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"A construção de uma Angola boa para todos passa sobretudo pela educação"

Escrito por  Roderick Nehone

Entrevista de: Isaquiel Cori

Roderick Nehone é um dos escritores angolanos mais premiados. Apareceu publicamente, de início, como poeta (Génesis, INALD, 1996, Prémio António Jacinto), mas é sobretudo na qualidade de ficcionista que o seu nome é referenciado. Publicou ainda Estórias Dispersas da Vida de um Reino, contos, UEA, 1999, Prémio Sonangol de Literatura; O Ano do Cão, romance, Nzila, 2001, Prémio Sonangol de Literatura; e, mais recentemente, Tempos Sem Véu, romance, Nzila, 2003.

Como escritor, Nehone tem o objectivo confesso de retratar o seu tempo, a sua época, nas mais diversas perspectivas. "Não gostaria nunca de fazer passar a mensagem de um escritor que está de costas viradas à época e à sociedade em que vive", diz. Interpelámo-lo a propósito do lançamento do seu último romance (Tempos Sem Véu), sem deixar de solicitar a sua análise aos problemas mais gerais da literatura e da situação política e social do país. Quanto ao futuro deste portentoso país que finalmente desperta do pesadelo da guerra, Nehone é peremptório: "Angola é um país demasiado rico para que tenha um povo num nível perigoso de ignorância. As riquezas que Angola tem são tais que nós estamos condenados a deixar de ser ignorantes". Roderick Nehone é o pseudónimo literário do jurista Frederico Cardoso Manuel dos Santos e Silva Cardoso, nascido em Luanda aos 26 de Março de 1965. Actualmente, é secretário-adjunto do Conselho de Ministros da República de Angola.

 

Roderick Nehone é um dos escritores angolanos mais premiados. Apareceu publicamente, de início, como poeta (Génesis, INALD, 1996, Prémio António Jacinto), mas é sobretudo na qualidade de ficcionista que o seu nome é referenciado. Publicou ainda Estórias Dispersas da Vida de um Reino, contos, UEA, 1999, Prémio Sonangol de Literatura; O Ano do Cão, romance, Nzila, 2001, Prémio Sonangol de Literatura; e, mais recentemente, Tempos Sem Véu, romance, Nzila, 2003.

Como escritor, Nehone tem o objectivo confesso de retratar o seu tempo, a sua época, nas mais diversas perspectivas. "Não gostaria nunca de fazer passar a mensagem de um escritor que está de costas viradas à época e à sociedade em que vive", diz. Interpelámo-lo a propósito do lançamento do seu último romance (Tempos Sem Véu), sem deixar de solicitar a sua análise aos problemas mais gerais da literatura e da situação política e social do país. Quanto ao futuro deste portentoso país que finalmente desperta do pesadelo da guerra, Nehone é peremptório: "Angola é um país demasiado rico para que tenha um povo num nível perigoso de ignorância. As riquezas que Angola tem são tais que nós estamos condenados a deixar de ser ignorantes". Roderick Nehone é o pseudónimo literário do jurista Frederico Cardoso Manuel dos Santos e Silva Cardoso, nascido em Luanda aos 26 de Março de 1965. Actualmente, é secretário-adjunto do Conselho de Ministros da República de Angola.

P - Qual é o retrato que o escritor Roderick Nehone faz de si mesmo?

R - É fundamentalmente o retrato de um cidadão interessado nos problemas da sociedade que o rodeia. É o retrato de um homem preocupado com os problemas da época que lhe corresponde viver. Eu tenho dito que, enquanto escrevo, tudo quanto têm sido as ideias, as mensagens que veiculo através da obra, constituem sempre preocupação de natureza vária, filosófica, jurídica, social, que se prendem com a época e o país que me correspondem viver e com esta nova sociedade que está em permanente transformação. Não gostaria nunca de fazer passar a mensagem de um escritor que está de costas viradas à época e à sociedade em que vive. Esta será sempre a perspectiva do meu trabalho no domínio da literatura.

