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“O meu medo de ajudar ou não as pessoas é que depois elas desapareçam”

Escrito por  Dani Costa e Sebastiao Felix

Homem das artes, Dario de Melo é o expoente máximo da literatura infantil no país, mas ele prefere entregar este título à malograda professora e escritora Gabriela Antunes, que o convenceu a escrever pela primeira vez uma estória em 1979. 'Aposentado', O PAÍS encontrou-o no seu apartamento no Nova Vida para falar de literatura, educação e política. Ele acrescentou outros ingredientes: o racismo e o tribalismo. Mais pormenores na conversa que se segue.

Quem abre o seu blogue nota que está tecnicamente desempregado. O que é que gostaria de fazer?

Eu gostaria de continuar a fazer as minhas crónicas, porque julgo que ponho alguns pontos nos is. Simplesmente já estou em idade de não andar a pedir nos jornais para reservarem um espaço para as minhas crónicas. As pessoas conhecem-me, se acharem que são boas muito bem, se acharem que não são boas, também compreendo que possam estar desactualizadas, como já estou um bocadinho desactualizado com a idade que tenho. Como referia, o meu blogue precisa de uma actualização, porque já estou quase a chegar aos 80. Esperemos que Deus queira que chegue aos 80 e ultrapasse. Portanto, é isso que gostava de fazer. Alguém no outro dia, salvo erro a Dra Encarnação Pimenta, dizia numa entrevista que os mais velhos não aceitavam conversar com os mais novos. Estavam a falar dos escritores. Eu tenho um bocado de medo de conversar com os mais novos, porque tenho um azar muito grande quando converso. Talvez a minha exigência, essa minha cara de indivíduo mau e duro obrigue o mais novo a acabar de ouvir, escapa e nunca mais escreve. Vou contar um episódio: um dia fui à EAL e o Carlos disse-me: olha, esta moça está a me chatear para publicar umas coisas. Li, a menina tinha muito jeito e até lhe pedi se me autorizava a tirar uma parte para eu utilizar. Ela autorizou, saiu daí muito satisfeita e nunca mais apareceu! Quando estava no Instituto Nacional do Livro e do Disco (INALD) apareceu lá um jovem, que trabalhava aí na fábrica de sabão, trazia uma estória para a gente publicar. Li, a estória estava muito boa. Telefonei-lhe imediatamente, o homem ainda não tinha chegado ao sítio, ao local onde trabalhava. Quando o jovem chegou lá, disse-lhe que publico esta coisa e volte porque preciso de conversar umas coisas sobre você. Ele veio, disse-lhe que a única coisa que me parece errada era o título. Se aceitar proponho este título, se não quiser publico como está. Disse-me que sim senhor vou pensar. E até hoje! Portanto, o meu medo de ajudar ou não as pessoas é que depois elas desapareçam. Num outro dia esteve aqui um jovem jornalista a falar comigo, estava a fazer um livro sobre outro jornalista, não interessa dizer quem era porque vocês localizam-no logo.

Dei-lhe umas indicações sobre aquilo que conhecia do outro e até hoje. Já telefonei à família do outro jornalista, disseram-me que também veio cá e depois desapareceu. Esse é o único receio que tenho porque ajudar eu gosto. As vezes é um bocado chato, porque as pessoas apresentam os livros e aquilo é uma caterva de erros. Não estou a referir-me a erros ortográficos, porque para a ortografia estou-me nas tintas. Estou-me a referir a erros de pessoas que não dominam o português mas que resolvem de repente escrever português.

Pode explicar melhor?

Se a pessoa tem o génio que tinha Uanhenga Xitu consegue fazer livro no português dele, que não é português de Portugal, da China, nem do Japão. É o português dele.

Continua a escrever?

Continuo a escrever, ando aí a lutar com um livro há quase oito anos e não queres saber a luta que tenho.

Disse numa entrevista que não quer escrever para não ter coisas na gaveta. Não há interesse das editoras em publicar os seus livros?

Eu cheguei a uma situação em que não é isso que me o aflige.

O que é que o aflige?

O que me aflige é que não queria ser eu a me publicar, porque tenho quem me financia. Gostava que fosse um editor e que olha para aquilo diz que isso não presta, pronto, porque às vezes as pessoas são pressionadas. Ou porque o gajo é mais velho, mais novo ou tem nome. Eu não quero esse tipo de pressão, não tenho, portanto, editor e até esta data ninguém veio cá dizer que se tens por aí um livro para publicar...

Começou a escrever em 1979, por influência de amigos, entre os quais a professora Gabriela Antunes e Octavio. Hoje mantém a mesma preocupação para as crianças em relação à literatura?

Sim, tenho a mesma preocupação. Para o infantil já acabei, tenho aí um livro para jovens e vou fazendo assim umas coisas, lembrando sempre. E aqui faço mais um reparo: normalmente as pessoas acham que eu é que 'inventei' a literatura infantil. Não senhor, foi a Gabriela Antunes.

