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«Faço da palavra a mãe da metáfora»

Escrito por  Gabriel Baguet Jr.

Foi num entardecer lisboeta e numa zona histórica da capital portuguesa que as portas da Virtual Fundação Troufa Real Ukuma abriram-se às páginas do livro o " Coelho Conselheiro Matreiro e outros Contos que eu te Conto ". À simbologia do lançamento, juntou-se o imaginário criativo dos actores angolanos Daniel Martinho, Gionani Lourenço e Matamba Joaquim e a música de Chalo Gonçalves, angolano residente em Lisboa que com a sua viola, tocou a beleza do semba e outras sonoridades tradicionais angolanas inspirando-se no histórico N´Gola Ritmos.

No tempo e no espaço e na sala com o nome de um cineasta angolano nascido na Caala, José Fonseca e Costa, o Professor e arquitecto angolano José Troufa Real, abraçou o lançamento do terceiro livro da escritora e poetisa angolana Isabel Vicente Ferreira para quem a "palavra é a mãe da metáfora".

Como nasce o gosto pela escrita?
Antes de responder à questão, não posso deixar de agradecer ao jornal "O País" por esta entrevista e que é a primeira no vosso jornal. Quero igualmente agradecer-te Gabriel Baguet, pela iniciativa e pelas perguntas interessantes que me formulaste. Encontro-me visivelmente emocionada pois acabei de parir este meu novo livro e deves compreender o meu estado de alma. Estou muito feliz, pelo facto de o lançamento ter sido um sucesso. Agradeço a todos os actores e ao músico Chalo e a Miceú Nunes que ilustrou o livro. Agradeço ao Daniel Martinho pela iniciativa de ter encenado parte dos excertos do meu novo livro O Coelho Conselheiro Matreiro e outros contos que eu te conto. Ao arquitecto Troufa Real pelo espaço concedido que fez do lançamento um ambiente intimista e muito acolhedor e que constituiu parte do sucesso do lançamento do livro. Foi graças ao tio Troufa e ao Daniel Martinho que de repente sonhei estar em Luanda. Agradeço ao público que esteve presente enchendo a sala e dando todo o carinho e apoio que tanto precisei. Quando entrei e encontrei a sala cheia de gente num dia de intensa chuva não me contive e chorei. Quanto à pergunta, o gosto pela escrita advém de muitos factores. O de ter tido professores que me incentivaram. De desabafar em papéis, o que não podia exprimir oralmente e acima de tudo o desejo e a curiosidade de querer conhecer o mundo através das letras. Creio que mais tarde, as fotonovelas e revistas femininas da época e muito leitura, contribuíram para gostar de ler e como a escrita e a leitura estão muito próximas, o gosto nasceu.

Foi a escrita que impulsionou o seu gosto pela arte ou foi o gosto pela arte que acentuou o gosto pela escrita?
Se tivermos em conta que a vida imita a Arte muito mais do que esta a aquela... assim afirma Oscar Wilde, concordo com este princípio, logo, partindo desde pressuposto, deixa-me dizer-te que a Arte surgiu em mim, desde que a vida em mim desabrochou. A minha primeira aparição no mundo das Artes para quem ainda se lembra, de como comecei a minha vida artística, foi no FAPLA-POVO, um agrupamento musical das FAPLA. Estive um bom tempo. Lembro-me de ter feito coro na inauguração da cidadela desportiva e muitas participações na Quinta Rosalinda com o FAPLA POVO e aqui recordo os meus companheiros que eram David Zé, Proletário, Nonó Manuela, Dulce Trindade e tantos outros. Estive também no Afra Sound Star. Mais tarde entrei na Dança do Conselho Nacional da Cultura quando o escritor António Jacinto era o nosso Ministro, mas naquela época era tanta a discriminação da mulher artista, que nem me quero recordar...Naquela altura a saudosa tia Lurdes Van-Dúnem e a Dina Santos eram as minhas referências. Eu admirava-as. Ouvia -as a cantar e ficava maravilhada. Eu queria ser como elas, mas a discriminação e os estereótipos, fizeram-me repensar se não era melhor estudar. Não viver apenas do canto ou do teatro. Sempre estive ligada às artes e quem me conhece, sabe que não é de hoje, que quero ser artista. Quem me conhece sabe que só pela Arte e pela Arte há muito tempo.

