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"Sou Feliz Porque Venho Marcando o Meu Tempo" Destaque

Escrito por  Frederico Ningi

Entrevista de: Isaquiel Cori

Discreto, silencioso, Frederico Ningi tem vindo a percorrer um caminho singular na literatura angolana. A poesia, nele, não se reduz apenas à escrita, faz parte da sua vida, do seu quotidiano, é a sua visão do mundo e o seu modo de existir.

Cultiva sistematicamente o intimismo, a introspecção e em determinado período da sua vida foi um praticante apaixonado do yoga. Também é desenhador e fotógrafo. As linhas dos seus desenhos e as suas imagens fotográficas são, outro tanto, o prolongamento da sua poesia. Publicou Os Címbalos dos Mudos, poesia e desenho, Infindos nas Ondas, poesia, e Títulos de Areia, poesia e softgravura.

 

Discreto, silencioso, Frederico Ningi tem vindo a percorrer um caminho singular na literatura angolana. A poesia, nele, não se reduz apenas à escrita, faz parte da sua vida, do seu quotidiano, é a sua visão do mundo e o seu modo de existir. Cultiva sistematicamente o intimismo, a introspecção e em determinado período da sua vida foi um praticante apaixonado do yoga. Também é desenhador e fotógrafo. As linhas dos seus desenhos e as suas imagens fotográficas são, outro tanto, o prolongamento da sua poesia. Publicou Os Címbalos dos Mudos, poesia e desenho, Infindos nas Ondas, poesia, e Títulos de Areia, poesia e softgravura.

P - Fale-nos do ambiente em que se desenvolveu a sua infância...

R - Eu sou o filho mais novo de uma família de oito pessoas. Sou filho de gente pobre mas tive o privilégio de ser o caçula. Nasço em Benguela, no bairro do Cotrel, e tive a sorte de ter herdado do meu pai os livros que ele foi usando na sua vida de religioso cristão. Depois da sua morte, herdei uma Bíblia bilingue volumosa (português-umbundo). O meu irmão mais velho, Domingos Faustino, que era professor, gostava muito de ler. Dele, depois da morte do pai, recebia as mesadas com as quais comprei muitos livros. Também tive a sorte de ter relações com pessoas a nível do bairro e da escola que também gostavam muito de livros.

P - Em que circunstância é que passa da leitura para a criação literária?

R - A minha relação com o livro começou desde tenra idade. Lembro-me de que quando tinha para aí seis anos eu e o meu irmão mais velho fomos levar o almoço ao serviço do nosso pai, que era pedreiro. O pai estava sentado, na obra, com um grande amigo, o padre Manuel. A obra era aquilo que viria a ser o lar dos rapazes e o meu pai já era um grande mestre. Os dois, essa é uma imagem que jamais esquecerei, liam e discutiam a Bíblia. Em todo esse percurso tive sempre a meu lado o meu irmão que era até, e até agora é, professor, e me levou a outros caminhos como, por exemplo, os da pintura e da fotografia.

P - Como é que sai de Benguela para Luanda? O que o leva a partir para Luanda?

R - Parto para Luanda quando tinha à volta de dezanove anos. A idade e o espírito de aventura impulsionaram-me a dar outros saltos na vida. Sentia a necessidade de respirar outros ares.

P - Já tinha parentes a viverem em Luanda?

R - Parentes como tal não tinha. Fui vivendo em casa de amigos, amigos que por muitas afinidades transformaram-se em meus parentes. É o caso do Dias Júnior (realizador de televisão e publicitário), que para mim é um irmão não pela relação de consanguinidade, mas porque somos consofredores, os seus pais também são tocoístas, tal como os meus, e conheciam-se. Vim a Luanda em 1981/82.

P - Esse período coincide, mais ou menos, com toda aquela movimentação literária em torno das brigadas jovens de literatura, que marcou a história da literatura angolana. Naquela altura enquadrou-se em todo aquele movimento?

R - Eu nunca estive ligado a associações. O associativismo, nem político nem intelectual, nunca me marcou. O que me moveu mesmo para a criação literária foi um bichinho que já tinha dentro de mim e as relações que fui tendo com pessoas como o Dias Júnior, o Luís Kandjimbo, etc. Com estes eu tenho uma relação que já vem desde a infância. Lembro-me que, ainda em Benguela, íamos de noite à praia Morena recitar poesia. Formávamos um grupo de jovens para o seu tempo estranho ao tempo, pelo facto das nossas inquietações, das nossas indagações em torno da vida.

P - Quando vem a Luanda, aos dezanove anos, o Frederico Ningi já estava decididamente direccionado para a criação literária?

