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«Todas as Variantes do Português São Bem Vindas na Literatura Angolana»

Escrito por  Jorge Macedo

Entrevista de: Isaquiel Cori

Escritor de múltiplas facetas, cultivando a poesia, a narrativa, o ensaio e a crítica, caracterizando-se por uma permanente intenção de «marcar» o seu tempo, é vê-lo a fazer apresentações de livros e autores, a proferir palestras e a assinar textos em jornais. Jorge Macedo, aos 62 anos de idade, conserva um espírito juvenil, aberto ao diálogo. Na entrevista que poderá ler abaixo, Jorge Macedo fala sobre o futuro da língua portuguesa na literatura angolana, opina a respeito da aparente deslocação do centro de consagração dos escritores angolanos para Portugal e, ainda, sobre o tratamento literário do tema da História de Angola. Como não podia deixar de ser, dá a conhecer os seus, muitos, projectos literários. Mas, na condição de etno-musicólogo, fala também das suas pesquisas musicais relativas à marimba e ao semba. No fim, dá o seu ponto de vista sobre o futuro de Angola em paz, bem como sobre África, este tão sofrido continente.

 

Escritor de múltiplas facetas, cultivando a poesia, a narrativa, o ensaio e a crítica, caracterizando-se por uma permanente intenção de «marcar» o seu tempo, é vê-lo a fazer apresentações de livros e autores, a proferir palestras e a assinar textos em jornais. Jorge Macedo, aos 62 anos de idade, conserva um espírito juvenil, aberto ao diálogo. Na entrevista que poderá ler abaixo, Jorge Macedo fala sobre o futuro da língua portuguesa na literatura angolana, opina a respeito da aparente deslocação do centro de consagração dos escritores angolanos para Portugal e, ainda, sobre o tratamento literário do tema da História de Angola. Como não podia deixar de ser, dá a conhecer os seus, muitos, projectos literários. Mas, na condição de etno-musicólogo, fala também das suas pesquisas musicais relativas à marimba e ao semba. No fim, dá o seu ponto de vista sobre o futuro de Angola em paz, bem como sobre África, este tão sofrido continente.

P: É comum dizer-se que a sociedade angolana se encontra numa profunda crise de valores, que não terá havido uma transmissão de valores positivos dos mais velhos aos mais jovens. Pessoalmente, atendendo à sua idade, sente-se de alguma forma responsável por isso?

R: Eu colaborei, depois do 25 de Abril de 1974, com os jovens das brigadas jovens de literatura. Eles mesmo reconhecem que os ajudei naquilo que foi possível. Escrevi bastante no Jornal de Angola sobre várias matérias teóricas, debrucei-me sobre os problemas de geração, dizendo que não era uma questão etária mas de espírito. Procurei também colaborar teoricamente para que não se escrevesse sem qualidade. Sinto que cumpri com o meu dever de transmitir, como mais-velho, as experiências para aqueles que começavam a jornada da criação literária.

P: A sua condição de crítico literário, e dos mais capazes, diga-se, dá-lhe uma perspectiva privilegiada da Literatura Angolana. Pode falar-nos do panorama e das tendências mais interessantes da Literatura Angolana actual?

R: No capítulo da poesia, emergiram nos anos ‘80 bons poetas: Maimona, José Luís Mendonça e outros, como o Fernando Kafukeno, o Panguila, a Ana Paula Tavares, o Cassé, o Rui Augusto, o João Tala, enfim, uma série de poetas que escrevem boa poesia. Mas, como não há bela sem senão, também está a produzir-se muito mal. Há mais má qualidade poética do que boa. Os jovens estão a escrever sem critérios teóricos e estilísticos e cá estou eu a escrever no semanário Angolense temas ensaísticos sobre a enlirização ou a arte de saber fazer poesia. Quer na prosa quer na poesia sente-se um neo-nacionalismo. No tempo colonial, nós inserimo-nos na frente anti-colonial e nacionalista. Era um nacionalismo com o objectivo de resgatarmos a nossa terra. Depois do 25 de Abril, chega a guerra, não entrámos com o pé direito na hora da liberdade, entrámos na guerra civil. A guerra civil provocou uma série de sequelas económicas, bem como o anti-patriotismo, na medida em que nós, da frente nacionalista do primeiro período, procurámos unir os angolanos (nós, os escritores), fizemos um esforço para que tivéssemos uma cultura patriótica fraterna. Ora, depois do 25 de Abril, todo o nosso trabalho de anos caiu por terra, os angolanos passaram-se para os partidos e os partidos beberam ódios uns contra os outros. Isso defraudou-nos. Com a guerra, a miséria cavou mais fundo os seus buracos, as ideologias olharam mais para as cadeiras do poder do que para a satisfação dos interesses mais legítimos do povo angolano, para o problema da sua união, da sua fraternidade e da sua solidariedade.