P - Quando, onde e em que circunstância começa a escrever?

R - Comecei a escrever em Cuba, em 1982. Na altura era bolseiro e tinha 17 anos. Naquela ocasião, houve um concurso de literatura organizado pelos professores de língua portuguesa. Eu tinha uns versos escritos e, desde aquela época, continuei a escrever.

P - Na altura já tinha sólidas leituras?

R - O concurso, no fundo, foi a primeira oportunidade que tive para dar a conhecer aos outros aquilo que eu fazia. Veja: estamos numa escola, num internato e o acto da escrita é bastante íntimo, muito individual em si. Só aquelas pessoas que nos são muito próximas é que sabem que estamos a escrever algo. Há centenas, quiçá milhares de pessoas nesta cidade (Luanda) que escrevem poemas, etc., e a gente não sabe. Por vezes, em determinadas circunstâncias, tenho sido abordado por pessoas amigas que ganham à vontade e confiança e dizem que também têm uns versos, uns poemas... Nos curricula dos meus estudos naquela altura tinha a cadeira de literatura.

P - Literatura cubana ou universal?

R - Literatura cubana e universal. Naquela época, já líamos Dostoievski, Émile Zola, Jean-Paul Sartre, Victor Hugo... Tínhamos uma biblioteca rica com as obras dos clássicos, a Ilíada, a Odisseia... Os professores recomendavam-nos obras para ler e havia depois debates à volta das obras recomendadas.

P - Quais foram as pessoas que mais o influenciaram, sobretudo no domínio da motivação para a escrita?

R - A obra de Agostinho Neto Sagrada Esperança é uma referência para toda uma geração daquela época. Era no tempo de partido único e ainda era a época da euforia revolucionária do pós-independência e estava muito elevada a influência do poeta-presidente nas leituras de todos aqueles que se inclinassem para a literatura. Em termos de referências, há um escritor russo, Nikolai Ostróvski, do qual li apenas uma obra e que marcou bastante o meu interesse pela literatura, o livro Assim Foi Temperado o Aço. Mas temos outras leituras que provavelmente terão deixado as suas influências. Eu não costumo dizer que estou mais ou menos influenciado por este ou aquele escrito. Digo sim que aquilo que nós somos hoje em termos de preparação intelectual é o resultado das leituras que fizemos ao longo da vida, das vivências que tivemos e da nossa personalidade em termos de carácter, temperamento e daquilo que são também as nossas preocupações de natureza filosófica.

P - No seu último livro, Tempos Sem Véu, fica-se com a impressão de que a ficção é apenas a trama. Já as análises, as reflexões, são como que ensaios sobre o real. Estaremos diante de um estudo sociológico romanceado sobre a realidade angolana?

R - Eu tenho uma preocupação que felizmente consigo exprimir através da literatura. É a de que por via da literatura é possível nós também manifestarmos a leitura da nossa sociedade. Cada um tem o seu ponto de vista relativamente à vida, aos problemas desta sociedade e do mundo. A perspectiva com que os apresentamos na literatura resulta muitas vezes ser a perspectiva em que nós próprios, enquanto escritores, vemos o problema ou também, às vezes, temos a ousadia suficiente para apresentar o problema desde vários ângulos. Eu, no meu trabalho, dificilmente deixo passar a oportunidade de, quando tenho um ou mais pontos de vista sobre um assunto determinado, procurar a forma de colocar o problema, mas apresentando-o desde o ponto de vista que me pareça razoável a partir da trama que esteja a desenvolver. Concordo consigo quando diz que há passagens, reflexões, que são uma leitura dos fenómenos sociais que vivemos. É uma perspectiva intencional, não surge por acaso.

P - Nota-se a existência de um narrador omnisciente e omnipresente que tudo vê e está em todo o lado, acima das personagens. Aliás, as grandes reflexões sobre o racismo ou a condição feminina são feitas por ele. As opiniões do narrador coincidem com as opiniões do autor?

