testeira-loja

Pepetela destaca peso da literatura na consolidação da identidade angolana

Escrito por  Venceslau Mateus

O escritor Artur Pestana "Pepetela" afirma, em entrevista à Angop, que a literatura teve um papel preponderante na consolidação da identidade angolana, na construção e reforço do espírito de liberdade do jugo colonial.

Eis a entrevista na íntegra:

(Por Venceslau Mateus)

Angop: Pepetela é uma referência no mundo literário lusófono que surgiu no mercado nos anos 1970, com a publicação da obra As Aventuras de Ngunga. Qual é o papel da literatura na formação de um povo e particularmente na construção de uma nação?

Pepetela - No caso de Angola, teve um papel muito grande e em duas fases: ajudou a consolidar a identidade angolana e as ideias de libertação nacional. Mas não posso deixar de parte a música, pois foi um factor que muito influenciou na criação da identidade da nação. E sem medo de errar considero mesmo que a música tem um papel muito mais relevante e com muito mais peso no processo de libertação nacional.

Angop: Onde esteve em vésperas do 11 de Novembro?

Pepetela - Estava no Sumbe (Cuanza Sul). Antes estava em Benguela como membro do Estado Maior da Frente-Centro até o dia 4 de Novembro, por altura dos ataques dos sul-africanos em Catengue. Recuados até ao Sumbe, tivemos que aguentar o avanço dos sul-africanos até a proclamação da independência, pois a orientação recebida era para não deixar aquela posição até a última bala. Aguentamos, conseguimos travar o avanço sul-africano e ver concretizado o sonho de sermos livres, donos dos nossos destinos.

Angop: Valeu a pena o esforço para a conquista do sonho da liberdade?

Pepetela - Valeu e muito. Hoje olhamos para o que conseguimos com a independência e não nos arrependemos. Foi uma luta inesquecível, por ter permitido aos angolanos conquistarem o seu orgulho, a sua identidade. A nossa satisfação na altura teve a sua cereja com o reconhecimento, no dia a seguir a proclamação da independência, da soberania angolana por parte do Brasil. Este reconhecimento serviu como ponte de lançamento para as lutas diplomáticas empreendidas depois para a afirmação de Angola no contexto das nações.

Angop: Sente alguma saudade da República Popular de Angola?

Pepetela - Sinto. Sobretudo, ao nível das pessoas. O relacionamento era muito simples, prático. Hoje o cenário é completamente diferente. Era uma época de solidariedade entre as pessoas. Havia mais aproximação, as pessoas eram muito mais iguais. Havia sempre uma mão para ajudar quem estivesse com necessidades.

Angop: Pepetela, depois de longos anos ligado ao mundo das letras e muitas vivências sociais, sente-se como um agente realizado?

Pepetela - Ainda não, porque sinto que ainda tenho que fazer muita coisa. Mas ao olhar para a cultura angolana, diria e digo que os 40 anos provaram e mostraram que tínhamos razão quando proclamamos a independência, porque a cultura deu grandes passos, quer em termos de produção quer em qualidade. Há centenas e centenas de livros publicados, muitos traduzidos em várias línguas. Portanto, a literatura angolana existe no mundo, factor que não se registava antes da independência.

Na música então já não se pode falar. Os nossos ritmos e artistas são ouvidos e dançados em várias partes do mundo. As artes plásticas, que são mais difíceis de se imporem, também estão a ganhar espaço. Portanto, com algumas excepções no teatro e no cinema, as demais artes estão no top desde que alcançamos a independência.

Angop: Satisfaz esta projecção?

Pepetela - Sim. É bom para os artistas de forma individual e colectivamente para o país, porque ganha uma visibilidade, é falada e ouvida e, acima de tudo, já começa a ser estudada. Em suma, o país ganhou e muito com a independência.

Angop: Quando se fala da literatura angolana, o Pepetela é uma referência obrigatória. Como e quando se deu conta que tinha queda para o mundo da escrita?