P: De que modo é que tudo isso se reflecte na criação artístico-literária?

R: Reflecte-se muito. Leia Maimona, Conceição Cristóvão (esqueci-me de o mencionar como um dos bons poetas) e lerá nas entrelinhas da sua poesia simbolista um amargo, uma crítica velada. Quer seja o Mendonça, o Maimona, o Kafukeno ou o Panguila, em todos eles, há um desencanto. Mas os novos escritores abraçaram uma poesia simbolista em vez da poesia de contacto que era a nossa, uma poesia que também se chamava panfletária porque tinha uma mensagem funcionária. Portanto, houve de facto uma mudança.

P: Uma delas, poesia simbolista ou panfletária, melhor que a outra?

R: Não. São campos, são codificações, diferentes.

P: Quais são os grandes méritos e os «pecados mortais» da nova geração de escritores angolanos?

R: Antes de mais é preciso separar o trigo do joio. Escritor é escritor. E não escritor é não escritor. Há muitos indivíduos que aparecem a assinar livros, que não leram bem a teoria literária e não têm obras conseguidas. Portanto, não podem considerar-se escritores.

P: Obra literária é apenas aquela que é «conseguida»? Quem define uma obra literária como sendo «conseguida»? O ensaio?

R: São as teorias. A pessoa tem que ler a retórica, a estilística, a teoria literária... De posse dessas regras, aplica-se o talento a elas. Essas teorias são exigentes. Dizem que a forma de uma narrativa é esta e assim, assim... Os conteúdos estilísticos devem ser estes, estes, estes... Uns conseguem, outros não. Porquê? Há um vazio teórico no nosso país. Não há uma Faculdade de Letras (só foi criada muito recentemente), as escolas não ensinam bem a literatura... Há autores que estão a aparecer com bons contos. Por exemplo, dos que já li, há os contos do Ondjaki, o último romance do Nehone (Tempos sem Véu), que está muito bem escrito. Eu tive o privilégio de ler esse romance antes de ir à gráfica.

P: Tendo sido um dos adeptos da subversão do português oficial, sobretudo no livro Gentes de Meu Bairro, como encara a questão da utilização da língua portuguesa na literatura angolana? Acredita que o caminho da subversão continua a ser dos mais profícuos para a concretização de uma identidade literária angolana?

R: Vou repetir uma frase que o escritor Boaventura Cardoso muito preza. Ele diz que ao espelhar os falares do português angolanizado sente-se mais realizado. Pepetela escreve no português, digamos assim, de Portugal. Assim o João Melo, o Dario de Melo e o Nehone. O Nehone só transporta para os seus textos o português angolanizado em certos diálogos. Todas as variantes da língua portuguesa são bem vindas na literatura desde que bem tratadas. Mas há uma questão interessante. Se reparar, a maioria dos angolanos, os estudantes, a população dos musseques, têm um português bastante angolanizado. Mas há que respeitar o direito do escritor de escolher qualquer uma das variantes. Por exemplo, há dias fui abordado, porque fiz parte do júri que a premiou (Prémio Sonangol de Literatura 2002 Revelação), por causa da obra do jovem Pacavira (Árduas Esperanças, novela). Os que criticaram o júri apontaram precisamente esse português angolanizado como um erro. Eu não concordo. A reprovar-se esse português angolanizado deveríamos também reprovar a obra O Signo do Fogo de Boaventura Cardoso, a Obra do Luandino Vieira, alguns poemas do Alexandre Dáskalos, do poeta António Jacinto, a obra de Jofre Rocha em Estórias de Kapangombe...

