testeira-loja

"Perder a fé em Angola, nunca!" Destaque

Escrito por  Isaquiel Cori

 

É uma das vozes femininas que mais se fazem ouvir na literatura angolana. Encantadora e declamadora vibrante, a sua presença é amiúde requisitada nos mais importantes saraus culturais luandenses.

A sua poesia, patente nos dois livros que publicou (Ânsia e Sacrossanto Refúgio), pela força, sinceridade e sensibilidade aguçada que irradia, impôs-se rapidamente e catapultou-a à condição de uma das mais importantes poetisas angolanas. Contestando o rótulo fácil de cultora de uma poesia feminista, afirma, categoricamente, e com toda a verdade, que também canta o choro das crianças, a degradação social e o remetimento dos povos à ignorância. Nascida em Novembro de 1961, em Cabinda, instala-se em Luanda em 1981. É sua opinião que "a poesia angolana está a ganhar cada vez mais o mistério fabuloso da sublimação da palavra e do sonho". E, mais do que nunca, tem a convicção de que Angola terá "um futuro melhor".

 

É uma das vozes femininas que mais se fazem ouvir na literatura angolana. Encantadora e declamadora vibrante, a sua presença é amiúde requisitada nos mais importantes saraus culturais luandenses.

A sua poesia, patente nos dois livros que publicou (Ânsia e Sacrossanto Refúgio), pela força, sinceridade e sensibilidade aguçada que irradia, impôs-se rapidamente e catapultou-a à condição de uma das mais importantes poetisas angolanas. Contestando o rótulo fácil de cultora de uma poesia feminista, afirma, categoricamente, e com toda a verdade, que também canta o choro das crianças, a degradação social e o remetimento dos povos à ignorância. Nascida em Novembro de 1961, em Cabinda, instala-se em Luanda em 1981. É sua opinião que "a poesia angolana está a ganhar cada vez mais o mistério fabuloso da sublimação da palavra e do sonho". E, mais do que nunca, tem a convicção de que Angola terá "um futuro melhor".

P - Nasce em Cabinda em Novembro de 1961. Foi lá que começou a escrever?

R - Sim. Por volta dos 13 anos, com o incentivo de professores e família.

P - Quais são as influências ou motivações que a impulsionaram para a criação literária e, mais concretamente, para a poesia?

R - Talvez o facto de ter tido pais que cantavam, contavam histórias e estórias e nos punham a contar as estrelas e a descobrir imagens nas nuvens.

P - Quais foram as leituras decisivas que mais peso terão tido na sua formação cultural e poética?

R - Camões e Gil Vicente, as estórias da carochina e do Capuchinho Vermelho e tantas outras referências, como Tchekov, Gorki, Alexandre Dumas, Neto, Jacinto e Viriato, enfim...

P - Fale-nos do ambiente cultural, social e político reinante em Cabinda durante a sua adolescência...

R - Cabinda não era totalmente diferente do resto dos territórios colonizados. A diferença substancial estava no facto de ter sido uma zona franca, o que originava uma baixa de preços substanciais, nos produtos básicos. Há que sublinhar que o movimento cultural era intenso. No que toca à música, por exemplo, vários agrupamentos musicais locais faziam a festa das populações, muitas vezes sem concorrência doutras paragens. A noite colonial era do mesmo tom, textura e embrutamento, no que toca à dignificação dos naturais, logicamente.

P - Quando e em que circunstâncias vem a Luanda?

R - Venho viver para Luanda por volta de 81, devido à transferência do meu companheiro.

P - Como define a poesia?

R - Poesia é a expressão sublimada das inquietações do espírito, isto é, do nosso corpo etéreo...

P - Para que serve a poesia?

R - Para a expurgação de penas, alheias e nossas, como um grito, uma gargalhada, um ponto de afirmação, interrogação, reticências, ponto e ponto e vírgula, das nossas vivências... Enfim, um continuado exercício de percepção...

P - Essas palavras são suas: "Que / tortura / a cada / Instante / Ah / Se não fosse / Essa mania / De escrever / Poemas / que / dão / alento // Acho / Amor / que morreria / por ser / tão grande / esse tormento". E também essas: "Sacrossanto refúgio". Essas palavras significarão que, para si, a poesia é o território da sua realização pessoal, o local aonde vai buscar forças e ânimo para viver?

R - Não. Conheço muitos e brilhantes leitores que se identificam com o que escrevo. A poesia para mim é apenas um complemento na busca da minha paz profunda.

P - A transformação da poesia em "sacrossanto refúgio" significará a deificação da poesia, a elevação da poesia a entidade divina? A poesia, digamos assim, é o seu Deus?

R - É um refúgio sagrado, em alguns momentos, mas também pode ser um guarda-chuva, guarda-sol, uns óculos escuros, uma máscara cirúrgica ou de carnaval...

P - Acredita que existe uma poesia feminina? A existir, ela seria criada apenas por mulheres?