R - Para falar a verdade, a literatura já existe em mim desde a tenra idade. Eu me sinto um escritor mas me considero mais como um artista no sentido lato da palavra. Eu sou um homem que vive sempre inquieto e essa inquietação move-me sempre para muitas interrogações, para essa necessidade interna de exprimir os meus sentimentos, tanto na escrita como noutras disciplinas da arte, na pintura e na fotografia.

P - A criação artística em si obedece sobretudo a uma necessidade de auto-expressão, a factores de satisfação íntima e não propriamente à necessidade de conhecer o outro, o mundo?

R - É fundamentalmente essa necessidade endógena e até não pensada de querer respostas às coisas que são as minhas inquietações. Essa necessidade é intestinal, até.

P - Das expressões artísticas que pratica (poesia, pintura e fotografia), qual é a que está mais de acordo consigo?

R - Eu gosto de dizer que sou profundamente um artista. Fiz cursos de bateria (percussão) e guitarra. Fui sempre um jovem muito inquieto. A inquietude permanente é que me dá alento para essas coisas da vida.

P - Um artista tão autêntico como o Ningi como é que viveu essa mancha da nossa história que foi a guerra?

R - Vivi como todos os angolanos que sofreram e choraram. A minha arte foi o chão onde consegui esculpir todo o sofrer desses anos todos de guerra. Como sabes, a minha arte exprime todo o sofrimento dessas dezenas de anos de sofrimento do povo angolano.

P - Sente que a sua poesia tem sido devidamente descodificada pelos leitores?

R - Não sei. Sei que é uma poesia que de repente marcou, e tenho orgulho nisso, porque nesse espaço que é a minha Pátria consegui conquistar o meu espaço. Sou feliz porque tenho estado a marcar o meu passo nesse tempo.

P - A sua poesia tem marcas específicas, como, por exemplo, a utilização de maiúsculas mesmo no interior das palavras. O que o levou, no princípio, a enveredar por essa forma?

R - Foi um processo. Essa coisa de escrever também tem o seu lado de satisfação interior. De repente senti o orgasmo, quando comecei a negritar, a encontrar as maiúsculas como uma forma grande e grata de alegria artística.

P - Como artista, sente-se realizado?

R - Como artista, estou a percorrer o caminho da procura da satisfação máxima. A realização não existe. Há o sentido do rigor, da entrega, do trabalho que me expõe sempre para outros caminhos que são infindos.

P - Quais são as leituras fundamentais que o terão influenciado?

R - Li tantos livros! Lembro-me que, em casa, ainda em Benguela, apanhei «sustos» de autores enormes como, por exemplo, Júlio Verne. Quando li as Vinte Mil Léguas Submarinas fiquei encantado, fascinado, mas também apavorado. Apanhei também «sustos» com Maurice Bhering, um autor inglês que escreveu o livro O Trono e o Altar e que me encantou bastante, apesar de ser miúdo ainda. Fascinou-me sobretudo um personagem que era nobre e percorreu o mundo pensando que encontraria a felicidade fora da sua terra mas que acabou por regressar às suas origens. Essa coisa de termos um chão e a alegria de pertencermos a um chão, a uma terra, é uma coisa que me fascinou e que me fez entender-me melhor. Mas há outras leituras de outros autores. Há o grande mestre Octávio Paz; neste momento estou a ler o seu livro A Outra Voz. Tenho o defeito de ler vários livros ao mesmo tempo.

P - A Bíblia continua a ser um dos seus livros de cabeceira?

R - A Bíblia continua a ser o primeiro e será o último livro. Continua a ser o caminho de que nunca me distanciei.

P - Porquê esse fascínio quase total pela Bíblia?

R - A Bíblia é a grande lição de literatura. Lá tens tudo, tens viagens enormes como a criação da vida, o enigma no sentido literário das coisas, a interpretação dos fenómenos da vida. Tu tens viagens enormes no sentido poético, prosaico, filosófico, sociológico, de uma forma interminável. A Bíblia é um grande mestre e uma grande lição.

P - Esse encantamento pela Bíblia induz-me a pensar que o sentimento religioso está bastante enraizado em si. É verdade?

R - É. Apesar de não estar mais ligado à religião que me fez homem, que é o tocoísmo, continuo ligado à religião em geral de uma forma profunda. A leitura da Bíblia, a religião, transporta-nos para olhares e visões múltiplas, fantásticas, da vida. Eu vivo aqui, à beira-mar, e o mar para mim tem este sentido metafórico da religião. Deus está implantado em todo o ser e em todo o mar.

P – Concretamente, como tem sido a sua relação com o mar, aqui tão próximo de si?