Continua a ser feita literatura infantil no país?

Não. Não leio todo, mas acho que são más redacções.

Porquê?

São más redacções e estou a dizer que ressalvo aquelas pessoas que não leio. O problema da literatura infantil é este: quero um cartão-de-visita para pôr lá escritor. Então faço quatro folhas, arranjo quem edite e já sou escritor. Depois arranjo mais outros dois livros de quatro folhas e vou para a União dos Escritores.

É o que tem acontecido?

Não sei, nem faço ideia.

É de opinião que não se educa as crianças sem literatura. Como é que estarão as nossas crianças já que não há literatura infantil?

O problema é que estão todas deseducadas, incompletas. Em primeiro lugar, o problema da literatura infantil não é fazer literatura infantil, é fazer leitores. Se as crianças não lêem, não consomem e a literatura infantil fica como hoje, na prateleira. Portanto, temos de fazer leitores e para fazê-los temos de ir às escolas, temos de fazer os professores interessados, porque a maior parte deles nunca leu um livro também. Não é dos professores só, os ministros...

Também não lêem?

Faça um inquérito à saída do Conselho de Ministros. Perguntem qual foi o último romance que leu? E ele diz-lhe logo Sagrada Esperança de Agostinho Neto.

Isso é verdade?

Não sei. Calculo que seja, porque eles não lêem. São grandes crânios, cabeças, conhecem aquilo de que falam porque são ministros disso e daquilo, conhecem da técnica, mas agora o resto não têm, não conhecem. Há uma coisa que lhes falta que é a literatura, nunca lêem um livro, de certeza. A música, nunca ouviram uma música para além do kuduro, e a pintura que também não sei. Devia haver uma aula de pintura para a gente perceber esses quadros que estão na parede. Todos esses eu percebo. Falei no kuduro, tenho um amigo que foi assistir as corridas na Rússia, entrou numa loja de qualquer coisa e estava lá um kuduro a tocar que nem queres saber. Portanto, o kuduro vai ser instituído como a cultura nacional. Não digam mal, porque os kuduristas cortam-me as bases e não me publicam mais livro.

Como é que podemos fazer as nossas crianças interessarem-se pela literatura?

Como eu disse, começa por fabricar leitores que são elas. Depois começam a não se fazerem edições de mil exemplares, porque é aquilo que se faz. Não há só mil crianças em Angola. Portanto, fazerem-se edições grandes e principalmente baratas. Um livro custa 500 kwanzas? 500 kwanzas aqui posso dar, mas no mato 500 kwanzas é capaz de ser o ordenado de um indivíduo só, do trabalho de mês. Não é dar livro de graça, porque tem de custar alguma coisa e a pessoa tem de o estimar porque custou. Mas é dar aquilo que é chamado de preço de província. Eu tenho um plano, já o gastei, apresentei-o a quatro ou cinco ministros e ninguém pegou.

O plano era este: o camarada Presidente parece-me, não sei se ainda hoje, mas houve uma altura que dava um milhão de dólares extra-orçamento à literatura. Não sei se já parou ou não. O primeiro milhão que chegou distribuíram-se, estou a falar a vontade porque ainda reuni com o ministro das Finanças em casa da Dra Joana Lina, para lhe dizer que os indivíduos que estavam lá distribuíram-se e o único que não teve direito a distribuição foi a União dos Escritores Angolanos (UEA). É espantoso. Eles diziam que a União dos Escritores não estava a fazer nada, o que é verdade. Mas não estava a fazer nada porque não tinha comedinheiro. Então, na suposição de que o camarada Presidente estivesse disponível ou continue a dar, esse dinheiro devia ser dado à cultura. E depois, quando precisasse de publicar um livro chegava à Cultura, dizia que tenho aqui o livro, a factura proforma e preciso de X. E a Cultura fazia-me uma pré-venda do livro de 400 exemplares, como hoje há pré-luz e pré-tudo. Quando a Cultura recebesse estes 400 exemplares distribuía pelas províncias, ao preço das províncias, o que quer dizer que um livro de 500 kwanzas aqui pode custar 50 kwanzas no Kuando- Kubango. E depois dizem-me assim, como é que se distribui? É fácil, em qualquer sítio. Nos talhos, mercearias, onde tem livro para distribuir podem ler. E depois o homem que vende é que fica com o dinheiro todo porque a Cultura já pagou.

Porquê é que esse plano não deu certo?

Porque as pessoas gostam de planos assim: a minha prima fica aí na Cultura a tratar das facturas, a vigiar o livro que vai para aqui e acola. O da província também põe lá o primo e o tio, não dá lucro. O lucro é só para o comerciante que distribui.

Do INALD não se esperava mais nada?

O INALD hoje é INIC, está cada vez mais na mesma e para o pior. Tem feito até uns livros...

Uns pequeninos. Compramos uns numa feira em Benguela. São estes a que se refere?

