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A identidade nacional e os resultados da revolução: uma análise temática de “Filhos
da Pátria”, de João Melo
Taís Nunes da Silva
Resumo: Através da análise de dois contos - “Ngola Kiluanje” e “O feto” -
do autor angolano João Melo, que compõem a obra “Filhos da Pátria”,
este artigo pretende abordar, a partir da constituição das personagens,
duas temáticas principais, qual seja, a questão da identidade nacional e o
multiculturalismo e a degradação do ser humano que sofre as
consequências da implantação do capitalismo e tem que buscar formas de
sobrevivência.  Para tanto, será importante a realização de um breve
passeio pelos elementos da narrativa dos contos escolhidos, a fim de que
seja possível compreender qual a contribuição da forma para o
desenvolvimento dos temas.
Palavras-Chave: conto; literatura angolana; João Melo; “Filhos da
Pátria”; “Ngola Kiluanje”; “O feto”; identidade nacional;
multiculturalismo; capitalismo; análise formal; análise temática.
O livro de contos chamado Filhos da Pátria, do autor angolano João Melo, foi
publicado pela primeira vez em Angola, no ano de 2001. Pertencente a geração de 1980,
João Melo é um autor que afirma a necessidade da formação de uma identidade nacional, mas
uma identidade diversa da afirmada por alguns de seus antecessores. Em um dos contos,
“Abel e Caim”, o narrador alega preferir as personagens que são resultados de “cruzamentos
e encontros espúrios... disseminando assim o profícuo sonho de uma angolanidade
aberta e dinâmica, para a infelicidade geral dos que acreditam na existência de uma
suposta “psicologia étnica” e numa identidade baseada no sangue e não na cultura 1.
Aliás, em muitos contos a diversidade étnica, a mestiçagem e o preconceito racial, tão
1 MELO, 2008, p. 159
característicos do espaço Luanda, são importantes temas desenvolvidos pelo autor. Há, por
exemplo, o conto “Shakespeare ataca de novo” que narra a história de amor bem sucedida
entre um homem e uma mulher de etnias distintas, em que a diversidade e o preconceito étnico
do próprio angolano torna-se evidente.
João Melo também é um autor que desconfia e critica os caminhos da Revolução e os
seus resultados. Representante da literatura pós-independência, o autor de Filhos da Pátria
trata de personagens singulares de uma Angola  e, principalmente de uma Luanda - que
sofrem as consequências da implantação do capitalismo pós-independência e da guerra
permanente (MANTOLVANI, 2007, p. 2). Alguns dos “filhos da pátria” representados pelo
autor são vítimas de um processo social violento, caracterizado pelo confronto no interior do
país, que expulsou, quer pela opressão quer pelas más condições de vidas, os habitantes
desses lugares e fez com que uma grande massa de angolanos fosse para a capital Luanda,
sem que  encontrassem melhores condições para viver e fossem obrigados a procurar novas
formas de sobrevivência (MANTOLVANI, 2007, p. 2). No conto “Tio, mi dá só cem”, por
exemplo, a violência parece ser a única saída para a personagem principal, que é levado, pela
necessidade, a roubar em nome da sobrevivência numa Luanda pobre, miserável, repleta de
desigualdades sociais.
Assim, considerando os vários temas discutidos pelo autor em Filhos da Pátria, este
pequeno estudo pretenderá, a partir da constituição das personagens, abordar mais
profundamente as duas temáticas  mencionadas acima, qual seja, a questão da identidade
nacional e o multiculturalismo e a degradação do ser humano que sofre as consequências da
implantação do capitalismo e tem que buscar formas de sobrevivência. Representantes de tais
temáticas, os contos que serão objetos desta análise são “Ngola Kiluanje” em que a
personagem principal e sua família sofrem preconceitos por serem “angolanos embora
brancos” e são obrigados a abandonar a sua terra natal, fugindo para Lisboa e depois para o
Brasil, e “O feto”, que trata da prostituição de uma adolescente  violentada pelas más
condições de vida a que foi submetida. Para tanto, parece importante realizarmos um breve
passeio pelos elementos da narrativa dos contos escolhidos, a fim de compreendermos qual a
contribuição da forma para o desenvolvimento do tema.
