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“O PROGRAMA DE LÍNGUA PORTUGUESA NÃO INCENTIVA A ESCRITA”

Escrito por  Jomo Fortunato

Professor Universitário António Quino fala do estado actual da literatura

António Quino é docente das cadeiras de Literatura Portuguesa, Medieval e Clássica, e de Literatura Brasileira no ISCED-Luanda. Organizou a Antologia de contos angolanos, cuja 2.ª edição foi lançada em Portugal intitulada "Balada de homens que sonham". Nesta entrevista, concedida ao Jornal de Angola, António Quino fala, de entre outras questões, do ensino da língua portuguesa e da investigação em estudos literários.

As produções literárias da geração mais jovem de escritores angolanos, enquanto eventuais propostas estéticas, cabem no seu conceito de literatura?


É relativo. Há qualidade em muitos textos, da mesma forma que muitos outros pecam pela insuficiência nesse sentido. Das obras a que tenho tido acesso, nota-se riqueza nas temáticas e mesmo do ponto de vista estético. Ou seja, se atendermos o conceito de catarse, de Aristóteles, em que a literatura surge como um catalisador de emoções e sentimentos colectivos ou de uma época purificados pela expressão escrita, eu diria que sim, há propostas que cabem no meu conceito de literatura. Paralelamente, acho que é muito cedo para fazermos determinações e demarcações. É bem verdade que entramos num período muito complexo em que as várias "escolas", como os da Brigada, os de um centro e, digamos, da periferia, vão procurando marcar um espaço e libertar-se da sombra dos canónicos da nossa literatura. Mas, por enquanto, o tempo é ainda uma criança. Aliás, o tempo é um grande aliado da qualidade.


Que relações estabelece entre o estado actual do ensino da língua portuguesa, e a qualidade do actual movimento editorial, no domínio da produção de textos literários?


Julgo que, neste sentido, há uma proporcionalidade directa. Para nós, da geração de 1980 e 1990, fundamentalmente, que recebemos aulas de língua portuguesa com irregularidade na formação e cuja formação na língua veicular foi mais fruto de um auto-didactismo, a relação com a língua portuguesa nem sempre é saudável, e infelizmente nem sempre os potenciais autores têm a percepção disso. Mas isso é apenas parte de um problema bem mais amplo. Por exemplo, o próprio programa curricular do ensino da língua portuguesa, nos níveis ou ciclos de formação, não só secundariza a prática ou cultura da leitura, como também não incentiva a produção escrita. Não é, portanto, casual o facto de encontrarmos ricos diamantes que precisam de ser lapidados para melhor brilharem no campo da produção literária. A língua portuguesa ainda é um obstáculo para muitos, desde editores aos leitores, sem excluir os autores.


Acha que a Faculdade de Letras tem cumprido, de forma sistematizada, a sua função, no domínio da investigação da história literária angolana?


Se me permite, gostaria de particularizar o caso do Instituto Superior de Ciências de Educação de Luanda, no qual estou vinculado. O trabalho que se tem vindo a desenvolver, não só no aspecto da especialização dos formadores e dos formados, mas também nas estratégias mais profícuas para o ensino das literaturas (angolana, africana, portuguesa, brasileira, anglófona e mesmo francófona), que têm sido muito gratificantes. Temos já, em Angola, um grupo muito coeso que tem trabalhado nos estudos literários, todos eles ligados directa ou indiretamente ao ISCED, como os Professores Francisco Soares, Petelo Fidel, Manuel Mwanza, Abreu Paxe, Joaquim Manaça, Salvador António, o próprio Jomo Fortunato, enfim, investigadores que se têm dedicado e empenhado no estudo da literatura feita principalmente em língua portuguesa e, a seu nível, contribuir para a sua sistematização.


Os projectos da União dos Escritores Angolanos contemplam, de forma satisfatória, o processo de internacionalização de títulos consagrados da literatura angolana?


