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“Desenrascanço” Destaque

Escrito por  Adriano Botelho de Vasconcelos
“Ah, como nos vamos arranjar?”, perguntou o passageiro refestelado na cadeira h5, da 1ª classe, tão receoso que estava da sua aventura e pela primeira vez fazia um longo curso numa aeronave da TAAG, “Africana”, realçou para si mesmo sem muita tranquilidade.

“Aqui, na Europa, nossa casa comum, já não temos lugar para fazer qualquer tipo de negócios que valham”, explicou sem deixar de coçar a cabeça que dava impressão ser pequena. Essa desproporção estava visível por força do corte de cabelo estilo executivo, mais raso nas fontes e contornos das orelhas. “Aqui não, se tiver em conta a posição do avião na sua velocidade cruzeiro, notará que já estamos no continente africano, e só restam quatro horas de viajem”, explicou o passageiro do lugar h6, muito certo na sua avaliação da trajectória do avião. “Você pá, pelos vistos é um habitué das viagens”, elogiou com um rasgo de sorrisos nos lábios, “nada que o sorriso não abre”, cogitou.

“Sim, a minha vida, ultimamente, se tiver que ser mais claro, direi sem errar que há três anos que é passada mais tempo fora da família, para ser mais exacto em Luanda e muitas corridas pelo seu maravilhoso litoral”, replicou Bettencourt.

“Então, é porque a opção de vida já tem dado bons frutos, não?”, perguntou querendo conhecer o saldo de sucesso do seu patrício e segurou no copo de uísque para o ambiente ter uma certa solenidade e ficar perfumado de álcool.

“Sim, com resultados animadores”, confirmou o sucesso de bolso com alguma vaidade e continuou a desfolhar a revista que trazia um dossiê muito completo sobre a crise mundial e os seus efeitos nos continentes mais pobres. Pediu um uísque para sacudir o sono que aparecera de forma precoce ainda nas primeiras leituras das páginas do magazine económico. Tentou ler as primeiras 25 páginas, mas duvidava que fosse capaz de cumprir esse modesto objectivo, “Que sono inoportuno”, pensou e deixou sair um bocejo.

“A família sofre muito com a sua ausência?”, o passageiro do h5 notou que tinha escolhido uma pergunta banal.

“Sim, mas sabem que só assim podemos manter o nível de vida que têm graças ao que faço e consigo em África. Só em África consigo mexer os cordelinhos dos negócios e como são chorudos”, disse Bettencourt satisfeito e esfregou as mãos. O passageiro sentado ao seu lado sabia que não podia deixar escapar essa oportunidade que tinha em entrar no mundo dos negócios, na verdade empurrado pela mão da experiência que denotava ter o senhor Bttencourt, “Com esse patrício o mundo não me vai fazer partidas próprias de quem é cego em terras alheias”, pensou e não deixou de agir buscando um assunto que gerasse uma boa empatia: o futebol.

“O Benfica é a nossa maior dor de cabeça”, tentou interessar o colega de fila para os casos de arbitragem do campeonato da 1ª Divisão portuguesa. “É uma vergonha. Lá em casa, quem mais fica contente é o meu filho, um sportinguista ferrenho”, disse Bettencourt e fechou a revista para poder animar o início de conversa à volta das paixões do futebol.

As hospedeiras tiveram de passar várias vezes para atender a euforia dos dois passageiros, “Os senhores estão bem animados, nota-se”, disse uma hospedeira que tentava ser simpática até porque fazia parte do quadro de novas assistentes de bordo.

“Temos motivos, somos da mesma equipa e se quer saber mais…”, fez uma ligeira pausa e continuou: “Mais felizes estamos nós por gostarmos do seu sorriso aberto e de dentes muito brancos”, elogiou sem notar que estava a ser observado pelo olhar tão ríspido do Presidente do banco.

