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«A União dos Escritores Conseguiu fazer tudo o que tinha que fazer»

Escrito por  Adriano Botelho de Vasconcelos

Entrevista de: Aguinaldo Cristóvão

 

Numa altura em que a classe dos escritores atravessa um período de estabilidade, o Secretário-geral da União dos Escritores Angolanos, Adriano Botelho de Vasconcelos, anunciou que, a partir do próximo ano, em concertação com o Ministério da Cultura, será criado o prémio nacional de Ficção e Poesia. Apesar disso, chama a atenção para o valor inestimável dos intelectuais angolanos, por vezes esquecido. Ele faz uma apreciação do que faz e/ou deverá fazer na cadeira de S.G.

 

Numa altura em que a classe dos escritores atravessa um período de estabilidade, o Secretário-geral da União dos Escritores Angolanos, Adriano Botelho de Vasconcelos, anunciou que, a partir do próximo ano, em concertação com o Ministério da Cultura, será criado o prémio nacional de Ficção e Poesia. Apesar disso, chama a atenção para o valor inestimável dos intelectuais angolanos, por vezes esquecido. Ele faz uma apreciação do que faz e/ou deverá fazer na cadeira de S.G.

P - Já se pode dizer que a União voltou a ocupar o lugar que lhe era devido no sector cultural?

R - Nós sentimos, nos contactos com os cidadãos, com os intelectuais e políticos que estão atentos à evolução da coisa cultural no país, de que realmente a União dos Escritores tem outro prestígio. Tem um prestígio que não teve no passado recente porque estava amorfa, não tinha uma gestão por objectivos e, por isso, nós não conseguimos realizar actos culturais, projetos que pudessem marcar de forma qualitativa e positiva os processos culturais em Angola.

P - O seu mandato coincidiu com outro marco: a transição para o período de paz. Até que ponto isto influencia hoje uma instituição como a UEA?

R - Se olharmos para o passado, por mais paradoxal que seja, diremos que existiam mais recursos financeiros para a nossa instituição e não só, porque, na verdade, hoje estabelecemos contactos com outras associações, como a dos cantores, e todos, infelizmente, constatamos que no passado existiu muitos mais apoios por parte do Governo de Angola, muito mais do que hoje. Hoje existe uma política de saneamento financeiro, de distribuição dos recursos para um número gritante de necessidades resultantes das sequelas da guerra; efectivamente, esta distribuição nem sempre pode, na questão cultural, satisfazer as nossas necessidades, ou nem sempre em tempo oportuno surgem os apoios. Por outro lado, com o melhoramento dos procedimentos do Estado, em reconhecer ou não as associações como "instituições de utilidade pública", isto criará outras responsabilidades por parte do Estado. Faltam os mecanismos de diálogos institucionais, faltam os mecanismos de discussão dos contratos-programa. É necessário afinar os níveis de reconhecimento dos projectos por parte de cada uma das entidades de acompanhamento, por parte de quem dá o dinheiro, para que se saiba como é que se realiza de facto este contrato-programa, se não há desvios, se não estão a ser cumpridos prazos. No caso concreto da UEA, como nós gerimos por objectivos, com uma definição concreta da missão e objectivos, nós estamos preparados para discutir os contratos-programa, nós sabemos o que é que a instituição necessita em termos prospectivos, portanto, estamos disponíveis para discutir com o ministério das Finanças a realização e concretização dos contratos-programa para o triénio 2004/2007.

P - Sabemos que a União já levou estas preocupações ao Ministério das Finanças. Como vão as negociações?

R - Como sabe, houve momentos difíceis para a nossa instituição. Nós estivemos durante mais de nove meses com um défice gritante na questão não só material, mas também porque os nossos trabalhadores ficaram mais de nove meses sem recursos para a sua subsistência familiar. A única unidade de receita da instituição foi criada já no nosso mandato, foi a constituição do cyber da União dos Escritores. É a unidade orgânica de negócios que conseguiu manter os aspectos mínimos para que a instituição não ficasse fechada porque ela tem uma função de ligação à comunidade. Foi graças a este centro de custos e receitas que, criado ao abrigo da parceria e apoio da Sonangol e da Mercury, que nos impediu de fecharmos as portas e termos uma política social, como seja a alimentação do meio-dia que beneficiou durante este tempo de privações os nossos trabalhadores. Felizmente, graças ao apoio e intervenção directa por parte do Presidente da República, o assunto teve um bom desfecho e deixei de ser um gestor angustiado.

P - Falando dos objectivos a que se propôs no início do seu mandato, nota-se que o mais difícil é a edição de livros. Já anunciou que existem livros no prelo. O que podem os leitores esperar daí?

R - Eu gostaria antes de dizer que, por vezes, e acho que também apareceu com destaque no vosso jornal, surgem críticas contundentes em relação à qualidade das obras assinadas pelos nossos membros. Nós tivemos a coragem, enquanto instituição, de determinar que todas as obras tivessem de passar pelo crivo de avaliação de uma comissão de leitura. Faz parte desta Comissão de Leitura o Henrique Abranches, Gabriela Antunes, Jorge Macedo, João Melo e eu mesmo; e a função desta comissão é avaliar se uma determinada obra inédita reúne as qualidades, para que mais tarde outros membros não apareçam na praça pública a criticar a nossa política editorial, ou que outros leitores mais atentos não apareçam na praça pública a colocar a nossa instituição numa posição crítica ao não reconhecerem o labor dos escritores no enriquecimento do imaginário angolano.