Pepetela - Queria ser escritor. Gostava de escrever desde criança, mas não é um dom com o qual tenha nascido. Foi criado e refinado na escola. É fruto da vida pessoal, fruto de um conjunto de factores particulares que me obrigaram a ir buscar estórias. Tive alguns exemplos na família. Os meus pais e tios que liam. Tive dois tios e um primo que estiveram ligados à literatura, de uma forma ou de outra. Mas o grande impulsionador foi um tio que era jornalista e contista que puxou muito por mim para o mundo das letras.

Nunca inspirei muito ser um profissional da literatura, mas também não me arrependo da escolha. Fui professor universitário durante muitos anos, mas hoje estou a usufruir da minha reforma e com muito tempo para a escrita.

Angop: Surgiu no mercado literário nos anos 70 com duas obras: Muana Puó e as Aventuras de Ngunga. Como conseguiu escrever estas duas obras em tempo de guerrilha?

Pepetela - O livro As Aventuras de Ngunga foi escrito na Frente Leste (Moxico), onde estive destacado como guerrilheiro do MPLA, em 1972, e publicado em 1973. O Muana Puó foi publicado um tempo depois.

As Aventuras de Ngunga é o retrato da participação dos angolanos na luta de guerrilha pela independência nacional, com particular realce para a juventude, neste caso particular, de uma criança estudante. Não era um livro, mas sim textos escritos nas línguas nacionais para ajudar os jovens guerrilheiros a terem algo para ler.

Só mais tarde descobri que aí estava uma estória para ser publicada em livro. E como não tinha hipótese de escrever à máquina onde estava, passei o manuscrito ao Ndunduma, que se encontrava na zona fronteiriça e com mais possibilidades de usar uma máquina de escrever, que tratou de passá-lo em máquina e o publicou.

Já o Mayombe demorou mais tempo a ser publicado devido às circunstâncias em que me encontrava. Na floresta do Mayombe não havia margem de manobra.

Angop: Mas como conseguia conciliar a escrita com a condição de guerrilheiro?

Pepetela - Era complicado. Por exemplo, em Cabinda, eram condições muito difíceis, pois chovia quase sempre, colocando em risco os manuscritos, neste caso o Mayombe. Depois estávamos sempre em acção e sobrava algum tempo só à noite. Um dos grandes travões do Mayombe foi o facto de ter que escrever com receio de o inimigo, por exemplo, apanhar os escritos que continham informações relativas à vida diária no quartel. Do ponto de vista material, era muito difícil. Já na Frente Leste não tinha como escrever. Devo, no entanto, reconhecer que a vida na frente de combate foi uma grande fonte de inspiração para muitas das minhas criações literárias.

Angop: No princípio dos anos 2000 colocou no mercado uma saga: Jaime Bunda, o Agente Secreto; e Jaime Bunda e a Morte do Americano...

Pepetela - Ainda não considero uma saga, porque preciso de pelo menos mais um livro. Mas a ideia era escrever um livro policial, uma ideia que tinha desde os meus 15 anos de idade. É uma forma mais popular de escrever e explicar à sociedade os factos na sua realidade.

Pouco depois da independência, arranjei um personagem como resultado de uma imagem que presenciei no primeiro jogo de basquetebol entre Angola e o Congo Brazzaville. Na equipa nacional tinha um atleta com uma bunda daquelas que não conseguia nem saltar e aí nasceu o Jaime Bunda. Da imaginação para o livro foi só um salto e o resultado são os dois livros. Foram dois livros que tiveram uma saída enorme, com várias reedições. Quem sabe pode sair uma terceira parte. O estado de espírito pode definir muita coisa.

Angop: Pepetela é tomado pelas suas estórias?

Pepetela - Sim. Acho que todos os escritores são tomados pelas suas estórias. No fundo, é o seu mundo imaginário. É o extravasar das suas ideias para o papel, fazendo com que se leve ao público as criações do seu imaginário. Eu vivo as estórias, entro nas estórias. É necessário para poder estabelecer o diálogo com os personagens que criamos.

Angop: Quem tem sido o primeiro leitor de Pepetela?

Pepetela - Normalmente, tem sido a minha mulher, os meus editores ou pessoas próximas. Aos meus editores vai com uma recomendação: a obra só é publicada se me mostrarem 20 ou mais erros. Caso contrário, nada feito. Isto porque há editores que são preguiçosos e virem com a estória de que está tudo bem. Então é a única forma que tenho para obrigá-los a ler o livro antes de sair a público.

