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“Se… & Olhares”

Escrito por  Adriano Botelho de Vasconcelos

Postado no parapeito da janela do meu quarto situado no andar mais alto de casa, o micro mundo da minha rua e largo sem saída tem muito que se lhe diga. Todos os sábados, uma hora depois dos galos acordarem os madrugadores, como quem não quer nada, um pelotão de fiscais vestidos a rigor desfila o seu poder.

“O seu carro foi lavado, vai ficar preso se não aceitar que passemos a multa”, dizem os fiscais encarregados de colocarem “alicates” nas rodas para que não existam dúvidas. Alicate é como o povo prefere batizar o bloqueador de rodas.

“Eu não mandei lavar o carro, prenda mas é o rapaz”, respondem os visados e mais acrescentam: “Olhe lá, que deflagrante delito suporta a sua ação de reboque da viatura se não aceitar pagar a multa?”, perguntam os visados querendo segurar-se nas razões jurídicas, um empirismo que não estará errado de todo, se, num julgamento ao caso, o Juiz tivesse de decidir pela legalidade.

“O senhor mandou lavar o carro, é só isso e mais nada, simples. Tanto latim para nada. Ainda duvida que esse ato tem crime e punição corretiva?”, pergunta o fiscal protegido por um polícia com a arma em posição de quase ação, “Essa gente só com essa posição em riste pensa duas vezes, antes de agir”, terá cogitado o polícia que mantinha sempre uma distância discreta dos visados.

“Mostre lá o seu cartão de fiscal, agora tem gente descarada para tudo”, pedira um dos visados, todo afoito em mostrar que entendia alguma coisa da ciência das leis.

“Não é falso, aí tem. Pode ver”, com desconfiança o fiscal mantinha segurado em seus dedos o cartão no conto aposto aos dedos do curioso que fazia alguma força para si para poder ler o verso do cartão.

“Seus marotos, apanhei-vos”, gritou o visado diante do pasmo gerado pelo seu desabafo em bom grito. “Olhe lá, aqui diz que é vosso dever fiscalizar não só a lavagem das viaturas”, mais curiosos tentaram ler o verso do cartão de identificação do fiscal.

“O senhor já usou a viatura de reboque que vos acompanha para vermo-nos livres das sucatas que há mais de um ano são meros depósitos de lixo, já?”, interrogavam em uníssono os que leram as atribuições dos fiscais.

“Já contaram quantas viaturas estão sem pneus e servem de caixote de lixo… Ah, ah, esse serviço não interessa, não dá lucro”, criticou um outro morador que ainda limpava as ramelas.

Uma mamã zangada entrou na conversa, e tinha razões; a viatura do filho estava na lista das que tinham de ser multadas ou levadas pelo reboque até Viana.

“Eu não consigo descansar o meu ouvido. É a música dos bate-chapas no largo. Ainda acrescento, como culpa dos danos, a perícia nas travagens e arranques dos mecânicos que testam as viaturas. Todos desencartados. Não têm fiscais interessados nesse assunto. O que vos dá mais é esse negócio de multa às viaturas lavadas, que vergonha e falta de melhor serviço”, lamentou-se a senhora. Mas foi logo interrompida por um morador que se sentiu tocado no seu orgulho e interesses, tinha um negócio de oficina que ocupava o largo e mudava o seu aspecto arquitetónico.

“Porra, esse assunto não foi para aqui chamado, sua invejosa. A senhora não passa de uma boa maqueira. Oh, sua feia”, ripostou o dono de uma das quatro oficinas de turismos que começava no seu quintal acanhado e continuava na estrada e passeios. Ocupava parte do largo como dono soberano do que deveria ser inteiramente público.

“Tanta coisa que era pública e pelo andar da carruagem se tornara privada. No focinho de todos nós, saibam que perdera essa função. Diga lá, comigo porquê que haveria de ser diferente? Não sou filho do mesmo Deus? Ah, sacanas de uma figa, são dores de cotovelo”, disse alto. Considerava ter como bom ofício essa razão que animava os seus instintos.