É, e uns grandes também. Mas nem quero falar nisso para não ferir susceptibilidades. Cabe a senhora ministra resolver o problema.

Porque é que algumas publicações antigas do INALD não são reeditadas, sobretudo de escritores, historiadores, autores africanos e angolanos?

É uma pergunta muito pertinente, porque aqui o livro morre na primeira edição. Você vê o Agostinho Neto, o Sagrada Esperança que foi republicado? Não tem. Vê o António Jacinto? O Jofre Rocha? Não tem. Portanto, o livro morre na primeira edição. Ninguém mais tem interesse nisso. É a tal falta de procura e também a falta de leitura daqueles que insistem. Portanto, agora fez-se uma colecção de 10 autores, mais ainda não vi. Espero que seja para continuar, ou com estes 10 ou com outros 10. Porque se uma pessoa quiser fazer um estudo sobre qualquer indivíduo – e eu quando morava aí no Mártires de Kifangondo apareciam sempre miúdos para emprestar livros e ficavam lá a tirar os seus apontamentos, porque livro emprestado é livro perdido. Isso reflecte-se até nos livros escolares. Se você pagar nos livros da 11ª classe e por aí, verifica que há muitos poetas portugueses lá, como se nós não tivéssemos poetas aqui.

Como é que um livro que tem de ser uma antologia nacional tem poetas de outros países?! Não estou a dizer que os poetas portugueses não são grandes poetas, que não deviam ser dados a conhecer aqui, são até muito bons e é bom também que se faça intercâmbio.

E qual é o papel da União dos Escritores Angolanos neste processo?

Não há nenhum. Suponho que não foi ouvida nem achada. Havia uma televisão que tinha o Zé Carioca, tinha um programa que tem um nome onde dizia que Angola era um país onde tudo pode acontecer. E é. Como é que se fazem livros em qualquer parte do mundo? Apresento o meu projecto de livro normalmente, depois o ministério vê os melhores projectos e escolhe. Isso nos sítios onde há livros únicos. Aqui, como é que se faz um livro? Eu combino com os editores, venham cá meus amigos, o plano é este, preciso que me façam uns livros para X classe. Quanto? O editor vai para casa, faz o concurso e ganha. Depois contratam alguém para fazer o livro.

As publicações da União dos Escritores Angolanos têm tido a repercussão internacional que se precisa?

Eu não sei se têm tido, não faço ideia. Mas não me parece que têm tido. A União dos Escritores está a ter um desenvolvimento muito bom, só comparado com o tempo do Luandino Vieira, mas não sei se têm tido uma repercussão porque não sei também se as nossas embaixadas recebem livros da União. E todas as nossas embaixadas deviam ter uma biblioteca dedicada à feitura dos livros em Angola.

Nunca encontrou isso nas nossas embaixadas?

Eu nunca fui às embaixadas. Não gosto, porque cada vez que tinha de ir à nossa embaixada ficava triste, era uma fila enorme de tipos a pagarem para terem o visto e eu ficava muito aborrecido. Depois, porque os nossos funcionários nas embaixadas já julgam que são angolanos extra e nós somos os angolanos infra.

Como vê a qualidade dos escritores angolanos, sobretudo dos que são membros da União dos Escritores?

Tem os com muita qualidade. Não sei se o Ondjaki, por exemplo, é membro da União dos Escritores, mas que é um tipo de grande qualidade é.

Acredita que a União dos Escritores Angolanos já está 'despartidarizada'?

Nunca esteve partidarizada.

Numa discussão que foi tornada pública, o escritor Sousa Jamba, que se apresenta como sendo da UNITA, disse que não podia ser membro da UEA porque revia-se mais numa estrutura política do que propriamente literária.

Não, de maneira nenhuma. Tenho muita pena porque tenho muita consideração pelo irmão dele (Jaka Jamba). Mas o Sousa Jamba é um idiota que está em Londres e não veio para a guerra onde estava o irmão. Eu só considero os angolanos assim: ou os que estiveram no MPLA na guerra ou outros que estiveram na UNITA na guerra. Estes têm toda a minha consideração. Mas Sousa Jamba, que se diz da UNITA mas nunca esteve na guerra, como muitos tipos aqui dentro do MPLA, que mandaram os filhos para a metrópole, até para os Estados Unidos para fugirem da guerra, esses gajos não tenho consideração nenhuma por eles. Estou a falar de indivíduos do MPLA, dirigentes cujos filhos não foram para a guerra, então, como tinham facilidades arranjavam-lhes umas bolsas de estudo e tinham dinheiro suficiente se não tivessem bolsas. E os cães que ficaram cá, entre os quais o meu filho, tiveram de ir para a guerra. Não lhe fez nada, hoje é um homem, graças à tropa e à guerra. Portanto, não tenho a mínima consideração para o Sousa Jamba. O Jaka Jamba sou amigo dele, tenho muita consideração por ele, é de uma inteligência rara em Angola. É um fulano que nunca foi a exame, dispensou sempre. É um homem de muita consideração. Agora o irmão, coitado! Que fique lá a fazer os livros em inglês, chinês, japonês.

