mais grave que o indivíduo encontra é que, ao sair do país foi uma saída muito estranha, ele era bebé, ele fora registado com o nome de mulher. Para além do trauma de todo esse país e todas as dificuldades, ele ainda tem que provar a esta sociedade que não é mulher e que não fez nenhuma operação transexual. Porque em Angola há um bocado a ideia de que lá fora é fácil fazer isso. Então há toda essa história de um cidadão a ter uma luta interior com a sua identidade, com a identidade do próprio país, é por ai que eu avanço. Este livro ainda pode avançar uma volta completa. Em princípio, este ano não vou publicar nada. Se publicar será uma colectânea que eu tenho dos «votos na matéria» ou dos recados que eu tenho prometido há muito tempo. Portanto é um livro para 2005.

Na veste de político

Não sou forçado a nenhuma posição política activa

P: Fora do jornalismo e da literatura esteve prestes a enveredar pela carreira política. Porque desistiu?

R: Eu, em 1992, tinha vinte e poucos anos, era da JMPLA e achava, na altura, que era importante dar-se essa participação enquanto cidadão. E dei-a. Encerrou-se aquele capítulo, fui entretanto estudar fora e voltei, e achei que devia continuar o meu percurso, porque os problemas de 1992 já não se colocam hoje. Aquele temor todo de se voltar à guerra, a necessidade de as pessoas tomarem uma posição e não andarem com uma posição de equilíbrio. Eu hoje sou um cidadão que acha que não. Eu posso tomar uma posição de equilíbrio e dizer «tudo bem, a esfera partidária é importante mas nesse momento o mais importante é o país e, portanto, eu não sou obrigado a tomar uma posição política activa». E é nesse funcionamento que não sou forçado nem tenho nenhuma posição política activa. Continuo a ter princípios ideológicos, continuo a defender princípios que podem estar mais próximo disso ou daquilo, mas que do ponto de vista da política partidária é coisa que eu hoje dispenso perfeitamente.

Na pele de secretário-geral do Sindicato dos Jornalistas Angolanos Nós padecemos de falta de conhecimentos

P: Como analisa, neste ponto, o jornalismo cultural em Angola?

R: Eu acho que, como todo o jornalismo no geral, anda em crise. Nem estou a falar de escritores que fazem de críticos, que é outra coisa que nós aqui fazemos muito, que acho que não é honesto. Em relação ao jornalismo cultural, acho que todos nós padecemos de falta de conhecimentos. Temos todos um outro problema que é a falta de preparação para fazermos as coisas. Eu lembro-me de ter ido fazer uma entrevista sobre o meu livro Sobras da Guerra em que a pessoa não tinha lido o livro. Então como é que eu posso fazer uma entrevista de uma hora numa hora, se a pessoa que me vai fazer a entrevista não leu o livro?

P: O que lhe sugere?

R: Isso não tem nada a ver com absolutamente nada. Tem a ver com a preparação deste homem que deveria ter-se preparado melhor. A entrevista é muito mais pobre, porque abriga a quem escreve ter de estar contar a história e desvaloriza para quem ouve. Ele dirá «ele quer vender o seu peixe!», quando seria mais interessante que o autor fosse questionado pelas ideias que veicula, pelas mensagens que transmite, e se fizesse do livro um produto. O jornalismo cultural pode ajudar a fazer do livro um produto de venda. Não podemos também ter o complexo de olhar para um livro como um produto não comerciável. Se o jornalista económico, de vez em quando, tem que dizer que a lata de leite no Roque está a «x», a lata de leite no Jumbo está a «x», então porquê o jornalista cultural também não pode colocar o responsável por um produto perante o seu público, e de vez em quanto não pode dizer que o livro mais vendido nessa semana é o livro «x», e está nos sítios tais. Nós fazemos do livro uma coisa elitizante, quando podíamos torná-lo numa coisa mais acessível com pequenas informações, obrigando as pessoas a irem consumir mais, vendo não só como um produto cultural, mas também ao dispor do mercado.

P: Na qualidade de secretário-geral do Sindicato dos Jornalistas, sabe como ultrapassar esta fase?

R: Acho que passa por um processo de requalificação dos quadros. É preciso requalificar, é preciso que, com o aparecimento de melhores empresas que ofereçam melhores salários, postos de trabalho mais atraentes, os melhores comecem a ter melhores lugares, melhores oportunidades. E ao nível dos órgãos públicos é importante também que haja concorrência para que as pessoas comecem a fazer uma selecção maior. Porque, de facto, os jornalistas não sentem grande preocupação em aprender. Por outro, como não há concorrência, não há perigo de se perder o emprego, pelo menos para a maior parte deles as coisas vão-se arrastando. Fazer bem ou não vai tudo dar no mesmo. Tudo vai dar no mesmo. Pela existência de concorrência, pela existência por exemplo de jornais culturais, de rádios que se dediquem e especializem em músicas ou de programas musicais. Coisas na área da cultura que começam a atrair os melhores que a praça tem, e que começamos a ter como referência os melhores e não o que há pura e simplesmente.

Ler 4364 vezes

Contacto

AV. Ho-Chi-Min, Largo das Escolas
1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

Telefone: (222) 322 421 Fax: (222) 323 205

e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Blogs

blogspotuea1    blogspotueamulembeira           blogspotueanguimba
         
ytlogo2   blog-poetenladen   logotips