P - Ainda não respondeu à pergunta.

R - Por outro lado, como sabe, nós fomos uma instituição prejudicada na distribuição por parte do Estado dos apoios à edição do livro e associações. Tivemos que fazer lutas, muitas vezes incompreensíveis para pessoas que estavam de fora, mas conseguimos 40 mil dólares para que a instituição voltasse a ter capacidade de produção de livros. Estes 40 mil dólares já estão a ser geridos. Já existem cinco títulos, mas cuja venda vai obedecer agora a uma nova filosofia, que é criar um «Círculo de Leitores». Teremos que ter uma base de dados com a existência de pessoas que gostam de ler, que estão disponíveis a comprar livros. Mesmo que seja só para comprarem os livros e colocarem-nos de forma decorativa nas suas salas de visita; mas esta base de dados vai permitir que os editores sobrevivam, que os livros tenham sempre a possibilidade de não serem deficitários. Os editores dizem que os livros não dão receitas, então nós temos que criar um mecanismo para que o livro signifique, também, receitas. E o mecanismo que nós temos que criar é na verdade o círculo de leitores. Com cartões de vários tipos, o cartão de membro ouro, de membro prata e o cartão de empresas ouro. No sentido das empresas até terem como política oferecer o livro e não oferecerem o perfume, oferecerem o livro ou no cabaz de natal incluírem como peça fundamental da sua oferta o livro. Já temos, como disse, cinco títulos, entre eles títulos fundamentais para o sector estudantil, como seja a análise de toda a poesia angolana desde 1975 a 2002, um trabalho que tem a assinatura de Jorge Macedo.

P - Faz parte da actual direcção da UEA fazer ressurgir aquelas colecções de bolso «2k», que foram importantes para os jovens, na década de 80?

R - Neste momento a nossa maior preocupação é produzir livros com qualidade em termos de conteúdo e em termos de capa. Se for ver os nossos livros, notará que a nossa qualidade em qualquer parte do mundo é inquestionável. É um produto que facilmente será vendável.

P - Até que ponto a nova política do Ministério da Cultura tem beneficiado instituições como a UEA, UNAC e UNAP?

R - No passado, nós não tivemos uma boa relação com o Ministério da Educação e Cultura. Hoje, a nossa relação com o MC significa sinergia, pareceria e coexistência. Existe, não em termos documentais, uma contratualização, em termos espirituais, uma relação de afectos, quase como que, na verdade, cada uma das instituições tivesse um compromisso para que a instituição UEA sirva também ao MC na definição dalgumas das suas políticas inerentes ao mundo do livro e que, por vezes, as actividades do MC possam servir aos interesses da UEA. Dou-lhe um exemplo. Nós vamos criar o «Grande Prémio de Ficção» e o «Grande Prémio de Poesia», graças ao apoio institucional do MC. O valor pecuniário deste prémio é dos mais altos no país, no valor de 35 mil dólares. Darei outro exemplo, se no passado, com luta, recebemos 40 mil dólares para o apoio editorial, sem luta, com base nos afectos e no reconhecimento de que nós somos uma instituição que pode dar muito ao país, recebemos 70 mil dólares para a nossa política editorial, valor monetário que, quando recebermos, ficará congelado só para o enriquecimento do nosso catálogo. Portanto, nessa relação nós só saímos a ganhar, e não temos nenhum problema em ter esta relação estreita e amigável com o novo ministro da Cultura e, pode crer, sem deixarmos de ser independentes.

O aumento dos prémios literário é uma alavanca para a qualidade das nossas obras literárias, mesmo em termos temáticos e gráficos... Eu acho que o nosso prémio vai ser mais um prémio de reconhecimento. Ou seja, no conjunto das obras, o júri vai escolher as melhores obras. E será um grande estímulo para aquele que receber o prémio, e vai criar alguma concorrência no sentido de cada um de nós, enquanto escritor, estar também a escrever para que atinja estes níveis de qualidade referenciados e que o jurado, num determinado tempo, vai determinar como importante para que alguém obtenha este prémio.

P - Falemos de bibliotecas. Há uma grande escassez de literatura angolana na generalidade das bibliotecas. O que é que se passa?

