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Jacques dos Santos: "Estamos a criar o homem mau"

Escrito por  José Kalienge

Sente que esta Luanda, de hoje, ainda é sua, que ainda lhe pertence?

Luanda há-de ser sempre minha. É a terra que adoptei como minha há meio século, mas ela perdeu muito da sua identidade. Luanda já não é aquela cidade africana, do género colonial, que a distinguia das demais capitais africanas.

 

 

E perdeu a sua identidade, curiosamente, a partir da independência... ou, mais concretamente, de há vinte anos para cá. E foi perdendo os seus traços característicos, hoje dificilmente encontramos coisas que nos façam lembrar... há um ou outro edifício, evidentemente, que nos façam lembrar a Luanda dos nossos tempos, a Luanda de que nos orgulhávamos.

Dá a sensação de Luanda estar a regurgitar, a expulsar o que tinha de si mesma?

Exactamente. Utilizou as palavras certas. Quando vejo, por exemplo, a antiga Alameda do Príncipe Real, onde colocam aquele edifício da União, de automóveis, quando o projecto do tempo colonial era levar a alameda a passar pelo Bairro Operário e fazer uma grande avenida até ao Largo 1º de Maio... porquê que não se teve em conta a beleza da cidade? Não se teve em conta que uma urbe da grandeza e da beleza de Luanda precisa de espaços, locais que a caracterizem como uma grande cidade? Hoje o que nós vemos na nossa capital é tudo menos espaços puros. Façamos um esforço de memória e vamos procurar onde é que há um parque grande, onde há um largo grande, onde há um jardim... não há. Isto tudo foi dizimado, tudo absorvido por esta modernidade que estão a impor a Luanda e que eu, muito sinceramente, acho que não haveria necessidade para tanto. Luanda, o seu espaço geográfico, tem tanto terreno, onde essas novas centralidades e onde estes edifícios a lembrar Nova Iorque e o Dubai poderiam ser erguidos... nem vou colocar se são ou não engraçados, mas que deixassem os vestígios daquilo que ela foi. Não matá-la.
O que acontece é resultado de alguma ignorância, falta de estudos, falta de amor à cidade, ou haverá algum propósito?
Eu não vou por aí. Talvez não de propósito. Há alguma ignorância e uma ânsia tremenda do negócio, do dinheiro, que está subjacente a isto tudo. Portanto, todas as pessoas que se puseram a fazer projectos imobiliários viram, no imediato, o lucro fácil. Então não há que pensar, há facilidade, vamos avante...

Mesmo destruindo a memória da cidade?

Completamente. Não me posso esquecer do que fizeram ao Mercado do Kinaxixi. Por muitas coisas, por muito espampanante, por muito pomposo que venha a ser o que se está a fazer lá, nunca há de ter o brilho, nunca há de ter a dignidade que teve o largo...

Pode dizer-se que ninguém que ame Luanda consegue esquecer o mercado?

Ninguém. Ninguém. E o que é curioso é que vemos, hoje, e falo disso com muita pena, alguns intelectuais a dizerem que sim senhora, que isso é que está bom porque no nosso tempo as nossas mães não entravam no Mercado do Kinaxixi. Por amor de Deus, isso é de uma falta de dignidade, de uma falta de coerência... enfim... é um engajamento ao poder estabelecido para ver se tiram alguns dividendos com este tipo de afirmações. Nós sabemos que não era exactamente assim. Quem ama Luanda, ou para aqueles que dizem que moraram no Kinaxixi, que estiveram lá e não sei quantos, produzir este tipo de afirmações é, de facto, a aberração pura. É isto que me tem posto a meditar nestes últimos tempos, com tristeza, sobre o que vamos vendo. Mas há que realçar instituições que vão aparecendo, como a Kalu, a associação de defesa dos direitos dos luandenses, para a qual também damos a nossa colaboração ...

Entretanto, parece que não tem grande efeito, a sua acção, apesar de passar a palavra...
Porque são ofuscados. E a comunicação social não promove estes grupos. Veja que o nosso único jornal diário, que deveria promover e bater-se também por estas causas, não dá espaço a estas situações, pelo contrário, vai dando mais força a esta acção destruidora que resulta destes investimentos loucos, desmedidos, sem lógica nenhuma, que têm em vista simplesmente o lucro fácil e amealhar sem se importar com o bem-estar dos cidadãos, dos filhos, dos netos, com o futuro. Estamos a criar situações...