O “feto” é uma narrativa em primeira pessoa, em que a personagem  uma menina,
então com quinze anos  conta sua trágica história a possíveis e não determinados
interlocutores, justificando o abandono de um feto numa lata de lixo. O conto inicia-se com a
menina afirmando que o feto pertence mesmo a ela, “sim senhor”. Em seguida, a garota conta
que é uma prostituta e que o seu destino foi escolhido pela mãe, uma senhora que apanha
todos os dias do marido - o pai da menina - e que, segundo a narradora-personagem, não
deveria ser condenada por isso. Em um relato ágil, com ares de fluxo de consciência, a menina
narra vários acontecimentos de sua vida, tais como a expulsão da casa do “mato” em que
vivia, o desaparecimento dos irmãos na guerra, a sua não aceitação na escola, a falta de
emprego do pai e a conseqüente necessidade de prostituir-se para levar dinheiro para casa,
necessidade que é sugerida pela própria mãe. Dois anos depois de se iniciar na prostituição, a
garota engravida e a mãe a leva até um posto de saúde para a realização do aborto. A menina
que tem ódio da figura masculina entende que jogar o feto no lixo configura-se uma vingança
contra os homens “bichos” pelos quais  fora violentada e a cena em que a adolescente
desabafa é a cena em que padres, jornalistas, representantes de ONG’s e todo o bairro estão
a ver, aterrorizados, o feto na lata de lixo.
O autor de “O feto” cede a voz ao narrador-protagonista, a adolescente prostituída,
que, através de um monólogo interior, desabafa e exprime a todos os presentes na cena, sua
história, seus motivos, a dura realidade de abandono a que ela e sua família estão submetidas.
A menina conta, a partir de seus pensamentos e sentimentos, através da sua percepção do
que seja a realidade, usando a linguagem que lhe é própria, que é própria da oralidade, que a
guerra fez com que ela e sua família saíssem do “mato” e seguissem para uma Luanda em que
a situação de abandono é geral e na qual a prostituição fora a única saída encontrada para a
sobrevivência. O tempo é, portanto, um tempo pós-independência em que a guerra parece
instaurar-se no interior do território, o que obriga os angolanos a migrarem para a capital e
permanecerem abandonados à própria sorte, à margem de qualquer sistema
(MANTOLVANI, 2007, p. 2). É por esse processo social de opressão que passa a
protagonista da história: expulsa do “mato” pela guerra sente-se sozinha e tem de se prostituir
para que nem ela, nem a família morram de fome. Da postulação do tempo, advém também o
espaço, que como  dissemos, é Luanda, a capital de Angola. Ao contar sua história, o
narrador-protagonista faz alusão a lugares - tais como “Largo da Maianga”, “Ilha” e “Baixa -
pertencentes à cidade de Luanda, um espaço em que o “mercado da prostituição” está a todo
vapor. Por fim, a análise da protagonista e dos outras personagens relaciona-se intimamente
ao tema, como veremos a seguir.
A primeira impressão que temos quando nos deparamos com o discurso da menina
protagonista, parece nos levar a atribuir à fala e à personagem propriamente, certo ar de
frieza. A garota assume que o feto jogado no lixo era seu e justifica-se dizendo que não queria
uma criança para atrasar a vida. Contudo, à medida que a garota relata a sua história, o
sentimento do leitor em relação à personagem parece transformar-se: não que a história
justifique a ação de jogar o feto no lixo  e aqui não pretendemos atribuir qualquer juízo de
valor a essa ação - mas o sentimento passível de ser gerado no leitor, a partir do seu contato
com o contexto da ação, tende a aproximar-se de um sentimento de compaixão. É o que
parece ocorrer, pelo menos nessa leitura, quando a menina que é fria no início do relato,
mostra sua fragilidade e dependência da figura materna:
“Eu só queria correr, fugir outra vez, ir no colo da minha mãe” 2
Embora a mãe da protagonista seja a responsável pelo triste destino da filha, é para o
seu colo que a garota fragilizada afirma desejar voltar sempre quando sente medo, dor, nas
suas experiências nada agradáveis relacionadas à prostituição. É interessante observar quantas
tensões e paradoxos o conto evidencia, a começar pela figura materna. Quando anuncia à filha
o seu destino, ou seja, a necessidade de prostituir-se para a sobrevivência da família, a mãe
coloca a menina, de então treze anos, em seu colo. Tal imagem parece constituir-se um
paradoxo, uma vez que “colocar no colo” remete à proteção, ao amparo materno, embora
esse ato, no conto, tenha a finalidade de iniciar a menina adolescente em uma situação de
sofrimento, que nada tem a ver com amparo e proteção. A imagem também é contraditória no
sentido de que se relaciona a uma fase da vida  visto que bebês e crianças são colocados e
carregados no colo  que não está de acordo com o destino escolhido pela mãe (o de
“arranjar uns homens” na cidade). Outra tensão importante se  nas últimas palavras
proferidas pela garota: a menina que aborta o feto alega desejar voltar para o interior da
placenta da mãe. É importante notar que, apesar de a mãe ser a principal fomentadora do seu
destino doloroso e infeliz, a garota reconhece na mãe a proteção, a paz e a tranquilidade,
desejando regressar para a sua placenta; contudo, em relação ao seu próprio filho – ou feto –
2 MELO, 2008, p.149
a garota não nutre nenhum tipo de sentimento e alega ser melhor para o feto morrer dentro da
placenta. Assim, a mesma placenta que parece representar a vida para a menina e a solução
de todos os seus problemas, é morte para o feto, ainda que, de acordo com a concepção da
garota, seja vantajoso morrer diante de todo o sofrimento a que ela e a mãe estão expostas.
