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“Ah Ah Ah Ah Ah Ahhhh” Destaque

Escrito por  Adriano Botelho de Vasconcelos
No hall de entrada dos hotéis Alvalade, Trópico, Presidente, e de tantas outras unidades de cinco estrelas, o que caracteriza as suas salas de estar é a intensa azáfama dos que se sentam em conversas de ouvidos perto uns dos outros. “O mundo sem palavras, definharia até desaparecer”, essa frase que ouvira da boca do padre interrompeu o fio das minhas cogitações.

Para os que gostam das estatísticas, posso informar com toda certeza que depois de pisares esses espaços e colocares os ouvidos bem abertos, como quem está à procura do código de um tesouro, constatarás que as palavras mais ouvidas e que ultrapassam por conta da euforia o círculo fechado de negociantes espalhados pela sala são: “milhões de dólares”, “entrevistas”, “audiência”, “ministro”, “estradas”, “barragem hidroeléctrica”, “estação de tratamento”, “angolanização é tudo”. Os tradutores muitas vezes ficam nas dúvidas quando não encontram o melhor termo técnico. “Um momento chefe, o chinês não entendeu a noção de consórcio. Vou demorar-me um pouco mais com os detalhes para ver se apanham a ideia”, pedem os tradutores. “Deixa claro que tudo deve ter como princípio sagrado o processo de angolanização e que essa é uma ordem do Governo até para que os locais possam ter alguma coisa”, avisam com voz seca os empresários angolanos. Mas existem outras palavras fortes: “café”, “açúcar”, “cigarros”, “uísque”, “água”, são palavras restritas dos empregados de sala.

Os que vão chegando com o correr dos ponteiros perto das nove horas da manhã, encontram menos espaços e cadeirões. Os mais sortudos, empurram os sofás para fazerem novos círculos fechados de negócios. As nuvens de fumo ficam paradas sobre as cabeças de homens debruçados sobre a mesa de centro onde são expostos os produtos ou revistas de publicidade. “Senhor, veja o que já construímos? Arranje a entrevista com o Ministro, abra-nos as portas e você ganha uns trocos mais tarde”, insistem os empresários estrangeiros ao reconhecerem uma certa relutância e desconfiança por parte dos negociantes locais: “São espertos. Abrimos as portas, depois só vimos navios. Diga-lhes, de uma vez por todas; só respeitando as leis de investimento estrangeiro podemos fechar a pareceria”, ameaçam os locais convertidos às virtudes da política de angolanização.

Num outro espaço contíguo à entrada de parede de vidros metalizados, facilmente se detecta o calor das expectativas provocadas pela chegada de muitos visitantes enfatuados e com perfumes em excesso “O ar está irrespirável de tanta fragrância. Só pode, tomaram banho de perfume. Vaidosos de uma figa”, queixou-se com desdém e ciúme uma hóspede francesa que sofre de crises de sinusite e que se dirigiu à rua. No exacto momento em que atravessava as portas altas do hotel, irromperam quatro homens de compleição física de lutadores de artes marciais e os da frente tornados guardas de choque levavam duas pastas diplomáticas bem pesadas e prenderam as portas abertas para o suposto empresário “entrar a matar”, como se diz na gíria popular. A sincronização dos movimentos, os gestos estudados do empresário denunciavam uma perícia adquirida com muito treino. “Verdadeiro ballet de exibição de poder”, terá pensado a hóspede quando finalmente atravessou a porta levada pela mais terrena curiosidade à volta das encenações. “Será que os nossos parceiros acabaram de entrar? Os fatos usados parecem ser bem caros. Devem ser eles. Vamos encarecer as conversas até para que saibam que quem se mete com chineses preciso ter paciência”, tentam adivinhar os chineses, todos abraçados numa só causa: “Sacamos das mãos dos locais os projectos. Ah, depois vão chupar no dedo. É o nosso dinheiro que faz o mundo girar”, sorriu o chinês mais idoso. Os ingleses, os portugueses, os russos, os franceses e também os cubanos agora seduzidos pelo capitalismo, todos têm uma só ideia: “Ou é agora, ou nunca, porque o prato do dia, infelizmente é a repetida ideia de angolanização”, dizem com desdém. “Nasceram para ser pobres”, avançam os mais radicais.

A recepcionista de olhos verdes, com postiços longos constituídos de fios que mais parecem ser retirados de cabeças de mulheres indianas, piscou os olhos para o empresário rodeado de guardas: “Deves entrar agora em cena, tá bem?”, leu para si mesma os gestos que fazia. Tratava-se de sinais e olhares trocados de forma muito demorada. “Preciso de mais cinco minutos. Deixa a cena ficar mais natural”, terá respondido o suposto empresário de sucesso com outros sinais não só concentrados nos movimentos dos lábios, como também nos dedos ocupados com anéis de ouro. Quem seguisse com atenção essa exibição de gestos, concluiria sem dificuldades que ambos não tinham o domínio da linguagem gestual. “Os polícias secretos fazem uso dessa ferramenta”, pensou a recepcionista. É verdade que existia nos seus gestos algo exagerado, por vezes patético até, mas ninguém dava conta desse defeito de comunicação. Sabiam viver com essa deficiência porque “a sintonia tem sido perfeita. Somos um par imbatível”, elogiou-a um dia o empresário enquanto entregava um envelope com vinte notas de cem dólares. “Tem sido assim, mas um dia eu faço greve para aumentar no preço”, aproveitou a recepcionista de longos indianos. Interessa realçar que os defeitos de comunicação gestual, no que parecia ser o dia da semana mais lotado no hall, quinta-feira, não eram visíveis, porque o ambiente no hotel de cinco estrelas estava fervilhante. Todos têm de saber lidar com alguma confusão própria dos Check in e out de hóspedes apressados porque fazem parte de uma cultura que considera que “tempo é dinheiro” e novas agendas já estavam fechadas em outros mercados.