P: A intencionalidade de subverter a língua implica um conhecimento profundo dessa mesma língua... Quanto mais conheça a língua mais o escritor estará capacitado para subvertê-la de modo coerente...

R: Sim. Mas vamos por partes. Eu quando escrevi Gentes de Meu Bairro, já que falou nisso, estava na frente cultural anti-colonial. Foi nessas épocas que os escritores resolveram subverter a língua portuguesa mas espelhando os linguajares do nosso povo ou dos nossos personagens.

P: Era uma questão de afirmação cultural.

R : Era uma questão de afirmação cultural e de dignificação das gentes que não falavam bem o português. Isso de «não falar bem o português» é antigo. Outrora, para se ser funcionário público, para exercer certas funções, tinha de se falar correctamente o português. Mas a maioria dos angolanos falava sempre um português não diria insubordinado, mas um português seu, que não tinha nada a ver com o português mater dos portugueses. Isso acontece também com os brasileiros. Se estiver atento, nas telenovelas o português dos brasileiros tem mais a ver com o português angolanizado do que com o português mater. Vamos dizer que os brasileiros falam mal? Não, falam uma variante da língua portuguesa.

P: Há, então, que fixar na escrita a variante angolana do português...

R: Há muitos escritores novos que não se revêem na linguagem de Gentes de Meu Bairro, nos vários livros do Boaventura Cardoso... É uma opção, preferem o português padronizado de Portugal. Temos de respeitar essa opção. Está dito e escrito que os escritores ajudam a fixar uma competência linguística. Ora, isso no espaço e no tempo. Ainda é muito cedo para fazer uma previsão do que há de ser a variante da língua portuguesa em Angola. Existem muitos jovens que falam um português muito agramatical em relação à gramática da língua portuguesa de Portugal. Vai levar muito tempo a inverter essa situação. Enquanto isso, vão aparecer textos com aparentes incorrecções. Digo aparentes porque, se o português está angolanizado, vamos ter um dia que legitimar esse português.

P: Isso dependerá muito da evolução do sistema de educação e ensino...

R: Sim. Se a gente quiser um português padronizado segundo as normas da língua mater, vai ter que haver muito trabalho. As escolas, os professores, terão de ser muito bons, é necessário que convidem sempre escritores para sessões de tratamento da língua. Mesmo assim, os efeitos só a longo prazo se farão sentir.

P: Nos últimos tempos, o senhor tem vindo a destacar-se como apresentador público de livros e de autores, tarefa a que, aparentemente, se tem vindo a entregar com o maior prazer. Lembramo-nos das apresentações dos livros Cenas que o Musseque Conhece, narrativa de António Gonçalves, A Forma dos Desejos, poemário de João Tala, e Tempos Sem Véu, romance de Roderick Nehone.

R: E o livro de poemas do Ondjaki (Há Predisajens com o Xão)...

P: Que fim procura atingir com esse tipo de intervenção?

R: Comecei a escrever em 1957. A escrever e a ler a teoria musical. Um indivíduo que está a ser formado para padre...

P: Chegou a concluir o Seminário?

R: Não, saí já quando estudava filosofia, muito doente. Lá, tiravam-nos o sotaque em menos de um mês. Em pouco tempo, a gente entrava no português-norma, até porque vivíamos num circuito muito fechado. Já no primeiro ano começávamos a estudar composição literária, seriamente, aquilo não era brincadeira nenhuma. Essa coisa das imagens, o que é um texto, o que é o maravilhoso, todos os géneros...

P: esteve no seminário, em Luanda?

R: Em Malanje e Luanda. Com os latins e etc. ganhei um cabedal muito grande. Eu saí do Seminário e contactei escritores como Mário António, Samuel de Sousa e outros.

P: Isso foi por volta de que anos?

R: Nos anos '60. Entrei no Seminário em 1954 e saí em 1960. Aquilo deu-nos uma grande bagagem para a escrita. Ganhei muita experiência, sou escritor, gosto de boa prosa e de boa poesia. A teoria no espaço e no tempo e o gostar de boa prosa e bons versos contribuem para que eu me dedique à crítica literária. Mas uma crítica literária objectiva, estrutural. Quando me dão uma obra faço fichas temáticas dos personagens, do desenrolar das cenas, enfim, por items. Posteriormente reflicto a teoria na minha análise.

