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José Craveirinha: A Poesia Em Liberdade

Escrito por  Rita Chaves
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Apoiadas na convicção de que a vida do autor e a obra não se confundem, muitas das teorias da literatura defendem que a análise literária não se pode fundar sobre a biografia do autor.

No entanto, mesmo condenando o biografismo, alguns estudos literários de grande qualidade vêm recuperando a noção de experiência como eixo de certas escritas. Sem se fazer uma leitura directa da projecção das circunstâncias históricas sobre a criação literária, é possível buscar a relação entre as vivências e a invenção que se examina. E, se a força da História não deve ser minimizada na abordagem da literatura, em se tratando da produção dos países africanos de língua portuguesa a compreensão desse peso merece atenção especial. Em Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, o contacto com os dilemas que a História arma é tão vivo que a sua dimensão surge visivelmente concreta no quotidiano das pessoas que escrevem e sobre as quais se escreve.

Ao reflectir sobre o processo de sistematização de nossa literatura, o Prof. António Cândido refere-se a sua inserção na vida nacional como uma característica cultural de países novos, em contraste com o que apresentam os do Velho Mundo (1). No caso dessas terras acima citadas, a questão dos símbolos nacionais, da bandeira, do hino, a eleição e/ou demissão dos heróis nacionais permanecem na ordem do dia, indicando que a nacionalidade é ainda uma fonte de discussão na qual intervêm elementos de ordem vária. A cor da pele, a participação na luta, a permanência ou não em cada um desses países durante os largos e complicados anos de carência são frequentemente evocados para distinguir as pessoas. As conversas sobre os que ficaram e os que partiram, motivados pela discordância política, pela incapacidade de suportar as dificuldades, ou mesmo por circunstâncias da vida pessoal, traduzem a inesgotabilidade de um tema que se reacende agora com a volta dos que partiram ou chegada dos descendentes em busca de um lugar no panorama que se abre. Em Moçambique, por exemplo, a expressão “os que fizeram a travessia do deserto’’ é frequentemente utilizada para designar aqueles que permaneceram no país, resistindo a tantas pressões, apostando de algum modo no projecto da independência. Desse debate não se excluem as remissões ao repertório literário e surgem, com alta frequência, os termos angolanidade, cobaverdianidade e moçambicanidade, revelando a preocupação quanto à ligação com aquilo que seria considerado uma prática literária voltada para dentro dos países. A dialéctica entre o que é próprio e o que vem, ou veio de fora ocupa ainda um importante terreno. Mesmo se nos depoimentos dos escritores ou nos estudos críticos esses conceitos vêm ganhando ou perdendo sentido em função da própria discussão sobre os processos históricos seguidos por esses sociedades, com reflexos nas construções culturais que se vão formando, a questão permanece acesa. Vale ressaltar que no presente já não se proteja, com tanta ansiedade, no reconhecimento da ligação com a terra o critério de valor literário. Em outras palavras, a identificação de referentes nacionais não é por si garantia de qualidade. Há obras boas e obras más às quais o epíteto de genuína caberia. Em tom de blague, poderíamos até dizer que já se pode falar em textos angolanamente, caboverdianamente ou moçambicanamente ruins. Ou seja, com razão, ou não, o fato é que o debate existe, demonstrando que a construção nacional é, em verdade, um corpo em manifesto movimento. Tentando simplificar, eu diria que entre a sociedade moçambicana persiste a crença de que a nacionalidade é uma espécie de atestado que se conquista, no plano colectivo e no individual. Como uma espécie de rito de passagem, cujos passos variam em função de muitos dados.

Indicados alguns pontos centrais na discussão que envolve a literatura em Moçambique, volto-me, então, para a obra de José Craveirinha. Diante do quadro histórico - cultural em que está inserida sua produção, para percorrer um pouco de sua poesia- aceitei a orientação da sua própria história, que se mistura com a trajectória histórica da vida do país que é dele. Sem qualquer dúvida, pelo nascimento e pelo itinerário trilhado, estamos diante de um cidadão e de um escritor cuja moçambicanidade não foi jamais contestada por nenhum sector. José Craveirinha é filho de pai português e mãe africana, um fato mais comum na cena colonial brasileira do que no quadro moçambicano. Não sendo trivial, a situação também não está nos limites do insólito, considerando os traços associados ao colonialismo lusitano. Mas o fundamental é que o fato não foi por ele banalizado: merecendo um grande espaço em sua produção poética, é, tratado como uma questão vital na montagem do olhar com que fita a sociedade em que nasceu e que ajudou a transformar.

