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Política: Dimensão dos Sonhos mais Íntimos

Escrito por  ABV

Estávamos no Jacto há 5 minutos de subida, em manobras para apanharmos altitude e ao mesmo tempo o azimute que nos levasse a Malanje, cidade onde nasci. Aos meus três companheiros de voo, disse-lhes com voz pouco quente:

"Oi, Tobia, quando de cima olho para o caos urbanístico que rodeia em grande anel Luanda, vulgo musseques, entendo a angústia dos políticos", disse com voz pausada e um pouco trémula.

"Como assim?", esperou uns minutos pela minha tardia resposta.

"Fosse político no executivo, desistiria por me sentir impotente diante de tamanha obra por fazer", abanei a cabeça com gestos de condescendência para com os políticos que por tudo e por nada recebem a primeira crítica todos os santos dias.

"Sempre que poisam os pés à rua, acredito piamente que recebem sempre uma ou duas críticas bem azedas por sua culpa ou não. O que conta é o céu prometido pelos políticos". O pior é que ninguém quer mais saber da sorte e dilemas pessoais dos que têm essa ingrata missão de governação, como é comum dizer-se da afanosa tarefa.

O meu amigo girou o banco para estar num ângulo mais frontal a minha posição lateral. Na verdade, procurava pelo meu olhar, e disse quase sorrindo:

"Parece mentira, mas são exactamente essas realidades caóticas que animam e inspiram os políticos, saiba. Imagina. Como poderiam os políticos fazer promessas se não existissem tantas dificuldades e uma montanha de problemas por resolver?", disse esfregando as mãos de contente pensando nas obras de engenharia, certamente. Nunca tinha pensado nesse prisma, sempre procurava como alívio o fatalismo social.

"Eh, o Tobia tem razão. Nós empresários temos de bater palmas pela preocupação que lhes vai na alma", acrescentou o outro parceiro de voo. O outro tipo disse: "quem tem medo dos desafios, não deve andar pelos longos caminhos da esperança que só a política sabe fazer renascer dos escombros", a seguir, fez a cabeça ganhar atitude de rectidão como a querer ser magistral:

"Homem que não tenha ideais, que fique na curta satisfação do seu quintalinho, sem se importar por mais nada, por favor, que arrume as botas por velhice precoce", abriu a boca a bom gargalhar.

E pela quarta vez divisei, pela janela do jacto que dominava sem qualquer trepidação a altitude exigida pela nevegação, os inúmeros casebres por deitar "abaixo" e, em cada segundo de explosão dos reactores, os casebres pareciam lindos brinquedos em miniaturas. Coincidência ou não, foi em Joanesburgo que vi miniaturas artesanais de bairros colados às encostas, suas ruelas, paredes de cores quentes e, certamente os quadros dos escultores zulus foram inspirados graças a terem vivenciado uma posição de janela nas alturas dos aviões.

Levado pelo lado idílico, tracei as vias imaginárias de estradas largas de ligação à cidade e que atravessassem a desordenada construção de casas, armazéns e oficinas. Mentalmente vi-me ao volante do meu jeep acelerado nas vias construídas sem qualquer afunilização graças ao ímpeto da ambição gerada pelas engenharias modernas capazes de tornar o trânsito corrido.

Vi-me ainda a entrar garboso num apartamento de prédios alinhados e ordenados à volta de muita natureza, concretamente onde hoje imperam os casebres com tectos de chapa que se destacam pelo brilho cegante que recebem do sol e mesmo do céu. É um clarão que incomoda a íris. Pude sonhar ainda com o maior centro cultural: "Uhaú, um espanto de arquitectura, lindo!"

"Temos Kilamba", balbuciei quando sacudi a cabeça saído da sonolência, e essa festiva constatação, felizmente, dá-nos um olhar de alívio, um olhar de orgulho. Uma portentosa imagem que mais parece um farol do que poderá ser o nosso conceito de cidade capaz de sobrepor-se aos musseques ou as cidades coloniais.

"Imagina, Botelho, mais três Kilambas plantadas na sua extensão", pediram os empresários.