P: Nos casos em que a obra não o agrada, mesmo assim vai para a frente?

R: Geralmente não a apresento. É deselegante irmos apresentar uma obra e colocar na lama o colega. Não é de boa moral. Você perguntou que fim procurava alcançar com a apresentação pública de livros. Sinto-me bem, satisfeito, porque estou a marcar o meu tempo e a ajudar os mais jovens, que o são não por terem menos idade mas por estarem a iniciar-se na escrita.

P: Até há relativamente pouco tempo esteve a viver em Portugal...

R: Até há três anos.

P: O que é que o levou a viver fora do país?

R: Foi uma questão familiar. Tinha uma filha doente, asmática, que cá não estava bem. Falei com o Mendes de Carvalho, que na altura era o ministro da Saúde, e ela foi evacuada para Portugal. Ela ficou em casa de uma tia. Lá colocada, vai outra minha filha visitá-la e ficam as duas lá a viver, sem me consultarem. Um dia vou lá visitá-las, tomo consciência do perigo que as cercava e como pai decidi: «Digam lá que eu fugi mas o meu dever é primeiro pôr as meninas formadas e só depois regresso». Não consegui arranjar bolsas de estudo aqui porque estava a ser estigmatizado de fuga. Mas as minhas filhas formaram-se, uma em música, a Té Macedo, que também está em Direito, e a outra em Economia.

P: Durante o tempo em que esteve em Portugal aproveitou reforçar a sua formação?

R: Sim. Fiz jornalismo no CENJOR. A linguagem jornalística é muito agradável, tem os seus géneros. Tive muitos contactos com bons poetas, professores de Literatura, fiz muitas conferências e fui homenageado, em meados dos anos '90, pela Universidade Lusófona, por cerca de 40 anos de actividade literária, por iniciativa da professora Elsa Rodrigues.

P: Pode falar-nos das suas leituras mais recentes? O que é que tem andado a ler?

R: Leio tudo. Os livros estão muito caros mas leio tudo o que me aparece em mãos. Vou publicar em breve um trabalho sobre a poesia angolana dos últimos vinte e um anos e estou a debruçar-me agora sobre a prosa, ver as tendências, as temáticas.... Quem lê Manuel Rui não está a ler Pepetela... Quem lê Pepetela não está a ler Nehone... Estou a recolher o máximo possível de obras. Ah, dos poetas novos não falei do nosso Marcolino Moco, que assina Domingos Florentino. Gostei sobretudo do seu primeiro livro, o segundo tem umas coisas que ele poderia ter evitado. Se tudo me correr bem, vou fazer um manual de composição literária. Eu perdi uma obra, por empréstimo, do escritor Abel Ferreira se não estou em erro, uma obra assim pequenota mas que tinha tudo, tudo, tudo. Ele dava muitos exemplos, o que facilitava imenso a aprendizagem.

P: Sente que a literatura angolana vem reflectindo os principais problemas dos angolanos, seus sonhos, suas preocupações?

R: Sim. Por exemplo aquele jovem, o (Gonçalves) Pacavira, cuja obra (Árduas Esperanças) foi premiada e se tornou polémica, conta a história do menino de rua que depois soube ressarcir-se e inserir-se na sociedade normal. A crítica traz sempre subjacente o apontar dos erros e os apelos para a mudança. O último livro do Maimona, O Lugar e a Origem da Beleza, critica mas também aponta soluções, assim também Conceição Cristóvão.

P: Mas é necessário, é obrigatório, que o escritor aponte soluções para os problemas da vida real?

R: Isso chama-se literatura engajada, de intervenção. Mas o escritor é livre de escrever o que queira. Com o meu livro O Menino de Olhos de Bimba procurei espelhar um bocado do lindo imaginário da criança. Se bem que, quando chego na última parte, a criança é levada por um pássaro que a encanta, é preciso procurá-la, foram ter com o soba da região... Aí, eu incido na obra componentes culturais angolanos. Através dos tambores telecomunicadores pôde-se saber onde é que a criança estava e quem a tinha raptado. Referem-se aí muitas lições sociais. O escritor é livre de abordar os temas que queira. Em situações de convulsões sociais há escritores que mobilizam os outros para reflectirem sobre o tempo que estão a viver. Mas, como dizia, o escritor é livre para escolher os seus temas: temas do país ou de fora.