R - Costumo dizer que no país temos que nos preocupar com estes valores que não são, na verdade, materiais. São valores espirituais, são activos incomensuráveis, mas que podem determinar amanhã a forma como nós, angolanos, iremos gerir o país. E se nós não fizermos nada em relação às bibliotecas não estaremos a contribuir para que estes activos incomensuráveis tenham peso na nossa sociedade. Assim, não estaremos a contribuir para que: primeiro o angolano seja dono do seu próprio país, que os angolanos possam marcar na via literária internacional, novas formas de escrita, novas formas de enriquecimento de imaginários, se nós investirmos sem hesitações em bibliotecas comunitárias, de bairros, escolares, provinciais, bibliotecas nacionais vamos ter mais tarde o retorno. Infelizmente, o que se assiste hoje no nosso panorama cultural é que há, de facto, uma falta de estruturas onde os estudantes, onde as pessoas possam consultar livros não só de escritores angolanos, mas que possam também consultar livros de ciência, de literatura de outros povos e que possam usar a Internet, já que hoje as bibliotecas são mais modernas, permitem que os seus visitantes façam contactos globais através da utilização dos computadores ligados à Internet. Este é um quadro deficitário no país e nós, enquanto instituição, temos uma relação com a comunidade de serviço público, por isso aumentamos o acervo bibliográfico da nossa biblioteca. O que nós fizemos quando assumimos a direcção foi procurar formas de aumentar o acervo bibliográfico da nossa instituição. Coisa que conseguimos com mais de três mil livros novos que temos na nossa biblioteca e que servem mais de 200 jovens/dia que procuram a UEA. Este é um valor que não é possível medir, mas na verdade, daqui a 10 anos, nós todos vamos reconhecer o esforço que foi feito hoje pela União dos Escritores Angolanos, de termos feito num micro espaço algo que vai contribuir para que os angolanos sejam donos do seu próprio nariz.

P - Esta ajuda dada ao desenvolvimento da cultura angolana passa também pela política de mecenato. O que já foi feito?

R - O maior mecenato da instituição destes últimos dois anos foi o da Sonangol, Ministério da Cultura, Ministério dos Petróleos, Ministério do Trabalho e da ChevronTexaco, parecerias que tiveram o melhor desempenho na constituição dos novos activos. Logo a seguir, temos o Primeiro-Ministro de Portugal, que ofereceu recursos financeiros para produzirmos as antologias. Já estão a ser elaboradas graficamente as antologias de poesia e de ficção. Mais a oferta de duas bolsas de criação para dois escritores angolanos e 2.000 livros. O Mecenato permitiu que a sala da UEA onde decorrem as «Makas à quarta-feira» estejam climatizadas; que a sala onde está a biblioteca e os PCs ligados à Internet estejam, igualmente, climatizadas. Foram estes grandes mecenas que fizeram com que, perante a carestia de recursos financeiros provenientes do OGE, a UEA não deixasse de ser uma instituição em crescimento.

P - As makas à quarta-feira são as actividades mais visíveis da UEA. O formato irá mudar?

R - Acho que temos que continuar com o mesmo formato. Temos é que ser capazes de convidar mais os escritores, aliciarmos os escritores-membros no sentido de serem os primeiros a participar das makas, a apresentarem textos fundamentais sobre a nossa literatura, sobre a vida, sobre o país, para que eles possam, na verdade, traduzir aquilo que têm como utopia, aquilo que têm a transmitir ao grande público que presencia as makas à quarta-feira. Nos últimos dois anos, contámos com a dissertação de trinta escritores, infelizmente, muitas não foram escritas. Por outro lado, gostaria de dizer que todos têm as portas abertas na instituição para apresentarem um tema, sem que isso, tenha que passar pelo crivo de uma avaliação ideológica, subjectiva ou um exame que ponha em causa os direitos de cidadãos que queiram apresentar comunicações plurais e peculiares tendo em conta a formação espiritual de cada um. Tecnocratas, empresários ou anónimos não têm que passar por um processo de lavagem cerebral. Aqui não há isso, todos são livres de apresentar os temas desde que respeitem os princípios elementares de cidadania.

P. Um dos grupos que mais frequenta as Maka são os membros da brigada jovem de literatura. Quais são os laços que vos unem?

R - Nós não temos nenhuma relação, digamos, formalizada. Os espaços aqui na instituição são abertos à brigada, é uma instituição autónoma que tem a sua filosofia de existência; têm o seu caminho. Às vezes participam de forma muito animada nas makas à quarta-feira. Mas não são só os «brigadistas» que aparecem nas makas à quarta-feira, são jovens do ensino médio e superior da periferia da Cidade de Luanda. O que eu posso dizer desde que estou aqui é que sinto que o nível de intervenção, de perguntas que eles fazem, corresponde já a uma mudança de mentalidade, o que muito nos deve agradar. Porque quanto maior for o nível das intervenções cívicas de um cidadão no seio comunitário, maior será o seu desenvolvimento. O que quero dizer é que a participação durante um ano de mais de 9 mil jovens nas makas à quarta-feira é também um daqueles valores que não se pode contabilizar agora. Mas no futuro, quando o país estiver a reconhecer os novos discursos, não os discursos cristalizados da política do dia-dia, mas falo dos discursos das utopias que poderão indicar os novos caminhos da Angola do futuro, todos reconhecerão que a UEA teve a sua quota parte de responsabilidade. Creio que é um contributo da União dos Escritores, um contributo de tantas outras instituições que desenvolvam o debate, o gosto pela palavra e o gosto pela discussão dos temas sem que haja o crivo da censura ou dos tabus.

P - A maior ambição dos brigadistas é entrar para a União e não conseguem. O que é que se passa? Será por escreverem mal ou a política de admissão é que é bastante rigorosa?