R - Não existe esta coincidência forçada nem absoluta. Eu dizia à bocadinho que às vezes, quando se mostra oportuno, é possível trabalhar a obra no sentido de apresentar mais do que uma perspectiva de reflexão sobre um mesmo assunto. Não pretendemos nunca entender que determinado fenómeno deva ser visto desde um único ponto de vista. Ou seja, muitas vezes nós abordamos o problema da vida desde a janela em que nos é dada a possibilidade de observar esse problema. Eu costumo dizer que a vida cada pessoa ocupa uma janela. Muitas vezes, o autor coloca-se na pele de alguém que está a observar os fenómenos desde outra janela que não a sua. Por isso, eu não me arriscaria em afirmar que há coincidência permanente entre o ponto de vista do narrador e o ponto de vista do autor.

P - É que o narrador aparece numa posição equidistante de qualquer uma das personagens. Não há aquele jogo de panorâmicas a partir deste ou daquele personagem, a não ser nos diálogos...

R - Por isso é que eu estou a dizer que ainda neste caso da opinião do narrador eu não arrisco afirmar que essa opinião coincide em cem por cento com a opinião do autor. Eu deixo ao critério do leitor, não dou essa garantia.

P - A existir realmente essa coincidência eu perguntaria: porque não escrever afinal um ensaio, em vez de um romance?

R - Exactamente. Eu distingo a minha actividade literária de ficcionista da outra actividade como cidadão, político, jurista... Assim, no dia em que eu me colocar o desafio de fazer uma obra de investigação sociológica ou no domínio do direito ou da política eu vou fazê-la como Frederico Cardoso e não como Roderick Nehone.

P - Roderick Nehone é um pseudónimo puramente literário?

R - Habituei-me, felizmente com alguma facilidade, a conviver com estes dois papéis que eu me coloquei desempenhar na minha vida. O percurso da minha vida levou-me a isto. De algum modo, tive que habituar-me a viver com um pseudónimo e propus-me desde determinado momento ao seguinte: o literato, o escritor, o ficcionista, o poeta, é Roderick Nehone. O político, o jurista, é Frederico Cardoso. Pode ser confuso para outras pessoas, mas o que me dá alguma felicidade é que para mim já não é confuso.

P - Pelo menos no início da leitura do seu romance, pelos olhares panorâmicos do narrador sobre aspectos da história e da sociologia do país, fiquei com a impressão de que o autor tivesse a intenção inicial de escrever um romance total, um 'grande romance' não só em tamanho mas também na ambição totalitária, integradora, da vida no contexto angolano. Quer comentar?

R - Dá-se a casualidade de involuntariamente estar a adivinhar algo que eu comecei a propor-me depois de ter escrito este romance. Um dia, após o lançamento de Tempos Sem Véu, saí do país e, nessa semana de ausência, esbocei aquilo que, se eu tiver energia para o fazer, poderá ser um romance grande nessa perspectiva que acaba de me dizer. Já tenho o esqueleto, tem cerca de dezasseis personagens.

P - Antes de escrever um romance começa por caracterizar esquematicamente os personagens?

R - Começo por identificar os personagens, faço uma ficha biográfica de cada um deles...

P - O figurino mantém-se inalterável até ao fim?

R - Não. A própria dinâmica da trama pode fazer com que mudemos o curso desta ou daquela personagem. E depois há o momento em que a história ganha vida própria e às vezes até tenta subordinar o autor no sentido de aceitar determinado tipo de perspectiva. Eu tenho este método: faço a trama, caracterizo os personagens e depois vamos preparando os diálogos, os cenários...

P - Apesar de ser poeta, neste romance, salvo raras ocasiões, o autor não parece muito fascinado com a palavra em si, não tem a intenção de poetizar, de inventar novas formas de dizer as coisas. Isso obedecerá a alguma estratégia concreta?