P: Nota-se um facto curioso: os escritores angolanos fazem muita questão de publicar, até mesmo em primeira mão, as suas obras em Portugal. É como se estivessem em busca de uma certa legitimação da sua obra, como se a sua consagração só fosse completa com o reconhecimento da crítica em Portugal. Portugal constitui-se assim no centro de legitimação da literatura angolana. Não há o risco de valorizarmo-nos essencialmente a partir do olhar do outro?

R: Isso de os escritores correrem a Portugal tem várias vertentes. Tem a vertente comercial, porque fica muito mais barato, segundo dizem alguns editores, editar em Portugal do que em Angola. Angola tem um campo gráfico muito pequeno e as obras demoram muito a serem editadas, são priorizadas outras, é preciso ir à gráfica pedir esmolas... Eu assisti à publicação do livro do Dr. Edmundo Rocha, um livro de carácter histórico sobre o nacionalismo angolano. O livro demorou bastante tempo e o autor quase ficava desesperado. Mas agora, o aspecto de estar-se à espera de uma chancela dos intelectuais portugueses para que nos sintamos reconhecidos é uma sequela do colonialismo. Porquê? Porque nós habituámo-nos à escravatura mental, que fez com que nos auto-cafrealizássemos perante o homem europeu. Se o Jorge Macedo disser que esta ou aquela obra é boa e vier um europeu dizer «não, esta obra não presta», o angolano é capaz de deixar a opinião do Jorge Macedo e ir agarrar a opinião estrangeira. Há que reverter a situação nesse ponto de vista. Contudo, todo o indivíduo que escreve também aspira a ser conhecido internacionalmente. Aí não vejo que o escritor não deva promover-se. Pode crer que por exemplo José Saramago e outros grandes escritores, escrevem bem mas têm uma retaguarda de promoção muito grande. Não basta ser bom escritor, é preciso cuidar da própria imagem. A literatura, enquanto obra que se deve divulgar, não é, digamos assim, uma arte despreocupada, não é só arte, é tudo o que está à sua volta, os críticos, as indústrias, os editores, as feiras, os best-sellers, tudo isso. A gente, quando escreve uma obra, actualmente, tem de ser um bocado objectivo, é bom que a obra seja funcional, ver um tema interessante que o leitor vai logo agarrar.

P: Literatura pela literatura, literatura «pura», já não vale?

R: A literatura pura tem um sentido, de que o escritor escreve só por amor à beleza verbal. Mas agora, se tem intuitos comerciais, tem de escrever com uma certa intencionalidade.

P: Quais são os seus projectos literários, para além dos que já referiu?

R: A editora Kilombelombe tem um ensaio meu sobre Angola intitulado Angola: Entre a Realidade e o Mito, tem um romance, há cerca de três anos, A Tia Mbeje, tem um livro de poemas, Luanda Detrás da Sua Cidade. Esse livro de poemas tem uma linguagem dos anos ‘60, que me ocorreu sob o impacto do regresso à Pátria. Tenho uma obra poética intitulada Ternura de Olhos Verbais, que vou entregar para edição à União dos Escritores Angolanos depois de o Luís Kandjimbo me enviar o prefácio. Estou a trabalhar num livro de ficção que tem como título As Aventuras do Jojó na Aprendizagem da Língua. Pretendo também recolher em livro os trabalhos ensaísticos que eu vou publicando no semanário Angolense há três anos. Como sabe, eu tenho a vertente de etno-musicólogo. Neste momento, estou a tentar acabar duas obras, em que estou a pesquisar há dois anos: uma sobre o semba, que será composta por ensaios com transcrições musicais, e outra sobre as marimbas em Angola.

P: Sobre as suas investigações etno-musicológicas vamos falar mais adiante. Alguns dos nossos maiores prosadores, nomeadamente, Pepetela (Yaka, Lueji, A Gloriosa Família), Henrique Abranches (Misericórdia para o Reino do Congo!), Arnaldo Santos (A Casa Velha das Margens) mergulharam na história de Angola com propósitos literários. Como avalia o tratamento da temática da história por esses autores?