Contudo, também é válido ressaltar que a mãe, na perspectiva da garota, não deve ser
culpada pela sua prostituição, porque também é vítima constante da violência.
A figura do pai também é de extrema importância para a caracterização da
protagonista. A menina que alimenta um ódio profundo pelos homens, porque esses
representam a violência sexual sofrida, também deseja o mal para o pai (“quero que ele
também seja comido pelos ratos...”) 3. Talvez pela transferência do ódio sentido pela figura
masculina para a figura paterna, ou talvez pela violência que o pai representa quando “dá
porradas” na mãe, o que parece evidente é que a figura materna ocupa um lugar central no
imaginário da garota, e é, principalmente, por ela que a menina, parece encontrar forças para
continuar lutando pela sobrevivência.
Outras personagens aparecem, tais como os padres, os jornalistas e os representantes
das ONG’s como uma afronta à garota até então abandonada pelas instituições, à margem do
sistema. Contra esses personagens (e, também, contra a possível presença da polícia), que
parecem representar o julgamento, a condenação do ato realizado, a reação da garota é dura
e ofensiva. Aos padres, a menina diz que foi Deus quem quis que ela fosse prostituta; aos
jornalistas  ao rádio e à televisão  a garota afirma que a morte de um feto angolano não é
notícia; aos representantes das ONG’s, a menina afirma que o aborto nada teve a ver com
métodos de prevenção, que não sabe o que eles dizem, e que isso não passou de uma decisão
sua, a decisão de uma prostituta que não pode interromper o seu trabalho por causa de uma
criança.
Passemos ao que parece mais relevante para essa leitura, a saber, a questão da
sobrevivência, das más condições de vida, que levam o sujeito a viver na marginalidade, a
encontrar novas formas de viver no espaço angolano ou, mais especificamente, no espaço
luandino. Através da análise do monólogo do narrador-protagonista de “O feto”, temos que a
principal razão, o motivo desencadeador da situação de prostituição é a violência sofrida pela
guerra. A menina que tem sua casa, no mato, destruída pelo fogo, que perde os irmãos na
3 MELO, 2008, p.152
guerra, atribui a isso a destruição da coragem de sua mãe, da memória de seu pai, dos seus
sonhos e do seu destino. É por causa da guerra que sua vida transformou-se para pior. É
porque foi obrigada a fugir, a mudar-se para um lugar em que está abandonada à própria
sorte, em que não se reconhece, em que não reconhece o espaço, que a garota alega preferir
morrer. A violência sofrida, a guerra que tirou sua família do mato, tratando-os como
“bichos”, e que os levou para um lugar em que as condições de sobrevivência são escassas,
parece pior que a violência relacionada à prostituição. Em muitos momentos do relato, a
esperança, a possibilidade de amenizar o erradicar o sofrimento vivido, está associada à volta
para a casa do mato, à volta para a vida retirada à força pela guerra. Desse modo, a
prostituição violenta uma menina  violentada pelos processos sócio-históricos de que faz
parte; é uma conseqüência da revolução, da guerra, que alterou o destino dos cidadãos
angolanos.