R - Não. Neste caso concreto e sem me permitir facilitismo, tive a preocupação de fazer uma obra que tivesse uma escrita de fácil leitura por causa mesmo da sequência de acções, da natureza do tema, etc. Quando a gente elabora muito a palavra, trabalha muito o verbo e as diversas combinações que podem existir entre as palavras tornamos a leitura mais complicada. Porquê? Porque entram muitas metáforas e muitas vezes o nosso sentido da metáfora não é apreendido por quem lê e corremos o risco de ter uma obra com leitura lenta, já que o leitor fica muito tempo à procura do sentido em que a gente utilizou determinada metáfora e a leitura pode tornar-se demasiado tediosa.

P - O humor, desde Estórias Dispersas da Vida de Um Reino, é uma das marcas da sua prosa. O humor, na sua obra, obedecerá a uma estratégia no sentido de passar mensagens optimistas?

R - O uso do humor talvez seja o lado mais visível e que melhor se identifique comigo, do que eu consigo revelar naquilo que escrevo. Eu costumo dizer que a vida tem de ser encarada com espírito positivo. E o humor é um recurso que devemos sempre ter à mão de semear até para nos ajudar a fazer face às diversas adversidades que a vida nos coloca. Eu encontro no humor uma válvula de escape até para determinados tipos de conflitos que eu não consigo resolver do ponto de vista intelectual e da análise crítica que eu faço de mim mesmo e da sociedade que me rodeia. O humor acompanha-me permanentemente, muito embora, à primeira vista, alguém que não se relacione comigo fique com a sensação de que sou um indivíduo fechado, taciturno, eventualmente, pouco comunicativo. Mas eu sou daquelas pessoas que se abrem para os outros na justa medida em que vou me apercebendo que os outros se abrem comigo. E as pessoas que são minhas amigas sabem o quanto tenho de sentido de humor permanentemente na minha relação com eles.

P - O português dos musseques, que muitos pretendem angolanizado, surge em alguns diálogos, nomeadamente quando aparece a tia Santa. Mas essa vertente da língua não surge com dignidade de cidadania como em outros autores. Qual é a sua opinião relativamente à utilização do português na literatura angolana?

R - Não tenho a preocupação de outorgar essa dignidade de cidadania, utilizando a sua expressão. O português é uma língua padrão para alguns povos do mundo, mas ele assume formas específicas de se falar, de se exprimir e até de se escrever em função de cada povo. Não é igual, na sua totalidade, o português que se fala em Portugal, no Brasil, Angola, São Tomé, Cabo Verde, Moçambique e Guiné Bissau. Até na pronúncia, na entoação, o português tem sempre localismos. Eu não tenho receio nem estou preocupado com a pureza do português numa perspectiva de que puro é o português que se fala em Angola, na qualidade de angolano. Há construções gramaticais que devem ser observadas. Não existem aqui normas que institucionalizem uma grafia angolana. Nós ainda utilizamos a grafia que é falada em Portugal. É a própria vida, a dinâmica da evolução do nosso país e dos estudos linguísticos que gradualmente vão conduzir a que se insira naquele português canónico de Angola determinados termos que resultam do uso contínuo da linguagem coloquial, palavras que, pelo seu uso amplo, devem ser reconhecidas como tendo um estatuto de cidadania na língua portuguesa. Em Angola, o grande handicap que temos é o fraco nível de evolução dos estudos da língua. Aliás, temos poucos linguistas. Não temos uma academia da língua portuguesa, que poderia, digamos, canonizar ou outorgar cidadania formal a determinadas palavras que nós sabemos que são comuns na nossa linguagem coloquial. Acredito que chegará o dia em que isto vai acontecer, mas não ponhamos a carroça à frente dos bois. Quem quiser escrever, que escreva bem, ainda que utilizando palavras que na nossa linguagem coloquial são usadas todos os dias.

P - Uma reflexão interessante no seu romance é a relativa à condição feminina em Angola do pós-guerra. Sendo maioritárias e tendo tido maiores oportunidades para estudar, parece que as mulheres estão a levar a melhor... É isso?