R - É uma relação de encantamento, de paixão. O mar é o meu companheiro.

P - Não é por acaso que o mar constitui um dos principais temas dos seus livros e está implícito no título de um deles, Infindos nas Ondas.

R - O mar está sempre no meu caminho. Como sabe, eu sou um jovem do litoral.

P - Fale-nos de novidades literárias.

R - Nisto não gosto de prometer, mas sim de fazer. Por isso tenho um capítulo, n’ Os Címbalos dos Mudos, "Do elogio às mãos". Eu continuo a pensar e a sentir que as pessoas não devem falar mas fazer. O fazer é que engrandece e enaltece a vida. Neste momento estou a fazer muitas coisas, como sempre.

P - Habitualmente faz várias coisas ao mesmo tempo?

R - Sim. Durmo a sesta para ter a noite só para mim.

P - Quando é que teremos uma exposição sua que englobe tudo quanto tem vindo a fazer nas artes plásticas?

R - Produzir uma exposição no sentido da mostra pública significa preparar condições para que as pessoas tenham prazer de ver os objectos expostos. Isso significa ter um produtor. Enquanto autor, estou feliz com as coisas que faço, mas expô-las ao público significa ter de comprar muitas coisas. Eu sou rico de imaginação mas pobre em termos de dinheiro. A exposição depende de muitas circunstâncias que me ultrapassam.

P - Frederico Ningi é seu nome ou pseudónimo?

R - Praticamente já é meu nome... Apesar de faltar ainda alguns acertos jurídico-administrativos.

P - Em sua opinião, para que serve a poesia?

R - Para vivermos eternamente. Porque na poesia ama-se o pior ou o melhor do que se é ou do que se quer.

P - Os seus livros, Os Címbalos dos Mudos e Títulos de Areia, em termos editoriais, apresentam uma mescla de poesia, desenhos e fotografias. E, pelo menos entre nós, acabam por ser livros incomuns. Todas essas facetas, poeta, pintor e fotógrafo, são indissociáveis em si?

R - Não. Porque, como sabe, o vocabulário falado é menos rico que a impressão das mãos; é necessário mais que uma linguagem para traduzir o seu número, a sua diversidade e a sua plenitude. E porque também as figuras que a palavra, a pintura e a fotografia representam são os sinais da vida.

P - Tanto na poesia como nas artes plásticas você tem vindo a revelar-se como um artista de intervenção. Ao olhar para a sociedade angolana actual, quais são os factores que o constrangem? E os que o exaltam?

R - O que é isto: ser artista de intervenção!?... Se sou, fi-lo sem saber. Também é verdade que os artistas (escritores), enquanto pessoas e cidadãos, estão comprometidos directa ou indirectamente com o seu tempo.

P - No seu entender quais são as tendências e os nomes mais interessantes da poesia angolana?

R - As tendências são várias e os nomes mais interessantes são alguns!...

P - Como define o amor?

R - O amor é o lugar de eleição, de afeição, que nos impele para os objectos mais desejados.

P - O que mais admira no ser humano?

R - A extraordinária serenidade (a verdadeira solidariedade).

P - E o que é que mais detesta nele?

R - A sacanice da ignorância.

P - O Mundo está em pleno processo de globalização. O que é que as literaturas de países periféricos como o nosso podem dar, como mais valia, a todo esse processo?

R - Outras lições no conhecimento do mundo. Flagrantemente temos o caso John Max Coetzee, Prémio Nobel da Literatura 2003 (é da periferia).

P - Como está em termos de contactos com artistas de outros países?

R - Bem. Muito bem, graças a Deus.

P - Durante algum tempo sustentou no Jornal de Angola uma coluna, "Escrevilendo", sobre as leituras que ia fazendo. É compensador esse exercício de "ler" para os outros?

R - É compensador porque os homens dão sempre sentido à sua maneira de ler - e porque a escrita cria sempre um sentido que as palavras não têm à partida. É compensador porque escreviler é sempre um exercício na busca de orgasmos enormes da abrupta ingenuidade. Porque quando escrevo tento sempre exprimir essa minha congénita humanidade.

P - Sente que os escritores angolanos são efectivamente valorizados e dignificados socialmente?

R - Não sinto. Os escritores são vistos como as coisas ilustres e raras da sociedade e são usados muitas vezes politicamente com fins cosméticos.

P - O que é que o facto de ser jornalista acrescenta ao facto de ser artista e vice versa?

R - O facto é que a primeira condição é imediatamente activa e a outra é medianamente vadia (porque não tem pressa).

P - Qual é o grande legado que gostaria de deixar aos seus contemporâneos e à posteridade?

R - Os resultados dos meus prazeres de fazer.

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