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A Voz Dos Que Não Têm Voz Destaque

Escrito por  Isaquiel Cori

Pertence à chamada Geração de 80. É uma personalidade multifacética e interventiva. A sua vocação literária espraia-se pela crónica, ensaio e sobretudo pela poesia. A entrevista que se segue incide fundamentalmente sobre o poemário Idade Digital do Verso e sobre aquilo que é, no seu entendimento, a arte da poesia e a sua relação com o mundo. "Eu sou a voz dos que não têm voz", afirma, categórico, Conceição Cristóvão.

 

Pertence à chamada Geração de 80. É uma personalidade multifacética e interventiva. A sua vocação literária espraia-se pela crónica, ensaio e sobretudo pela poesia. A entrevista que se segue incide fundamentalmente sobre o poemário Idade Digital do Verso e sobre aquilo que é, no seu entendimento, a arte da poesia e a sua relação com o mundo. "Eu sou a voz dos que não têm voz", afirma, categórico, Conceição Cristóvão.

P - Enquanto poeta, qual é o entendimento que tem da poesia?

R - Eu posso resumir isso em duas ou três palavras simples. A poesia é a arte do belo. A poesia é um acto de fé. A poesia é a arte de dizer muito em pouco, ou seja, usando muito poucas palavras. Portanto, é um exercício predominantemente feito com a palavra e onde predomina o belo.

P - Consegue imaginar o mundo, a vida, sem a existência da poesia?

R - É inimaginável. Creio que mesmo em tempos já remotos e se quisermos até exagerar um pouco, mas guardando as necessárias diferenças, já no Paleolítico a poesia existia. Não no sentido da escrita, a poesia não é necessariamente escrita. A transmissão de valores culturais de geração a geração até aos nossos dias é uma matriz fundamental das sociedades que não conheceram a escrita ou que não a conhecem actualmente. Daí que a poesia enquanto exercício do belo, exercício com a palavra, já exista desde há tempos remotos.

P - A poesia não tem de materializar-se necessariamente no poema...

R - Claro. Se você reparar, há textos em prosa, belíssimos contos de autores renomados no mundo, onde a gente descobre poesia. Quer dizer, a poesia não significa poema. Hoje, as teorias modernas da literatura apontam claramente para a existência da poesia na música. Há textos pictóricos que exigem uma leitura muito atenta e, olhando bem, a gente descobre que ali há poesia. E, como diz o outro, até o andar de uma mulher tem poesia...

P - Há uma tendência na nossa literatura, que ganhou ênfase com a geração a que você pertence, a chamada Geração de 80, no sentido da criação de uma poesia cada vez mais depurada, com a utilização mínima de palavras. Não acha que essa tendência, a aprofundar-se até às últimas consequências, levará a uma situação em que não se possa mais dizer nada? Em que o poema se limite a uma ou duas palavras?

R - Se isto vier a acontecer, e nalguns casos já tem vindo a acontecer, não significa dizer que se empobreça o poema. Agora, que vai exigir um exercício de descodificação muito grande, isso é verdade. Hoje mesmo, a poesia já é um exercício cuja leitura não está ao alcance de todos. A sua pergunta é muito interessante. A redução pode ser tal que um dia cheguemos à inexistência da palavra como tal e à existência apenas do signo, como por exemplo os pontos. Sabe que há uma corrente muito forte hoje na poesia que consiste no trabalho com imagens, com símbolos gráficos, etc. A poesia também existe aí.

P - O seu livro Idade Digital do Verso evoca muito o silêncio. Afinal, o silêncio tem de ser dito...

R - De facto, o silêncio tem de ser dito. Já no meu primeiro livro, A Voz dos Passos Silenciosos, tentava transmitir isso mesmo. É que o silêncio também é uma forma de dizer coisas, pelo silêncio às vezes podemos dizer muito mais coisas do que podemos dizer por palavras. Mas, no caso da poesia, o próprio silêncio tem de ser corporizado pelas palavras. Como ler, quando ler, aí é que radica a questão. Há poemas que são para ser lidos em silêncio, tentando escutar apenas a voz do coração. E quando o coração diz-nos coisas que os olhos não conseguem alcançar, é uma forma de dar corpo, de dar voz ao próprio silêncio.

