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O Escritor Assemelha-Se a um Pescador em Alto Mar

Escrito por  Abreu Paxe

Entrevista de: Aguinaldo Cristóvão

Três pensamentos caracterizam e podem resumir a filosofia de vida de Abreu Paxe, escritor angolano que recebeu pelo seu primeiro livro, A Chave no Repouso da Porta, o seu primeiro prémio literário. Para ele não há nada fácil, «tudo é difícil de se fazer». Nesta entrevista, Abreu Paxe explica também a importância da literatura infantil na maturidade de um escritor.

 

Três pensamentos caracterizam e podem resumir a filosofia de vida de Abreu Paxe, escritor angolano que recebeu pelo seu primeiro livro, A Chave no Repouso da Porta, o seu primeiro prémio literário. Para ele não há nada fácil, «tudo é difícil de se fazer». Nesta entrevista, Abreu Paxe explica também a importância da literatura infantil na maturidade de um escritor.

P: Como é que inicia a sua carreira como escritor

R: Isto foi há praticamente 16 anos. Devia ter 12 anos de idade quando surgiu na escola um concurso literário, em que nós tínhamos que dizer poesias. Eu participei no concurso, mas não o ganhei porque não era para ganhar ou perder; era para estimular, criar o gosto pela literatura por parte dos estudantes. A partir daí comecei a despertar o interesse pela literatura. Também, isso suportado pelos livros infantis da colecção do INALD. O meu pai, na altura, levava para casa a colecção toda que o INALD publicou na década de 70. O meu pai tinha o cuidado de comprar aqueles livros todos para nós. Nós líamos. Estes elementos todos serviram para despertar em mim o interesse pela literatura.

P: O interesse pela literatura procede sempre da infância? Existe sempre esta relação causa efeito?

R: Sim. Sabe que a literatura é um processo. Uma pessoa que desde criança não tem contactos com os livros; quando atinge os 15 ou 18 anos, por mais aplicado que ele seja, não acredito que 10 anos depois comece a ter evidências muito fortes com os livros. O contacto com os livros deve partir mesmo desde a tenra idade. Temos o caso da literatura infantil. Até se recomenda livros para crianças de 3 anos. Ele está nas primeiras idades, mal fala as palavras mas já tem os livros que trazem as imagens, os desenhos, uma forma de o pôr em contacto com o mundo da fantasia. Isto tudo é um processo. E a pessoa, quando atinge a fase adulta, já começa a produzir escritos espontâneos. Eu, por exemplo, conheci um cânone da literatura inglesa que escreveu o livro O Monge. Ele aos 16 anos publicou aquele livro que era muito comprometedor, que era a relação de um Padre com uma das crentes da Igreja, e sabe que a sociedade inglesa da altura era muito conservadora. Nunca admitiriam que um Padre fosse capaz de se envolver com uma das fiéis. Ele traz isto em literatura, de forma muito criativa. Quer dizer, eu estou a imaginar que, se ele aos 16 anos fazia aquilo, era porque muito cedo ele se dedicou aos livros. Porque nada surgiu ao acaso.

P: Recorda-se do primeiro título que escreveu?

R: Não. O primeiro título não posso arriscar porque, devo dizer, há muitos textos que eu escrevi até amadurecer a minha consciência artística e abandonei. Mas tenho-os ainda aí em gaveta. Mas há um que me marcou muito mas não faz parte dos textos que eu tenho publicado, nem dos que eu tenho em carteira por publicar, que é um poema que eu fiz: «Dirás Love». Este me marcou, mas o primeiro título é difícil de recordar.

P: Toda essa sua trajectória foi acompanhada ou solitária?

R: Felizmente fui bem orientado. Porque eu procurei pelas pessoas que eu achava que poderiam dar mais subsídios. Eu tinha os meus interesses e as minhas deficiências, mas muitas deficiências mesmo. Eu tinha défice de formação, mas graças a estas pessoas que eu acho que não devo revelar, estão aí à vista de todo mundo eu fui superando estes défices de formação que tinha, e também fui aos poucos amadurecendo a minha consciência artística.

P: Como surge a obra A Chave no Repouso da Porta, que lhe daria o prémio literário António Jacinto?

R: A Chave no Repouso da Porta é fruto da orientação cuidadosa e metodológica das pessoas que me acompanharam. Tenho muitos escritos, como tenho em casa, mas quando ia mostrando, ia discutindo os textos com as pessoas e elas diziam que não: «isto aqui já é publicável. Nós devemos publicar isto, por isso, isso e aquilo». Até que um dia destes, deixei ficar os textos numa dessas pessoas, e ele depois liga para mim a dizer: «eu escolhi 42 textos, e acho que estes textos são publicáveis». Mas nós tínhamos que começar num concurso. Foi assim que surgiu A Chave no Repouso da Porta, num conjunto dos outros textos que possuo. Quero dizer que é um projecto amadurecido dentro do suporte da consciência artística. Eu pensei: quais são as dimensões que a poesia tem que ter para ser elaborada e concebida? Quando eu comecei a tomar consciência das várias latitudes que a poesia tem, então fui automaticamente concretizando, ao ponto de surgir A Chave no Repouso da Porta e outros títulos que estão no prelo.

P: É um escritor que se inicia já com um prémio literário. O que é que isto traz de bom na sua criação literária?

