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“Huanga & Nomeações”

Escrito por  Adriano Botelho de Vasconcelos

“É um conto”, aviso.

Hoje, as claques de futebol africanas já não escondem os seus amuletos quando têm pela frente os grandes derbies, quer no equilíbrio de forças táticas, mesmo no físico e no historial de vitórias.

“Chegam numa boa altura. No ponto doce”, terá suspirado o Prof. Dr. Kinguana, ministro. “É a grande vantagem do CAN, termos no terreno grande presença de feiticeiros”, explicou ao assistente e amigo. “É só escolher o que nos parece ser melhor e infalível”, esfregou as mãos de contente. O momento político era de “muita indecisão e incertezas”, todos os governantes estavam à porta de mais uma grande remodelação: “Quem fica e quem sai?”, era a interrogação mais comum nas rodas de conversas, mesmo nas rolotes de cerveja, a política era chamada para aumentar as gargalhadas.

Quanto mais cervejas geladas nos tambores eram destiladas nos bares de rua, maiores eram os palpites dos bêbados e delirantes os seus diagnósticos à volta das prováveis exonerações e seus vales de lágrimas.

“Os editores privados, para aumentarem as tiragens, ultrapassavam o vaticínio e as especulações da rua e repetiam as mesmas manchetes”, escreveu um politólogo: “Varredela”, pediam os mais animados. “Me parece que a política a exemplo do que acontece com a maior parte das partidas de futebol, tem sempre muitos treinadores de bancada prontos só para desancar”, escreveu.

“Existe muita gente infeliz, só gosta de desejar e assistir o mal dos outros”, explicou o mais famoso barbeiro da Vila-Alice, “o mais informado”, reconhecem. “O pior é que alguns Ministros pensam, e mal, que podem mudar a direção do punho do Presidente pelo punho de um bom feiticeiro, para os seus intentos aí virados. Ah, ah, ah, ah”, desatou aos risos e com o olhar apontado aos políticos à espera da sua tesoura continuou com algum desdém:

“Meus senhores, digam lá, e onde fica a vontade de Deus e que tudo pode?”, deixou a pergunta propositadamente no ar para que os clientes voltassem à casa com alguma preocupação que lhes ocupasse o seu dia-a-dia até ao sábado seguinte. “Até lá, que os botões falem mais alto em juízo”, o barbeiro sorriu para dentro de si próprio.

Os espetáculos do CAN que a TPA passava não se resumiam e só ao show de golos, defesas, fintas e repetição em câmara lenta dos erros dos árbitros e seus coadjuvantes de linha. Realço que um outro espetáculo foi sempre alvo dos visionamentos, acontecia nas bancadas, como se as claques fossem o verdadeiro 12º jogador para cada uma das equipas em contenda, assim pediam os treinadores sem descurarem a paixão e o discurso patriótico.

As objetivas dos realizadores de imagem, para adensarem a euforia dos espetáculos no intuído das audiências, para além de apanharem os instantâneos de alegria exuberante e térrea dos políticos e dirigentes da FIFA, demoravam-se alguns segundos mais nas refulgentes figuras de feiticeiros, pomposamente rodeados de amuletos: crânios de leão, rabos de elefante e de animais embalsamados, “estranhos no aspecto”, comentavam os mais atentos.

“Os do Gana, esses não brincam em serviço. Nota-se até pela exuberância e colorido dos trajes. É mesmo para impressionar até os menos atentos”, disse o amigo do ministro.

“Olha, como a equipa têm passado? Só com um golito e tem bastado. Só pode ser graças à ajuda e empurrão do feiticeiro”, exclamou o ministro. Depois de um longo silêncio e o olhar demorado na janela que tinha como pano de fundo o Bairro Alvalade, decidira-se pelo plano que tinha engendrado durante a noite que passara em claro e com muita enxaqueca a mistura. “Uma tenção incurável que quase pifou a minha cabeça”, cogitou.