José Eduardo Agualusa e Manuel dos Santos Lima chegaram a questionar a poesia de Agostinho Neto. Quer comentar?

Manuel dos Santos Lima é um indivíduo que não conheço bem. É um dos tais que não estará na União dos Escritores, mas que nunca disse que não estava lá por questão ideológica. Agora o Agualusa...

Chegou a tratar Agostinho Neto de poeta medíocre. Sabe disso?

Houve um monte de gente que respondeu ao Agualusa. Ele também é daqueles angolanos que não foi à guerra. Contínuo a dizer que só considero duas pessoas: os que estiveram na UNITA e foram para a guerra ou os que estiveram no MPLA e foram para a guerra.

E os da FNLA?

A FNLA acabou com a guerra logo de início. Tive a oportunidade de falar com Holden Roberto, que era um homem inteligente, ao contrário do que a gente possa pensar, e ele achava que tinha de deixar a guerra porque andar a matar angolanos era uma coisa chata.

Voltemos ao Agualusa. Pode ser?

O Agualusa é um bom escritor, precisava, de certo modo, justificar porque é um homem dado a surgir nos jornais.

Quer dizer dado a polémicas?

Mas fazendo propaganda dele. É realmente um grande escritor, mas, como disse antes,saiu daqui aos 15 anos. Foi para Portugal, era miúdo, se queria questionar o Agostinho Neto ia para a mata. E dali fazia os seus questionamentos. Agora o Agualusa não se sabia se estava na UNITA ou no MPLA.

Como assim?

Não era peixe nem carne. Esteve sempre em cima do coiso. Como é que agora vai questionar um indivíduo que estava na sua posição e cujo maior serviço não foi escrever Sagrada Esperança, que também é um bom serviço, porque bom ou mau conseguiu fazer daquilo a bíblia da revolução?

Mas a crítica não terá sido apenas no campo técnico?

Não há campo técnico, há campo literário. Por exemplo Savimbi também tem um livro de versos. Não sabias? Foi publicado até pelo João Soares. Eu não gostei. Li e não gostei.

Não era um bom poeta?

Não faço ideia se era um bom poeta. Que era um bom político, era. Savimbi não estava ali para ser poeta. Estava para ser político. Fez e cumpriu a sua função.

Agostinho Neto foi bem divulgado?

Sim, foi. Sagrada Esperança foi divulgado porque era bíblica naquela altura. As pessoas tinham de receber a mensagem. Portanto, acho que o Agualusa é um idiotazito que às vezes falta o respeito. É um bom escritor, ninguém contesta isso, mas às vezes tem ideias destas que se utiliza do nome de Neto para aparecer. 'Olha estou aqui! Ninguém lhe perguntou onde estava. Uma vez fui dar uma conferência na Madeira e o Agualusa esteve lá. Quando acabou a conferência dirigiu-se a mim e disse que 'nós os angolanos' somos não sei o quê. Aí, você é angolano? Nunca lhe vi lá. Sou assim um bocado chauvinista, mas não de excluir os dos outros países, mas tenho mágoas com os do nosso país.

Trabalhou 22 anos na educação. Como é que vê a educação hoje?

O país está mal. Isso parece, às vezes, o quanto Angola e Portugal são irmãos gémeos. Você vai lá a Portugal e está mal. Aqui está mal. No tempo colonial – e agora vão vir aí uns gajos, 'olha o saudosista' – Angola primava de todo o império português, incluindo Portugal, por ter a melhor qualidade de ensino. Quem forçou o Governo português, até com uma mentira, a que se fizessem os livros de Angola em Angola, foi o inspector António de Almeida Abrantes Henriques Carneiro, que ainda está em Portugal, e o inspector Fontes que inventaram uma coisa. Havia um artigo de um padre belga muito reaccionário que dizia que os indivíduos negros não aprendiam senão pelo método global, que era o que se utilizava nalguns países para os atrasados. Isso ficou muito bem no Ministério do Ultramar, porque aqui não pertenciam ao Ministério da Educação. Disseram façam lá os livros e eles fizeram. Os daqui, Moçambique, São Tomé e dos da Guiné-Bissau. E começamos a ter livros adaptados aqui a Angola. Hoje os miúdos aprendem a ler mais ou menos no final da segunda classe. No tal tempo, miúdos ao fim de três meses estavam a ler na primeira. Se você for a Portugal é a mesma coisa. Há uns anos tinha levado a minha mulher à clínica, estava no carro, porque naquele tempo ainda conduzia, não tinha a idade da descondução que agora tenho, porque cada vez que meto a carta de condução, com cunhas e tudo, tenho só três meses para conduzir. E isso não vale a pena. Tenho é de arranjar uma velha rica para poder pagar a um condutor, porque a minha velha é pobre. Voltando a educação. Há uma senhora que pára o carro ao lado e diz senhor inspector ainda bem que o vejo, queria lhe fazer uma pergunta. Não sei quem era a senhora. Faça-me a pergunta: Faz favor, diga-me que método é este? Olhei, andei para frente e para trás. Disse-lhe que não sei. E ela diz: aí senhor, ainda bem que não sabe, porque eu também não sei. Julguei que fosse burra. Uma parte é tirada de um método global da Guiné e a outra parte é assim umas coisas... Então conversei com alguém que estava na altura, não sei se ainda está, então lhe disse: fulana, o livro da primeira classe é muito mau?