Tenho certeza disso. Se a qualidade e diversidade existem, o que estará a faltar para que conquistemos um maior espaço no mercado internacional do livro? Quando andamos pelos diferentes fóruns internacionais ligados à literatura, Angola surge como um espaço rico em termos de qualidade, mas bastante pobre em termos de diversidade de autores. Chega-se a pensar que só há meia dúzia de autores nacionais na diáspora e um terço dessa meia dúzia em Angola. Portanto, o marketing cultural tem que ser accionado. Concordo com o secretário geral da UEA, o escritor Carmo Neto, quando referiu, em Maio do ano passado, na sede da Fundação Cidade de Lisboa, que é possível melhorar a circulação da nossa literatura em Portugal. O tal discurso faz sentido se considerarmos que Lisboa tem mais de 600 anos de Bibliotecas ou arquivos ao lado do facto de ser considerada entre as dez cidades do mundo mais procuradas para a realização de eventos e congressos internacionais.


As antologias que tem organizado, privilegiam o conto. Há alguma razão subjectiva, ou especial, na opção por este género do modo narrativo?


Até aqui foi apenas uma antologia organizada por mim, com duas edições, uma em Angola e outra em Portugal, embora o projecto inclua outras em função das periodizações previamente definidas no projecto que apresentei à UEA. Entretanto, tenho conhecimento de que o objectivo foi segmentar as antologias em prosa e lírica. A mim coube a responsabilidade de organizar a antologia em prosa, privilegiando o conto pela própria relação que ele estabelece com os invariantes locais da chamada angolanidade. Sei que o projecto da antologia de poemas está a andar. Provavelmente, atrasou-se mais devido ao facto de o mundo da nossa lírica ser muito mais vasto e ter mais idade conforme indica a história. Já o conto tem um universo de autores menos extenso, ainda assim belíssimo.


A promoção do livro e da leitura, independentemente dos projectos de edições, constituem preocupações da União dos Escritores Angolanos?


Não estando em condições de falar pela UEA nem pela sua direcção, pois não faço parte de nenhuma das duas, sei, das conversas e dos projectos que tenho tido acesso, que há um enorme interesse da referida instituição em promover mais o livro e a leitura, dois aspectos que se complementam. Por exemplo, julgo que não há nenhuma inconfidência, mas ouvi do secretário-geral da UEA a sua preocupação em desconcentrar de si o papel de editor. Lembremos que a União, além de associação de escritores é também uma editora e, frequentemente, lança as obras mas não há um acompanhamento para que o livro chegue às livrarias, bibliotecas, escolas, províncias, etc. O escritor lança o livro e vai para casa "dormir", quando se poderia concertar com instituições que congregam um potencial número de leitores para debates, palestras, conferências ou outros eventos de promoção e divulgação do livro e do autor. Acredito que caso isso se concretize, a criação da figura do editor, a UEA dará um grande passo qualitativo na sua estratégia de promoção do livro.


Acha que os escritores actuais estão interessados em fazer emigrar para escrita o espólio da literatura oral?


Num livro interessante do escritor brasileiro José de Alencar, intitulado "Como e porque sou romancista", o autor afirma qualquer coisa como terá herdado de sua mãe a imaginação de que o mundo apenas vê flores e que a leitura de novelas teria feito dele um mecânico literário. Portanto, se de um lado está a influência da experiência e vivência do homem, do outro está, digamos, aquilo que dá origem à intertextualidade ou ao nascimento do escritor pela leitura de outros escritores. Isso para dizer o quê: Se o que faz também o escritor é a sua relação com o homem que há em si, os actuais escritores angolanos e não só não têm outra solução senão fazer emigrar para a escrita o espólio da literatura oral. É um compromisso nato. Agora, esse processo de escrita pode sempre apelar para um maior aprofundamento desses fundamentos da oralidade, com uma maior investigação das correlações da tradição com a modernidade ou do momento contemporâneo. Isso já é bem mais complexo e mais difícil de atingir. Embora na pista existam muitos a tentar esse feito, só alguns escritores conseguem atingir a meta.


Enquanto estudioso da dimensão épica da poesia de Agostinho Neto, julga satisfatórios os estudos e a divulgação, junto da geração mais jovem, da poética do primeiro Presidente de Angola?