Situações que podem potenciar algum conflito social, quando vemos, por exemplo, uma escola a ser substituída por um edifício de um banco, ou uma rua como esta entre o Cine Nacional e a sede do BESA fechada e a tornar-se num parque de estacionamento?
E mais, como a ao pé da Sonangol, sem que aconteça nada a essas pessoas. Mais, colocam cancelas e sabemos que aquilo dá dinheiro a alguém a quem o Governo Provincial deu autorização para fazer tal coisa. Isto é absurdo.

Mas tem um problema aqui mesmo ao lado. Para quem andou por Luanda há alguns anos, sabe que este parque de estacionamento criado entre a sede do BESA e o Cine Teatro Nacional, onde está a Chá de Caxinde, além de tirar uma rua à cidade, no mínimo tapou as sargetas de escoamento das água, isso não os afecta?

Nós estamos a viver este problema. Aliás, estas obras que estamos a realizar, e que gostaríamos de terminar na próxima quinzena, para reabrir o espaço Verde Caxinde, estão a sofrer da influência dos estragos que eles fizeram. Já fizemos uma petição do Governo Provincial, que nos remete à ELISAL... e esses senhores que fizeram esta asneira, agora, para a desfazer, querem somas exorbitantes, na ordem dos 20 mil dólares. Como é que nós, uma associação, sem fins lucrativos...

Disse-nos a segurança no parque que o espaço está reservado, basicamente, ao banco, a quem não fará muita diferença esse montante...
Exactamente. Mas se quisermos sair desta teremos de arranjar formas... enfim.

Por outro lado, Luanda, que é uma menina do mar, com a Ilha, a Marginal, está a transformar-se. A Ilha deixa de ser um espaço de pescadores, sabe-se que muitos foram parar ao Zango e ao Panguila, e a Marginal está a ganhar um rosto novo, como que numa cirurgia plástica...
Está a ajudar-me, esta é a ideia que eu defendo sobre o crime que está a ser praticado contra Luanda. O crime generalizado na Ilha de Luanda que está destinada à tragédia. Porque eu não acredito que os ventos, as calemas, qualquer dia não comecem a mostrar a esses senhores que se enganaram redondamente com os seus projectos. Eu lembro-me que quando este Projecto Baía foi apresentado chocou, claramente, uma parte da população intelectual de Luanda. Nós fizemos aqui um encontro que reuniu mais de duzentas pessoas, intelectuais, onde se questionou e contestou seriamente a ideia do projecto. Porque iria tirar, e está provado que tirou, a identidade da baía de Luanda, que era o ex-libris da cidade de Luanda, que agora está completamente transformada. E estiveram aqui peritos que mostraram que isto é um perigo, ninguém quer ouvir. Continuam a ser construídos edifícios de grande porte na Ilha de Luanda, qualquer dia podemos ter problemas muito sérios. Não estou em condições de tecnicamente poder desenvolver este tema, mas estou a basear-me naquilo que pessoas abalizadas, que estudaram estas questões afirmam, que não é viável, dadas as características da Ilha de Luanda. Até porque num passado que nem é tão longínquo as marés, as calemas devastaram uma série de ilhas que estavam aí a volta, foram. Todos os ventos voltam outra vez, as marés são eternas, hão-de voltar e fazer estragos. Mas a fúria de ganhar dinheiro não vê isso, e estão em vista outros grandes projectos para a Ilha de Luanda. Vão tirar a sua identidade. A identidade de Luanda foi varrida. Agora vamos conhecer outra Luanda e vamos ver como é que a gente se adapta a ela, como é que vamos conviver com ela. É a Luanda desta juventude que está agora a mandar. Até chegarem a um dia em que hão de ver que estão numa terra que não tem passado. Não sei se há um interesse explícito nisso, mas já era preciso pôr um pouco de travão nestas ideias.
Eu quero manifestar a minha satisfação, e não posso deixar de o fazer, elogiando a Dra. Rosa Cruz e Silva, ministra da Cultura, que dentro das suas escassas possibilidades tem feito para que o escasso património histórico-ciltural que existe ainda esteja preservado. Foi ela, no tempo da governadora Espírito Santo, que tomaram essa atitude e conseguiram tomar meia dúzia de edifícios, talvez mais, que têm uma placa a dizer que é património. Famos ver se isso aguenta, se se preserva, ou se alguém mais iluminado dirá que não é nada disso, que isso não faz falta nenhuma. Isto são os desabafos de um homem que se abeira dos setenta anos e que, por razões óbvias, não pode estar contente com o que está a assistir. Não sou contra o desenvolvimento, contra a modernidade, longe de mim isso, eu sou um indivíduo moderno, mas dentro de princípios moderados, com lógica e sempre defendendo a memória e a história. Mal de nós se se tivessem apagado as memórias da Grécia, do Egipto de Espanha, de Portugal, Tombouktu. Se os egípcios se lembrassem de apagar toda aquela memória, aquele património, não sei como poderíamos estudar e confrontar o que somos hoje com aquilo que foram os nossos antepassados.
Falando de memória e de história, ao ver-se hoje o Mutu, o antigo Liceu Salvador Correia, fechado, calado, é um golpe na base da intelectualidade luandense. Está-se a desligar alguma coisa?