P - O primeiro capítulo de Idade Digital do Verso, "Metalinguar a palavra", denota uma grande preocupação pelo exercício em si mesmo da escrita poética, que se constitui, aliás, no tema dos poemas nele inclusos. Isso revela, parece-me, que você tem uma grande propensão para a reflexão teórico-literária. Sei que nos anos 80 praticou muito esse lado criativo. Terá alguma obra desse tipo em vias de publicação?

R - Sim, inclusive já está no prelo. Tanto o prefaciador do livro, o João Melo, como a pessoa que fez a apresentação do livro, o crítico Jorge Macedo, destacaram esse pormenor. No primeiro capítulo, a minha intenção foi efectivamente dialogar com a própria palavra, com o signo como tal. Se reparar, o subtítulo do capítulo é "Sinais. Homenageando silêncio e palavra". A ideia foi fazer da palavra o conteúdo e o continente. Ou seja, o continente como a vasilha ou o recipiente que contém alguma coisa e o conteúdo é a própria palavra em si. Isso pode parecer paradoxal mas do ponto de vista da teoria literária é a busca do diálogo com o signo. Ora, neste exercício de metalinguar a palavra, se reparar, o primeiro poema é uma espécie de razão do discurso.

P - Diz um dos seus poemas programáticos: "No início era o verbo. no fim será o verbo". Esse reconhecimento significará, na sua poesia, que chegou ao limite da intenção de dizer o máximo com o mínimo possível de palavras? Significará que a sua poesia poderá tornar-se mais discursiva?

R - Não. O que eu pretendo é o amadurecimento permanente, daí até o título do livro: Idade Digital do Verso. Tal como a caminhada faz-se caminhando, a escrita faz-se escrevendo. Quer dizer a idade adulta, o amadurecimento, na escrita, é alcançado única e exclusivamente pelo exercício da escrita em si e também, complementarmente, observando o que à volta está e o que dentro de nós também está. Só associando tudo isso é que poderemos produzir o verbo no princípio, no meio e no fim. Para concluir, a maturidade como tal é um processo de maturação. Há quem diga que eu sou um poeta maduro mas ainda assim creio que deverei trabalhar sempre mais para tentar alcançar a excelência no uso da palavra, pelo menos em se tratando de poesia, que é a arte da palavra por excelência. Mas a palavra, por si só, se não lhe incorporarmos qualquer coisa, é desprovida de sentido. A arte pela arte eu não a faço.

P - Há um poema seu que me impressionou bastante, "Uma quase oração banal", sobretudo porque revela, não diria um ateísmo, mas um anti-teísmo bastante profundo. Na sua vida terá ocorrido algo que o terá levado a não ter fé em Deus, a ter mesmo uma aversão a Ele?

R - É natural que algumas pessoas tenham pensado isso ao lerem o livro. Mas se lançarem um olhar atento à obra verão que não se trata disso. Eu sou um indivíduo profundamente religioso. O meu pai foi seminarista e catequista, de modo que a minha família está profundamente enraizada na religião e mais concretamente no cristianismo. Agora, eu tenho uma visão crítica da vida. Não tive nenhuma desilusão nas crenças que professo. Pode parecer um chavão mas eu acredito num deus que reside em mim próprio, eu é que construo o meu deus. Há um belíssimo poema de Fernando Pessoa que às tantas questiona se Deus é planta, se rio ou os montes... Se Deus é tudo o que anda à nossa volta, porque não chamar-Lhe Planta, Árvore, já que afinal é assim que Ele se nos apresenta? Mas, perfilhando mais ou menos essa ideia, digo que nós temos de ter fé em alguma coisa, e eu tenho. A visão crítica que tenho da vida é que fez com que tenha colocado, por exemplo, nesse livro, algumas citações retiradas, umas da Bíblia e outras da vida prática. Desse próprio caderno, "Metalinguar a palavra", vou ler essas citações: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus" (Bíblia, João I: 1). Mas acrescento uma outra citação, que é igualmente válida, que diz: "Deus está lá em cima, o homem cá em baixo. Deus é Deus, o homem é o homem. Cada um no seu lugar, cada um na sua casa". Isto vem da tradição fang, da África Equatorial. Esta citação reflecte um certo desencanto com a vida, como quem diz "então se Deus está aí para proteger-nos a todos nós, o sol em princípio deve nascer para todos nós, porque razão então algumas pessoas parecem estar mais bafejadas pela sorte e outras não?". Isso pode não necessariamente espelhar a minha visão como escritor, mas tento dar voz àqueles que não têm voz. Há pessoas que, não tendo a possibilidade que eu tenho, gostariam de dizer algumas coisas, manifestar o seu desencanto com a vida e eu sou todas essas pessoas. Repito, eu sou todas essas pessoas.