Enquanto “O feto” remete aos resultados não satisfatórios da revolução, aos
problemas causados pela guerra que destruiu tanto casas quanto sonhos, “Ngola Kiluanje”
trata da questão da autenticidade e do preconceito existente por parte dos próprios angolanos
em relação aos brancos. A história cuja narração é dividida (ou disputada) por um
narrador-personagem e um narrador-autor trata do preconceito racial angolano, a partir do
relato  e das observações do narrador-autor  do percurso do protagonista da história,
António Manuel da Silva, chamado pela namorada Ngola Kiluanje. “Angolano e branco”, ou
“angolano embora branco”, o protagonista conta que, quando adolescente, durante a
Revolução de 25 de Abril, abandonou juntamente com a sua família a sua terra natal, partindo
para Lisboa e depois para o Brasil. Depois de mudar-se para o Rio de Janeiro, quinze anos
após a saída de Angola, António Manuel da Silva decide voltar para sua terra natal,
deparando-se com objeções do pai (“Eles não nos aceitam!...”) 4 e contando com o apoio
da namorada Jussara, uma brasileira ligada ao Movimento Negro Brasileiro.
Apesar de o espaço em que se  a narrativa não ser Angola, como acontece no
conto anteriormente estudado, o espaço angolano é central porque está no imaginário das
personagens. Ainda que António Manuel da Silva e sua família estabeleçam moradia no
território brasileiro, o espaço angolano está sempre presente, seja como contraponto, seja
como ideal. A imagem da mãe da personagem, que fica feliz ao chegar a Recife, porque
4 MELO, 2008, p. 107
consegue imaginar, avistar Luanda no oceano, corrobora essa hipótese. O tempo do conto é
determinado pelos narradores. O momento da narração é o momento em que o protagonista
decide voltar para Angola, ou seja, quinze anos após o 25 de Abril (de 1974).
Quando inicia seu relato dito objetivo, António  coloca em questão a problemática
racial que será desenvolvida na narrativa. Ao se apresentar, o protagonista da história afirma
ser “branco e angolano” ou “angolano embora branco” e alude à possibilidade de que 
nessas expressões seja possível depreender a questão racial implícita. Jussara, sua namorada,
também aponta para a questão, quando se surpreende que António seja angolano e branco.
Mas a discussão, propriamente, gira em torno da decisão do narrador-personagem em voltar
para a sua terra natal. No discurso do pai de António  a que  conhecemos na íntegra,
através da intrusão do narrador-autor  repleto de argumentos, tais como a guerra
interminável ou a corrupção, um argumento é primordial e ribomba, segundo o narrador-autor,
no cérebro de António: Eles não nos aceitam filho!... Eles não nos aceitam!...”5 . O pai
da personagem principal alega que os angolanos não aceitam que os brancos considerem-se
filhos da terra e, que, ainda que estes nada tenham a ver com o colonialismo, a cor da pele
sempre remeterá ao processo social de que foram vítimas, brancos sempre serão sinônimos
de colonos, e nunca reconhecidos como autênticos angolanos. Diante da dúvida, é Jussara
quem incentiva António a voltar para a sua terra, a lutar onde o seu coração estiver. Apesar
de, contraditoriamente, Jussara apelidar António com o nome de um rei angolano, remetendo
a ideia de que a autenticidade, a identidade se constrói a partir de certos estereótipos – como
o nome, por exemplo (“A partir de hoje, eu vou trocar seu nome, pois um angolano de
verdade não pode ser Antônio...”)6, e embora o narrador-personagem alegue que não
precisa adotar nomes típicos para assumir a sua identidade angolana, é a namorada do
protagonista a responsável por disseminar as dúvidas de António, através do testemunho da
fala de um escritor branco angolano, que diz: Meus senhores, se pensam que eu vou pedir
desculpas por ser branco, estão muito enganados!...7
É importante ressaltar uma questão estrutural fundamental para a análise e discussão
da temática do conto, principal objetivo deste trabalho. Como  dissemos, em “Ngola
Kiluanje”, ao contrário do que ocorre em “O feto”,  uma disputa entre narradores, o que
5 MELO, 2008, p.111
6 MELO, 2008, p. 113
7 MELO, 2008, p.114
parece interessante para o desenvolvimento do tema, isto é, da questão da autenticidade
angolana e do preconceito racial. No conto de João Melo, a questão temática perpassa tanto
a história narrada pelo protagonista quanto o processo composicional evidenciado pelo
narrador-autor. São dois movimentos: o primeiro relaciona-se ao conteúdo, propriamente, ao
percurso da história de António Manuel da Silva, às dificuldades enfrentadas pela sua família
pela questão racial e o possível preconceito com o qual terá que lidar o narrador-personagem
branco e angolano, caso volte para a sua terra natal; o segundo, diz respeito ao próprio
processo de composição da obra e relaciona-se à escolha do protagonista da história escrita
pelo narrador-autor e as possíveis críticas e objeções literárias que possam decorrer dessa
escolha. O narrador-autor, ao intrometer-se na narrativa para ironizar acerca do processo de
composição da obra, transfere a questão temática para outra instância, a instância da forma,
da estrutura da narrativa e não somente do conteúdo.