Absolutamente. Eu não estudei no Mutu, mas os meus irmãos, todos, os mais novos, passaram por lá. E é de facto uma pena. O alfobre ... deveria ser preservado. Mas porquê estes complexos de colonizado que nós temos?

A querer mudar... fazer o homem novo... e o que é que temos construído afinal? Em vez do homem novo nós estamos construir o homem mau. Este homem que quer mandar hoje é o homem mau, porque está a destruir pessoas, mentalidades... quando digo isto não estou a englobar todos aqueles que têm acção decisória e que têm de ganhar a consciência de que, de facto, não estão a fazer bem. Poderiam perfeitamente fazer bem as coisas, porque têm poder para isso, fazer com decência, com dignidade e, sobretudo, consultar as pessoas. Não ouvem. Duas ou três pessoas decidem e vamos para a frente. Os mais velhos não são tidos nem achados. Ninguém pede opinião das pessoas esclarecidas, mesmo de arquitectos, de engenheiros, gente antiga que poderia, efectivamente dar o seu contributo... mas, enfim. Não quero ser taxativo, nem estou a querer apontar dedos, quem sou eu, sou um cidadão que cumpre com as suas obrigações e que sinto que tenho o direito de falar o que sinto. Há coisas boas que foram feitas, há coisas que nos desamarraram do passado mau e que temos de aplaudir. Mas... por exemplo, este Teatro tinha o seu parque de estacionamento aí onde estão as bombas de gasolina, porque toda a casa de espectáculos tinha o seu parque de estacionamento, tal como tinha o Carl Marx. Como é que eu vou ficar contente quando vejo que usurparam estes espaços sem se dar cavaco a ninguém, sem explicar com que direito é que tiravam aquilo, com que direito é que entregaram a outras entidades.
O pior é que não se explica a ninguém. Alguém sabe que dinheiros é que reverteram a favor do erário público em resultado da substituição do Largo do Kinaxixi por aquilo que se está lá a fazer? Quem negociou com quem? Quem recebeu o dinheiro? Isto é uma questão de cidadania, uma questão que a gente tem que colocar. O que é que isto rendeu ao Estado? Ninguém pergunta... estes deputados... e se rendeu, para onde foram estes dinheiros? Para hospitais? Centros para idosos? Parques para as crianças? Para casas de espectáculos? Aqui ninguém sabe de nada. No parque de estacionamento do Carl Marx fizeram um prédio, uma coisa absurda que não passa pela cabeça de ninguém. Mas quem está por detrás disto tudo, quem faz isto tudo, a propósito de quê, com que fins e objectivos? Eu só vejo o lucro. As pessoas querem ficar ricas. E o novo riquismo em Angola está a produzir autênticos animais, já vemos crimes hediondos, já vemos coisas absolutamente incríveis, mulheres e homens... esta juventude está perdida, ninguém quer falar na droga que está aí a ser negociada... isto é fruto deste modo de vida... aqui não se fazem apelos à poupança, políticas contra o esbanjamento, e estamos a ter exemplos terríveis que nos vêm da Europa, da velha e famosa Europa, e da América, poderosa, onde as populações estão em apuros. Nós vamos cair lá, que ninguém pense que isto é eterno. Mas há quem pense que em Angola é diferente, que no dinheiro nós somos "incabáveis". Mas se acaba pode encontrar uma população viciada, a pensar só nos roubos do dinheiro, porque para sustentar vícios e futilidades é preciso dinheiro.

