testeira-loja

Senhora Morte Destaque

Escrito por  Adriano Botelho de Vasconcelos

Com paciência, escutei as cenas que diariamente acontecem no Hospital Américo Boavida. Tive logo a certeza de que a nossa morte para estar bem nutrida, “Gorda de arrasto”, como escreveu um poeta maldito, arrumaria em bom refúgio e tecto a sua casinha nos bancos de urgência, caída em lugar certo até por respeito a sua própria natureza.

“Os pobres aí são deixados em suas mãos por falta de melhor lugar onde caírem mortos”, disse humorado o padre.

A escritora Sónia Gomes, no inédito intitulado Luanda, romance que será publicado com a chancela da UEA, quase descobre a sua verdadeira face. São traços disformes, enjoa quem se aproxima porque desprezível no olfacto e visível no entra e vai dos micróbios que se passeiam e engordam nos corpos putrefactos deixados fora das gavetas das casas mortuárias com problemas de refrigeração. A morte aí tem um rosto que ri da própria morte.

“Não temos camas, nunca tivemos em número suficiente. Deixe o seu fardo onde está”, disse a morte vestida de enfermeira para a filha da paciente que se estendia abandonada no chão frio do corredor da sala de urgência.

“No chão, senhora? Onde está o seu coração? Que terços fazem a sua vida?”, perguntou a filha da doente, com lágrimas atrapalhando a dicção.

“Ah, não tenho, não. Imagine se tivesse que agir com o coração, não conseguiria aguentar-me nessa desordem de aflitos. Eu ando em lugares que você nem suspeita um pouco”, respondeu a morte. E por dentro tinha um grande sorriso que mais ninguém notava, “Só Deus, mas este não pode fazer muito, e para os pobres, infelizmente, está sempre dormindo ou desatento ao seu suplício”, cogitou a senhora morte.

“Senhor médico, por amor de Deus, a minha mãe está nas últimas. É com esse coração que querem governar o País? Socorro, por favor! Não se deita fora o amor ao próximo com tanta facilidade”, gritou aos choros contra a indiferença do médico que caminhava num passo lento com o olhar espreitando por cima dos ombros altivos.

“Desculpe, mas por respeito às normas, só atendo os pacientes que estão estendidos nas macas. Não é o vosso caso e vai uma grande diferença. Aguarde pelo atendimento das enfermeiras, estão aí para isso e outras coisas mais”, respondeu aos gritos. A morte, com mãos de alicate, segurou o magro pulso direito do médico e arrastou-o sem qualquer resistência em direcção ao gabinete de especialistas, espaço vip às moscas, porque os melhores médicos são bastantes vezes procurados pelas urgências das clínicas privadas. “É um fardo, estar aqui nessa espelunca do Estado. Só pode ser castigo”, cogitou o médico.

Saída não se sabe de onde, uma mulher da limpeza com longos até a cintura, apoiada na vassoura já com poucos cabelos de nylon que pudesse melhorar a higiene da sala, fez um sinal cheio de códigos de negociata marginal para que a filha da doente conversasse com ela de forma mais privada. “Naquele lado da sala, é mais seguro”, com a ponta da vassoura indicou o canto direito da sala e atirou para traz a peruca eriçada e mal tratada. Uma porta semi-aberta deixava ver duas crianças atravessadas no berço e cada uma com sangues, urinas, fezes e tosses de patologias diferentes.

“Olhe lá, menina toda produzida. Não lhe vale de nada andar por aí aos choros. Ah, não tem quinhentas folhas verdes que possa recompensar o servicinho de troca de boa maca em prejuízo de um doente terminal, pelo corpo ainda cheio de vida de sua mãe?”, propôs sem qualquer hesitação ou ética. “Tenho… deixa ver”, puxou a bolsa pendurada no seu ombro esquerdo e vasculhou, remexeu os seus fundos. “Sim, só tenho duzentos dólares, essas folhas verdes chegam para a mudança?”, disse com voz pouco animada.

“Você não dá nenhum valor pelo seu doente. Ah, Ah, nem parece que se trata de sua própria mãe. Filha, olha que não é fácil no mundo substituirmos quem nos pôs no mundo”, explicou a empregada de limpeza com o queixo apoiado nas duas mãos que mantinham o peso da cabeça sobre o cabo da vassoura. “Mas não tenho onde roubar o resto, tenha compaixão, criatura de Deus”, pediu quase ajoelhada. “Porra, só tem gente pobre e mal cheirosa nesse corredor. Vou aguardar por alguém que possa ser mais generoso no bolso. Tenha melhor sorte. Saiba que Deus nunca abandona os que sofrem, vai ver que não me enganarei quando a sua sorte mudar”, e saiu quase dançando. A vassoura servia de instrumento que criava parte do ritmo que se espalhava pelo corredor enquanto caminhava dando costas ao sofrimento da filha da senhora que se contorcia de dores.