“Oh, seu alegrezinho, comece por mostrar o que vale, pegue nessa lista de nomes e assentos da presente lotação de voo, e com atenção anote na memória os nomes sublinhados com a esferográfica de cor verde e diga-os que quero uma reunião agora mesmo”, disse Bettencourt sem um laivo de sorriso nos seus lábios bastantes finos. “A chupeta deve-lhe ter caído muitas vezes, deve ter chorado muito”, pensei eu que observava cada movimento dos viajantes.

“Todos estão em classe executiva?”, perguntou o viajante da cadeira h5.

“Veja bem, à frente do número tem o tipo de classe”, respondeu Bettencourt e depois ainda indicou o que significava na classificação a letra y: “É económica, meu rapaz”, usou esse trato para poder desvalorizar a posição social.

Vinte minutos depois, já estavam todos reunidos no espaço largo da 1ª classe, eram ao todo mais de vinte e cinco viajantes prontos a ouvir o Bettencourt, presidente de um novo banco que anunciara abrir mais de 179 balcões.

“Não gosto de muita verborreia, o tempo é melhor aproveitado no esforço como fazem os ferreiros”, avisou Bettencourt, e com a mão esquerda apalpou os músculos que contraíra em bom volume do braço direito, e mais adiantou: “Tu, como te chamas?”, perguntou quase sem olhar para o passageiro. 

“Michel Platiny, tenho a minha licenciatura ainda fresca”, respondeu com um ar assustado. “Não interessa a frescura porque o que conta mesmo é a estratégia de poder. Você ficará na Direcção de Crédito do banco”, ordenou e fez uma postura mais altiva.

“Mas eu…”, gaguejou Michel.

“Eu nada”, cortou com quase um grito. “Aqui tomamos decisões porque não temos como não nos unirmos nos interesses que podem facilmente convergir”, sorriu: “Oh, Soraya?”. Uma jovem de origem russa levantou-se e todos os olhares seguiram os seus movimentos e requebros próprios de passarela.

“Parece uma actriz, nunca vi coisa igual”, elogiou o viajante da cadeira h5 de cogito com um outro de origem espanhola, “Não é para as nossas unhas”, respondeu com humor próprio da cultura basca.

“Menina Soraya, tire os contactos e segure o CV de todos quantos não tenham conseguido bons empregos. Quando chegarmos marque um jantar no Tchillout. O vinho, manjares e dança será por conta do nosso banco. A sedução é algo que deve fazer parte do nosso poder. Não olhe com desconfiança, faça as coisas conforme mando”, disse Bettencourt e fez sinal para que a conversa e a euforia seguisse perto do wc.

“Um momento, um momento”, pediu Bettencourt: “Alguém domina a ciência do ilusionismo?”, perguntou alto e outros passageiros que não fizeram parte da roda de cumplicidades, eles que deviam estar redondamente absortos nos seus problemas, como por mágica de um chefe de orquestra afinado, deixaram de fazer o que estavam a fazer para ouvir a resposta.

“Eu sei alguma coisa, o meu curso contou com uma cadeira de ilusionismo, mas nada que nos permita ter segurança em assinar sessões dominadas pelo grande poder de engano e fantasia”, respondeu Cavaco de Carvalho, um português de Sesimbra que tinha como sua única preocupação vender sapatos “Como grossista”. Assim tem delineado o seu negócio, como tem afirmado aos amigos na mesma situação, “Emigrar para o Canadá é em todos os aspectos uma opção muito onerosa. Porra, é necessário um depósito em dinheiro no valor de 500 mil dólares americanos”, cogitou.

“Ah, é suficiente o que estudou”, disse Bettencourt. “Todo o negócio em África se não tiver essa arte, não vai longe. Eles querem angolanização, mas devemos correr, abrir empresas como se fossem de direito angolano ou fazer com arte o manguito aos 30% de participação nas grandes obras. Subir a euro ganância nos preços. Antes da farra, vamos estabelecer a estratégia de domínio”, orientou o presidente do Banco que deixou o seu corpo descansar novamente sobre o assento.

