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Kilamba: os riscos de Isolamento

Escrito por  ABV

Muitas experiências vão no sentido de fixarem as centralidades com um único centro de si mesma, de alta densidade, agregador de grandes prédios e circundado por grandes rodovias, e pior, têm-nas simplesmente como "cidades dormitórios", sem vida. Morrem.

O grande risco que correm as ditas novas centralidades, concebidas como vectores expansionistas dentro dos marcos das grandes metrópoles, na verdade acontecem quando esses projectos não têm em si, como malha essencial, os espaços propícios ao desenvolvimento de negócios e ou de condições de nichos incubadores de empresas.

As centenas de lojas nos prédios mais baixos de quatro pisos à berma dos passeios podem até marcar o veio essencial de sobrevivência de Kilamba, mas é avisado que outra ambição deve permitir que existam espaços para centros logísticos, triângulos de espaços nocturnos como centros de entretenimento, necessariamente outros triângulos de espaços de expressão da cultura e do lazer.

Não menos importante serão os procedimentos que na hora permitam aos angolanos, em primeiro lugar na lista, obter facilidades e com celeridade o seguinte:

- Na compra de terrenos já loteados para a construção de equipamentos que possam enriquecer o mercado de serviços da nova cidade, concretamente: para Spas, panificadoras, oficinas de pintura, standes de venda de carros de ocasião, etc.

Diante desse potencial de negócios em grande escala, será que os bancos estarão a altura desse enorme desafio? Aposto que hesitarão muito e o que poderá ser uma boa oportunidade de "angolanização do pequeno negócio", infelizmente temo que o seu resultado inesperado se apresente como mais uma mágica transferência de lojas e espaços para os não nacionais que deveriam concentrar a sua vocação e capacidade financeiras na edificação de grandes projectos.

"Não sabem trabalhar o dinheiro, meus senhores. Custa dizer ou concluir isto, mas não têm jeito", apontarão os chefes de balcões.

"Façam como na América: os que falham no empreendedorismo não são castigados, são novamente apoiados. Defendem que homens assim têm carácter de aço", ripostarão os clientes.

"Senhores, o banco não sabe lidar com inabilidades, não somos um departamento do Estado", fundamentarão sem grande esperança para os que tentarão a sua sorte.

Certamente, um outro olhar, em tudo mais proteccionista, deve levar os departamentos do estado a estabelecerem vias que facilitem as iniciativas privadas que vão prender muitos dos munícipes na sua área de residência. Deve existir uma atitude que altere essa cultura de escárnio que graça no sector bancário, mais interessado no negócio de importações de frangos e cervejas.

A centralidade terá de responder também pelo postulado que liberte a força da cultura, uma característica que marcará o lado glamouroso da nova cidade, apta para receber o que possa existir de mais revolucionário quando se pensar nas exposições nacionais e internacionais. Serão necessários os auditórios para o renascimento das várias artes, incluindo as que misturam o circo, teatro e grandes expressões de dança de música moderna e tradicionais.

Reparo com alguma apreensão que no Kilamba ainda não é visível a existência de equipamentos de "arquitectura cubista" para esse efeito tão sagrado, apesar do espaço tampão que o separa da auto-estrada e demais zonas circundantes permitirem que se avance com projectos dessa índole, infelizmente sempre considerados como os "parentes pobres" do desenvolvimento.

"Não há como não incluirem esses equipamentos. Só se o poder político não pretender que exista a 'alma Kilamba'", argumentam os antropólogos, uma classe ainda muito confinada ao silêncio.

"Se forem inteligentes, podem tirar os mais de 150 grupos de teatro que animam o cartaz cultural de Luanda", ripostou o teatrólogo esfregando de contente as mãos, ao pensar que assim será.

Muitas experiências vão no sentido de fixarem as centralidades com um único centro de si mesma, de alta densidade, agregador de grandes prédios e circundado por grandes rodovias, e pior, têm-nas simplesmente como "cidades dormitórios", sem vida. Morrem. Acredito piamente que o melhor é pensar Kilamba como centralidade que possa ser parte "dormitório", mas em contra-ponto possa ter diversos centros como antíteses do centro, mais expressivas em vida, em dinámicas sociais, empresariais e que puxe Luanda para uma nova civilidade. Cinco simples exemplos:

a) Pode o Executivo lançar as creches e escolas pré-primárias para crianças dos 0 aos 4 anos, até para que elas fiquem sob cuidados de professores que lançarão as primeiras bases de socialização;
b) Pode o Executivo estabelecer mais tempo de permanência das crianças nas escolas, e depois dos compromissos curriculares, todas possam participar nos programas de ocupação dos tempos livres;
c) Centros de convivío à volta de grandes piscinas públicas;
d) Pode o Executivo proibir Luanda de crescer com arranha-céus e ordenar a transferência de algumas torres para o Kilamba, à plantar na sua praça económica ou levados para o litoral sul em zona indicada no ordenamento em elaboração.
e) Pode o Executivo escolher os equipamentos públicos de índole Nacional ou Provincial que plantará na nova malha urbana, potenciando a força de trabalho do novo habitat.

Sente-se já que o Kilamba, Talatona e Lar do Patriota já estão em conflito consigo próprios por causa das suas principais bifurcações de trânsito que desafiam a paciência. Esses gargalos geram o caos e mais caos, e, politicamente, existe já quem proponha uma visão "futurista" que opte por soluções de construção de rotundas com diversas "saídas aéreas", "túneis" e com "plataformas largas" que suportem, dividam e separem os carros para cada um dos dormitórios, sem esquecer o dormitório Benfica que necessitará da via "futungo" ainda com cancelas.

"Morremos um pouco, parados no trânsito mais de quatro horas por dia, no vai e vem", contam os transeuntes com os nervos à flor da pele. Só mesmo uma visão futurista será capaz de potenciar as soluções arrojadas em termos de engenharias. Outrossim, a estratégia de destruição dos vários gargalos, exige solução orçamental que deve ser tratada já em 2014, sob pena de existir um "êxodo" que ferirá de morte Kilamba, o projecto que mais marca o desiderato nacional.

Publicado no Semanário Agora, 23 de Fevereiro de 2013

Adriano Botelho de Vasconcelos
Deputado
Presidente da União dos Escritores

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