Com um “pé em cada lado’’ ele, não é difícil deduzir, poderia ter escolhido o lado do privilégio, até porque, após alguns poucos anos com a mãe, ainda muito menino foi levado para a cidade de cimento, onde viveria com o pai e sua nova mulher, uma senhora portuguesa branca que, sem filhos, resolve criar os filhos do marido. Com a mudança, abre-se um outro universo, povoado de referências interditadas aos moradores dos subúrbios: outra língua, outros hábitos, outros valores, outra forma de estar no mundo. Nos moldes da construção colonial, o dilema deveria ser fatal: ou uma coisa ou outra. E ele escolheria a África. Como cidadão e como escritor. Porém o que mais surpreende é que a decisão, se faz numa atmosfera de serenidade, pautada pela consciência de quem se sabe resultado de um par que pode ou não ser inconciliável. Ao ler o mundo que lhe é dado conhecer, reconhece que é provável mas não imperiosa a ruptura total. Remexendo terrenos que apenas pareciam assentados, o poeta procura refazer o rumo das coisas. Num poema bastante famoso ele oferece uma das chaves para a compreensão de sua trajectória:

“ E na minha rude e grata sinceridade filial não esqueço meu antigo português puro que me geraste no ventre de uma tombasana eu mais um novo moçambicano semiclaro para não ser igual a um branco qualquer e seminegro para jamais renegar um glóbulo que seja dos Zambezes de meu sangue’’.(2)

Nos versos exprime-se sua versão ao colonialismo, sentimento combinado, entretanto, com a sensibilidade de quem compreende a complexidade das situações engendradas pelo sistema. Recusando os colonialistas, o poeta revela a compreensão, às vezes até a sua solidariedade para com os portugueses pobres que vinham de longe e ali viviam e morriam como tal. O lugar de origem não bastava, portanto, para definir a imagem acabada do homem que para a África se deslocava em busca, certamente, de melhores condições. Nesse compasso, o “outro ’’ganhava dimensões, liberto daquela visão reificadora que acaba por empobrecer não só o objecto mas também o sujeito que olha. No diálogo que seus poemas estabelece com o pai, representante dessa estirpe de homens trabalhadores, embora portador de outras marcas culturais, projecta-se a capacidade de ler para além da superfície, alcançando sentidos novos e maiores. Na disponibilidade para reconhecer o outro, todavia, não se nota qualquer indício de adesão, visto que a opção se faz clara:

“ Ah, Mãe África no meu rosto escuro de diamante de belas e largas narinas másculas frementes haurindo o odor florestal e as tatuadas bailarinas macondes nuas na bárbara maravilha eurítmica das sensuais ancas puras e no bater uníssono dos mil pés descalços”. (3)

Abrigadas pela Terra que fez “moçambicano o sangue do Pai, “as ibéricas heranças de fados e broas’’ (4) barram a incompreensão e o ressentimento que a divisão entre esses dois mundos que a obra registra (e a vida comprova) poderia ter gerado. Principalmente se considerarmos que, talvez mais do que qualquer outra cidade colonial portuguesa, a capital de Moçambique estava assentada sobre a segregação. As expressões “cidade de cimento’’ e “cidade do caniço’’ frequentemente utilizadas na literatura traduziam uma sepação de espaços sócioculturais ainda muito mais rígida que o par “musseque / cidade do asfalto’’ tantas e tantas vezes presente na literatura angolana.

Ao optar pelo universo dos excluídos, Craveirinha recusou ao mesmo tempo a exclusão como procedimento. Sem diluir a força da contradição que é, seguramente, o princípio ordenador do mundo colonial, a sua poesia reflecte a coexistência de contrários que não precisam se agredir. Na relação com as línguas que habitam o seu universo cultural podemos localizar um exemplo. Em inúmeras entrevistas, aí incluindo a que me foi concedida em fevereiro de 1998, ele afirma que gostaria que as sociedades moçambicanas fossem bilingues. Apaixonado pela Língua Portuguesa, Craveirinha, desde o tempo colonial, insurgia-se contra a penetração do inglês no dia a dia de Moçambique. Em crónicas publicadas nos anos 60, ele já reclamava do uso da língua dos territórios vizinhos na denominação de casas comerciais e tabuletas indicativas na capital moçambicana. A esse apreço o escritor mesclava o amor pelas línguas africanas. Por isso, não se cansa de reiterar a sensação de mutilação experimentada quando, na fase da mudança para a cidade de cimente, foi proibido de falar o ronga, a língua primeira, língua da mãe, língua da afectividade. E é a ela que recorre em muitos poemas. Não para “enfeitar’’ o texto, mas porque acredita que dela depende a expressão de certos sentidos. Para falar da natureza, de práticas culturais, das marcas que lhe chegam da ligação com a terra, são os nomes das línguas bantu que lhe vêm em socorro:

“ E outros nomes da minha terra Afluem doces e altivos na memória filial E na exacta pronúncia desnudo-lhe a beleza Chulamáti! Manhoca! Chinhambanine! Morrumbala! Namaponda e Namarroi E o vento a agitar sensualmente as folhas dos canhoneiros Eu grito Angoche, Marrupa, Michafutene e Zôbuê E apanho as sementes do cutiho e a raiz de Zitundo. Oh, as belas pernas do meu áfrico País (6)