“O senhor é que tem memória curta. Onde está o ajudante de mecânico que atropelou uma criança que ficará defeituosa para toda a vida? Não lhe pesou a consciência?”, a mamã perguntou com todos os músculos da garganta e com o dedo em riste para que visse que não tinha medo dos seus músculos temperados na mecânica.

O mecânico levantou as mãos sujas de óleo, não aceitou o desaforo “de uma simples e atrevida senhora”, pensou e partiu ao ataque à senhora que fugiu e rodopiava ligeiramente para esquivar-se dos seus gestos de fúria. O senhor ficou cego, seus passos largos tentavam apanhar a senhora que ficara prostrada no meio da rua.

A senhora recuou dois passos, o mecânico mais cego ficou, pois o seu braço foi desenhando a força da chapada, um balanço desproporcional ao corpo da vítima de estatura magra, “Ah, vais sentir o impacto de uma boa mão de motor e parafusos”, cogitou com sentido figurado, enquanto fazia o movimento à procura do impacto. Os homens que faziam o número de público começaram a sorrir, sorriam à espera do espetáculo matinal.

“Aiiiiiiiiiiiiiii!”, um pungente grito se fez ouvir quando metade do corpo do mecânico caíra na sarjeta da estrada, degradação que não tinha ainda sido objecto da obra chinesa que na zona tratara de colocar as primeiras tampas. “Sempre pensei que um dia teríamos uma tragédia maior, tiraríamos da sarjeta um corpo de criança já sem vida”, pensou uma moradora que fechara a janela desinteressada por mais um conflito. O impacto da queda do mecânico lançara águas sujas e de fezes que cobrira todo o seu corpo, e o enjoo do pequeno-almoço deixou-o em vómitos seguidos, abruptos e malcheirosos. “Tirem-me daqui”, pedira com aflição. “Porra, nem as crianças aqui caíram, logo eu”, foi um dos seus pensamentos e estranhava a inatividade dos presentes, “nem um gesto de socorro”.

“Tirem-me daqui, por favor. Antes, joguem um balde de água potável contra mim.”, rogou já sem a petulância. Apesar da senhora mamã desatar-se toda em risos, na verdade, tudo lhe correra de feição. “Não poderia ter melhor armadilha como ajuda, Deus sempre ajuda os mais fracos. Agora grita como uma pobre criança”, falou alto.

Uma viatura de marca Volvo X8, de cor prata, como eram as tonalidades da manhã, entrou na travessa numa velocidade estonteante. Nem mesmo o aglomerado de gente que ocupava toda a estrada estimulara a prudência do condutor. “Ah, vão dançar”, repetia enquanto acelerava, “Vou mostrar o que valho, mais próximo faço a travagem da foto, prego ao fundo”, avisou aos dois penduras e a estrada começou a diminuir no tamanho por causa da aceleração. “Yes, yes manos”, repetiam. E o som do “50 Cent”, com versos duros, maltratava os seus ouvidos.

“Hiii, olha essa gentalha. Mano, acelera. Vão saltar como ratos”, incentivou o pendura que estava sentado no banco da frente, eufórico nos delírios adoçados pelo vinho, uísque e droga que consumiram durante toda noite.

“Eiiiiiiiiiii!”

“Páraaaaaaaaaaaaaa!”

“Corram, corram”, gritavam os que desfaziam o círculo de assistência, sem nenhum braço que se oferecesse a atender ao pedido de socorro do mecânico que acenava com suas mãos abertas. O mecânico fechara os olhos, manteve os dentes serrados, amarrou-se a um sonho que, pela primeira vez, tivera contornos muito claros. “Meu Deus, estou em suas mãos”, sussurrou, e tentava preparar o corpo para a roda cruel do destino que abria naquele instante a sua página.