O que foi que ela disse?

Não, de maneira nenhuma, porque os portugueses que estiveram aqui dizem que é muito bom. Ai! A gente já importa portugueses para fazer as coisas, porreiro. No meu tempo importava para mandar para lá, onde mandamos a inspecção toda daqui para lá e como os jornalistas desportivos, que mudaram o rumo do jornalismo desportivo em Portugal. Agora estamos a importar.

Já ouviu falar da reforma educativa?

Não conheço e não sei.

Já ouviu falar das classes de transição automática, como a primeira e terceira classes?

Isso é para efeito de estatística, lá em Portugal também é assim.

É uma cópia?

Acho que sim. Fico só chateado porque o Dr. Filipe Zau, meu prezado amigo, está lá no Ministério e é um gajo inteligente, bom. O que é que ele está lá a fazer? Porque não desiste? Isso é mais ou menos como as línguas nacionais. Falo com todo o à-vontade porque a primeira pessoa que entregou um projecto ao camarada António Jacinto para as línguas nacionais fui eu. Retirava-se o francês, porque não precisamos para nada e cada vez menos, porque os vizinhos são mais fraquinhos e, se quiserem, que aprendam português. Retiravam o francês e metiam uma língua nacional. O esquema era assim: na quinta e sexta classe, o aluno por exemplo de origem kimbundu, que soubesse kimbundu, teria de aprender uma outra língua como o umbundu, tchokwé. Na sétima e oitava, o miúdo já podia optar pelo kimbundu para aperfeiçoar.

Porque é que o projecto de línguas nacionais nunca se materializou nas escolas?

É um projecto cosmético. Porque vamos pôr o problema assim: faça um inquérito e veja os filhos e netos dos nossos dirigentes que falam uma língua nacional. É tão fácil, caramba! Então porque é que querem que os filhos dos outros falem uma língua nacional se eles não dão o exemplo? O exemplo vem de cima. Disse eu ao Filipe Zau, encontramo-nos a última vez no aeroporto de Lisboa, que é um bom sítio para se encontrar pessoas que não se vêem há muito tempo.

Sobretudo angolanos?

Sim, sim, sim. Aparece-me o Filipe Zau. Diz-me uma coisa, em Luanda que língua nacional é que vai ser? e ele respondeu: kimbundu, claro. Disse- lhe, olha que não. O umbundu é que é maioritário em Luanda. Valem-se de umas estatísticas antigas, como é que se chamava aquele antropólogo da época colonial?

José Redinha?

O José Redinha. As línguas, primeiro, exigem que você arranje uns 30 mil professores de cada uma. No Huambo, as minhas sobrinhas que já são formadas tentaram aprender umbundu, variaram de professor, o que um dizia o outro não. É só cosmético, porque tens de formar professores. Gostava de saber quem são os tais professores formados que vão lá para o mato e depois começarem a ensinar. Para já fazerem uma grande campanha junto dos pais, dos avós, para ensinar os miúdos na língua nacional deles. Porque as nossas famílias ainda são muito agarradas àquilo que o colono dizia. Não ensine a língua, o miúdo só fala português, porque senão vai com sotaque e reprova.

Antes escrevia-se Kuanza-Sul e agora exigem que seja Cuanza-Sul. Têm razão os que escrevem com K ou C?

Os que escreveram com K são capazes de ter mais razão. O K era um sinal de rompimento com a realidade portuguesa, como istória sem H é um sinal de rompimento com a estrutura gráfica portuguesa. Portanto, suponho que nenhum nem outro têm razão. Ainda que me custe um pouco, porque o kuduro é que tem razão. O kuduro é com k.

Angola tem razão em não aderir ao acordo ortográfico?

Olha, o problema é este: não sei qual é o truque do camarada Presidente José Eduardo dos Santos, mas que tem um truque escondido, tem. A razão que o ministro da Educação deu não é razão nenhuma.

Deviamos aderir?