“As minhas colegas estão melhor, nas salas de clínicas privadas. Os que chegam com os doentes esticam logo as notas verdes assegurando à cabeça o bom trato. Isso é que é gente”, murmurou entre dentes cerrados a mulher da limpeza.

A senhora morte, e é, sem favor, uma bela figura de mulher, depois de deixar o médico divertido com os telemóveis da Unitel e da Movicel, apoiado em bons saldos de utts, na verdade assediado por muitas razões de saias e cirurgias, não teria como atender a todas as chamadas em lista de espera sem que abandonasse essas “pobres almas”. Voltou novamente à sala de urgências para averiguar o estado de atendimento. Desta vez, levou colado ao peito um relógio próprio para as estações de comboio devido a sua grande dimensão. O ponteiro dos minutos pintado de vermelho foi girando de forma inclemente já que em cada passagem completa roubava mais vidas, “De quem é esse morto?”, gritam os enfermeiros num ritmo estonteante.

 A senhora morte é muito aplicada. Vê-se no resultado do número de vítimas que sucumbiam nas macas ou à entrada do Banco de urgências, que aumentava a lista de infelizes. “Boa safra”, classificou usando o dicionário da agricultura. Resultado, só uma senhora e mais uma criança de oito anos ainda davam sinais de vida, e essa resistência não a deixava de todo feliz, parecia que eram mantidos por dois fios de vida muito resistentes.

 A senhora morte peidou, “Porra, que cheiro”. Gases fétidos cobrem todos os corredores do hospital, pairam nas casas de banho sem água corrente, nas salas de urgências, pior na pediatria e estão entranhados nos lençóis coloridos do Congo. “Encardiu os poucos lençóis brancos”, resmungou um doente.

 “Vou passear, dar uma volta pela cidade. Melhor, anotei que no bairro Alvalade temos um doente à porta de mim mesma: morte. Vamos ver o que decido fazer na hora. Aqui está tudo encaminhado e muito calmo para o meu gosto”, disse alto, mas ninguém entendeu o alcance das suas palavras, ultimamente tem sido assim, parece que existe um muro que a separa das demais enfermeiras.

Um jeep de marca Prado X5, de cor prata como a lua, parou para dar-lhe boleia, “Essa flor não me escapa”, convenceu-se. A senhora morte desfilava pelo passeio de terra batida e buracos, vestida de um trajo de linho branco. “Noiva da noite”, foi a alegoria criada pelo jovem que fez baixar o vidro da porta do seu lado direito e sorriu como nunca: “Esse lugar é seu”, abriu a porta.

“Eu posso ser alma”, sorriu e continuou a sua caminhada, sem medo dos assaltos e muito menos entusiasmada pela insistência do jovem. “Lua minha, entre”, afinou a voz como se fosse um suspiro, a viatura em baixa aceleração. “Não se preocupe, sempre soube cuidar de mim, mas obrigada pelos seus tontos cuidados”, correu como uma gaivota e o jovem ficou parado maltratando-se pela inoperância da sedução. “Pó, caramba, devia ter tido outra abordagem e estilo. Espalhei-me como um miudinho”, fechou os olhos com as duas mãos e deixou a mudança automática na posição P, não tinha motivação.

Ao atravessar o largo da Independência, uma viatura de marca Volvo parou bruscamente e o seu dono de nacionalidade inglesa abriu a porta e pedira-lhe que entrasse na boleia porque tinha gasolina suficiente para qualquer percurso que tivesse em mente. “Ah, Ah, você nem imagina o que tenho em mente. Para seu bem, nem tente saber”, respondeu sem cara de muitos amigos. “Eu posso levar-lhe a Paris, hoje mesmo. Quem não quer conhecer o mundo da moda? Oh, morango, eu até banco os custos?”, pediu quase de joelhos e as viaturas que ficaram à espera do fim do filme — difícil será saber porque não se impacientaram — e até mesmo os mais apressados não buzinaram, nem disseram as palavras obscenas que de tão usadas já não eriçam os cabelos de ninguém.

A senhora morte acelerou o passo como uma gazela e já diante da Rádio Nacional, concretamente, na Bomba de Combustível da Sonangol, entregara uma rosa branca ao bombeiro mais feio. “E nós”, “E nós”, gritavam os motoristas que abasteciam as viaturas e com apoios de outros que esperavam pela sua vez na fila, “Esse aí não vale nada”, gritavam. “Ah, vocês não merecem”, todos ouviram a sua voz e razões que cobriram  com eco todo o quarteirão. “Que voz potente e celestial”, elogiaram os que mais se auto valorizaram. Apressou o passo.