O motor estava nas mais altas rotações. Os últimos a desfazerem o círculo do aglomerado de curiosos, já não foram a tempo de usarem o passo, nem mesmo o salto, já não tinham tempo. “Voem” era o aviso atónito dos olhares que mediam os metros e os instantes que restavam para fazerem a escapadela. “Voar, apanhar a bola da vida”, ainda pensou assim um jovem futebolista do Petro Atlético. Todos lançaram os corpos como se fossem fazer a defesa de suas vidas, alguns ainda sentiram pela força da colisão que o voo terminaria aí mesmo.

“Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii”, mistura de gritos e choros. O sol continuava escondido como se preferisse demorar-se detrás das nuvens para que os jorros de sangue das vítimas não fossem estimulados pelos seus raios inclementes.

“Olha a tragédia”, “Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii”, gritavam os feridos, também os que se tinham safado sem arranhões e as lágrimas pelo fatídico infortúnio colocaram no esquecimento os desaforos do mecânico cujos restos de vida se traduziam numa massa disforme de sangue. A viatura, aos ziguezagues, embatera ainda contra dois outros turismos que estavam estacionados à esquina. Ao saírem atordoados da viatura, foram logo cercados pelos que tinham ficado sem qualquer escoriação, bafejados pela sorte.

“Morte, morte como vingança”, gritaram os moradores neutralizando os três loucos, e como se fossem piranhas humanas, num só segundo, ficaram sem a roupa, só de cuecas. Cinco jovens empunharam os martelos e alicates para facilitar o serviço das sevícias, mas o padre que saíra não se sabe de que fundo de quintal, com voz de trovão gritara à multidão compacta que movia-se num mesmo objetivo: Justiça por mãos… por mãos próprias.

“Nãoooooooooooooo, baixem os martelos”, pediu, e a sua autoridade moral e de guia espiritual não ficara manchada pelo ódio. Lentamente, e com suores frios, a ordem surtia o efeito desejado, “Estão calmos”, pensara. Pelo menos os olhares entrecruzaram-se, todos ficaram literalmente suspensos ao apelo e súplicas do padre Zé Maria.

“Se os polícias e fiscais não estivessem com mira só nas multas, se o mecânico não agredisse a senhora, se rebocassem as sucatas que são focos de doença, se os rapazes pudessem lavar os carros com esse orgulho por não roubarem, se os fiscais empregassem o seu belo tempo para que existisse melhor saneamento…”, o padre não conseguiu terminar em bom discurso o retrato da nossa vergonha. Por outras cargas de água, as pastoras de uma ceita de malianas na rua Mata Gatos, para acordarem as crentes no aconchego marital, abriram ao máximo a música de dança que passava numa aparelhagem potente cujas ondas atravessavam a Avenida Brasil e morriam no musseque Marçal.

Um rapaz de calças largas e com fundilhos que chegavam quase aos joelhos, saiu a correr de forma desajeitada pela obesidade e colocara duas grandes colunas de som na sua pequena varanda tipicamente portuguesa no estilo e espaço.

“Não gosto dessa ceita, vão ver. Querem guerra, vão ter carga”, sorriu e girou ao máximo o botão do volume, e os objetos vibravam com os sons fortes de Fafandon e Puto Pratas. Os ritmos balancearam os corpos dos fiscais feridos, dos que olhavam de perto os dois mortos, dos curiosos que já inventavam partes do ocorrido adulterando os fatos, e fizeram o padre desistir da cruz e da oração.

Duzentos metros distantes do acidente, um ministro fechou os dossiers que tinha de dominar, balbuciou, e disse alto para todas as paredes e corredores:

“Assim, não dá, não”, num instinto de sobrevivência ao caos auditivo de violência aos seus gostos culturais, blindou a ampla sala de visitas com as músicas antigas de David Zé. “É outra coisa. É para limpar o lixo que vem da rua”, deixou-se deitado na poltrona e sonhou que os muros que o rodeavam eram baixos demais.

 

 

 

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