R - Nós temos de ser rigorosos na entrada dos novos membros. Temos que discutir entre nós, os membros da União dos Escritores, as condições de admissão para a nossa instituição. Temos de dar sempre a nossa instituição um nível de responsabilização por aquilo que cada um de nós escreve. Falo de qualidade. O potencial membro deverá ser alguém que reúna as condições de exigência qualitativa ou seja, que tem um texto ou discurso muito bem elaborado para que a sociedade reconheça nesse membro alguém que a nível da elaboração da ficção e das utopias está perante um escriba de prestígio. Por esta razão, alguns membros defendem a ideia de que para se ser membro da instituição não deverá ser só pelo número de livros. Propõem que se crie uma comissão de avaliação para ver se este ou aquele candidato reúne as condições para ser membro da União dos Escritores, se o livro que esse candidato publicou responde aos preceitos de qualidade. Existem «vozes» que defendem a ideia de que deveríamos aumentar a exigência do número de livros, ao invés de dois livros, passarmos para oito livros. Mas outros interrogam-se se não surgirão candidatos que têm condição financeira para escrever oito obras numa só «rajada», obras que poderão não corresponder aos padrões de exigência, tanto na área da ficção, poesia ou ensaio. Então temos de refletir e discutir mais sobre esta questão, sempre numa visão corporativista.

P - Importantes escritores da União preferem editar os seus livros no estrangeiro. O senhor Secretário-Geral ficou de atrair ou chamar estes escritores para editar os seus livros aqui na União onde são membros. Como vai este processo?

R - Vamos apostar na qualidade de conteúdos e desenho gráfico. Vamos tentar ter um nível idêntico a qualquer outra editora no país e no mundo. Estamos certos de que, existindo na nossa instituição muitos membros que têm muito para dar à nossa literatura, e que têm já uma experiência do passado com livros de grande qualidade, estamos cientes que alguns voltarão de forma natural a oferecer as suas obras inéditas a nossa instituição. Hoje já estamos a receber obras de escritores considerados clássicos da nossa literatura e que ainda estão vivos. Isto é um sinal de que a nossa instituição está a fazer crescer o seu prestígio editorial. Se nós conseguirmos criar mais prestígio editorial, se nós conseguirmos ter uma política de exigência tal como as privadas fazem, estou ciente de que nomes importantes da nossa literatura voltarão a publicar usando a chancela da União dos Escritores Angolanos. Dei-lhe o exemplo do Jorge Macedo que já entregou três obras inéditas.

P - Eu avanço outros dois nomes importantes. Luandino Vieira e Óscar Ribas estão em Portugal e não se sabe se ainda têm condições de produzir. A União tem tido esta preocupação de saber como estão estes escritores?

R - Acho que a relação tem que ser recíproca. Os membros têm que dar muito mais do seu esforço à instituição. A UEA tem que ser uma instituição que receba permanentemente o carinho dos seus membros. Que receba permanentemente a vontade dos membros em definirem e articularem políticas corporativistas, no sentido destas políticas serem institucionalizadas por parte do Governo. Ou seja, é necessário lutarmos para que existam bolsas de criação no sentido do escritor não ficar condicionado quando tiver que escrever uma obra, condicionado a outros factores emocionais que vão prejudicar a obra. Como seja, a procura do pão, da roupa para a sua criança e do salário. É necessário que o interesse corporativista da União dos Escritores corresponda à vontade de todos os seus membros. Não pode ser só a instituição a estar à procura dos seus membros. É necessário também o sinal contrário. É necessário que cada um de nós traga para a instituição novas visões corporativistas que possam melhorar o nosso desempenho na sociedade angolana. Hoje já se pode quantificar o que a instituição oferece: uso de PCs ligados à Internet, espaços de digitalização de textos, o site que torna visível os seus mundos literários, constituição de fundos para a publicação dos inéditos, organização das antologias, etc., mas poucos são os escritores que pagam cotas, um mal crónico.

P - Alguns escritores têm-se afastado de certa maneira da literatura. É o caso por exemplo de Dario de Melo que diz que já não vai escrever para literatura infantil. Gostaria de saber o que se passa em relação a isto. Será que os escritores estão algo desmotivados?

R - Há sempre alguma desmotivação e desencanto na nossa sociedade, isto é próprio das sociedades. Há escritores que eventualmente deixarão de escrever porque estão preocupados com a vida material, estão preocupados em dar uma melhor educação aos seus filhos e aos seus familiares e, na verdade, por vezes não se pode coadunar as duas coisas, ou seja, um empenho na literatura e outro empenho na vida profissional. Por isso é que nós tocamos nesta questão importante que é a institucionalização das bolsas de criação por parte do governo de Angola. Quando é que isto vai acontecer? Dependerá da nossa capacidade corporativista em sensibilizar o Presidente da República, o Primeiro-Ministro de Angola e os restantes governantes. Angola pode ser importante no futebol, no basquetebol, mas será sempre muito mais importante se Angola conseguir colocar na aldeia global aquilo que se define como imaginário dos povos e que é a literatura e produção de saberes. Esses são os elementos que vão marcar as sociedades do futuro.

P - Quais são as causas do decréscimo da produção literária para crianças?