Acho que vamos aderir um dia. Mas até sectores da própria sociedade portuguesa já questionam e defendem a saída... Ainda não vi ninguém a defender saída nenhuma. A gente escreve como escreve. O que é espantoso num acordo ortográfico em primeiro lugar é: grandes sumidades, filólogos de alto coturno portugueses andaram a lutar com filólogos do Brasil, mas o acordo ortográfico – e já passei por dois ou três – é só uma convenção de como se escreve. Não altera em nada nem fere a língua portuguesa. Antigamente farmácia escrevia-se com ph e alterou alguma coisa ao escrever com f? Não. Portanto, aí não compreendo. Compreendo é uma coisa, os portugueses acham que são os donos da língua, quando até nem são. A língua nasceu na Galiza e isso o Agualusa parece que já disse, que anteriormente pertencia a Portugal. E foi escorrendo por aí abaixo até chegar ao Algarve e depois se espalhasse pelo mundo. Os portugueses em vez de se agarrarem a glória que é um país pequeno ter transferido a sua língua para todos os cantos do mundo, agarram-se ao ph. Ora bolas!

O que pensa da monodocência? É possível um professor dar todas as disciplinas, incluindo a música?

Para as crianças até à quarta, quinta e sexta classe é possível. Acho que a monodocência tem uma vantagem, é que realmente um professor pode seguir os alunos até por exemplo à quarta ou quinta.

Mas hoje questiona-se a preparação dos professores.

Isso já é outra coisa. Ele não precisa, por exemplo, de dominar a música e também não precisamos de o fazer um músico para ir lá dar umas aulas. Portanto, preparem melhor os professores. Suponho que há uma coisa que acontece no ensino primário que é herança do período colonial. É que o ensino primário não tem uma carreira, o professor entra e ao fim de 30 anos reforma-se como professor primário. Se foi director de escola, isso não constitui carreira.

A inspecção na educação faz-se sentir?

Nada. Primeira condição, o inspector tem que ter carro. No outro tempo, no tal colonial, o indivíduo só tomava posse depois de ter mostrado a carta de condução. Não podia dizer eu depois vou tirar a carta, porque um inspector não pode ir para a escola de boleia do professor, senão vai lá fazer nada. Não pode ir de serviços públicos, nem de candongueiro. Em primeiro lugar, fazer concursos e não fazer cursos. Porque aqui em Angola já tem a asneira de fazer-se curso. Fez-se curso e já havia quem é o cursante que iria ser o chefe da inspecção. E eu que tinha concurso não podia fazer curso, porque não era professor e já era sub-inspector. Mas depois não podia ser sub-inspector porque não havia na carreira e também não podia ser inspector. O inspector tem que saber o que é que vai fazer, não é aquele que fica à porta a saber se o tipo chega 10 minutos mais atrasado ou cinco mais adiantado, ou se as senhoras levam os decotes grandes ou pequenos. Ou se levam batas ou não, sou absolutamente contra a bata, tanto na criança como nos adultos porque ali não é tropa. Então a criança vai de bata branca, o professor também e parece um general, só lhe faltam as patentes. O que é isso? Se querem bata muito bem, a criança tem o direito de ir com a bata que lhe apeteça, seja azul, cor-derosa ou vermelha. Se a mãe quer pôr a bata, então que ponha. Não podemos encarecer o ensino das crianças.

Há várias universidades no país, acha que há uma grande febre para a licenciatura ou a chamada doutoromania?

É mesmo. As pessoas querem ser doutores de qualquer maneira. Nem que seja aí no Congo Kinshasa, um tipo consegue ser doutor, chega no Catinton de lá e compra um diploma. É mais honesto do que aquilo que se está a fazer aqui, porque eu às vezes – duas ou três vezes que aconteceu – pessoas que me vieram perguntar como é que vou escrever isso. Eu disse, caramba, ele é doutor. Há tempos estive no Huambo, uma minha sobrinha disse-me: 'tio, vê lá, revê esta tese de licenciatura do meu colega'. Comecei a rever, a anotar e o colega depois foi lá e disse que não podia ser. Não podia ser porquê? Porque o professor diz que a letra negritada é para o título e para isso. Bem, então você é que faz a tese ou ele? Ele reprova-me. Então pronto. Isso é só para dizer que professor que tem já uma maneira de fazer tese com negritados assim, de acordo com não sei o quê, não é professor universitário. Outra vez, quando estava na Executive Center apareceu uma senhora ao meu patrão para fazer o favor de lhe mandar encadernar as teses. O marido dela era cliente da casa e o patrão mandou- me fazer. Antes de fazer dei uma vista de olhos à tese, aquilo era um péssimo discurso jornalístico, mas a senhora passou com altas notas. Portanto, o que interessa aos nossos jovens não é saber se vão aprender alguma coisa. Querem é o diploma e serem chamados doutores. Eu tenho uma crónica sobre isso.

Chegou a dizer que Angola já foi uma referência para Portugal em relação ao jornalismo e que revistas da metrópole procuravam atingir a qualidade da Notícias, de João Charula de Azevedo. E hoje, como vê o jornalismo, principalmente a imprensa?

Está mal. Há uma imprensa que se dedica mais a vender escândalo, que até não está muito mal quando os vende com verdade. Agora há outra imprensa que os inventa. Por exemplo, temos o Jornal de Angola...

Porque é que franziu a testa?