Não pude deixar de concluir com um sorriso aflorado pelo sonho o seguinte: "Não sei se aqui ainda estarei para presenciar o dia em que os políticos deixarão de falar sobre a falta de casas, sobre a falta de mais três, quatro ou cinco Kilambas. Sobre o que lhes faz engrossar a voz de promessas que animam as esperanças", cocei a minha careca ciente de que outros assim ficarão por tanto matutarem.

Sobre essa sensação de grandes obras por edificar à frente de nossos olhares sem que nos reste tanto tempo assim, Nelson Mandela, no seu livro Arquivo Íntimo, edição da Objectiva, explica filosoficamente que "os ideais que acalentamos, os nossos sonhos mais íntimos e as nossas esperanças mais ardentes podem não ser concretizados no nosso tempo de vida", e continua de forma introspectiva e confiante: "Mas isso não é o mais importante. A consciência de termos cumprido o nosso dever e de termos estado à altura das expectativas dos nossos contemporâneos é em si mesma uma experiência gratificante e uma conquista magnífica" (pág. 243). Numa outra carta datada de 1989, dirigida ao Reverendo Frank Chikane, escreveu: "A vitória numa grande causa não consiste apenas em alcançar o objectivo final. O triunfo reside em cumprir as expectativas no nosso tempo de vida."

Acredito que ainda existam muitos políticos que colocam os seus verbos num plano superior ao do outro ser, sem que nos passe pela cabeça que só as grandes visões podem ser partilhadas por todos, um desafio que poeticamente designamos de desiderato. Nessa dimensão, entendo que o discurso crítico fica por demais distorcido e fechado quando tem o seu foco centrado simplesmente no "camarada" endemoninhado, e não, naturalmente como deve ser, no homem, esse ser angolano enriquecido pelas suas experiências singulares, alicerçado em saberes colegiais e fraquezas. Fraquezas que sempre permitem que cada um de nós, nesse conflito com o ego, seja o artífice de si próprio.

Os desideratos em tudo desafiantes, como os que sob escombros ergueram outras nações robustas e consolidadas há mais de 1.500 anos, exigem dos políticos uma visão baseada em ideários, em estratégias desafiantes e partilhadas.

Já em Malanje, aquando da recepção da nossa delegação, vi o senhor Governador falar do que falta fazer, com um brilho estampado nos olhos. Sentimos que colocava muita fé e paixão em cada frase e através dos gestos das suas mãos que tentavam seguir o lado redondo das suas palavras e dos longos imaginários: falou de estradas "circulares" que desviem do centro da cidade os camiões pesados, do "aproveitamento da margem do Lago do rio Kapopa" para que seja o postal.

"Senhor Governador, desculpe interrompê-lo. Acredito que podemos estar juntos nessa empreitada", falei com entusiasmo voluntarioso: "Ofereço os prémios para que os estudantes de arquitectura, antes mesmo das empresas, lancem as suas ideias no papel do que pode ser o plano urbanizado do lago da Kapopa". Falei pensando num texto que escrevi sobre as cidades ribeirinhas. Nesse texto, defendi que o Executivo não deixasse de incluir "verbas especiais do OGE" para que se tornassem nas melhores cidades.

O Governador, de forma apaixonante, falou ainda sobre as vias terciárias por fazer, das medidas que tomaria para que a circulação se faça em tapetes de asfalto mais regulares e com extensões que interliguem os principais bairros, não se sinta a cidade cortada ao meio.

"Quero ligar também os municípios, temos comunidades que não podemos visitar no período das chuvas", esclareceu e enumerou os kms de estrada por fazer.

Quando levantamos voo, já no fim do dia, ao olhar com mais atenção aos detalhes periféricos da cidade, pensei que só mesmo os grandes desafios podem fazer-nos melhores políticos. Mas para isso, não basta só a paixão. É necessário que todos possam contribuir com ideais, com sinergias e — até pela grandiosidade da obra a sair dos escombros materiais e humanos que marcaram muitas gerações — torna-se imperioso que os cidadãos entendam que esse percurso é só a primeira pedra, o alicerce de uma nação que terá no homem o seu maior potencial e único recurso, para o seu eterno renascimento.

Adriano Botelho de Vasconcelos
Editado No JOrnal Agora de 30 Março de 2013

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