R - Essas causas não podem ter uma explicação administrativa. É necessário que se criem as condições para que as coisas aconteçam. É necessário que se criem as condições materiais, no caso da UEA, que ela tenha fundos para produzir os livros dos seus membros. É necessário que a união tenha fundos para produzir a literatura de outros povos, como seja dos nossos irmãos do Zimbabwe, da África do Sul e da Costa do Marfim. Porque é através desta relação de conteúdos que se pode também melhorar os nosso nível de elaboração de conteúdos para que não tenhamos que fazer aquilo que outros já fizeram. Outro aspecto já referido: criarmos condições materiais para que também o escritor esteja mais tempo a reflectir sobre as suas temáticas. Vamos ter mais temáticas, também viradas para a literatura infantil. Porque vamos potenciar a capacidade espiritual do escritor. E hoje não é possível potenciar esta capacidade. Porque todos membros como disse, na nossa sociedade estão virados para duas questões fundamentais. Se, por um lado, escrevem nos intervalos da sua vida profissional, por outro lado, têm a vida profissional como elemento nuclear da sua existência. E, portanto, a literatura vem sempre, por vezes, como um desporto.

P - Passados 28 anos da instituição, por vezes dá a sensação de que ela congelou no tempo. Concorda com esta opinião?

R. Eu acho que muitas coisas congelaram no nosso país. Nós tínhamos uma cultura comunista, Marxista - Leninista e hoje temos que nos adaptar a uma nova visão de existência. Veja que no passado nós tínhamos «grilhetas» ao nível do pensamento. Hoje não temos. Portanto, o nosso desempenho só pode ser melhor em termos de grandeza espiritual em relação ao passado. Os jovens não viveram estes factores de coacção que foram determinantes para eliminar o «ego» angolano. Hoje, graças ao processo democrático desenvolvido no nosso país, tanto os jovens como nós, os antigos, temos uma possibilidade de expressão que liberta a nossa energia interior. Temos uma melhor oportunidade de utilizar o nosso potencial discursivo no sentido de fazer chegar a nossa visão sobre o mundo e a nossa ideia de como nos devemos organizar e de como em nós o sentido poético e ficcional se pode desenvolver. Isto é hoje um ganho incomensurável. O passado, comparativamente ao hoje, é muito sofrível porque o «hoje» tem muito mais de exaltante do que tivera este passado íntimo, não falo do geográfico: bandeira e ideologias.

P - Há quem defenda que os escritores fundadores da UEA devam ter um apoio mais concreto. Por exemplo, uma pensão ?

R - Temos que reflectir sobre as políticas sociais nos mais diversos quadrantes. A política social para os velhos que na nossa sociedade, por vezes, não têm recursos para a sua sobrevivência. E neste drama social encontram-se os escritores e os músicos. Portanto, temos todos de influenciar no sentido do Estado ter uma política que defenda cada um dos segmentos da sociedade. Na questão concreta e relacionada com os escritores, é importante reconhecer que são um património espiritual que existe no nosso país e que também não é comensurável, ninguém poderá determinar o seu valor material. Porque quanto estruturámos o pensamento, fizemo-lo através da poesia escrita nestes últimos e vinte e tais anos de independência. Pensamos muitas vezes através dos ideais de muitos gritos literários que tiveram início nos idos anos de 1945. Hoje, quando falamos na angolanização, estamos a buscar, a repescar do passado alguns valores que foram defendidos por aqueles que criaram o movimentos literário «Vamos Descobrir Angola». Podemos dizer que sempre, na nossa poesia, estiveram presentes os elementos de apelo às liberdades fundamentais do ser humano, levou é muito tempo a termos esses valores antes utópicos como guias do nosso dia-a-dia. É necessário que o Estado reflicta se também aqueles que fizeram a música não merecem um tratamento distinto, porque a música também faz parte do nosso imaginário e muita dessa música do passado faz parte hoje da maneira como moldamos ou «seguramos» o mundo. Acho, e bem, que o Estado deva reflectir se nas políticas sociais não terá que ter em conta o apoio aos criadores. Dou-lhe um exemplo, na Namíbia, e nalguns países do mundo, estão a ser criadas vilas para os criadores, para os cantores, para os homens do teatro. E porque não reflectirmos aqui em Angola sobre a possibilidade dos jornalistas na área da cultura, dos escritores, dos músicos e dos pintores terem uma vila só para eles? Terreno junto à orla marítima é o que há de mais. Porque não? E sabe que os criadores não podem cobrar, não têm forma de o fazer. Ainda a nossa sociedade era rígida por uma só ideia partidária, cinzetismo total, mas a poesia já apelava para o reconhecimento do outro, olhar para o seu âmago. São todas essas riquezas históricas que os criadores edificaram e que é o imaginário do povo angolano.

P - Não estaremos em tempo de constituir, ainda que de forma embrionária, uma academia de letras?