P - O facto de ser político, deputado pelo Partido no poder, não interfere na sua criação, no sentido de, eventualmente, ser menos incisivo em termos de crítica social? Enquanto escritor e político, vê-se obrigado a praticar a auto-censura nas sua obras literárias?

R - Eu tenho tido o cuidado de destrinçar os diversos "casacos" que visto, quer o de deputado quer o de docente universitário, quer o de escritor, etc., etc., etc. Como escritor, como criador, como poeta, nunca exerço a auto-censura. No dia em que eu auto-censurar-me antes de escrever, estarei a matar a arte. É evidente que tenho responsabilidades políticas e não vou desatar a disparar para tudo e todos. Mas é evidente que como escritor tenho que dar voz à minha consciência. Quando noto alguma coisa que está mal, alguma coisa que toca a minha consciência, eu escrevo. E escrevo como penso, sem preocupações a priori. Neste meu livro, do mesmo modo que coabitam confissões eróticas, há poemas que são meros exercícios com a palavra e há os exercícios sobre a minha visão crítica da vida. Há um poema, "Escrevivendo", que tem como subtítulo "O meu diálogo bíblico com a vida", que também retoma uma citação bíblica que diz: "O que vês, escreve" (Apocalipse).

P - Nesta fase de transformações que o país atravessa, de reconstrução nacional depois da destruição da guerra, no que é que a poesia também pode ajudar?

R - A literatura, conforme um teórico disse, é uma sociedade dentro de outra sociedade. E Agostinho Neto deu-nos uma lição magistral nesse sentido. A literatura deve-se constituir, ao fim e ao cabo, num veículo de transmissão de valores positivos. Não falo já só da poesia em si mesma mas da literatura no geral, das artes e da cultura no geral. Se nesta fase de reconstrução nacional qualquer um dos projectos a implementar tiver em consideração a dimensão cultural do desenvolvimento, creio que estaremos no bom caminho. Conto-lhe um episódio muito rápido. Tive a oportunidade de estar na Lunda Norte aí há alguns anos. Na altura, o governador era o camarada Kuata Kanawa. Na altura havia o conflito sobre a permanência do rito da mukanda, que é o acto da circuncisão. Havia um problema que se punha, entre colocar jovens que já tinham regras básicas de saúde, esterilização dos instrumentos, etc., ou manter os velhos que não só eram cirurgiões mas também eram personalidades respeitadas naquelas sociedades rurais. Tomou-se a decisão inteligente de fazer com que os velhos permanecessem e dar-lhes ao mesmo tempo as regras básicas de saúde. O errado seria pensar que eles estavam ultrapassados, até porque eles têm uma representação simbólica muito grande. O importante é fazer uma integração das conquistas da ciência respeitando sempre que possível a matriz cultural das populações. Portanto, a literatura, a poesia, pode dar um grande contributo, desde que a divulguemos nas escolas, nas famílias, e criemos hábitos de leitura. Desse modo, os valores positivos vão ser transmitidos através da escrita.

P - Qual é a perspectiva que tem da poesia que se faz hoje em Angola? Quais os nomes de colegas seus cujas obras recomenda aos leitores?

R - Sou uma pessoa suspeita, nesse aspecto. Ao citar nomes posso incorrer no risco de involuntariamente cometer omissões. Vou citar alguns nomes sem qualquer demérito para os que não forem citados. Estou a lembrar-me agora do João Maimona, dum João Melo, dum Lopito Feijó, mais recentemente temos um John Bella. Não falando só de poesia, temos um Sousa Jamba, que está na diáspora e escreve belissimamente bem, o José Eduardo Agualusa, enfim, há um jovem poeta que precisa amadurecer bastante e que vive em Portugal, o Sicrita, o Cristóvão Neto, um Adriano Botelho de Vasconcelos. Há muitos outros, concerteza, cujas obras são de recomendar e que aqui não são mencionadas porque os seus nomes por ora não me ocorrem.

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