“Acontece que acabo de me lembrar de um conhecido defensor dos direitos humanos local que
abomina mortalmente o facto de certos autores escolherem brancos para serem os principais protagonistas
das suas estórias, pois isso, segundo ele, é um despudorado atentado à nossa autenticidade.”8
O narrador-autor, ironizando a respeito do tal defensor que se opõe a escolha de um
protagonista branco para as suas estórias, remete à sua própria escolha, à escolha que
proporcionou a instauração de António Manuel da Silva, angolano embora branco, o
protagonista de uma história que leva o leitor a desvendar a problemática racial enfrentada por
Angola, contrapondo a tradicional ideia de autenticidade angolana a uma concepção que toma
o país como uma encruzilhada de civilizações e de culturas” 9, em que as diferentes raças
devem ser tratadas numa relação de complementaridade e não de oposição.
Por fim, aproximando os dois contos analisados, temos que tanto em “O feto” como
em “Ngola Kiluanje”, a guerra e a revolução são diretamente responsáveis na configuração do
destino dos sujeitos que protagonizam as histórias. No primeiro conto, como já observamos, a
guerra faz com que os habitantes do interior do território angolano tenham que fugir rumo à
Luanda, abandonados à própria sorte, encontrando uma cidade que não está preparada para
oferecer-lhes dignas condições de sobrevivência. No segundo conto analisado, há também um
8 MELO, 2008, p. 100
9 MELO, 2008, p.100
movimento, mas a partir de outra perspectiva, a perspectiva do angolano branco, que sofre
preconceito e tem de fugir durante a revolução para outros países, ainda que o ideal da terra
natal permaneça no seu imaginário. São os caminhos da revolução, os seus resultados, que
alteram profundamente a vida dos cidadãos angolanos.
Assim, a obra de João Melo, aqui representada pelos Filhos da Pátria, é importante
porque trata dos problemas gerados após a independência pela implantação do capitalismo,
pela revolução, pela guerra permanente. Enquanto as obras anteriores contrapõem o
colonizado ao colonizador e pretendem a constituição de uma identidade nacional, em Filhos
da Pátria, as tensões existentes pertencem à própria ideia de constituição nacional e não
incluem mais o colonizador. A questão do preconceito racial, desenvolvida pelo autor, é um
problema entre os angolanos e não mais entre colonizado e colonizador. Para Santos (p. 2), o
algoz de Angola hoje deixou de ser o português e não é outro senão o próprio angolano. No
fim do conto “Ngola Kiluanje” temos a transcrição da fala de um escritor angolano branco,
por Jussara, a namorada do protagonista, que discute um possível paradoxo humano, a saber,
o que faz com que os povos oprimidos, quando os deixem de ser, repitam a opressão com
todos aqueles que identificam com seus antigos opressores. Considerando tal paradoxo, é
plausível sugerirmos que, talvez, a obra de João Melo  especificamente Filhos da Pátria -
esteja preocupada em discutir as questões internas à Angola, por sua importância na
constituição de uma nova civilização, ao contrário do que foi feito anteriormente. Quanto à
formação da identidade angolana, Santos afirma: “O individuo que encontramos em suas
páginas é representante não de uma identidade única e homogênea, mas de múltiplas
possibilidades subjetivas dentro de um país cujo processo de estruturação identitária como
contraponto à dominação portuguesa  foi superado.” (SANTOS, p. 2). Assim, para João
Melo, os “filhos da pátria” são filhos de um espaço em que as diversidades étnico-raciais
completam-se, em que o pluralismo cultural é uma constante, em que a identidade nacional só
pode ser formada a partir da diversidade.
Referências Bibliográficas
MANTOLVANI, Rosangela Manhas. A Pátria de João Melo: Um Estado multicultural.
In Revista Crioula – nº 2 – novembro de 2007
MELO, João. Filhos da Pátria: Contos. Rio de Janeiro: Editora Record, 2008.
SANTOS, Emanuelle Rodrigues dos. Uma leitura de Angola para além da identidade
nacional. In DARANDINA revisteletrônica – Programa de Pós-Graduação em Letras /
UFJF – volume 2 – número 1. Disponível em
http://www.ufjf.br/darandina/files/2010/01/resenha02.pdf. Acesso em 20/06/2010.
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