R - Há determinados escritores que defendem a necessidade de criação de uma academia de letras para Angola. Eu tenho opinião diversa. Devemos potenciar a nossa instituição, criando mecanismos de maior selectividade para os processos de adesão de novos membros, devemos criar, se necessário, artifícios internos de pedestais. A partir de uma certa idade, quem sabe aos 50 anos, os membros nesta faixa etária poderiam ter um outro estatuto, serem considerados já «catedráticos da nossa literatura», para que cada uma das suas intervenções seja considerada como «orações de sapiência», seja considerada como intervenção de grande nível intelectual, e podendo até ter um traje especial nos actos cerimoniosos. Togas e túnicas com bainhas banhadas em ouro. Os presidentes dos Órgãos sociais a eleger só poderiam sair desse grupo restrito. Eu sou muito mais apologista das opções «gradualistas» e não criarmos agora uma visão artificial, prematura até. Não interessa assistirmos a um certo confronto de interesses entre os 120 membros, cada um olhando para o seu umbigo. Quem são os que deveriam estar nesta academia?

P - Nestes 28 anos de associação, nota-se ao nível da literatura angolana uma grande mudança temática. A temática colonial, os tais escritos de cárcere vão dando lugar a novas formas literárias?

R - Nós temos uma cultura muito impregnada do discursivismo, porque, como disse, a nossa sociedade viveu momentos de cárceres, momentos de colonização; neste período, existiram cânticos de exaltação à nossa terra, à nossa autodeterminação, independência, a valorização cega da figura do herói. Mas isso não desapareceu, permanece na nossa sociedade, por vezes aparecem jovens e velhos escritores onde estes elementos discursivos estão presentes. Onde exista uma injustiça social estará sempre presente a pena dos poetas, como se fossem matéria-prima para cada um dos versos. Opções estéticas que vão fazer sempre parte do quadro das nossas correntes literárias, porque o País que queremos poderá estar muito longe do País que vivemos. Existem outras correntes literárias que, graças a este sentido de valorização do outro, daquele que és tu e não sou eu, permite explorações temáticas para as vias do surrealismo, do fantástico. O simbólico que procurará entre o caos e as lamas a luz que permitirá que os «egos» façam os ziguezagues e o País fique menos hirto, menos feito de régua e esquadro. São correntes que trabalham mais a escrita do que a necessidade da comunicação directa ou coloquial. Isto dependerá em muito do desenvolvimento da nossa sociedade também. Porque a cogniscibilidade do mundo e de nós próprios vai sempre influenciar as grandes correntes literárias que existem ou que naturalmente virão a surgir no panorama literário do nosso país. Mas elas coexistem, isto é que é importante. Existe a tendência discursiva e simbolista da nossa literatura.

P - O Sr. Secretário, não há muito tempo, falou numa entrevista radiofónica que é contra a «exclusividade dos discursos», quer desenvolver essa questão?

R - Vou falar de experiências, não é ficcional. Já recebi dois confrades que no meu gabinete tentaram denegrir outros confrades que tiveram vários destaques pelas suas intervenções cívicas. O mais incrível até é que os desqualificaram até em relação aos órgãos de imprensa onde expressaram os seus pontos de vista ou especulações filosóficas. Não é o caso do nosso «Mais-velho» Mendes de Carvalho, que como sempre diz é cinza e mais ninguém o poderá chamuscar. Eu penso que não podem existir dois tipos de «intelectuais», os que crêem ser os mais habilitados para filosofarem sobre a nossa condição de homens, para «alertarem o poder» constituído ou dizerem diatribes contra este ou aquele governante, ou mesmo desfazerem o lado ortodoxo dos discursos políticos, ou ainda admitirem que só eles têm um «passado», e, coitados, outros intelectuais cujos rasgos discursivos são objecto de desprezo, direi mesmo de intolerância, por parte destes eleitos. A nossa sociedade necessita de uma grande explosão espiritual, de «publicidade» dos vários painéis íntimos e telúricos pois é o confronto sem «sabres nem pólvora» dessas visões e verbos que vão definir o esteio da nossa identidade angolana. Mais facilmente os escritores poderão descobrir o DNA do «Outro», esse ser que passou pelas formas herméticas e pelos postigos da nossa poeticidade. É para dizer-lhe que todos os discursos são válidos para o enriquecimento da nossa sociedade. Permita-me que lhe conte algo caricato?

Sim, tem mais algum tempo. Escasso, é verdade... Quando exerci as funções de Adido Cultural em Portugal, o Mawete João Baptista, embaixador, pediu-me encarecidamente que participasse numa reunião que prepararia o seu discurso por altura de mais um aniversário do País. Quando cheguei ao local da reunião, estavam os conselheiros rodeados com dezenas de rolos de «telexs» com discursos antigos do Presidente da República, e, quando li o discurso, qual não foi o meu espanto, tinham plagiado vários trechos dos seus discursos. Você conhece, certamente, a colcha que as nossas mães faziam com pedaços de mil tecidos, quanto mais coloridos melhor; o que li tinha muitos mais retalhos. Dirigi-me para o homem da «Disa» e disse sem papas na língua: O Mawete não pode continuar a ser um boneco nas vossas mãos. E alterei tudo perante o olhar de ódio dos que pretendiam evitar a elaboração de um discurso que tivesse em conta os problemas que vivíamos no relacionamento com a comunidade, com os empresários... assunto é que não nos faltava, mas dizermos que o que se discursava era do Mawete é que traduzia uma grande mentira, viviam um consulado de máscaras, afinal eram palavras do Presidente. Outra: Um belo dia de festa, estávamos na Funda, e um popular pediu silêncio, e, sem que lhe pedíssemos, desatou a fazer um discurso... todos ficámos admirados pelo seu lado «atrevido», e todos deixaram que continuasse o seu discurso. Qual não foi a nossa grande gargalhada quando no fim o homem disse: é o meu discurso. Risos e mais risos, e o homem pulava também de contente. Depois de um longo silêncio cúmplice, alguém dos meus amigos disse alto: o discurso é do falecido Presidente Agostinho Neto. Temos que evitar a situação dos dois extremos, é preciso que usemos as palavras a partir de nós mesmos, cientes de que cada ser é um universo de ideias.