“É pá, como as coisas andam, não posso ficar de braços cruzados. Não tenho melhor saída, e a vida não é uma ficção, não posso corromper o seu desfecho. Deves contactar o homem do Gana, nosso escolhido. Preciso dos seus melhores serviços. Amigo, trate de negociar sem choramingar pelo preço, o dinheiro é para gastar nos objetivos. Não podemos vacilar”, pediu o ministro com um timbre de voz quase apagado.

“Amigo ministro, achas que valerá mesmo a pena tentar com a prata de fora? Será que o grande feiticeiro sabe entrar no mistério da alta política com a mesma habilidade com que lida com os golos?”, deixara de rajada duas incómodas perguntas porque acreditava, tinha mesmo a certeza que a lista nominal dos que sairiam do governo não constava o seu nome, “É, pelo menos, o que garantem as minhas fontes. Não te esqueças que é com ela que temos lidado esses anos todos”, esclareceu dando importância ao seu indecifrável serviço junto do Gabinete do Ministro.

“Não me interessam as tuas interrogações, traz resultados que mereçam o meu aplauso e recompensa. Uma mão lava a outra, não te esqueças”, disse o Ministro com convicção e pediu que o amigo se retirasse da sala. Tinha na agenda o encontro com a Delegação de investidores chineses, mas de nada valeria esse seu esforço e contatos já que há “muito que não despachava nada”, estavam condicionados por ordens muito claras e que não deixavam dúvidas: “É só cumprir”, disparavam todos.

No hotel Alvalade, apesar de uma certa resistência pelas discrepâncias dos montantes, o amigo do ministro ardilosamente convencera o emissário do feiticeiro a celebrarem um acordo que não poderia ficar escrito:

“Ok, aceitamos o montante de cem mil dólares, mas devem ainda incluir as despesas do hotel, porque vamos ter de prolongar a nossa estadia”, acrescentou: “Regresso em jato particular”, apresentou as exigências sem pestanejar: “Não queria dizer-lhe tudo, mas gostaria que soubesse que outros ministros procuraram os nossos serviços”, ameaçou o emissário que até ao meio-dia esperava que o dinheiro fosse depositado na conta do feiticeiro, “Numa só tranche”, determinou.

Dois dias depois de confirmada a OT, o feiticeiro, apesar do seu aspecto originar curiosidades, mesmo assim, em pleno dia, foi varrer os maus olhados no Gabinete do ministro:

“Ohhhhh, Xéeee, Forra com azaar. Zambi vai dar reino pawer. Xangô Bamba”, gritou num mau português. A dança que acompanhava essas expressões deixaram o ministro e o seu amigo cientes que o feiticeiro “amarrara” e bem o seu lugar para mais dez anos.

“Ministro, esses homens que saíram vieram segurar o seu lugar?”, perguntou de forma sarcástica a secretária.

“Porra, eu exonero-te, não brinques. Ponha-se no seu devido e merecido lugar, mas não brinque com o fogo. Por acaso, a senhora, minha secretária, alguma vez ouviu-me falar dessa prática, própria dos ignorantes?”, perguntou.

“Não, não, desculpa. Deram muito nas vistas, porque vinham vestidos de uma maneira folclórica”, tentou justificar-se.

“Saiba que vieram por questões de negócios e o país não pode escolher o fato europeu para os vestir. Era o que faltava, senhora Josefa, ameaçar a identidade cultural dessa gente. Fique no seu lugarzinho, é melhor. Não se arme em bonita”, ameaçou o ministro.

Nem eram bem dez dias depois do contrato, tudo lhe parecia girar conforme previra o “Papá” feiticeiro do Gana. Tratava-o com essa deferência, porque tinha mais certezas do que nunca que o “lugar continuaria eternamente” seu. Por isso mesmo, quando entrasse ou saísse do seu gabinete cuidadosamente decorado pelos chineses, mais concretamente na antessala onde recebia o apoio de seis secretárias, exibia uma confiança nunca vista, uma altivez que assustava os colaboradores mais céticos e que tinham apanhado nos salões das intrigas algo como “Ele vai cair”.