Os amigos e profissionais que o rodeiam consideram-no muito exigente até para consigo mesmo, mas pelos traços do seu semblante, todos os outros viajantes entenderam que estavam diante de um homem que tinha a mais perfeita sensação de que tudo tinha corrido como imaginara, “As mil maravilhas”, replicou a russa.

O avião fez uma aterragem suave e ouviram-se vozes de alegria e alguns fizeram o sinal da cruz: “bravo”, “bravo”, “leve”, “levezinho”. Na saída do aeroporto, os polícias da alfândega abriram ala para os seus carrinhos de mão passarem sem revista dos conteúdos das grandes caixas para a logística de seis meses. Nenhuma mala foi aberta para contar o número de camisas, saias, calças, sapatos, sapatilhas de marca Jordan, preservativos, perfumes de marca francesa, cuecas, livros de gestão, economia, tratados de direito e games. Não podiam ter melhor tratamento vip.

“Mamã, encosta aí e deite pró chão as coisas para conferir a muamba”, gritou um polícia da alfândega a uma viajante do voo 750, da TAAG, e proveniente do Rio de Janeiro. E no placar de chegada, em letras digitais vermelhas, passava animado o anúncio de que o Jumbo chegara com um atraso de mais de três horas. “Vamos pentear, hoje é hoje, meus irmãos”, ameaçou o jovem da alfândega.

Um dos viajantes do voo proveniente da Europa perguntou em tom de voz quase apagada: “Senhor Presidente, procuram por droga?”, “Oh, Cavaco, segue o teu caminho, não ofereças o teu coração aos problemas dos locais, eles lá se entendem. É o único país do mundo em que os passageiros de regresso à casa passam por essa vergonha”, Bettencourt foi ríspido o suficiente para que a lição servisse a todos quantos chegam com o coração mole.

Na igreja do Carmo, o padre depois de confirmar a presença de alguém muito importante, afiou a língua para interrogar: “O que falta aos potenciais empreendedores angolanos para que decidam em pleno voo ou no chão firme, terem ou não muito mais mesas livres onde pudessem com toda calma do mundo escolher a melhor acção de materialização da política de angolanização? Sem querer entrar nos assuntos políticos, sinto que nos perdemos muito em identificar o que nos separa e magoa, às vezes usamos até factos que nunca deveriam ter acontecido entre nós para excluir a identidade ou a salutar ambição do outro”, discursou na homilia o padre.

“Aleluia, Aleluia”, responderam em coro os crentes. “Fala, fala, fala tudo, senhor padre”, parecia um refrão ensaiado com muita paixão e teimosia.

“Ah, senhor padre, eu quero explicar a política do Governo, permita o meu ponto de ordem, pode ser?”, interrompeu o Ministro que toda santa primeira quinta-feira de cada mês, é o primeiro a sentar-se na fila da frente, mantendo ao lado de si a sua almofadinha para proteger os joelhos sempre que por ordem do padre tivesse que ficar mais próximo do chão em penitência e não quis perder a oportunidade deixada no fim do discurso “demasiadamente crítico” do sacerdote. O Ministro entendia melhor que ninguém ser sagrado o dever de um militante partidário e antigo guerrilheiro de estar vigilante e com razão ou sem ela contra-argumentar.

“Angolanização é um processo”, começou por explicar, “É um processo”, repetiu, e uma rajada de vento forte abriu todas as portas pesadas e altas da igreja. “Ah, vem aí uma grande chuvada. Dou por encerrada a missa, e que cada um leve dentro de si a vela da angolanização”, pediu o padre, e com as duas mãos fez sinal largo de até um outro dia. “Se Deus quiser”, ainda foi a tempo de ser ouvido.

De Adriano Botelho de Vasconcelos

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