Como homem de cultura, sente que os espaços e a vida cultural de Luanda estão a ser confundidos com a mera diversão?

Quase não há cultura, é um embuste tremendo, isto que está a haver. Está tudo do mesmo. Não há inovação, não há nada que mostre a identidade cultural angolana. Os estrangeiros, e temos cá muitos, não têm a possibilidade de ir a alguma casa de espectáculos e ver a identidade como temos na África do Sul. A gente vai à África do Sul e encontra casas de espectáculos onde nos mostram, com coreografias espectaculares, a vida dos zulos e de outros povos. Aqui não se faz... tentam, dois ou três grupos, mas tudo mal engendrado porque guerream-se entre eles, não há uma entidade que oriente. Eu, como homem de cultura sinto-me frustrado com o que vejo neste meio artístico, embora reconheça que temos valores que bem trabalhados poderiam ser sucessos indesmentíveis. Temos bons artistas, o angolano nasceu para a arte.

E tudo isso, esse novo-riquismo, a desidentificação cultural, pode explicar a pouca produção literária que temos?

Uma coisa tem a ver com a outra. Nós fizemos aqui, em Novembro, um festival em que depositamos muitas esperanças e veio muita gente, por dez dias, mas muitos dos que deveriam estar não vieram. Ficou claro. Falou-se da fraca apetência dos jovens angolanos para a leitura, não haver nada que promova, efectivamente, hábitos de leitura, o pouco dinamismo das bibliotecas, das escolas, enfim. Um país que enferma destas pequenas doenças está destinado ao fracasso, a ser abarbatado pelos estrangeiros. Porque o cidadão angolano quer é farra, música, kuduro.., coisas que façam pensar dão trabalho. Então, ler faz perder tempo. E há a falta de união no movimento livreiro angolano, os editores estão cada um para o seu lado, cada um a ver se tem apoios deste ou daquele. Nós temos feito aquilo que nos compete, temos tentado, mas perante respostas tão desfavoráveis a gente vai perdendo ... é pena, porque temos gente capaz, que poderia fazer alguma coisa. Há oito anos fizemos o primeiro encontro nacional de escritores, no Lubango, conseguimos juntar cerca de 60 escritores, as propostas foram até para a Assembleia Nacional, nem tiveram respostas, tal como do Ministério da Cultura e outras instituições. No ano passado tentámos repetir no Bengo, mas as condições não se reuniram. É uma pena, porque é preciso que os intelectuais se juntem, que debatam. O que temos é intrigas, agora quem é que vai ficar com a União de Escritores, quem é que vai isto e aquilo... entra uma Direcção e alguns não estão contentes.

Esta falta de união advém da frustração dos intelectuais que se vêm impotentes, ou de uma espécie de infiltração desta camada pelos novos-ricos, ou aspirantes a, que a corroem por dentro?

