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"Hei-de escrever enquanto fizer sentido"

Escrito por  Ndalu de Almeida

Entrevista de: Isaquiel Cori

 

É, seguramente, o membro mais novo, em idade, da União dos Escritores Angolanos. Nascido em Luanda, em 1977, Ndalu de Almeida, Ondjaki de seu pseudónimo, tem vindo a impor-se pela qualidade versátil dos seus textos. Para além da literatura, os seus interesses criativos incidem na área do cinema, mais concretamente do documentário.

Aqui, Ondjaki revela que sempre foi uma pessoa fascinada por estórias, sempre gostou de as ouvir e de as recriar. E garante que o seu "projecto literário" é "escrever enquanto fizer sentido, isto é, enquanto acreditar que tenho uma boa estória para contar, e que a escrevi bem, que vale a pena ser publicada". Defende que, alcançada que está a paz no país, "a ausência de um clima de guerra permitirá o surgimento de diferentes 'movimentações sociais', o que levará ao combate à desorganização e à corrupção". Ondjaki publicou Bom Dia Camaradas, novela, Chá de Caxinde, 2001; Momentos de Aqui, contos, Nzila, 2002; O Assobiador, romance, 2003; e Há Predisajens com o Xão, poesia, Nzila, 2003.

 

É, seguramente, o membro mais novo, em idade, da União dos Escritores Angolanos. Nascido em Luanda, em 1977, Ndalu de Almeida, Ondjaki de seu pseudónimo, tem vindo a impor-se pela qualidade versátil dos seus textos. Para além da literatura, os seus interesses criativos incidem na área do cinema, mais concretamente do documentário.

Aqui, Ondjaki revela que sempre foi uma pessoa fascinada por estórias, sempre gostou de as ouvir e de as recriar. E garante que o seu "projecto literário" é "escrever enquanto fizer sentido, isto é, enquanto acreditar que tenho uma boa estória para contar, e que a escrevi bem, que vale a pena ser publicada". Defende que, alcançada que está a paz no país, "a ausência de um clima de guerra permitirá o surgimento de diferentes 'movimentações sociais', o que levará ao combate à desorganização e à corrupção". Ondjaki publicou Bom Dia Camaradas, novela, Chá de Caxinde, 2001; Momentos de Aqui, contos, Nzila, 2002; O Assobiador, romance, 2003; e Há Predisajens com o Xão, poesia, Nzila, 2003.

P - Como e porquê 'Ondjaki'?

R - Ondjaki é o meu pseudónimo literário, e escolhi-o porque era para me chamar Ondjaki. A dada altura, os meus pais mudaram de ideias e deram-me outro nome. Quando comecei a aparecer publicamente optei por esse pseudónimo.

P - Quando, onde e em que circunstâncias despertou para a criação literária?

R - Penso que despertar para a criatividade literária é um processo gradual, e, na maioria das vezes, um processo dependente de outros processos internos que têm a ver com a criatividade, a maturidade emocional, a sensibilidade, etc. É difícil, portanto, apontar um momento concreto. Parece-me que sempre fui uma pessoa fascinada por estórias, sempre gostei de as ouvir e de as recriar. Mais tarde, talvez aos 17 anos, descobri que me dava prazer dar-lhes um formato escrito, reinventá-las com alguma coerência.

P - Quais foram (são) as leituras que se terão revelado decisivas na sua formação cultural e artística?

R - Fica difícil citar nomes, no entanto é importante referir que as leituras são muito importantes, muito mais do que aquilo que se usa imaginar. E digo isto não só porque as leituras nos permitem em certa maneira interagir com os textos de outros, como nos dão ainda acesso ao seu imaginário. E frequentar livros é frequentar mundos, é viajar. E a diversidade faz crescer, se bem apreendida. Penso que hoje em dia se descura um pouco a importância da leitura na formação pessoal do indivíduo. Parece que os escritores e os estudiosos é que devem ler livros. Não concordo com esta visão, penso até que faz parte da "boa educação" ter-se em atenção os hábitos e os tipos de leitura. Isto para dizer que praticamente toda a leitura é decisiva na formação cultural das pessoas. Mesmo aquilo que não se quer mais ler, mas para rejeitar é preciso ter experimentado. Pessoalmente, todos os autores com acentuado estilo próprio e sem medo de "voar" me foram muito importantes. Por exemplo, Gabriel García Márquez, Guimarães Rosa, Kazantzakis, Luandino. Mas também Clarice, Manoel de Barros, Manuel Rui Monteiro, Mia Couto, Paul Celan. Ficam muitos por dizer.

P - Um facto marcante da sua escrita, tanto na prosa como na poesia, é o gozo, o prazer mesmo de escrever, mais do que a veiculação de mensagens, como se o acto de escrever, para si, fosse sobretudo uma via para a descoberta de novos modos de dizer. É, realmente, assim que concebe o exercício da escrita?

R - Não, não é realmente assim, porque a veiculação de mensagens preocupa-me e, penso eu, é quase inerente ao acto da escrita. E uma escrita que contenha em si determinado tipo de mensagens não anula o "prazer de escrever", ou o exercício da escrita enquanto desfrute do potencial das palavras. Sem dúvida que tenho uma relação "libertina" com as palavras e com a língua portuguesa em geral. Penso que devemos mexer na língua, tendo em conta os referentes gramaticais, mas dando-nos a liberdade de exercer uma certa "pressão cultural" à língua portuguesa. A língua portuguesa já é também língua angolana, brasileira, cabo-verdiana, etc. O "portuguesa" é já o nome, a designação desta língua. Portanto, também concebo a escrita como espaço de criatividade, de reinvenção de um modo de estar que é linguístico. Mas as mensagens estão lá, aparecem de dentro para fora. Mesmo a "brincadeira linguística", o "atrevimento", pode conter em si muita mensagem.