R - É uma pergunta complicada, na perspectiva de que não devemos responder com sim ou não. Mas dada a profundidade sociológica que nela pode estar implícita, é importante que não ousemos dar uma resposta monossilábica. Eu diria que, contados os elementos e os dados, alguns dos quais são apontados no livro, a guerra prejudicou todos os angolanos, independentemente do sexo. A guerra em si exigiu determinado tipo de sacrifícios aos homens, de modo diferente às mulheres. As esposas quiçá perderam os maridos, as mães quiçá perderam os filhos, mas não houve a obrigatoriedade da mulher pegar em armas e ir para o combate abandonando os estudos. No caso dos homens, alunos brilhantes, gente que daria em bons engenheiros, químicos, juristas, etc., perderam-se ao volante de um camião, a conduzir um tanque ou ao comando de um avião. Houve um tipo singular de sacrifícios que esta guerra exigiu dos homens que fez com que as mulheres tivessem mais espaço nas escolas.

P - O tema do feitiço tem atravessado grande parte da nossa prosa, seja como crença, seja como medo e seja, no caso de Tempos Sem Véu, como prática e efeito. Acredita que a vida em África, e particularmente em Angola, seria melhor vivida sem a realidade (ou a irrealidade) do feitiço?

R - A influência do feitiço nas condições materiais de existência do homem não é directa, não é imediata. A crença no feitiço, na superstição, coloca de algum modo obstáculos ao progresso social, porque essa crença revela um nível grande de ignorância do homem em relação a determinados aspectos da natureza e da vida. Quanto mais ignorante o homem for, maior é a propensão a acreditar na superstição. Há determinados fenómenos que ele não consegue explicar e a forma mais fácil de as pessoas se resguardarem é recorrerem às forças sobrenaturais. Quando a gente vê intelectuais, pessoas que, à priori, podemos julgar que têm grande formação, a acreditarem no feitiço, deve ser por duas razões: uma, porque desde o berço lhes foi inculcada essa ideia e o seu nível de instrução não conseguiu desfazer esse nexo, essa cadeia de conceitos que se consolidaram ao longo de toda a sua formação como homem, porque vêm já desde o berço; outra razão pode ser aquele caso de utilização inteligente e conveniente da crença para poder atingir eventualmente outros fins. Por isso, eu diria que, quanto menos a gente acreditar em fenómenos sobrenaturais, na superstição, muito mais teremos andado em direcção ao progresso.

P - No final do seu romance, o destino do fotógrafo, Paco, parece um tanto injusto. É que tudo levava a crer que a vilã da história fosse a Sandra, até pelo modo como ela manipulava tudo e todos. O que se passou? O autor afeiçoou-se tanto a ela que sentiu pena dela? Ou ela, criatura de ficção, rebelou-se contra o criador e seguiu o seu próprio percurso?

R - Da leitura que fez julgo que se apercebeu que a forma como eu introduzi Paco na história foi pensada de modo meticuloso. É a personagem sempre presente mas quase que invisível. É de uma invisibilidade quase subliminar. A sua presença é dada por aquelas estrofes de rap que vão aparecendo. É uma presença quase que invisível porque ele nunca se afirma, só no fim é que o leitor se apercebe que até o conteúdo daquele rap tem a ver com a vilania do próprio Paco.

P - Outro aspecto que fica por esclarecer é: o que é que ele, Paco, terá ganho ao fotografar e denunciar aspectos da relação de Sandra com Fernando?

R - A Cati é a paixão de infância do Paco, ela foi "roubada" ao Paco pelo Nando, naquela disputa amorosa da adolescência. Logo no primeiro capítulo eu coloco a Cati a ver as fotografias e, de modo reiterado, eu digo: "aqui está o Paco, o Nando, novamente o Paco, aqui o Paco com o gato"... Isso é intencional, é para as pessoas verem que o tal Paco tem presença na adolescência da Cati, em fotografias que ela vê a poucos dias ou horas do seu casamento. E ela acaba por beijar uma das fotografias.

P - Mudando de assunto, o que pensa da literatura angolana? Mantém a sua vitalidade?

