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Fernando Alvim homem de cultura Destaque

Escrito por  JA
Artista Plástico preocupado com as grandes questões sociais e políticas do seu tempo, Fernando Alvim distingue-se, entre outras ousadias, por ter levado o nome de Angola à Bienal de Veneza com o projecto “Check List - Luanda Pop”, a partir da colecção da Fundação Sindika Dokolo. A relação intertextual da música com a sua pintura, a arte contemporânea angolana, e a problemática da socialização da arte, foram algumas das questões abordadas nesta entrevista ao Jornal de Angola.

Jornal de Angola - Das artes plásticas à música. Esta relação é natural, ou seja, projecta na tela as imagens da sua memória musical?

Fernando Alvim -
Considero a música um segmento artístico fundamental, enquanto suporte do imaginário que se projecta nas minhas obras. A sonoridade e a música que tenho na memória permitem reconstituir uma complexidade de sensações vivenciais, que se transformam em imagens, sobretudo quando oiço acordes que me emocionam. A música é, e sempre foi, um importante vector de criatividade na minha obra.

JA - Sabemos que é o fundador da Banda Next. Essa formação musical surge em que contexto?



FA -
A Banda  Next emerge como consequência de uma residência artística da Banda Nirs da Fundação Sindika Dokolo. Este projecto de residência artística, que aliás foi proposto por André Mingas, consistia em duas fases, sendo a primeira a integração dos músicos nas áreas de logística e de educação da I Trienal de Luanda, em 2007, e a segunda, de 2008 a 2010, consistia num atelier de música colectivo e experimental em que a música angolana dos anos 70 era central, num diálogo com a música no mundo da mesma época. A Banda  Next é um quarteto imaginado com a fusão de Artur Nunes, Miles Davis, Franco e André Mingas.

JA - Musicalmente, tem um alinhamento estético muito peculiar. Persegue alguma filosofia musical?

FA -
Durante a fase experimental, abordámos o projecto de uma maneira extremamente livre, permitindo a actuação em lugares específicos como espaços alternativos e em espaços de arte contemporânea internacionais. Percebemos que o nosso projecto, depois dessa fase de experimentação, podia assumir o seu espaço na cena musical de Luanda e que era imperativo que a Banda Next se desenvolvesse de uma forma autónoma incluindo outros músicos com talento e suficientemente profissionais para que o espírito Next e a proposta musical desenhada fossem partilhados com um público o mais abrangente possível. O novo formato da Banda Next é uma proposta muito interessante, com músicos de enorme talento, e não tenho dúvidas que tem um futuro promissor. A voz de Nuno Mingas e o violão de Ivo Mingas são, com certeza, a base do projecto, com a produção de Nuno de Lima Pimentel.

JA - A Fundação Sindika Dokolo, da qual é um dos principais responsáveis, esteve envolvida em vários projectos artísticos nacionais e internacionais. Quais são os grandes objectivos da instituição?

FA -
A Fundação Sindika Dokolo tem como objectivo central o registo da trajectória da estética africana actual e, por essa razão, criou a colecção para que possamos pensar o nosso tempo e a nossa história através das obras dos artistas contemporâneos africanos. Obviamente que o contexto africano e angolano nos obriga a intervir noutras disciplinas das artes e também a pensar os mecanismos mais adequados para incrementar os projectos que desenhamos. A renovação e criação de espaços para práticas culturais são objectivos urgentes e necessários. Por conseguinte, uma prática constante, desde 2004, pela Sindika Dokolo.

JA - A Fundação e a Directoria de Museus do governo da Bahia assinaram um acordo de cooperação internacional. Depois da primeira exposição da Fundação, em finais de 2009, em Salvador, que outros projectos resultaram desta aproximação?

FA -
Neste momento, decorre no Museu de Arte Moderna da Bahia, em Salvador, uma exposição da Sindika Dokolo no contexto do projecto “Transit BR” que consiste numa exposição itinerante que vai passar por várias cidades do Brasil. Em 2010 e 2011, fizemos projectos de residências artísticas, conferências, teatro e exposições em Salvador e São Paulo, e 21 artistas brasileiros participaram na II Trienal de Luanda, em 2010.

JA - A III Trienal já está pensada? Quais foram os grandes ganhos artísticos com as duas anteriores?

FA -
Estamos a desenhar os primeiros conceitos da III Trienal de Luanda, e estamos conscientes dos resultados positivos das duas edições anteriores, consubstanciadas na enorme receptividade do público, incluindo, fundamentalmente, os jovens em idade escolar. Sentimos, de igual modo, o reconhecimento do Estado pela utilidade pública dos projectos que temos desenvolvido nos últimos oito anos. Por essa razão, decidimos publicar em livro, ainda este ano, o resultado do trabalho que temos desenvolvido.

JA - Enquanto artista plástico, pensa que emerge um novo movimento artístico angolano de expressão internacional?

FA -
Não vou citar nomes, mas diria, de forma sintética, que os diversos movimentos culturais pluridisciplinares em presença atestam sobremaneira esse facto, e omiti-los seria uma desonestidade intelectual.

JA - No âmbito do apoio à Música Popular Angolana, a Fundação Sindika Dokolo prevê novos projectos com os Kiezos?

FA -
Os Kiezos acordaram uma parceria com a Fundação Sol, do banco do mesmo nome. A Sindika Dokolo é parceira de ambos e vai fazer o necessário para que os objectivos da Sol, no que concerne à questão do património e memória nas diversas disciplinas das artes angolanas, sejam impressas e salvaguardadas, preservando, desta forma, o capital cultural angolano. Estas são as linhas mestras do projecto com os Kiezos, que inclui um programa ambicioso, de restauro do património deste importante grupo da história da Música Popular Angolana.

JA - Enquanto agente cultural, que princípios organizacionais defende, em relação a uma gestão cultural moderna, para a cidade de Luanda?

FA -
A gestão cultural constitui, actualmente, um domínio especializado, que requer formação. Sonho com uma rede de museus e casas de cultura, nas grandes cidades e municípios de Angola, pois entendo que a cultura deve ser entendida como um importante vector de socialização.

JA - As artes plásticas angolanas têm cumprido a sua função social e, por sua vez, a sociedade reconhece o valor dos seus artistas?

FA -
Não só aos artistas cabe um papel social na arte e na cultura, a cultura é uma questão que diz respeito a todos nós, colectiva e individualmente, pois cada pessoa é um vector cultural pelo pensamento que absorve e transmite. É fundamental e urgente educar através da cultura. A cultura como registo da existência humana é a alma das civilizações.

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