R - Não. Alguns aspectos de vivências, próprias, como a maternidade, algumas expressões passivas dos sentimentos, podem identificar o sexo de quem escreve?... Talvez. Ainda ontem escrevi a letra de uma canção, para ser interpretada por homens... Acho a poesia assexuada... e procurar doentiamente destrinçá-la pelo sexo da letra é, no mínimo, deselegante.

P - Por vezes, a sua poesia faz abertamente a apologia das causas femininas. A Amélia Dalomba assume-se como feminista?

R- Canto, também, o choro das crianças, a degradação social e o remetimento dos povos à ignorância. Será que me poderia inventar um rótulo para isso? Se sim, agradeço.

P - Como vê a poesia angolana hoje? Nela, o que mais lhe fascina?

R - A poesia angolana está a ganhar cada vez mais o mistério fabuloso da sublimação da palavra e do sonho... E fascina-me precisamente este aspecto. Muito embora, amiúde, os leitores exijam mais comunicabilidade. Só que ninguém poderá no acato da criação preocupar-se com isso, mas uma coisa é certa: a mensagem fica sempre no subconsciente e acredito que não a deixaremos por mãos alheias...

P - Diga-nos a sua opinião sobre: a poesia de Ruy Duarte de Carvalho, José Luís Mendonça, João Melo, João Tala, Conceição Cristóvão, Lopito Feijó; a música de Dog Murras, Paulo Flores, Carlos Burity, Euclides da Lomba; a pintura de Viteix, Álvaro Macieira, Tona, Marcela Costa.

R - A sua pergunta é bastante condicionada. Porquê? Qualquer um dos nomes citados simboliza uma potência no mundo das artes angolanas, dentro do seu género, sua época, seu público. Só que citou apenas uma mulher e sabe tanto quanto eu que em todas as esferas da criação elas estão presentes já em número e qualidade respeitáveis. Enfim... deixo aos críticos a abordagem analítica mais profunda de todas estas figuras da cultura angolana.

P - Acredita que a literatura pode ajudar a mudar a vida e o mundo?

R – Acredito, sim. Germano Almeida, de Cabo Verde, é prova disso, com o seu livro O Dia das Calças Roladas, e mais um outro recente que já não me recordo o título...

P - A edição de livros tende a crescer, mas nota-se uma confrangedora falta de leitores, na medida em que até edições de 500 exemplares ficam anos e anos nas prateleiras das livrarias. O que poderia ser feito, do seu ponto de vista, para mudar essa situação?

R - Enquanto o Estado Angolano não subvencionar o livro, as prateleiras continuarão abarrotadas, a formação dos Angolanos deficiente, pois, enquanto isto não acontecer e quem de direito não agir no sentido de priorizar a formação do indivíduo, é injusto o que se ouve muitas vezes, a atribuição de culpas aos escritores...

P - Como cidadã e poetisa, tem fé num futuro radioso para Angola?

R - Perder a fé em Angola, nunca! Estaríamos todos mortos. Temos que acreditar e fazer por isso. Um futuro melhor!

P - Nesse mundo cada vez mais globalizado, em que aparentemente tudo ou quase tudo parece já ter sido inventado, o que é que os escritores angolanos podem acrescentar de novo?

R - Angola ainda é virgem em muitos aspectos. Temos muito para pesquisar, para o melhoramento da nossa expressão artística. E para isso é preciso humildade, identidade cultural e coerência de valores. Há muito a fazer...

P - Neste nosso continente africano ameaçado pela pobreza extrema e doenças endémicas como o SIDA, e não só, e ainda pelas guerras, há algum espaço para optimismo quanto ao futuro?

R - Ao longo da história da humanidade, ciclicamente, pestes assolaram os humanóides. Por isso, devemos sem pânico cuidar da prevenção e cuidados primários, para evitar a disseminação. Sabemos que tudo isso passa por medidas dos Estados, na formação das consciências, no combate e no apoio às organizações da sociedade civil... E alguma serenidade, como uma questão de auto defesa, até...

P - Pode dizer-nos das suas próximas novidades literárias?

R - São só projectos. Deskuanzados, mas ricos de sonhos e manuscritos.

P - Sabemos que também tem uma inclinação para a música. Para quando um disco seu?

R - Como gravar um disco?! Se ainda não fiz nem uma terça parte do que devia em relação à poesia, como meter-me em outra empreitada, que, sinceramente, ainda não estaria à altura? Tenho letras e melodias que, se alguém quisesse fazer-me o favor de ouvir e cantar, já seria mu

Ler 4243 vezes

Contacto

AV. Ho-Chi-Min, Largo das Escolas
1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

Telefone: (222) 322 421 Fax: (222) 323 205

e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Blogs

blogspotuea1    blogspotueamulembeira           blogspotueanguimba
         
ytlogo2   blog-poetenladen   logotips