Eram, aproximadamente, onze horas da manhã, o sol estava alto e quase vertical, um dia bom de fazer praia, quando o feiticeiro do Gana entrou em convulsões, estatelou-se na sala de visita do ministro, lugar muito bem decorado e cómodo onde o velho aguardava há já algum bom tempo.

“Urrrrr, uá, uté, tinga-don-dom”, tentava articular algum pensamento de todo indecifrável para os que assistiam o sofrimento do feiticeiro. Os vómitos fétidos sujaram a alcatifa felpuda, e essa miséria deixou a “senhora possessa”, a situação de saúde pouco lhe interessava, “Que morra, não me diz nada, nadinha mesmo”. Estava bastante preocupada, mas pelo valor da peça comprada no Egipto, “Uma relíquia que marca a decoração e estilo da sala. Devia tê-lo deixado abandonado no quintal, é o que essa gentalha bem merece”, resmungou.

O marido chegou arfando e apressado pela chamada de urgência, agora só pensava em como retirar de casa o corpo pesado do feiticeiro, “Não posso ficar na boca dos vizinhos”, falou com os seus botões enquanto se dirigia à estante para abrir o Plasma e ouviria o noticiário da Televisão pública já com 12 minutos de atraso, com a atenção virada para duas situações; o doente e o noticiário.

Depois de uns instantes de ecrã com chuva, a imagem do pivô dominou o plasma e a atenção do ministro: “O último Decreto Presidencial, exonera o digníssimo senhor Ministro, Prof. Dr Kingolo Tagta Duarte”, leu o locutor tentando imitar a dicção e estilo do Amílcar Xavier, agora em serviço na concorrente da TPA para mostrar o seu potencial.

O grande feiticeiro, não se sabe por que mágica ou milagre, simplesmente deixou de ter convulsões que o tinham combalido até ao chão. Desatou aos choros desbragados, “Ai, ai tatá”, foram choros de muitas lágrimas e ranhos, como se algo estivesse mal no seu coração e necessitasse dessas lágrimas para se ver livre de algum pesadelo.

“Aiiiiiiiii, socorrrrro”, gritou a filha, que presenciara com alguma proximidade a queda do pai atacado por um fulminante aperto cardíaco. Os olhares da mulher e da filha e dos guardas que ocorreram à sala, foram dirigidos ao feiticeiro que acabara de sair do desmaio, uma situação nada confortante.

“Oh, Papá, faça alguma coisa, se não daqui não sai com vida”, ameaçou em língua francesa o guarda mais antigo. “Era um pai, um amigo”, confessou o seu afeto e chorava como ninguém.

“Filha, corre, corre. Fecha-te a sete chaves no escritório do papá e só sais com os números das contas offshores. Vá, seca as lágrimas”, gritou a mulher do ministro.

“As crianças pá cama. Vamos tratar do pelo do feiticeiro acordado da sua matreirice”, disse com voz seca e deu um soco no peito do guarda, “mexe-te”, ordenou.

“Aiiiiiiiiiii, paiiiiiii, meu ministro”, gritou enquanto com descuido poisava no chão a cabeça do pai. “Onde estará esse maldito PIN”, pensou na forma e perfeição da revista. “Não ficaste de me oferecer um BMW, oh papá”, perguntou aos gritos enquanto subia as escadas.

O que aconteceu em seguida, é, até hoje, assunto de grande especulação e controvérsia: O Ministro da Cultura da Costa do Marfim, Prof. Dr. Bongo-Bongo, informou aos seus cidadãos que o grande feiticeiro “ao contrário da informação reacionária que corria em Luanda de que teria sido assassinado em casa do malogrado Ministro exonerado, creiam, não passa de pura mentira dos jornais privados” e garantiu que o morto, Papá, como era tratado pela esposa do ministro, felizmente, já se encontrava na África do Sul, vivendo debaixo das balizas “onde a equipa Nacional violará as redes com grandes golos”, tudo pelo brilho do continente, disse com orgulho.

 

 

 

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