R: O escritor pode, quando quer, enveredar para a literatura de investigação. Aqui é preciso ter muito bom talento para tratar temas históricos, mas é preciso não deformar os dados da História. Por exemplo Pepetela escreveu Lueji com fins ideológicos para rebater mitos, aquele mito de Cibinda Ilunga. Mas quem é marxista é assim mesmo, não é? Rebate os mitos, é objectivista, é materialista... Mas quando a gente subverte os valores que já se tornaram História... por exemplo, aquele é um mito de fundação daquele reino (Lunda). Os mitos de fundação têm um carácter pedagógico que não deve ser posto em causa. Quando o nosso avô nos diz «Ó, menino, não comas manga verde, se comeres vai te nascer um pau por cima da cabeça!», o velho está a mentir, aquilo é um mito, mas é um mito pedagógico que não devemos combater porque é uma forma didáctica, patriótica, da cultura oral. É preciso que o escritor saiba trabalhar bem a História.

P: Continuando na temática da História. Acredita que seja eticamente correcta a ficcionalização de figuras relevantes da História recente, como por exemplo um Agostinho Neto, um Mário Pinto de Andrade, um Viriato da Cruz, atribuindo-lhes inclusive actos e palavras que não fizeram e não disseram realmente?

R: Não, não é de boa deontologia deformar a História. Qual é a necessidade que nós temos de atribuir actos e protagonismos que o personagem histórico não fez? Não sei se as famílias não se sentem mal, não é? Mesmo que seja pela positiva, não é honesto.

P: O exemplo mais paradigmático dessa deformação é o romance Estação das Chuvas do José Eduardo Agualusa.

R: Sim, eu não estou de acordo. Eu estive no Brasil a representar Angola, eu, o Arlindo Barbeitos e o Armindo Francisco, na festa dos homens dos Palmares. Há lá movimentos negros com razões de ser. Eu se, por exemplo, quiser combater o racismo tenho vias, mecanismos, para o fazer. Mas não vou, por exemplo, pôr em causa Zumbi dos Palmares.

P: Está a referir-se ao romance O Ano em Que Zumbi Tomou o Rio do Agualusa...

R: Zumbi dos Palmares é uma figura real da História. Não é deontológico.

P: Sabemos que tem vindo a fazer pesquisas sobre a música angolana. Podemos saber do estado dessas pesquisas e das conclusões a que eventualmente já terá chegado?

R: Sobre as marimbas ainda não pude pesquisar à escala nacional. Fui para escolas de Malanje. No tempo de guerra era tudo complicado. Fui à Lunda e não consegui fazer nada por causa da situação de guerra. Conclusões... A etno-musicologia não se preocupa só com os sons, mas também com os impactos sociais da música. E sabemos que a nossa música de raiz bantu é uma música funcional. Conta histórias de comportamentos, critica comportamentos, fala dos reis e dos reinos. Pude de facto tirar muitos elementos, que já apresentei em três universidades dos Estados Unidos e na Biblioteca do Congresso daquele país. O mais tardar até Outubro esses elementos serão publicados em livro. Agora, estou engajado no Prémio Nacional de Cultura e Artes, no Festival LAC da Canção, fui integrado na caravana que vai participar quer no festival africano de música quer na conferência, que também consta do programa do mesmo festival. Só então vou a Portugal para honrar os compromissos da publicação do livro sobre a música. É uma pesquisa muito complicada, os atrasos devem-se a isso. Os informantes geralmente têm receio de entregar informações que fazem parte dos alicerces históricos da sua comunidade. Para arrancar alguma coisa deles leva muito tempo. Quanto ao semba... Há muitas incorrecções teóricas sobre o semba. Diz-se que o samba vem do semba, mas, historicamente, isso não está provado. Fui buscar fontes quer brasileiras quer do grande etno-musicólogo zairense Kazadi wa Mukuna. Deixei de aparecer nos programas que gostam de abordar esses temas sem as pessoas especializadas na matéria. Discute-se mais pela emoção e pela emoção quem está a estudar sai quase sempre sujo.