R - Acho que sim. Creio que de algum modo a quantidade de obras novas que vão surgindo têm sido também motivadas por alguns estímulos que existem no mercado, apesar de ainda insuficientes. Por exemplo, queiramos ou não, a existência de prémios literários é um estímulo. A existência de editoras privadas que vão editando obras de qualidade também é um estímulo. Mas creio que seria bom se nós escrevêssemos muito mais sobre os dias de hoje. Sobretudo seria bom que a juventude escrevesse mais sobre o presente. Os nossos mais velhos têm a maturidade, as vivências, para nos retratarem o passado, bem como também podem falar com propriedade sobre o presente. Mas este país tem já quase 30 anos de história de independência. E a nossa experiência desses anos todos de independência política está cheia de ensinamentos que podem ser registados através da literatura, o que certamente ajudar-nos-á a compreendermos melhor o que somos como povo, a apreendermos as diversas nuances da nossa idiossincrasia e isso, para toda e qualquer circunstância, são elementos de referência importantes para esta fase de reconstrução do presente e construção do futuro que nós estamos a viver. Se me permitissem enunciar um handicap na nossa literatura, apontaria precisamente este: a pouca presença de trabalhos sobre o presente, a pouca ousadia dos nossos escritores em abordarem o presente sem complexos.

P - Não se porá a questão da eventual existência de constrangimentos, não tanto objectivamente, mas ao nível da auto-censura?

R - Isto é uma expressão que eu oiço muito nas entrevistas concedidas por personalidades várias da nossa intelectualidade. Fala-se muito na auto-censura, que não é mais do que a postura que o homem assume, por conveniência, em função da posição que ocupa na sociedade e do papel que pretenda desempenhar na sociedade. Cada homem, pelo facto de existir, tem o seu papel, que pode ser mais ou menos apagado. As pessoas só exteriorizam aquilo que julgam conveniente em função do que se propõem como homens na sociedade em que vivem. Por isso, a auto-censura existe em Angola e em toda a parte do mundo, até porque o homem não é nenhum louco que abre a boca para dizer tudo o que lhe pareça. O homem é um ser consciente e isso é o que lhe dá a possibilidade de medir conscientemente as palavras que edita para os outros. Aí está o sentido da responsabilidade, por um lado, e, por outro, está a liberdade do homem em determinar, em consciência, como atingir aquilo a que se propõe. O homem não navega na sociedade como um barco à deriva. Cada um de nós coloca-se determinado tipo de objectivos. A meta única é igual para qualquer homem em qualquer sociedade: é sobreviver e vencer. Quem não se proponha sobreviver em primeiro lugar e vencer depois, está condenado a sucumbir. Na literatura não existe censura política. Se você não conseguir publicar aqui publica lá fora, em Portugal, por exemplo. Enfim, não encontraria uma explicação uniforme. Talvez o clima não esteja ainda suficientemente desanuviado para que as pessoas, com desprendimento, parem e reflictam sobre tudo isso.

P - Um dos factores de estímulo para a criação literária poderia ser o próprio mercado do livro. Se os livros fossem bem comprados, os autores poderiam encarar a própria criação literária como uma das fontes da sua sobrevivência material. Como é que encara o fenómeno da leitura no país?