P - Os escritores constituem uma franja importante da nossa sociedade, cujas ideias são importantes. Gostaria que comentasse sobre os seguintes temas:

P - PROJECTO BAÍA:

R - Eu não conheço o projecto Baía. Não posso falar de coisas que não conheço. Mas acho que, acima de tudo, nos projectos de grande envergadura, o Estado deve ter a coragem de discutir com os cidadãos. Os cidadãos devem ser parceiros do Estado, na discussão sobre as questões que tenham a ver com valores de defesa do seu património histórico, com a preservação do meio ambiente, com as oportunidades temporais, se este é o momento oportuno para desenvolver certos projectos megalómanos, se não existem outras alternativas territoriais para desenvolver um projecto dessa envergadura, se estas alternativas não terão maior impacto social e político na nossa sociedade se forem implementadas nas malhas urbanas dos musseques, ou se a visão do Estado (que por vezes é isolada, ou pedante, por se tratar de decisões que por vezes são tomadas num gabinete) representa os interesses da maioria da população, porque o «Zé Povinho», o nosso «Kahitu», não tem lobbys, se os projectos feitos assim não vão aumentar o fosso das periferias. Acima de tudo, é necessário capacidade por parte dos intervenientes dos projectos para estabelecerem os diálogos e termos em conta que o sector privado internacional tem que respeitar as nossas prioridades de desideratos nacionais: menos musseques, mais cidades universitárias, novos centros urbanos, a rede nacional de estradas, requalificação das zonas degradas, são alguns pobres exemplos.

P - A PRESENÇA DE ESTRANGEIROS NO CARNAVAL:

R - Há muito tempo que estamos a falar do nacionalismo angolano. Mas a ideia cosmopolita sempre existiu e as sociedades não podem ficar fechadas. Interessa saber o seguinte: será que a participação desses estrangeiros vai anular a nossa idiossincrasia cultural? Será que a participação desses estrangeiros é necessária, será que pressupõe o não reconhecimento dos angolanos e «brasileirização» da nossa cultura?. O meu receio só está aí, porque na vida económica, por vezes, há coisas que podem ser feitas pelos angolanos, mas os próprios angolanos preferem que sejam feitas pelos europeus e até amaldiçoam as capacidades nacionais.

P - CASA DE RECLUSÃO:

R - Eles têm a sua razão em quererem fazer do presídio um museu. Eu, por exemplo, estive preso na cadeia de S. Paulo durante três anos, sem ver a luz do dia. Vi jovens a serem levados para o fuzilamento, a serem torturados, sonhos destruídos. De forma injusta fui preso e até hoje ninguém me diz porque razão estive preso, e, na verdade, também quando olho para a cadeia de S. Paulo pergunto-me porquê que não fazemos do presídio de S. Paulo um monumento, e que esteja aí um museu para reconhecermos que num determinado momento da nossa história de Angola muitos jovens estiveram enclausurados por causa da nossa malvadez humana. O macabro é que a Casa de Reclusão terá que ter dois museus, sendo que um tratará do pós-independência. Todos os locais das nossas tragédias, margens do rio Kwanza onde fuzilaram os meus dois irmãos, as ruas do Bié, as longínquas chanas da Jamba, nas fogueiras da Jamba, devem obrigar-nos a pensar no amor ao próximo como a melhor ideologia. Este deve ser o olhar que os indivíduos que estiveram presos devem ter, de alerta para que não se branqueie a verdade. Não falo de revanchismo. Para que cada um de nós, ao olhar para estes monumentos, envergonhados de nós mesmos, reconheçamos que o passado não deve voltar até para que os nossos filhos não sejam arrancados de forma violenta da terra dos seus sonhos. Felizmente, só não temos mais locais de peregrinação e de reflexão amarga porque o «Zé» Eduardo dos Santos traduziu a sua «religiosidade» num guia de Estado, cultura que espero que outros dirigentes políticos possam seguir como o único meio de nos sentirmos angolanos.

P - É possível fazer uma súmula desses 28 anos da UEA?

R - Eu prefiro não fazer porque eu fui um agente desse processo e a minha visão sobre este processo poderia ser muito pessoalizada. Acho que a UEA conseguiu fazer tudo o que tinha que fazer. Conseguiu trazer para a nossa sociedade toda essa riqueza de criatividade literária. A UEA poderá fazer muito mais ainda em prol da nossa sociedade, mas este «fazer mais» dependerá da contratualização com o Governo, no sentido de existir um pacto institucional de desenvolvimento da cultura ligada aos criadores.