R: Isto pode ter duas leituras: pode surgir o caso de se conquistar outros patamares, e pode ser no outro caso, de cair no poço. Porque é assim. Existe um ditado que diz o seguinte: «o nosso pior inimigo é o sucesso anterior», porque se nos amarrarmos ao sucesso anterior, podemos até não conseguir andar na caminhada, mas se reflectirmos, e conseguirmos amadurecer o sucesso que temos, é um bom incentivo para os trabalhos subsequentes. Eu queria dizer que começar com o prémio é incentivador, porque eu já tinha vencido o concurso de poesia da rádio, que o Ministério do Interior havia realizado, por ocasião do dia de África. Quando ganhei apresentaram-me as razões que me levaram a ganhar. Comecei a acreditar naquilo que estava a fazer. Depois deste prémio veio outro: António Jacinto com A Chave no Repouso da Porta. Acredito que todos os escritos que tiver vão se reflectir na credibilidade que estes textos ganharam na crítica do Júri.

P: Abreu Paxe vem de um grupo de novos escritores que vão surgindo. Como encarou a entrada o mundo da literatura?

R: Como sabe, o mundo da literatura não é um mundo pacífico, é um mundo turbulento. Uma pessoa entra no mundo da literatura como o pescador com uma canoa para vencer o alto mar. Sempre que for para o mar, receias sempre as tempestades que podem advir dali. Isto é para lhe dizer que eu comecei a apresentar os meus textos ao público através da página cultural do Jornal de Angola. Uma por ano. Vou continuar a publicar uma vez por ano. Em Outubro publicava um número de textos. Estes textos foram alvo de leituras, e as pessoas mais honestas incentivavam-me a continuar, e eu senti nelas esta honestidade, as menos honestas, foram criando intrigas por ali a fora, fazendo comentários impróprios, então decidi ouvir a voz das pessoas que me aconselhavam a continuar.

P: Nota-se, por vezes, uma confusão que se faz entre a União dos Escritores e a Brigada Jovem de Literatura?

R: São organismos distintos. Quando se é da brigada não significa que tem automaticamente o passaporte directo para entrar para a União. São organismos diferentes, e perseguem objectivos diferentes, embora todos eles sirvam a literatura. O que eu queria dizer é que não estou em condições porque o contacto que eu tenho com a Brigada cinge-se mesmo só na perspectiva histórica, então é a única informação que eu lhe posso dar, agora se for para projectos actuais ou futuros há pessoas indicadas, está o John Bella e outros jovens da Brigada que estão ligados à Brigada Jovem de Literatura, porque eu não tenho acompanhado as actividades da Brigada Jovem de Literatura.

P: Escolheu por eleição a poesia, porquê?

R: Porque eu gosto do inconcluso, gosto do infinito, do espaço, coisas largas. A prosa esgota as coisas. A poesia abre espaço, abre outros mundos, desenvolve-nos outras dimensões. Portanto a poesia para mim é isto: é a realização, o indefinido, o inconcluso, o sempre, sempre e o eterno, e então foi nesta perspectiva que eu abracei a poesia, porque eu gosto sempre de fazer o que devo fazer sempre.

P: Muitos escritores consideram que a «nova geração» tem muita tendência em se apegar na poesia. Concorda com esta opinião?

R: Isto é verdade. Mas não é verdade quando eles dizem que a nova geração apega-se à poesia porque ela é a mais fácil de se fazer do que a prosa. Se calhar também quem envereda por esta via pensa que fazer poesia é mais fácil que prosa, mas não é verdade. Porque para uma pessoa com uma consciência artística amadurecida, ele já conhece quais são os propósitos que a poesia tem no domínio da literatura, porque a poesia nos géneros literários é um género em que se cultiva o uso da linguagem ao mais alto nível. A prosa aparece a todos os níveis. Por exemplo, aquilo que disse Jean-Paul Sartre sobre Hitler, que quando declarou guerra à Polónia fez prosa; um patrão a pedir chinelo à empregada faz prosa. Agora a poesia tem outras dimensões. A poesia é um exercício que requer um certo trabalho, requer esforço, pesquisa, informação. Realmente. Como tudo, não há nada fácil, tudo é difícil de se fazer. Mas a poesia é muito mais difícil, e não posso acreditar que as pessoas que até eu noto que falam quase sempre isso não são verdade. Eu pessoalmente não concordo.

P: Como escritor, o que lhe sugere o actual estado da associação dos escritores angolanos?

R: É bom, porque a União dos Escritores Angolanos tem por finalidade promover os escritores. A promoção passa sobretudo pela publicação de obras dos escritores. Nós só nos tornamos escritores se tivermos uma obra publicada, e seremos promovidos se tivermos obras publicadas. A União retomou a actividade de publicação dos livros e, pelo que se vê, é animador. A União tem estado a desenvolver esforços para dar aos escritores a dignidade para serem reconhecidos na sociedade como tal.

P: Disse que tem algumas obras para publicação, mas outras continuarão em gaveta. O que faz nesta altura?

R: Eu publiquei os meus textos no Jornal de Angola até 1999. Fruto disso, fui recebendo encorajamentos. Entretanto, há uma parte dos textos que eu já tinha preparado, que constituía o meu primeiro livro, que abandonei praticamente. O que não significa que já não os vou publicar. Tenho aqueles textos em qualquer lado em casa, porque eu vi que aquilo não tinha nada a ver com aquilo que eu precisava fazer, que é a poesia. Entretanto mudei de rota, e talvez eu possa dar uma leitura e melhorar alguns textos. Pretendo sobretudo dar prioridade à minha actividade académica, que é o que me proponho.

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