consegue imaginar, avistar Luanda no oceano, corrobora essa hipótese. O tempo do conto é
determinado pelos narradores. O momento da narração é o momento em que o protagonista
decide voltar para Angola, ou seja, quinze anos após o 25 de Abril (de 1974).
Quando inicia seu relato dito objetivo, António já coloca em questão a problemática
racial que será desenvolvida na narrativa. Ao se apresentar, o protagonista da história afirma
ser “branco e angolano” ou “angolano embora branco” e alude à possibilidade de que já
nessas expressões seja possível depreender a questão racial implícita. Jussara, sua namorada,
também aponta para a questão, quando se surpreende que António seja angolano e branco.
Mas a discussão, propriamente, gira em torno da decisão do narrador-personagem em voltar
para a sua terra natal. No discurso do pai de António – a que só conhecemos na íntegra,
através da intrusão do narrador-autor – repleto de argumentos, tais como a guerra
interminável ou a corrupção, um argumento é primordial e ribomba, segundo o narrador-autor,
no cérebro de António: “Eles não nos aceitam filho!... Eles não nos aceitam!...” . O pai
da personagem principal alega que os angolanos não aceitam que os brancos considerem-se
filhos da terra e, que, ainda que estes nada tenham a ver com o colonialismo, a cor da pele
sempre remeterá ao processo social de que foram vítimas, brancos sempre serão sinônimos
de colonos, e nunca reconhecidos como autênticos angolanos. Diante da dúvida, é Jussara
quem incentiva António a voltar para a sua terra, a lutar onde o seu coração estiver. Apesar
de, contraditoriamente, Jussara apelidar António com o nome de um rei angolano, remetendo
a ideia de que a autenticidade, a identidade se constrói a partir de certos estereótipos – como
o nome, por exemplo (“A partir de hoje, eu vou trocar seu nome, pois um angolano de
verdade não pode ser Antônio...”), e embora o narrador-personagem alegue que não
precisa adotar nomes típicos para assumir a sua identidade angolana, é a namorada do
protagonista a responsável por disseminar as dúvidas de António, através do testemunho da
fala de um escritor branco angolano, que diz: “Meus senhores, se pensam que eu vou pedir
desculpas por ser branco, estão muito enganados!...”
É importante ressaltar uma questão estrutural fundamental para a análise e discussão
da temática do conto, principal objetivo deste trabalho. Como já dissemos, em “Ngola
Kiluanje”, ao contrário do que ocorre em “O feto”, há uma disputa entre narradores, o que