Estamos em Dezembro e uma análise ao ano literário é importante. Muito positivo. Como disse, só a União dos Escritores já tem cinco obras no prelo, já estão prontas graficamente. Isto significa que este será também um bom ano para a UEA.

P - A UEA tem um importante instrumento de informação e divulgação do que faz, é o site. Fale-nos um pouco dele?

R - Nós deixámos de ser uma instituição «info-excluída». Antes, nós não fazíamos parte do processo de globalização e isso era mau para a nossa instituição. Os estudiosos, quando tivessem que conhecer a nossa instituição, tinham que fazê-lo por meio de outros sites. A UEA resumia-se a um ou dois nomes. Com o nosso site, deu-se início a um processo de divulgação profusa da nossa literatura, à possibilidade de os internautas consultarem por semana mais de quatro actualizações sobre notícias que tratam das publicações de livros, que tratam de divulgar a vida dos escritores. E agora, na nova política de melhoramento do site da UEA, nós temos em conta criar mais links com conteúdos antologizados da ficção e poesia, um outro link com grandes entrevistas dos escritores angolanos. Pretendemos que, por ano, o Site da UEA tenha na sua base de dados mais de 40 entrevistas dos seus membros. Hoje, o nosso site é a principal base de consulta sobre a literatura angolana. E recebemos pedidos de informações de professores catedráticos de toda a parte do mundo, mantemos contactos com ensaístas de Portugal, Espanha, Brasil e tantos outros países e todos manifestam o interesse em participarem no enriquecimento documental do nosso site. Também através do nosso site, há escritores que receberam propostas comerciais no sentido de verem as suas obras publicada no exterior do País. Portanto, a ideia que se passa hoje não é a de uma UEA minguada, excluída do mundo digital, mas uma UEA plural e com o seu universo de mais de 120 membros e não o universo de um ou dois membros. Temos «on» mais de 100 ensaios sobre a nossa literatura. E mais, o Site está no «top 10» do portal da ex/Ebonet, com mais de 18 mil visitantes durante o seu primeiro ano de existência.

P - Ainda se poderá dizer taxativamente que os escritores são pobres?

R - Os escritores são pobres. São ricos de espírito, são ricos de sonhos, ricos de utopia, mas materialmente são pobres e muitos dos escritores necessitariam daquele apoio social que tão bem frisou, no sentido de eles não desaparecerem do nosso mundo de forma tão deprimente, de forma tão decadente, ou que vegetem pelas cidades. É triste olharmos por vezes para alguns dos nossos escritores que estão num estado de demência social, sem tecto porque foram postos na rua pelos filhos, doentes e à espera de um apoio do Estado, à espera do subsídio de mérito para os criadores. A atribuição das bolsas de mérito é uma boa política há mais de um ano estabelecida pelo Governo mas que não chega para atender a lista de emergência de todas as associações. Não só da UEA, mas como das outras ligadas à música e às artes plásticas. Creio que deve existir da nossa parte uma luta cívica, no sentido do Estado disponibilizar mais recursos para que estes escritores que estão nessa situação de demência social não morram envergonhados e só com a sua riqueza espiritual. É necessário que a sociedade reconheça que, quando escrevemos um livro, ele tem um valor inimaginável e que a sociedade tem que olhar para os criadores como seres muito fragilizados que têm que ser defendidos e apoiados.

P - A UEA estará em eleições. As mais recentes foram as mais conturbadas da última década. Como estão os preparativos para este ano?

R - Foram conturbadas, mas graças a uma dinâmica de democracia no nosso País. O partido no poder fez ouvidos de marcador aos três escritores que foram apresentar «queixinhas» ideológicas e apoios de campanha. Porque quando não se concorda com algum procedimento, temos os tribunais. No passado, não tínhamos esses valores. Há dois anos já existia a isenção e independência dos tribunais e dos agentes que fazem a justiça. São ganhos para a civilização angolana. Portanto, estes processos, em qualquer parte do País, desde que sigam os preceitos legais, são inquestionáveis; a controvérsia, mas baseada na lei e no respeito pela lei, é uma atitude que só pode reforçar nossa democracia. Qualquer um dos membros que se considerou defraudado teve a oportunidade de utilizar qualquer um destes meios legais para, na visão dele, pedir a reposição da justiça ou da verdade, mas ninguém o fez, prova de que essa atitude correspondeu também à vitalidade da nossa democracia. A capacidade que cada um de nós tem de reconhecer que existem preceitos legais, de autocrítica, de avaliação dos recursos judiciais; temos é que permanentemente reflectir sobre eles e conduzirmos as nossas vontades e paixões com base nessas regras elementares. As eleições foram justas e democráticas e o número de votos foi dos mais altos das últimas décadas. Para o próximo pleito eleitoral todos terão a possibilidade de apreciar de forma crítica os projectos, as reformas estatutárias. Os funcionários não farão parte de nenhuma estratégia de campanha dos candidatos. Colocarão o seu saber administrativo em função de cada uma das candidaturas. Na verdade, nós somos hoje os gestores da casa, mas temos que ter uma atitude de equidistância em relação a todo este processo eleitoral, apesar de liderar uma lista para ganhar.

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