Não sei, mas falando do domínio intelectual propriamente dito, e estamos a falar da União dos Escritores Angolanos, houve muita falta de cuidado. Foram admitidos como membros pessoas que não estão capazes. Escrevem mal! Mas são escritores, aparecem como escritores, vamos fazer o quê? Eu considero aquela a associação cultural mais importante do país ... foi perdendo créditos, hoje, as Makas às Quartas feiras, vai lá ver quem é que lá vai... perdeu-se. Deram voz e credibilidade a pessoas que quando abrem a boca só dizem baboseiras. Há pessoas que aparecem nos jornais e na televisão, espavoneam-se, mas não conseguem defender uma ideia. A literatura angolana não pode ser assim tratada. Se aparece alguém com coragem para lhes dizer isso ficam melindradas, criam intrigas, ficam inimigos. Eu já não estou em tempo de ter medo de ninguém e assumo as minhas responsabilidades porque tenho base para falar de coisas que estão aí, palpáveis, reais. Nós cá, na Chá de Caxinde, vamos fazendo as coisas que pudemos, vem quem quer, quem não quer, paciência. Mas também temos os nossos dissabores. Ora dizem que que somos mais frequentados por brancos... quero lá saber. Nós aqui não vemos brancos, nem mulatos, nem nada, vemos é pessoas. Portanto, os que vêm são bem vindos. Isso é só para dar uma ideia sobre o tipo de questões que se levantam a quem está a frente de uma instituição que se habituou a ver as coisas com frontalidade, com dignidade... e a quererem conotar com situações sobre as quais nem nunca pensou. Toda a gente acompanhou a questão do Carnaval, nós continuamos a batermo-nos. Nós poderíamos fazer coisas lindas. Ninguém presta contas, recebem dinheiro, envolvem as pessoas, querem que a gente seja cachico deles... eu não trabalho assim.

Pode-se olhar para o Carnaval e dizer que a sua descaracterização é o espelho do estado desta sociedade, já sem a competição saudável entre bairros, sem o orgulho de ser desta ou daquela parte, de assumir determinados comportamentos?

Exactamente. Há distorções tão marcantes..., em relação a nós dizem que trazemos ideias novas e que queremos introduzir ideias estrangeiras, nomeadamente brasileirismos. A ideia não é esta. E dizem que se não houver Kabetula, kazukuta, etc., dentro de alguns parâmetros, não há carnaval, isto está errado. Nós não nos vamos desvincular destes princípios nossos, mas dentro da modernidade. A cidade cresceu, a cidade descaracterizou-se e vão agora defendê-la com o carnaval? Meus amigos, então tirem as gravatas e sejam coerentes. Há uma série de oportunismos que a gente não entende, mas eles é que sãos os dirigentes...

Eu chego a Luanda, do estrangeiro, ou de outra província, e não tenho uma agenda cultural, um roteiro dos locais de cultura e lazer...

Vai aparecendo, há aí uns quantos espertos que já estão ... mas são portugueses que estão a fazer isto. Fazem com informações deturpadas e ganham dinheiro. E se a gente quiser fazer isso... veja em relação à edição de livros, autorizaram que empresas portuguesas que estão aqui... são os donos disso. O livro escolar...nós não temos cabidela. E nós deveríamos ter acesso. Deveriam ajudar-nos a arranjar financiamento que nos permitisse produzir livros, mas não, vão dar o filet mignon todo aos portugueses. São eles que vão tomar conta disso e já tomaram em alguns aspectos. E depois falam em dignidade, em identidade. Qual identidade? Estão a vender a identidade...

E o homem de Luanda, o caluanda... alguma vez teve uma identidade, ou hoje tem mais traços característicos, está mais identificado com esta Luanda?

Não sei se leu o meu livro "O ABC do B.O.". Digo-o com algum orgulho, mas aquele livro pode dar-lhe muitas pistas do estudo que eu fiz sobre o homem caluanda, sobre o que identificava esta cidade, principalmente aquele bairro muito especial da cidade de Luanda. Eu dizia que quando eu estava em Calulu conheci um indivíduo, alfaiate, kaluanda, que encerrava a ideia que sempre tive de como era o indivíduo nascido em luanda. Eu ainda não conhecia Luanda. Um homem bem posto, calcinhas, bem vestido, aldrabão, farrista... havia uma identidade. E outro, futebolista, bêbado, jogava bem a bola... tipo de miúdas. Eu falo destes dois indivíduos. E quando cheguei a Luanda comecei a aprofundar a forma de ser do kaluanda, porque ele tem características próprias que foi enraizando ao longo do tempo, hábitos que passaram de geração para geração e até há bem pouco tempo estes hábitos estavam aí, bem patentes. De tal forma que eu próprio me sinto, por direito próprio, um cidadão de Luanda. Por tudo aquilo que a gente viveu nos bairros, nos subúrbios por onde andei, pelos confrontos com os colonialistas, etc. Hoje, perigosamente, de há duas décadas para cá, com a entrada de estrangeiros de forma descontrolada, estamos a ser tomados por outros hábitos. Nunca vimos estas kitandas todas que andam por aí. As nossas mães vendiam nos mercados, nos locais certos e não tínhamos esta sujeira, este nojo que está implantado e agora não é só em Luanda, é em Angola. Isto veio de onde? Vêm hábitos de toda a parte, as igrejas, etc. estamos a ser tomados por estes comportamebtos que não eram nossos e que se estão a introduzir perigosamente em nós, dando cabo de famílias, destroçando a juventude com drogas, violência, prostituição, homossexualismo e assistimos a isso impávidos e serenos. A chave é que Luanda descaracterizou-se, radicalmente, de há duas décadas para cá.