P: Estava a falar do semba...

R: Ah, o semba tem muita conversa. Semba e samba têm componentes estruturais do mesmo tronco comum bantu. Você com ovos e trigo pode fazer um tipo de bolo e outro fazer um tipo diferente. Muitos angolanos que se debruçam sobre esses temas não os estudam na profundidade. Para os estudar na profundidade tem de se saber mesmo música e conhecer a pauta musical. Conhecendo a pauta musical, vai se ver que as estruturas estão ali e onde estão os pontos comuns e os pontos diferentes. Para elaborar a minha investigação fui buscar literatura bem como o meu próprio raciocínio.

P: Quando é que este livro sobre o semba vem a público?

R: Estou a terminá-lo neste momento Vou fazer um seriado, do semba irei para o kilapanga, para a kazukuta...

P: O semba é de facto o paradigma da música angolana?

R: O semba é uma música muito forte, que deve ser respeitada, tem a sua história. Mas há outras músicas. Agora, por exemplo, o Duo Txissochi, os Irmãos Kafala, o Mito Gaspar, e outros, estão a trazer das províncias ritmos muito lindos. Tenho a intenção de ir às províncias captar sons e classificá-los.

P: Aonde é que, na sua idade, vai buscar tanta energia?

R: A energia? (Risos). Essa energia nasce dum amor patriótico muito grande. Amor patriótico e amor artístico. Em minha casa, ou me encontras a estudar, a fazer transcrições musicais, que são um bocado aborrecidas porque como não têm partituras você escuta as composições, às vezes os instrumentos nem se escutam muito bem, é um trabalho muito terrível. Ou me encontras a fazer esse trabalho ou a fazer estudos literários... Eu estou jovem cá dentro.

P: O que pensa desse género musical tão contestado mas, ao mesmo tempo, tão dançado que é o kuduro?

R: São as modas.

P: As modas são passageiras...

R: Sim, são passageiras e nós não devemos educar a nossa juventude com coisas dessa natureza. O que a juventude quer é curtir, quer ritmos galvanizantes para se divertir. E estamos num período de transição muito difícil, não há alternativas e os jovens seguram-se a qualquer coisa. O kuduro tem um aspecto rítmico do semba. Mas o semba é muito mais rico. O kuduro ficou com uma pancada, duas estruturas rítmicas, salvo erro, que é a batida básica, e depois vem um flash que dá a fisionomia do semba. Mas o semba é um agregado de ritmos muito mais rico, tem viola baixo, tem viola ritmo, tem viola solo, tem sopros, tem a parte da melodia, tem as tumbas. Só o conjunto, só todos esses efeitos é que dão o enriquecimento do semba. Agora, reduzir o semba àquela brincadeira... O mal do kuduro não é só aquele ritmo monótono, aliás os pops e os raps às vezes também têm disso. Mas há o lado da letra, a letra do kuduro é incultura, asneira.

P: Mas há excepções a isso.

R: Há excepções mas a gente sempre vai pela generalidade, não vai pela excepção. E no caso do kuduro há muito poucas excepções. Há aspectos didácticos, de crítica social, este é o lado positivo. Mas como música temos que a banir, no espaço e no tempo ela vai morrer.

P: Banir... proibir?

R: Não é proibir. É educar. Nunca é possível desviar os gostos, as modas de uma época. É com o tempo e com a educação musical que temos de modificar as coisas.

P: Trata-se de uma tarefa muito difícil, no caso do kuduro.

R: Difícil, mas não impossível. É preciso contrapor. Como? Apanhando a outra parte da juventude que começa também a fazer outro tipo de música. Senão a nossa música vai morrer, morrer no sentido de que a juventude que agora está a fazer a ponte no futuro não vai fazer mais nada.

P: Com a sua licença gostaríamos de colher a sua opinião sobre a obra de alguns escritores e músicos. Boaventura Cardoso?