Angop: Na actual conjuntura, conjuga o binómio produção/venda no mercado angolano?

Pepetela - Não, porque o número de exemplares editados não compensa os gastos. Hoje o mercado cresceu em número de escritores, mas reduziu em termos de leitores. Hoje está todo mundo agarrado às novas tecnologias, deixando o livro para trás. Infelizmente, o livro perdeu o espaço em que era o grande amigo.

Angop: Qual é a obra que mais lhe orgulha de ter escrito?

Pepetela - Até há bem pouco tempo, considerava o livro Muana Puó, que era o meu programa mínimo, pois achava que tinha tudo. Mas também tenho a Parábola do Cágado Velho. É pequeno, mas foi muito difícil de ser escrito.

Angop: Para quando um novo livro de Pepetela?

Pepetela - Estou a trabalhar. Talvez para o ano. Não estou a prometer nada, mas vamos ver. Já fiz o "luto e o komba" do último livro. Então estou a preparar as coisas para ver o que acontece até o final do ano.

Angop: Vive Luanda e escreve Luanda. Que comparação pode fazer entre Luanda de até os anos 90 a Luanda de hoje?

Pepetela - Depois da independência, Luanda esteve um pouco parada. É a partir dos anos 90, mesmo apesar da guerra, que começa a mostrar uma nova fase, culminando com o boom que se regista hoje. O crescimento de Luanda acontece com vários aspectos positivos, mas também há os negativos: a falta de infra-estruturas de saneamento, luz e água; os musseques desordenados são consequências do crescimento descontrolado de Luanda, trazendo consigo diversos constrangimentos e que exigem muito investimento para se colocar ao dispor da população o mínimo para poder viver com dignidade.

Positivamente ressalta-se o crescimento urbanístico no centro, sul e norte de Luanda. Mas é necessário que se invista no crescimento das vilas e pequenas cidades para se descongestionar Luanda. A criação de condições nas demais províncias permitirá com que muitos dos habitantes de Luanda se desloquem para o interior do país.

Angop: Conselhos a quem está a dar os primeiros passos no mundo da literatura...

Pepetela - Ler. Ler tudo e, acima de tudo, ler muito. Conhecer o assunto, para poder trazer a público um rebento literário. Conhecer a sociedade onde está enquadrado para poder retratar os seus habitantes. Ler e estudar. Quero com isto dizer estudar a sociedade na sua vivência. E depois profissionalismo. Procurar conselhos, falar com quem já está no mercado há muito tempo. Ter a certeza de que fez bem.

PERFIL

Nome completo: Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos
Nome literário: Pepetela
Data de Nascimento: 29 de Outubro de 1941
Local de Nascimento: Benguela

Formação académica: Licenciado em Sociologia (em Argel, Argélia).
Outras funções já exercidas: Guerrilheiro do MPLA, político e governante. Foi professor na Universidade Agostinho Neto (Luanda)
Prémios: Prémio Nacional de Literatura e Prémio Camões de Literatura, conquistados em 1997.

Livros publicados: Muana Puó; Mayombe; As Aventuras de Ngunga; A Revolta da Casa dos Ídolos; O Cão e os Calus; Lueji; A Geração da Utopia; O Tempo dos Flamingos; O Desejo de Kianda; A Parábola do Cágado Velho; A Montanha da Água Lilás; Fábula para todas as idades; Jaime Bunda - Agente Secreto; Jaime Bunda e a morte do americano; Yaka; A Gloriosa Família; Predadores; O Terrorista de Berkeley, Califórnia; O Quase Fim do Mundo; Contos de Morte; O Planalto e a Estepe; A Sul. O Sombreiro; e O Tímido e as Mulheres.

Peças de Teatro
1978 - A Corda
1980 - A Revolta da Casa dos Ídolos

Ler 1476 vezes

Contacto

AV. Ho-Chi-Min, Largo das Escolas
1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

Telefone: (222) 322 421 Fax: (222) 323 205

e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Blogs

blogspotuea1    blogspotueamulembeira           blogspotueanguimba
         
ytlogo2   blog-poetenladen   logotips