P - Você pertence a uma geração que nasceu já no pós-independência. Digamos que você é, inteiramente, fruto da independência. Ou o período anterior à independência ainda teve ecos, ressonâncias, na sua educação e na sua mundividência?

R - Eu, pessoalmente, não me considero fruto da independência, nem sei se isso existe enquanto designação para um grupo de pessoas. Nasci de facto após a data da independência, e sim, julgo que isso tem implicações na minha formação e no meu processo de crescimento. Contudo, sinto que nós, os angolanos, vivemos ainda inseridos num ciclo que é muito vasto no tempo, para frente e para trás, e que engloba uma série de eventos por sua vez influenciados ainda pelo processo de colonização, pela inexistência de um correcto processo de descolonização, pela guerra anti-colonial e pelas nossas guerras internas. Nascer antes ou depois da independência é apenas falar de uma data, pois todos somos ainda influenciados por todos os eventos relacionados com a independência. Devo dizer que o período antes da independência, na minha opinião, tem grande influência na educação e na formação das pessoas da minha geração.

P - Uma questão que tem atravessado ultimamente a literatura angolana é a da utilização literária do português. Uns defendem que se deve escrever num português correcto outros advogam que já existe "um português angolano ou angolanizado" que deverá servir de base aos textos literários. O que pensa sobre isso?

R - Penso que um "português angolano" não é necessariamente incorrecto, portanto, é uma questão de escolha da estética e da tendência literária de cada um. Também penso que se pode escrever num português carregado de características culturais específicas e que não colida com as regras básicas do chamado "português clássico". Não se pode fugir à regra sem conhecer a regra, isto é uma verdade desde Guimarães Rosa, Luandino, Mia Couto... Mas é uma verdade sobre a estética também, qualquer estética, incluindo a linguística. É preciso conhecer para quebrar com qualidade. Agora, é preciso ter em atenção quem vai estudar este tipo de textos e a que grau de ensino mais se adequa. Possivelmente, um texto com demasiadas "excepções linguísticas" não é muito apropriado para uma camada estudantil muito jovem, ainda com um caminho longo pela frente no tocante ao estudo e interpretação dos estilos dentro da própria língua portuguesa.

P - A sua geração nasceu e ganhou a maioridade em pleno estado de guerra. Agora veio a paz. Que significado profundo tem, para si, o alcance da paz no país?

R - Tem o significado que eu julgo que terá para qualquer cidadão que gosta do seu país e da sua gente, é um momento magnífico, principalmente para aqueles que há anos vêm sofrendo na pele os efeitos de todas estas guerras. É uma oportunidade de pensar que a realidade angolana finalmente está dissociada da guerra e que isto vai propiciar que as pessoas cresçam (as crianças e os adultos) num ambiente diferente, e que a política do país se ajuste e se regule por outros índices que não os da guerra. Penso ainda que a ausência de um clima de guerra permitirá o surgimento de diferentes "movimentações sociais", o que permitirá o combate à desorganização e à corrupção. Mas, acima de tudo, estou contente porque as pessoas estão livres de um mal terrível que nunca é opção para ninguém. A guerra é uma tempestade que nunca ninguém quer e que todos desejam que passe o mais rapidamente possível. A nossa tempestade durou tempo demais.

P - No contexto presente e futuro da reconstrução e reconciliação nacionais, que papel, na sua opinião, deverão desempenhar os escritores?

R - Não estou certo. Os escritores podem ser vistos como seres lúcidos e intelectualizados (supostamente...), mas é preciso não esquecer que são cidadãos comuns com um certa habilidade artística. Os escritores devem desempenhar o mesmo papel que qualquer cidadão angolano, neste momento preciso da História do país: esforçar-se por contribuir para a evolução e melhoramento da sociedade. Sei que é uma visão utópica, pouco realista se calhar, mas é a minha opinião. Estamos numa fase crítica, do pós guerra, em que é preciso muito empenho individual de modo a que um eventual empenho colectivo seja posto em prática.

P - Pode dizer-nos dos seus projectos literários?

R - O meu "projecto literário" é escrever enquanto fizer sentido, isto é, enquanto eu acreditar que tenho uma boa estória para contar, e que a escrevi bem, que vale a pena ser publicada. Julgo que é muito difícil fazer isto, ao longo do tempo, com clareza e humildade, com justeza e sentido crítico, mas vou tentar. Tenho algumas ideias pensadas, para romances e para contos. Continuo a escrever poesia, embora não saiba ainda se a vou publicar ou não. E continuo interessado em escrever livros que sejam interessantes. O resto, só o tempo dirá.

P - Já disse publicamente da sua propensão para o cinema. Já terá alguma coisa em mão?

R - Tenho algumas coisas pensadas para cinema, coisas próprias e ideias para adaptações de materiais de outros autores. E estou, neste momento concreto, Setembro de 2003, a receber formação na área do cinema. O que tenho em mão são ideias para documentários. Seria importante documentar uma série de coisas que já se passaram e outras ainda que hão-de passar-se no domínio social e político de Angola. E os documentários são menos dispendiosos que os filmes, são mais acessíveis de serem produzidos. Espero pelo menos vir a fazer alguns documentários interessantes.

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