R - Este é um dos aspectos condicionantes, de algum modo, de um progresso mais rápido da nossa literatura. Condicionantes, porque, veja: recentemente o cantor Dog Murras, que até é meu amigo e uma pessoa por quem tenho estima (aproveito esta oportunidade para lhe desejar contínuos sucessos), num Domingo chegou a vender cerca de 3 mil discos. Não há escritor angolano que consiga vender em um dia 3 mil livros. Nem sequer em um mês. No acto de lançamento do meu último livro venderam-se cerca de duzentos livros. É uma quantidade que me parece boa para aquilo que nós sabemos ser a dinâmica posterior das vendas. Uma edição de 1.500 exemplares pode demorar um ano ou mais para ser vendida. Digo isso para vermos esse fenómeno com alguma profundidade. Quem são os compradores dos CD's? São, na sua maior parte, os jovens que estão na escola e deviam aprender a ler e a escrever bem, e que gastam, com alguma facilidade, o equivalente a 10 dólares para comprar um CD e não conseguem gastar a mesma quantia para comprar um livro. As pessoas apresentam o fenómeno desde essa perspectiva: o livro é caro. Mas em todo o mundo o livro é caro, temos de analisar melhor as verdadeiras causas do fenómeno. Nós temos um problema sério, é que desde o ensino primário não se incentiva a leitura. Uma coisa são os textos que os meninos têm para aprender a ler e a escrever, aqueles textozinhos dos manuais, outra coisa é desde a primária haver uma cadeira que obrigue as crianças a lerem um livro determinado para depois fazerem um exame sobre aquilo que leram. E aí coloca-se o problema de quem é que vai ensinar literatura às crianças. Há professores de língua portuguesa que não conhecem, com a suficiência necessária para a ensinar, a literatura angolana, não falo já da literatura universal. O problema é estrutural. Vou só dar um exemplo: qualquer aluno da primária em Cuba recita de memória versos de José Marti e Nicolas Guillén. E recita quase que com ânimo patriótico. Desde a primária aprendem literatura cubana e já no nível secundário começam a dar literatura universal. Os mesmo jovens que todos os meses têm uma festa e ouvem boa música na Rádio Nacional, LAC, etc., aprendem a gostar primeiro da música brasileira do que da leitura. E depois há outro aspecto: uma coisa é estar sentado a ouvir música e até a fazer, ao mesmo tempo, outra coisa, outra é estar concentrado a ler. O nível de atenção que essas duas actividades exigem é diferente. Devemos nos engajar no sentido de nas escolas fomentar o hábito da leitura, para que o cidadão possa, com à vontade e sem constrangimentos, tomar facilmente a decisão de comprar num ou noutro mês um CD ou um livro. Veja só: quantas pessoas adultas não compram livros e todos os meses vão à discoteca e lá gastam às vezes o dobro ou o triplo do que custa um livro?

P - Quando éramos crianças líamos livros policiais ou de cow-boys e tínhamos o hábito de os trocar entre nós, de tal modo que os livros passavam de mãos em mãos. Hoje esse hábito acabou por desaparecer.

R - Acabou. A gente até comprava, recordo-me, ali em frente ao cine S. Domingos, quando fossemos ver filmes, livros aos quadradinhos, aquela literatura de cordel... até isso desapareceu.

P - Como vê o futuro de Angola, alcançada que está a paz? Como vê o país depois da guerra?

R - Vejo o futuro de Angola com optimismo. Não um optimismo fanático, mas um optimismo responsável, com os pés em terra. Quer dizer que há muitos obstáculos ainda a vencer. Mas acredito que a rápida reconstrução deste país e a construção de uma Angola boa para todos e com pilares sólidos passa sobretudo pela educação dos angolanos. Devemos trabalhar no sentido de encontrar os recursos que forem necessários, em Angola ou fora de Angola, para fazer uma revolução no domínio da educação. O que nos vai dar vantagens comparativas relativamente a outros povos de África será exactamente a forma como nós estivermos capazes de educar e preparar o homem angolano. Por muitos recursos, muita riqueza material que a gente tenha, se o homem angolano não for preparado para melhor conhecer e compreender o mundo e melhor saber gerir os seus interesses, nós vamos viver permanentemente sob a tutela de interesses estrangeiros. Vamos ser permanentemente manipulados por estrangeiros e se nos deixarmos ser manipulados por estrangeiros pode ter a certeza de que nunca vai haver estabilidade política aqui neste país. Angola é um país demasiado rico para que tenha um povo num nível perigoso de ignorância. As riquezas que Angola tem são tais que nós estamos condenados a deixar de ser ignorantes. Isso para dizer que vejo o futuro do país com optimismo, mas creio que uma vez vencida a guerra a batalha imediata é a batalha da educação. Com a recuperação das estradas e com as novas indústrias, vão aparecer empregos para as pessoas e vai se reduzir a miséria. Mas o que nos vai levar à verdadeira independência económica, e não só, é a educação do povo.

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