Porque é um jornal que passa o tempo a dizer viva o Governo, viva o Governo, viva o Governo, o José Eduardo dos Santos. A gente pára numa coisa ou na outra. Não resolve o problema daquilo que José Eduardo dos Santos é referência: democracia. O Jornal de Angola é um jornal de partido único e José Eduardo dos Santos não está no partido único. Foi ele que rasgou para a democracia.

Há uma crónica escrita há vários anos, cujo título é 'liberdade de imprensa', onde dizia que pretendia publicar um anúncio a dizer que está vivo numa página onde regularmente se publicam os mortos. O que pretendia transmitir?

Para já, que não há liberdade de imprensa. A liberdade de imprensa começa e acaba aonde o director quer. Você não vê nenhum jornal a dizer mal do patrão. Nem um jornal católico a dizer mal do papa. portanto, a liberdade de imprensa resume-se a uma coisa, a diversidade de títulos. Se não concordo com este título, vou fazer outro aí ao lado. E faço o meu título para dizer mal do Governo. E nós temos aqui razoavelmente uma liberdade de imprensa. Por exemplo, temos aqui muitas rádios, muita juventude que às vezes foge daquilo que o patrão quer, o que é bom.

O surgimento da TV Zimbo até que ponto veio equilibrar a forma de se fazer televisão?

Não sei se é a forma, mas a programação veio. Porque a gente vê que a TPA está mal. A Rádio Nacional está mal e essas radiozinhas pequenas estão a surgir muito melhor. As televisões pequenas estão a equilibrar melhor a programação. Só têm um defeito: têm muito poucos programas nacionais. É tudo enlatado.

Há um défice de documentaristas?

Há aí um documentário que mostra um bocado da nossa terra. Porque normalmente quando uma televisão, especialmente a TPA, vai ao Huambo, entrevista o governador e a gente não vê o Huambo. As pessoas que saíram de lá gostavam de ver como aquilo está. Faz-se pouca amostra de como está o país, todos os dias se diz que fazemos escolas, isso, aquilo, mas como é que está o país? Por exemplo, no outro dia fui ao Bié e fiquei espantado! O Bié está melhor que no tempo colonial. Está bonito. O Huambo, nunca gostei muito, também está bem. Se não for para lá, preciso de ver aquilo na televisão.

Dirigiu o jornal Jango no Huambo...

Antes a Voz do Bié.

Como é que está a imprensa regional? As pessoas não estão muito presas àquilo que é divulgado em Luanda?

Estão muito presas. O jornal faz sentido. Até já falei com o José Luís de Matos sobre isso. O grande fracasso da imprensa em Angola é não haver jornais regionais. Ainda não conseguimos. O Jango foi um jornal episódico. Mas há o Chela Press, que não se sabe muito bem se é do Lubango ou de Benguela. Depois o Ismael Mateus tentou o Cruzeiro do Sul, acabou, não sei porquê. Cada província tem de ter o seu jornal. Em Benguela nasceram os primeiros jornais. O primeiro indivíduo jornalista profissional é de Benguela. Namibe tinha o Namibe, a Huíla tinha dois jornais. O Lobito um diário. Porque se a gente não olha para interior vamos ficar a olhar para as grandes centralidades. Mas o substrato da cultura é jornal. Em Malanje não temos, no Úige não, e foi daí que nasceram os grandes jornalistas que Angola teve – e que depois foram embora-, revolucionaram o jornalismo em Portugal, que era uma coisa amorfa. Ainda hoje vemos homens que nem sequer entravam na televisão, estão ali como grandes comentadores desportivos e da rádio.

Vê o canal 2 da TPA?

Às vezes. Há um programa que não gosto muito de assistir, que é o Chiloi ou Chiloia...

Tchilar?

É. Não gosto, parece-me um canal ligeiramente pornográfico. É preciso um canal ter em mente que a criança se deseduca. Destes canais todos, não há nenhum com um programa infantil decente. A própria Rádio Nacional, que tinha e ainda continua a ter o Piô-Pio, está em decadência absoluta. Com a iniciativa da Rádio Nacional, todas as rádios de Angola tinham um Pio-Piozinho. DoPiô-Piô nasceu a literatura infantil.

Qual é a opinião que tem sobre a música infantil?

Não há. As que continuam a tocar são aquelas que fiz com o Beto Gourguel. Ninguém ligou a isso, porque se acha que um programa infantil tem que ter crianças a redigirem. A criança não vai redigir nada, vai apresentar e depois pouco a pouco um dia chegará à redacção.

Defende que crianças podem cantar kuduro?

Podem, não faz diferença nenhuma. Vêem os adultos a fazer e para as crianças aquilo não é 'pornográfico'.

Está ligado a política?

Não. Desde há muito anos que não sou filiado no MPLA.

O que pensa dos políticos e do nosso parlamento?

O que é um Parlamento de maioria?

É um sítio onde todo o indivíduo discute, mas no fim só um é que vota.

Tem votado?

Tenho votado.