Escrever é para si um exercício de libertação do pensamento ou é uma forma do seu pensamento libertar-se para as palavras?
A escrita para mim pressupõe um solene acto de exorcismo. Quando escrevo sinto-me exorcizada pela palavra e expulso todos os meus calundus e evado-me. A escrita liberta-me. Fico em êxtase quando escrevo um texto com a criação de palavras novas. Sei lá é algo bonito este estádio de sentimento. Me passo de contentamento. Porque para além de pensar, a escrita é das únicas artes onde podes chegar ao orgasmo literário sem que ninguém te dê palmas durante a sua acção.

" Escrever é uma maneira de falar sem ser interrompido", afirmou Jules Rénard. Quando escreve é com este estado de espírito que se relaciona com a escrita?
Depende muito do meu processo de criação. Pensando bem, Pierre Jules Rénard não deixa de ter razão, ao afirmar que escrever é uma maneira de falar sem ser interrompido. Durante o processo de escrita a solidão é a nossa única companheira. Eu aprendi a criar, ou a colher elementos para o meu processo de escrita até nos candongueiros... Por isso esta afirmação pode ter alguma relevância em algumas situações. Por vezes quando escrevo, paro, leio alto, choro, grito e imagino-me personagem. Ponho-me na pele do personagem em pleno acto de escrita. Logo a seguir, coloco-me na pele de leitor, tentando sentir o efeito da frase. Coisas que só posso fazer sozinha, senão ainda julgam que estou malaique, ou que já estou "tamtam"...

Por outro Louis Bonald referiu que " a literatura é a expressão da sociedade, como a palavra é a expressão do homem". Concorda com este sentimento e faz das palavras que compõem os seus livros, a expressão das suas palavras?
Quando escrevo não sou a mesma. Existe uma metamorfose em mim, quando me encontro pelo acto de escrita. Devo dizer que nos meus livros a palavra é carregada de um sentimento metafórico e faço da palavra a mãe da metáfora.

Que significado assume a literatura e escrita para si?
A escrita para mim para além de ser um acto em que posso passar ao outro o que vai na mente dos meus personagens é também um acto de responsabilidade e um momento lúdico irreversível. No lançamento de um livro, a escrita para mim assume-se como partilha generosa com os leitores. A literatura é uma das formas artísticas que ajuda a contribuir na concepção efectiva de outras elementos artísticos e sem a literatura não há música e não há teatro, porque tudo está na base do texto.

Os livros Fernando D´Aqui e Guardador de Memórias da sua autoria são neste momento objecto de estudo literário na Universidade de York no Canadá, para além do Brasil e do Chile. Esta constatação tem sido motivo de orgulho pessoal e maior responsabilização perante o público?
Impele-me a trabalhar com maior empenho e responsabilidade. Faz-me reflectir que somente o trabalho me tornará uma pessoa mais simples, além de que nós podemos divulgar a literatura angolana mais além. Este tem sido também um dos meus compromissos. Levar ao mundo o que os escritores angolanos escrevem e deixar que estes usufruam os que os artistas da palavra fazem com a Palavra.

A literatura não é apenas uma das suas paixões de vida. Verifica-se que o teatro e a dança também ocupam uma parte das suas opções de vida?
Será a arte e as demais expressões artísticas elementos transformadores na nossa forma de olharmos a vida?
Vou responder-te com uma frase de um escritor de que gosto muito que é a seguinte: O fim da arte é, simplesmente, criar um estado da alma. Na arte reside o segredo da vida. A sua simplicidade. Todas as formas artísticas tornam-nos mais simples pelo que moldam a nossa personalidade.

Recentemente e no seu novo livro escreveu e cito que " escrever tem sido o meu melhor fadário e é no cheiro das letras que o soalho do meu chão se afirma". Em que se inspira para que o cheiro das letras que escreve tomem forma e nasçam títulos como «O Coelho Conselheiro, Matreiro e outros Contos que eu te Conto»?
Creio que pelo facto de acreditar em Deus e pelo facto de ser Católica e ser uma mulher de fé , há em mim a presença do Espirito Santo, que se manifesta durante todo o meu processo de criação e através da oração, recebo unção divina e aí reforço a ideia da metamorfose em mim. De facto houve leitores que gostaram imenso do título e começam a fazer umas brincadeiras com o título Coelho Conselheiro matreiro.

A escrita liberta?
Sim. A escrita liberta-me e já não vivo sem o enamoramento com a escrita. Aliás finto a dor com as palavras e daí o pensamento libertar-se. Mais uma vez reitero a minha gratidão pela entrevista assim como agradeço a todos que colaboraram comigo durante em todo o processo de edição de texto e lançamento do livro. A todos e a ti, a minha gratidão.
Gabriel Baguet Jr.

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