testeira-loja

“O NOSSO MANDATO É CARACTERIZADO PELA QUALIDADE EDITORIAL”

Escrito por  Jomo Fortunato

A generalidade do movimento editorial, relação entre os escritores associados, benefícios sociais, internacionalização da literatura angolana pelas traduções, e o impacto que terão os novos projectos imobiliários, foram algumas das questões colocadas ao escritor Carmo Neto, actual Secretário-geral da União dos Escritores Angolanos, nesta entrevista ao Jornal de Angola.

Está satisfeito com o movimento editorial, em termos quantitativos, e com a qualidade dos livros introduzidos no mercado pela União dos Escritores Angolanos?


Temos motivos de satisfação, embora ainda "transpiremos os ais dos feridos das batalhas diárias". Quarenta e quatro títulos no mercado, mais três que chegam quinta-feira, provenientes do Brasil, e igual número do Porto. Significa dizer que até ao fim do corrente mês habitarão no nosso armazém, cinquenta títulos, para além de dez títulos em fase final de revisão. Num mandato de quase três anos é algo considerável para um mercado livreiro adverso como o nosso. Pretendemos que a lei do mecenato e regulamento passem, num futuro breve, a encorajar os empresários nacionais e estrangeiros a investirem na indústria gráfica. Torna-se necessário que se promova o gosto pela leitura, através dos órgãos de comunicação social, e se criem bibliotecas das creches às universidades. Recebemos o honroso convite para a publicação de uma obra referente aos doze números do boletim "Cultura", propriedade da extinta Sociedade Cultural de Angola, que marcou profundamente a sociedade luandense, e as décadas de quarenta e sessenta do século XX. Honroso convite... primeiro para elogiar e mostrar quanto achamos valioso a iniciativa e o trabalho desenvolvido por Irene Guerra Marques e Carlos Monteiro Ferreira, e segundo porque o presente trabalho nos leva a activar parte das obrigações da UEA. Quero reafirmar que o nosso mandato é caracterizado pela qualidade editorial.


É possível falar de unidade, do ponto de vista associativo, na União dos Escritores Angolanos, ou seja, enquanto Secretário-geral tem sabido gerir as vozes dissonantes ao seu mandato?


"Cada homem é uma raça", escreveu Mia Couto. E eu acrescento que das contradições de pontos geram o desenvolvimento, embora possam aparecer pedras, montanhas e rios no meio do caminho. Respeito o direito à diferença. Aliás, o estatuto da União dos Escritores Angolanos responde todas as preocupações dos seus membros. Julgo que o problema está na relação da teoria com a prática. Mas sendo, o Secretário-geral, um gestor do bem comum, devo saber ouvir e depois decidir. Convivo facilmente com a diferença.


Que resposta dá aos que afirmam que a "União dos Escritores Angolanos, transformou-se num centro comercial", em detrimento do lado cultural, artístico e editorial?


Deve ser uma hipérbole de algum confrade, não acha? Ou será o tema de romance de um ficcionista. Pode ser...os intelectuais, refiro-me aos escritores, também viajam. Tratam da saúde e compram muitos livros. Seria bom se pudéssemos já ceder um cartão de saúde a cada membro da UEA, em conformidade com as nossas receitas. Mas não temos dinheiro para tanto. Limitamo-nos a permitir que os escritores frequentem gratuitamente, por exemplo a clínica do Alvalade, sem apoio directo do executivo. Só conseguimos isto por enquanto. As academias de letras como a brasileira tem uma situação financeira confortável que permite pagar uma espécie de "incentivo monetário" para cada membro, graças ao investimento imobiliário. Não estamos a inventar a pólvora, apenas a adoptar experiências universalmente conhecidas.


A sua condição de polícia não descaracteriza, a tradição do perfil dos dirigentes que passaram pela UEA?


Quando recebemos os irmãos Kambutas nós éramos garotos. Eram todos guerrilheiros, e assumiram cargos de responsabilidade da prestigiada UEA. São raros os confrades da minha geração que não fizeram de Angola trincheira firme da revolução em África! Ou não escreveram poesia com armas! Hoje em situação diferente somos quase todos funcionários públicos acomodados ou incomodados. Eu exerço a minha função pública na polícia. Sou funcionário público autorizado pelo Senhor Comandante Geral a candidatar-me, através de eleições, para o cargo de Secretário-geral a fim de, em conformidade com os estatutos da UEA, promover os valores culturais nacionais e de todas as conquistas universais, além de promover a defesa da cultura angolana como património da nação e estimular os trabalhos tendentes a aprofundar o estudo das tradições culturais do povo angolano. Alguma incompatibilidade?

Creio que não. Acrescento que o polícia deve ser apartidário, e estarei reformado da função pública.


Sabemos que a União dos Escritores Angolanos tem potenciado o mercado com títulos de autores nacionais, e efectuados importantes traduções de clássicos da literatura angolana, incluindo títulos do género infanto-juvenil. Que balanço faz das traduções?


Um balanço satisfatório. Note-se que fizemos circular em Portugal uma antologia de contos da autoria do ensaísta e escritor António Quino lançada nas "Correntes d'escrita" há um ano. Já está traduzida para espanhol e hebraico, estando a serem preparadas as traduções para francês, italiano, japonês e chinês, tanto para esta obra colectiva, como livros individuais. Uma outra antologia de contos organizada pelo escritor Adriano Botelho de Vasconcelos foi traduzida em francês, pela memorável editora "Presénce Africaine" e no decurso deste ano o "Clã Novembrino", de Henrique Abranches, falará a mesma língua. Temos antologias em árabe e inglês, assim como obras infanto-juvenis em hebraico. O processo continua, e vigora um acordo celebrado entre a UEA e a Porto Editora, para edição de livros de escritores do espaço da língua portuguesa.


Fala-se da futura sede da União dos Escritores Angolanos, com espaços de trabalho e lazer para os seus membros, incluindo um anfiteatro para conferências. Este projecto vai implicar a destruição do antigo edifício da UEA?


Não...não... e não. O prédio estará localizado onde funciona a SOMAGUE. Quero que entendam que as normas contratuais obrigam-me a observância de alguma contenção sobre o pronunciamento que me solicita até o encontro com os associados.


O espólio da biblioteca da UEA satisfaz os usuários regulares e investigadores, ao nível da investigação no domínio da história da literatura angolana, numa perspectiva do mais antigo ao mais novo?


Algumas bibliotecas portuguesas mostram-se disponíveis a cooperar connosco em todos os domínios. É inegável o contributo da UEA na elaboração da história da literatura angolana. Tivemos uma abordagem com a Ministra da Cultura, e em breve daremos boas notícias sobre o assunto. Aproveito a oportunidade para informar, por último, que as feiras do livro na UEA serão anuais. Há ainda um projecto de homenagens aos membros fundadores da UEA com a reedição das suas obras, Wanhenga Xitu e o clássico "Luanda" do Luandino Vieira que fará 50º aniversário desde a 1ª edição até este ano. Teremos colóquios sobre a literatura angolana, e encontros de escritores. Sabe-se que a UEA está presente em conferências e encontros internacionais, e tem sido bem representada. Portugal, Havana, Brasil, Frankfurt, Harare e Venezuela têm sido os nossos grandes destinos.

 

Ler 1088 vezes

Contacto

AV. Ho-Chi-Min, Largo das Escolas
1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

Telefone: (222) 322 421 Fax: (222) 323 205

e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Blogs

blogspotuea1    blogspotueamulembeira           blogspotueanguimba
         
ytlogo2   blog-poetenladen   logotips