E é irreversível?

Se não se tomarem medidas será irreversível. Porque os kaluandas que poderiam transmitir isso aos seus filhos estão a envelhecer, os filhos não absorveram. Como é que vai ser isto agora? Está-se a perder a identidade. Isto acho que é perigoso. Os pedidos de casamento! Fazem-se aqui bodas ... então com esse novo-riquismo fazem já coisas de debutantes... uns trazem coisas africanas dos congos e do Oeste, os outros querem transportar coisas dos palácios de Luis XV da França. Até poderia haver estas tendências, desde que houvesse um centro forte de sustentação da nossa identidade. Veja a música, os jovens não cantam, não preservam o cancioneiro nacional, nada os leva a isso. Qualquer dia quem é que canta Muxima aqui? Ninguém vai cantar. Não sou perito nisso, são as ideias que me vêm que me dão alguma tristeza, alguma apreensão sobre a nossa vida. Agora tenho dois miúdos que andam a dormir aqui na porta já há mais de dois meses, ninguém sabe quem são os pais... antigamente tínhamos alguma dificuldade em ver isso, facilmente se conseguia entregá-los a uma casa de apoio... a delinquência está instalada, mata-se hoje nas portas das discotecas, discotecas que são autênticos centros de droga e o tráfico de drogas ninguém está a querer ver com olhos de ver.

Com tudo isso, olha-se para Luanda e o que se vê é uma cidade triste?

Acaba por ser. Nos dias de semana, meia-noite esta cidade está... e já foi das mais movimentadas de África, com mais vida. Os subúrbios têm as suas nuances, mas eu adivinho que deve estar a passar aí, centros populacionais onde estão milhares e milhares de pessoas concentradas, sem regras, sem policiamento... Luanda é uma cidade violentíssima. Isto tudo deixa apreensões. Oxalá as eleições autárquicas venham depressa, mas não vai ser fácil. Governar Luanda com base nas leis autárquicas não vai ser fácil, vai ser um bico-de-obra, mais ainda com uma Polícia que... eu tenho muitos bons amigos na Polícia, mas na subalternidade, nos agentes que andam na rua, não têm autoridade quase nenhuma, pelo contrário, alguns fomentam a candonga, não têm escrúpulos em pedir dinheiro.. aqui tinha que haver muita coragem política para se tomarem decisões de fundo. Tinha que haver mão-de-ferro, mas se formos pensar em eleições....
Eu, apesar de ser do Kwanza sul, amo Luanda como a minha terra e vejo com muita apreensão a degradação dos aspectos que aqui falamos. Mas acho que é reversível, se se educar as pessoas, com boa orientação política, com um bom papel da comunicação social. E que se ponha as pessoas a ler, muito do que se passa é resultado da falta de leitura. O ensino está vergonhoso... os comerciantes que são aldrabões, os estrangeiros que nos querem enganar... mas, felizmente, ainda temos gente honesta, eu já estive em debates e conferências onde vi jovens a questionar as coisas com muita propriedade, com vontade de mudar, isso dá-me algum conforto. Estamos nos 437 anos de Luanda e espero que os seus dirigentes encontrem os remédios para os problemas da cidade.

José Kaliengue

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