Não pode ser satisfatório. Vou contar algo que observei há uns quatro anos no ISCED-Luanda durante os testes de admissão. No enunciado, foi colocado um excerto do poema "Adeus à hora da largada" para se explicar o contexto em que o mesmo foi escrito. Na sala estavam candidatos ao curso de português que já leccionavam, nas suas escolas, a disciplina de língua portuguesa, desde o, na altura, segundo nível ao ensino médio. Sabe que poucos sabiam que Neto escreveu o poema no período colonial? Outros não conheciam sequer o poema. Sendo professores de português, disciplina que agrega o ensino da literatura nos níveis já referidos, podemos estar satisfeitos com a divulgação de Agostinho Neto, o poeta? Claro que não. Muito há por se fazer, tal como contextualizar a sua poesia para se perceber a quebra da forma ocidentalizada que ele propunha com os seus escritos, tal como o fizeram Viriato da Cruz, Mário António, António Jacinto, Mário Pinto de Andrade e outros. Se não perceber esse processo, vai-se sempre procurar a chamada catarse com olhos de ver treinados pela forma poética ocidental. E, nessa perspectiva, Neto e seus serão tidos como "maus" poetas. Neto não sabia escrever como se fazia no ocidente? Claro, porque até escreveu um soneto que aprecio, "Campos verdes". Mas o seu objectivo, na vertente do Vamos Descobrir Angola, ultrapassava essa pretensão da forma.


Se fosse convidado a estabelecer o cânone da literatura angolana, para o ensino médio, em que obras e respectivos autores, recairiam as suas escolhas?


Indirectamente, está a pedir-me para entrar num jogo polémico. Como leitor tenho as minhas preferências. Mas, caso eu estabeleça o meu cânone, a minha condição de leitor será sobreposta pelas de docente de literatura e de investigador. E para falar nessas duas últimas condições, há métodos, balizas, hipóteses que devo estabelecer, que não caberiam neste espaço.


Sabemos que participou, em Portugal, nas "Correntes d'escritas". Quais foram os principais ganhos de Angola neste certame?


Olha, tenho andado em muitos eventos ligados à literatura, mas pela primeira vez fiquei soberbamente impressionado. Nunca imaginei que, em plena meia-noite de uma sexta-feira, mais de trezentas pessoas se estariam a acotovelar num lindo, mas pequeno, espaço para ouvir escritores a falar das suas experiências. Relativamente à questão que me coloca, "Correntes d'Escritas" é um encontro anual de escritores de expressão ibérica, que decorre durante o mês de Fevereiro, na Póvoa de Varzim, em Portugal, em que nesta 13.ª edição se fizeram presentes mais de 60 escritores e outros intelectuais de vários países, como Angola, Moçambique, Brasil, Espanha, Alemanha, México, Argentina e Portugal, além de que atraiu mais de mil e quinhentas pessoas, dentre estudantes, docentes, jornalistas, editoras e outros.
Perfil académico e colaboração em jornais
António Quino nasceu em Luanda no dia 3 de Agosto de 1971. É licenciado em Ciências da Educação e Mestre em Ensino de Literaturas em Língua Portuguesa. Jornalista desde 1990, foi co-fundador do Jornal Farol, da Brigada Jovens de Literatura do Namibe. Enquanto académico, tem participação em diferentes eventos científicos nacionais e internacionais. É membro do colégio de estudos literários do ISCED-Luanda e do secretariado da Kulonga, revista de Ciências da Educação e Estudos Multidisciplinares do ISCED-Luanda, onde publicou textos nos "Cadernos de Estudos Literários e Linguísticos". Tem ensaios publicados na Revista Maka da União dos Escritores Angolanos, Jornal de Angola, Semanários Angolense, O País e Folha 8, e fora de Angola, no Courrier Internacional, assim como em diversas colectâneas. Actualmente é Director Provincial da Comunicação Social do Bengo, colaborador permanente do Jornal de Angola e colunista do Jornal O País.

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