R: As doutoras Tânia Macedo e Rita Chaves e a editora Chá de Caxinde vão editar um livro sobre a obra do Boaventura Cardoso. Vou participar nessa obra com um ensaio. Conheço-o desde os anos ‘50, em Malanje. Na altura ele ainda não escrevia, começou a escrever recentemente. Eu sempre o vi como um apaixonado da cultura angolana, afro-angolana, sem pôr de lado a estética. Ele tem muito amor às gentes que falam o português angolanizado, tornou esses falares na sua língua literária.

P: Pepetela?

R: Considero a obra de Pepetela, maioritariamente, como sendo de intervenção social. É um escritor que está preocupado com os desregramentos sociais.

P: Manuel Rui?

R: Este é um poderoso escritor, que quase intervém sobre os acontecimentos sociais. Qualquer das suas obras tem algo que está passando, que lhe merece uma sátira. Aliás, ele é o maior escritor satírico que nós temos. É um escritor de um punho pesado, pesado no bom sentido. Ele ama muito as letras, ama tanto a literatura que não pára. É dinâmico, muito dinâmico.

P: Jacinto de Lemos?

R: É um ficcionista que tem uma prosa bem conseguida e sabe ventilar os temas.

P: Agora os músicos. Carlos Lamartine?

R: É um cantor de semba incontestável e de muito talento. É um cantor de intervenção política no tempo colonial, é um artista consagrado.

P: Bonga?

R: O Bonga para mim, antes de ser um grande músico, é um grande patriota. Nunca deixou de cantar as músicas de raiz, faz intervenção social com elas e sobretudo dignifica essa música em todas as partes do mundo.

P: Elias diá Kimuezo?

R: Agora tem produzido pouco, não? É um artista consagrado, nada tenho mais a dizer.

P: Como é que pensa o futuro de angola depois da guerra?

R: Nós lutámos por um mundo melhor no nosso país. A guerra interrompeu, há que olhar para a frente. Estamos numa conjuntura difícil mas temos todos, Governo, Sociedade Civil, de dar as mãos, ajudar a corrigir os erros de governação e sermos construtivos. Em Portugal escrevi bastante na revista Afro-Letras. Eu reflectia sobre a sociedade portuguesa e achava que os partidos políticos gastavam a maior parte do tempo a proteger as suas cadeiras em vez de resolver os problemas do povo. Notei que os políticos europeus, e talvez mesmo os africanos, fazem dos partidos não uma sociedade de melhor governação mas uma sociedade de busca de privilégios. Depois, os políticos não agem na união do povo, tornam os seu partidos numa espécie de clube político com fins comerciais. Digo isso com o coração. Eu, como mais-velho, gostaria que o futuro dos partidos políticos no mundo fosse de sociedades de prestação de serviços, com projectos muito concretos, que todo o eleitorado lesse e discutisse. E nunca deveriam contribuir para a divisão patriótica dos povos.

P: Os partidos deveriam deixar de ter o monopólio da vida política?

R: Não é o monopólio da política. Se não tivermos sociedades políticas organizadas para fazer a governação, o poder cai na rua. Mal de nós sem partidos políticos!

P: Para terminar, como é que vê o futuro de África, em meio aos conflitos armados, epidemias como o SIDA, fome e outros males?

R: Quando eu vivia em Portugal, quase que lutar, falar bem da África, era um crime para os nossos parceiros europeus. «Vocês andam aqui a pedir esmolas quando vocês é que deviam dar dinheiro, esbanjam o dinheiro, um continente rico mal governado!», enfim... Estamos numa época em que é preciso fazer viragens. Mas essas viragens não são mágicas nem deverão ser sangrentas, com golpes de Estado militares. A praga da inversão do protagonismo dos africanos tem de acabar. São os estrangeiros que exploram e beneficiam das riquezas de África. Nós os africanos estamos remetidos aos mercados de rua, de manhã até à meia noite. Temos de inverter isso e sermos nós a assumir os cordelinhos da economia, mas de uma economia de sucesso. Também aí a educação patriótica e política é necessária. É preciso que de facto os partidos políticos assumam-se como sociedades de prestação de serviços públicos. É que a prática política nas Áfricas é de muitas manipulações, manobras, intrigas, e isso contribui para formar sociedades lúmpens. Há um patriotismo africano, um panafricanismo, que tem de ser repensado. Oxalá que a União Africana tenha no seu ideário uma educação nesse sentido.

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