Sempre que o MPLA precise, estou lá para ajudar o MPLA. Agora, cartão não tenho, nem quero ter.

Porquê?

Meu caro, tive um cartão comigo, assinado pelo Joaquim Kapango. Depois fui apanhado naquela revoada do 27 de Maio e o indivíduo que me interrogou a preocupação dele não era saber se eu era do MPLA, porque tinha curriculum. Era saber se porque era do Sul não seria da UNITA. Portanto, há uma coisa que nós temos de ver que é importantíssimo e que se esqueceram de ver: o problema do tribalismo e do racismo. É urgente deitar mãos a isso, porque no tempo da guerra ninguém olhava para o soldado se era do Huambo ou do Bié. Ninguém olhava para o general se era branco, preto ou azulescuro, era general. Agora começa-se a olhar. Um dia – e já disse isso a uma pessoa amiga- ainda vou escrever um livro com o seguinte título: Que difícil é ser branco no MPLA.

Porquê razão?

Há mesmo racismo. Há várias fases do racismo: o colonial, em que branco estava em cima e o preto estava aqui em baixo. O racismo depois da independência, em que nos disseram e a gente colocou na cabeça que o racista era a UNITA e a FNLA. A FNLA porque tinha morto muitos brancos no 15 de Março e a UNITA porque não tinha ninguém lá. E depois a coisa parou um bocado porque veio a guerra, porque eram precisas as pessoas para irem para a guerra. De repente a guerra acabou, ficou tudo na santa paz do senhor e as pessoas começam a olhar para o lado. Alguns sentem-se incomodados porque uns têm os olhos azuis e os outros não. Há racismo, profundo racismo. Olhe para a Jota! Os comités centrais. Olhe para UNITA, de certeza que ainda há muitos brancos que não querem ir lá, porque julgam que eles são racistas. Olhe para a FNLA, é a mesma coisa. E depois olhe para os outros partidos todos, e não há maneira de resolver o problema.

É religioso?

Sou.

Católico?

Estou incluido naqueles que dizem que são católicos não-praticantes. Não conheço o que é isso, porque um tipo é católico ou não. Se é praticamente é com ele e se não é também é como ele.

Ainda se sente exilado em Luanda?

Estou exilado em Luanda cada vez mais. Agora aqui estou muitíssimo mais. Só eu e a minha velha. Às vezes andamos um com o outro porque tenho de me zangar com alguém.

É verdade que esteve para receber uma vivenda aqui no Nova Vida, mas optou pelo apartamento porque não tinha confiança que um dia a vivenda lhe chegasse à mão?

Estive para a receber uma vivenda, mas depois alguém, o distribuidor da vivenda, achou que era um bocado demais para quem tinha os olhos azuis. Então andou a empatar. Como sabe, quem me tinha prometido a tal casa, a tal vivenda, tinha sido a Dra. Ana Paula, que as pessoas insistem em chamá-la primeira-dama. Esquecemse que ela é Dra. Primeira-dama, um dia José Eduardo dos Santos vai sair dali, ela não vai assinar ex-primeiradama. O grande mérito dela é que sendo uma mulher casada com quem é, tem filhos, mas foi para a universidade. Isso é um mérito. Não foi o mérito por ter casado com José Eduardo dos Santos. Ele gostou dela e ela dele, portanto não há mérito nenhum. Agora a minha mulher também é minha primeira-dama? Então, prometeu-me uma casa num dia de muita discussão, em que ela defendeu o seu marido valentemente. Na altura, disse-lhe: camarada Ana Paula, porque ainda não era doutora, tenho 70 anos de idade e moro na casa da minha sogra. Tenho 70 anos de idade, não tenho casa. Acha que não fiz nada por este país? Estou mesmo zangado com o seu marido. Vejo ai miúdos de 18 anos que têm carro, eu não tenho porquê?

E o que foi que aconteceu?

Ela disse-me que o carro arranjo. A casa vou tentar arranjar. Passou uns 15 dias e tinha um carrão que nunca mais acaba. Fui agradecer pelo carro. Depois a casa nunca mais vinha. Soube pela secretária que estava um bocadinho zangada comigo porque já tinha recebido a casa e nem sequer duas linhas tinha escrito para dizer que gostei ou desgostei da casa. Disse que não recebi casa nenhuma. Ela foi comunicar à senhora, que chamou os camaradas da distribuição e pergunta: olha, como é que está o assunto do camarada Dario? O carro já foi buscar e a casa? Bem, houve aquelas coisas em que o MPLA é exímio. A senhora mandou-me chamar, a mim e a minha mulher e ainda pediu-nos desculpa.

Quer dizer, nos dá e ainda pede desculpa, porque um palerma qualquer entendeu que eu não tinha direito a casa. Ela disse-me que só tenho aqui uns apartamentos, a não ser que o camarada queira esperar por uma vivenda? Eu disse que se a vivenda ainda não está pronta, não quero. Quero o apartamento que já está pronto. Vim e estou muito satisfeito, não precisava de mais.

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