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«A literatura escrita em português tem pouco acesso ao mercado internacional » segundo a professora Livia Apa Destaque

Escrito por  Claúdio Fortuna
Professora Livia Apa, de nacionalidade italiana é professora deLiteratura Africana naquele país europeu, é a convidada desta semana do Semanário Angolense, para dissecar sobre o andamento da literatura nos tempos de hoje.

SA- Enquanto professora, como é que avalia as literaturas africanas neste momento?

L.A- Falo do meu ponto de vista, isto é uma universidade italiana e de uma área que são os estudos portugueses. Acho que os nossos alunos estão por assim dizer rendidos ao fascínio destas literaturas porque nelas encontram muitas das questões ligadas à contemporaneidade.

SA- Qual o lugar da literatura angolana no âmbito das literaturas produzidas nos países africanos onde se fala a língua portuguesa?

L.A- Um lugar importante se considerarmos a qualidade de alguns dos seus escritores. Agora, ao mesmo tempo faz-me impressão a escassez do discurso crítico produzido à sua volta em Angola.

SA- Gostaríamos, que estabelecesse uma relação entre as literaturas africanas produzidas em língua portuguesa e as outras veiculadas em francês e inglês.

L.A- Pelo que conheço das literaturas africanas escritas em francês e inglês parece-me que a literatura produzida em África em português é menos divulgadas também por uma questão de prestigio internacional que a própria língua detêm. A literatura escrita em português é uma língua que não tem as mesmas condições de acesso ao mercado editorial

internacional que o francês e o inglês. Propor a um editor um autor que escreve em português, ainda por cima em África, requer um incansável trabalho de persuasão....Agora acho que há autores de qualidade que mereciam de ser traduzidos e divulgados internacionalmente. O que acontece é que demasiadas vezes são sempre os mesmos escritores a serem traduzidos o que implica de uma certa forma constituição de um cânone estético criado mais na base das vendas e nem sempre da qualidade e da originalidade da escrita.

SA- Professora, como é que avalia a crítica literária em Angola?

L.A- Regra geral me parece frágil, ainda muito ideologizada

SA- Que papel pode jogar as Universidades no que literatura diz respeito?

L.A- Podem jogar um papel de formação. Sobretudo de bons e atentos leitores.

SA- Pode-se falar de angolanidade na literatura de Angola?

L.A- Não sei responder. Confesso que essas questões que tem a ver com uma ideia de identidade “ fixa” com base em características próprias me preocupam um pouco porque podem vir a ser a base de um ideial de identidade exclusiva e não inclusiva....

SA- Em que medida se pode falar desta matriz e o que é isto de angolanidade?

L.A- Sou italiana, acho que não tenho legitimidade para responder.

SA- Quais são os escritores angolanos com projecção internacional e porquê?

L.A- Os que têm maior projecção não são forçosamente os melhores no meu entender...penso no caso de Ruy Duarte de Carvalho, pouco estudado, pouco traduzido, pouco lido dentro e fora de Angola, mas uma das vozes mais significativas do panorama literário de Angola...e Manuel Rui também em alguma medida. O mercado se rege por regras próprias...

SA- Alguns estudiosos das literaturas africanas, dizem que a literatura angolana ocupa um espaço privilegiado no conjunto das outras literaturas dos PALOP, concorda? Em seu entender, como é que é possível ocupar esse lugar, quando a critica literária angolana e o mercado, que servem de barómetro, não é regular nem tem peso em Angola?

L.A- Não sei, acho que cada país tem um seu sistema literário e não existem por causa disso também literaturas “ melhores” . Com certeza que a literatura angolana, devido também a factores de ordem histórico tal como a literatura moçambicana tem o seu edifício literário mais arrumado...

SA- Que papel podem desempenhar as Faculdades de Letras para o resgate da critica literária em Angola?

L.A- Importantíssimo desde que criem hábitos de um verdadeiro exercício critico de leitura.

SA- Foi criada em 2005, uma comissão multi-sectorial para trabalhar na feitura da história da literatura angolana, que teria a missão de apresentar um draft em 2009, que infelizmente não conseguiu cumprir com este desiderato, os proponentes e os membros desta comissão têm uma certa dificuldade em explicar porque não atingiram o objectivo, em seu entender, como um trabalho desta envergadura é possível?

L.A- Acho que os factos demonstraram que não é possível, revelando as verdadeiras intenções do projecto, parece-me.

SA- Alguns estudiosos manifestam alguma dificuldade em perceber o que quer dizer com a geração das incertezas, que explicação é que tem para estas pessoas?

L.A- É normal, há uma geração de incertezas em todo lado, hoje em dia, acredito no potencial criativo da dúvida....

SA- Para terminar, gostaríamos de ouvir que conselho daria aos estudantes angolanos que pretendem aderir à crítica e aos estudos das literaturas africanas?

L.A- Ler, tudo e o mais possível!

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