“Senhor Kipungo, por favor, Senhor Kipungo, repito”, clamou a recepcionista com os lábios pintados de vermelho que afloravam o micro aberto a cada vogal que puxasse mais pelos seus lábios. “Senhor Kipungo, é urgente”, repetiu com voz bastante convincente. As duas repetições das chamadas, para os negociantes mais atentos, foram consideradas “despropositadas”, mas fez baixar o tom de voz estridente das negociações abertas, espalhadas em círculos sem qualquer privacidade como ditam as regras descritas nas melhores cartilhas de negócios. “Nesse triste espectáculo a alma do negócio já era”, criticou o padre que procurava um grande patrocinador para as causas da caridade em benefício da Comunidade de São Domingos fustigada pelas chuvas. “Senhor Kipungo, tem em linha uma chamada do Gabinete da Presidência. Querem falar consigo com urgência, pode ser?”, levantara a voz, com intocável ênfase e dicção. Não era comum, mas para que não existissem dúvidas da importância da chamada, usou o Inglês de forma perfeita ante a curiosidade de todos os negociantes locais e externos. “Éh, quem é esse gajo. Deve ser pesado, não?”, perguntou um empresário ocupado nas negociações com os portugueses e postados num dos cantos mais distantes do hall. O empresário local pretendeu ouvir do seu sócio as impressões à volta da cena. “Caro sócio, estamos sentados num hotel de cinco estrelas. Não será raro, oiça o que lhe digo, encontrarmos muitos locais com mais poder do que nós os dois juntos”, explicou o sócio com a voz tocada pela tristeza indecifrável, não se poderia apontar como causa os efeitos próprios do ciúme.

“Diga que já vou, só mais um instante”, respondera o empresário. Com calma retira da pasta segurada pelo guarda mais alto um dossier de capa vermelha, com letras cunhadas em oiro. Dirigiu-se à recepcionista e segurou no telefone que lhe fora passado com grande parcimónia. “Aló”, gritou de forma despropositada e sem modos. “Diga à Sua Excelência, Senhor Presidente, que tratarei do assunto que me pedira, infelizmente só amanhã.”, retorquiu e pegou no dossier e abriu aleatoriamente: “O financiamento vai ser encontrado”, falou em Inglês e reparou que quase todos deixaram no breve intervalo forçado pelas suas palavras as diversas negociações. “Ah, é o meu poder de encenação”, falou com os botões. “Esse angolano é que devia ser o nosso sócio”, disse em russo que tentava vender uma turbina eléctrica desmontada numa das cidades da antiga Federação Russa.

O empresário voltou para o seu lugar, mas foi minuciosamente seguido pelos olhares de quase todos, mesmo os locais pensaram que estavam em presença de um forte aliado que devia ser aconselhado e mobilizado para um novo tipo de aliança pela angolanização, teorizaram. Os altifalantes deixaram passar barulhos de afinação do volume, é próprio de quem pela matreirice queira baixar o tom de voz de uma sala abarrotada de falantes eufóricos: “Senhor Kipungo, é para si outra vez, desculpe mas o senhor não atende as chamadas do seu móvel. Deve estar no vibrador, só pode”, disse a recepcionista de cabelos longos. “Quem é?”, perguntou em voz alta. “Agora é sua Excelência o senhor Ministro das Obras Públicas”, informou usando o micro com o volume bem alto. “É o general?”, perguntou. “O senhor sabe melhor que eu quem são os ministros que não o deixam dormir”, disse nas duas línguas. O empresário apesar de rodeado de guardas, não conseguira chegar até à recepcionista. Quase todos negociantes tinham barrado os seus passos com estilo de estadista. Tinha a seus pés uma fila desordenada de empresários que avançavam com as propostas estendidas: “O senhor é muito importante para nós e por isso mesmo, aqui onde se nota o pulmão dos negócios, decidimos para nosso bem e sua radiosa prosperidade torná-lo nosso estimado sócio”, avançou o alemão. “Quero-o como nosso parceiro”, gritou o Cheik Kamir Jabá, do Dubai. “Eu sou português, trago um banco sem títulos tóxicos”, a este o empresário desviou o olhar.

Já no fim do dia, num outro local da cidade, o empresário Kipungo entregara à recepcionista um envelope: “Aqui está a prenda, aumentei em mais três mil dólares, porque até falaste em Inglês”, sorriu. “Não, não foi fácil. Todos caíram na mentira. O que importa é que todos saíram felizes”, entrou no seu BMW e fez um adeus. “Amanhã?”, Perguntou o empresário em resposta ao adeus efusivo.

Adriano Botelho de Vasconcelos

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