Na rua António Assis Júnior, no coração do Alvalade, dirigiu-se com estilo à ambulância da Clínica Girassol encostada à porta número 15A da vivenda de dois andares. A viatura novinha em folha mantinha os intermitentes ligados e a respectiva sirene estava accionada em movimento lento, “Puiiii”, “Puiiiiiiiii”, um aviso intermitente que denotava o grau de gravidade. A senhora morte com um só sopro apagou os dizeres que estavam inscritos nas portas da frente da ambulância. Sem erro ortográfico, alterou para Hospital Américo Boavida e sorriu, sorriu por ter modificado a titularidade do livrete. Teve de interromper o riso, o corpo de bombeiros, equipa de socorro e vizinhos curiosos já traziam estendido na maca o alto dirigente. O doente não parecia dar sinais de si mesmo apesar dos estímulos das máquinas de reanimação, “Pode ajudar?”, perguntou a esposa do alto dirigente

“Sim, não se vai arrepender”, disse a senhora morte.

“Acha mesmo que me vou dar ao luxo de medir a utilidade da sua ajuda? Você, tem uma cara de anjo e pode ajudar. Venha connosco”, ordenara a esposa do alto dirigente. As portas da ambulância foram cuidadosamente fechadas. A manobra da ambulância foi feita numa direcção contrária à desejada pela família que tinha como opção segura o endereço do novo hospital, “Um espaço de excelência para quem pode”, cogitou a esposa e estava decidida a virar de forma brusca o volante.

“Senhor motorista, acerte na direcção, até parece que não conhece onde fica o seu próprio serviço”, criticou a mulher do alto dirigente, mas em pânico.

“Minha senhora, não consigo virar o volante. Condeno-me a mim mesmo por nada poder fazer na direcção que leva o volante. Parece coisa do diabo”, respondeu com a boca aberta de tanto espanto. A filha cassula que acelerava o Patrol VX8 atrás da ambulância, fez uma manobra perigosa para barrar o caminho a ambulância. “Tá louco? Mude de direcção”, mas o motor da ambulância parecia responder com novas acelerações. O Patrol VX8, não tinha cavalos suficientes para consumar a ultrapassagem.

“Não saia dessa direcção. Essa linha tem a mão de Deus”, defendeu a senhora morte mas ninguém quis abrir uma nova discussão. A sirene abria de modo fácil a segunda fila do trânsito parado e caótico. A própria esposa estava admirada, “Milagre”. Nem mesmo nas visitas oficiais com batedores da polícia de trânsito, algum dia o motorista do Gabinete do marido conseguira fazer algum trajecto com mais velocidade e eficiência nas manobras de ultrapassagem, “Que seja então o que Deus quiser”, conformou-se.

Os guardas que controlam o portão de acesso ao hospital Américo Boavida, quando deram por conta da manobra com toda a borracha dos quatro pneus da ambulância levantando poeiras, num ápice abriram os portões, e os doentes e familiares que estavam sentados ao relento, outros tantos deitados no chão protegidos por colchões de papelões, amontoados à porta de entrada, todos sem banhos feitos, sem milho torrado e canecas de cafés quentes, bateram inúmeras palmas. “Aleluia”, “Deus acordou”, gritaram. Registei a curiosidade do morador do prédio cubano nº 12 que confessou nunca ter presenciado um júbilo tão confrangedor: os doentes com patologias difíceis há sete dias que esperavam por um meio de transporte que cuidasse das transferências decididas pelo médicos.

Já na sala de urgências, as equipas de socorro são forçadas a deixar o doente estatelado no chão frio, sujo de sangue de outros doentes em agonizantes estados de falência dos sinais vitais de vida e sem médicos de socorro por perto. “Querida, chame a senhora que veio na ambulância ao meu lado”, o doente acordou do coma e mãe e filha cassula atenderam o seu pedido.

“Sim, aqui estou”, disse a senhora morte e segurou na mão do doente.

“Vou ficar a dever-lhe a minha vida, sei”, confessou o doente. “Tire-me daqui, nessas pobres condições eu vou morrer e acho que ainda posso fazer muito pelo país”, o doente levantou a cabeça para observar melhor a miséria do corredor e chorou copiosamente, “Tirem-me daqui”, rogou. “Não tenho garantias, senhor alto dirigente. O que lhe fará mudar de ideias, se teve todo o tempo e recursos do mundo para tirar da miséria o hospital?” A Senhora morte abandonou a sala de urgência e o choro do alto dirigente subiu de súplica, “Senhora, aqui morro”.

O agente de José Saramago anunciara no jornal português que a “menina” do livro As Intermitências da Morte, há um mês que mudara de residência, e que escolhera como seu ninho o Hospital Américo Boavida.

Quando acordei fechei o livro.

 

De Adriano Botelho de Vasconcelos

www.portaldasescolas.pt (leitura obrigatória)

Ler 2447 vezes

Contacto

AV. Ho-Chi-Min, Largo das Escolas
1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

Telefone: (222) 322 421 Fax: (222) 323 205

e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Blogs

blogspotuea1    blogspotueamulembeira           blogspotueanguimba
         
ytlogo2   blog-poetenladen   logotips