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Observatório do Balão Destaque

Escrito por  Arnaldo Santos

O causo da água não é líquido

17 de Abril, 2012
Ainda que o título seja pouco límpido, o tema não é esdrúxulo. Não basta contar com a água das chuvas para matar a sede. Temos de lhe conduzir das nascentes e dos rios caté as nossas casas. A água é a fonte da vida.

Espero que estas observações tão singelas não levem a cizânia ao seio da nossa classe política. Trata-se apenas de uma tirada pretensiosa de que não me gabo, porque pode ter os seus custos. Neste caso serviram apenas para introduzir no mercado um novo produto – a pedra de Moçâmedes. Ela era utilizada para filtrar a água de beber como vínhamos fazendo desde os tempos do Kinaxixi. Essas pedras também ornamentavam as sepulturas nos cemitérios Mbali, mas os povos angolanos (como falava uma jovem no registo eleitoral) que na sua grande maioria não são mbalis sempre lhe usaram como filtro para a água.
As águas esvaem-se como o tempo e perdem-se irremediavelmente no mar, menos o nosso rio Cuando que desconseguiu e se escondeu no deserto do Kalahari, mas agora também passou a ser afluente do Zambeze, mas isto não tem nada a ver com a estória que iniciei até com um certo espavento.
As águas perdem-se no mar e a natureza de quem recebemos tudo (já vi esta afirmação escrita em qualquer lado) deu-nos entre outras coisas, um país rico em água e águas, que desde a nossa Independência não valorizamos o suficiente. O que sobra não preocupa, não é? Assim pensamos, mesmo porque nesses novos tempos, não o podíamos fazer. Tivemos que atender a outros causos, também ditos de guerra, com carcamanos, zairenses, unitas e outros comparsas à mistura que nos queriam arrebatar não só as águas mas também a própria terra que é pertença dos povos de Kabinda Katé Kunene.
Eu mesmo só estou a repetir esse bocado recente da nossa História, na falta das correspondentes monografias nas poucas quitandas de livros que ainda existem pelas nossas cidades, outrora chamadas de livrarias. Assim, cada um faz a história que quer, a seu gosto e ao arrepio dos causos acontecidos.
Eu mesmo, por isso, me atrevo a afirmar que a estória da água nem sequer começou com o programa “Água para todos” de que não temos qualquer boa memória. A verdadeira história moderna das águas em Angola vai começar de facto a partir da memorável sessão do Conselho de Ministros, em Março findo, que não foi apenas para dinamizar a distribuição de água às populações em virtude da estiagem e através de cisternas. Presume-se de forma gratuita e não como aconteceu na minha rua, em que se faziam pagar a bom preço. Hoje a água já voltou e não foi só com a chuva mas na ocasião a que me refiro, o preço dessa água quase empatava com o preço das garrafas pequenas que se vendem na zunga, ressalvado o exagero. A garrafinha de água vendida na rua tem o preço do dobro (não se espantem) do dobro de uma cerveja bem gelada! Há aqui uma interpretação abusada dos artigos do Jonuel ou do Goulão sobre o garimpo da água enquanto mercadoria e não um bem da natureza para “matar a sede de todos e não para luxo de alguns”.
Mas dizia que naquela histórica sessão do Conselho de Ministros, esse problema não deve ter passado despercebido. Além de se iniciarem acções imediatas para reforçar os sistemas de abastecimento de água das cidades do Dundo e Saurimo, também foram aprovados projectos para realização de estudos com vista a reabilitação e duplicação do Centro de Distribuição de Água da Maianga. Não têm razão os saudosistas, que pretendiam reabilitar e explorar as Cacimbas da Maianga do Séc. XVIII que agora lhe entupiram de cubatas que não respeitam a sua longevidade como sítio tombado pela Cultura.
Já se deve ter notado que o tema da água não é líquido. Da minha intenção primeira declarada, passei ao correr do texto, dos filtros de água com o uso da pedra de Moçâmedes à política das águas. A relação não é de todo espúria e poderia, porventura, ser mais desenvolvida. Mas prefiro recordar o tempo em que ouvíamos à noite, pingo após pingo a água cair do grande filtro de pedra nas sangas ou mesmo nas jimbindas ou cabaças para quem não tinha sanga ou moringue. Dava um bom dormir aquela música que nos prometia água fresquinha.
Não será, pois, uma concorrência imoral aos vendedores de filtros importados e defender-se o regresso à pedra dos mbalis como filtro para água de beber. Aliás, os calús agora não têm alternativa. Ou cerveja, ou uma mercadoria apresentada como água, cada vez, imprópria para consumo. Já a OMS–Organização Mundial de Saúde nos adverte desse perigo que é causa de 250 milhões de mortes em todo o mundo.
Assim, o calú entre a morte e a bebedeira… não tem escolha.
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