Evitando o perigo da folclorização a poesia parece mergulhada de modo intenso nesse universo cultural de onde vêm as palavras e os objectos que os poemas resgatam. Nesse movimento intervem o próprio ritmo, como a confirma sua integração no lugar de origem. Os tambores, as marimbas, o xigubo não são peças de adorno, são elementos que sugerindo a cadência dos versos integram a estrutura textual. Recorrendo uma vez mais a António Cândido, pode-se dizer que, assim incorporados, elementos externos convertem-se em traços estruturais dos textos literários, transformando-se desse modo em matrizes de significado a requerer interpretações mais atentas. (7) Dessa imersão na terra resulta a elaboração das imagens que se multiplicam pelas páginas de seus livros. E, a tornar distante o risco da exotização, ergue-se o apego às gentes que habitam essa terra.

A obra poética de José Craveirinha é povoada por homens e mulheres que, guardando a dimensão existencial que os humaniza, apresentam-se numa relação concreta com a vida: têm corpo, tem doenças, têm tradições têm definidas as marcas sociais que os particularizam no conjunto um tanto amorfo a que se poderia chamar de moçambicano, africano ou mesmo negro. Sendo importantes, essas denominações não se mostram suficientes. O peso da História é sentido e estabelece delimitações que permitem identificar os seres apanhados pelos olhos atentos de quem cruza as ruas da cidade e nelas capta a ordem do mundo.

Ao recolher a Historia, Craveirinha também definiria a geografia de sua poética: são os bairros periféricos, os subúrbios de caniço, que cresciam à volta da senhorial Lourenço Marques. O Xipamanine, as Lagoas, a Mafalala, onde viveu muito tempo e da qual não se afastou muito, mantendo sua casa a poucas centenas de metros, serão privilegiados em sua travessia poética. Por esses espaços, onde faltam condições básicas de saneamento e sobram doses de humanidade, o poeta circula e dali parece extrair a energia para sua indignação. Na comovida comunhão do poeta com esses deserdados enraíza-se uma poesia de “partisan’’. Vista na clave da injustiça, a pobreza não é cultivada ou justificada segundo os modelos do conformismo cristão. Os pobres não são os humildes, são os humilhados, os excluídos, os penalizados pela desigualdade – o grande signo da dominação colonial. Ao tematizar a vida difícil da prostituta, o poema não procura idealiza-la. Com cores firmes, busca enquadrá-la na moldura das iniquidade que a sociedade alimenta:

“Eu tenho uma lírica poesia nos cinquenta escudos, do meu ordenado que me dão quinze minutos de sinceridade na cama da mulata que abortou e pagou à parteira com o relógio suíço do marinheiro inglês. (...)

E eu sei poesia Quando levo comigo a pureza Da mulata Margarida Na sua décima quinta blenorragia.’’ (8)

No mesmo processo, a terra que então aparece é mais do que uma entidade mítica. Ela é concreta na presença mediada também pelos produtos nela cultivados. O algodão, o sisal, o chá, o tabaco, elementos de revelo na economia da então colónia, participam na economia textual, gerando as imagens, constituindo as metáforas, compondo as metonímias que vão surgerir a idéia de nação que a obra prenuncia. Desse mundo rural, onde não por acaso iniciou-se a luta de libertação, provinham os grandes contingentes de moradores dos subúrbios crescendo à volta das cidades construídas sobre os pilares do colonialismo.

Não seria arriscado afirmar que alguns dos elementos fundadores da poética de Craveirinha são extraídos desse universo rural directamente associado ao trabalho. E entre eles destaca-se o carvão, cuja força se manifesta num de seus poemas mais conhecidos: “ Eu sou carvão!

E tu arrancas-me brutalmente do chão

E fazes-me tua mina

Patrão!

Eu sou carvão

E tu acendes-me, patrão

Para te servir eternamente como força

motriz Mas eternamente não

Patrão!

Eu sou carvão

Tenho que arder

E queimar tudo com o fogo da minha

combustão

Sim

Eu serei o teu carvão

Patrão!’’ (9)

O próprio título do poema “Grito negro’’ dirige nossa atenção ao problema racial, não há dúvida. No entanto, a questão racial é desnaturalizada e deve ser encarada igualmente como uma das faces da exploração. E foi por essa via que Craveirinha, como o angolano Agostinho Neto e a também moçambicana Noémia de Sousa, se relacionou com a Negritude. Ultrapassando as fronteiras de uma proposta centrada na valorização estética, os escritores de Angola e Moçambique preferiram dar ao problema contornos que permitissem considerá-lo na sua dinâmica social. Ou seja, o essencial para o negro seria investir na conquista de um lugar nas sociedades de que ele era parte: tornar-se sujeito de sua História e fazer-se protagonista de seu espaço seriam modos de efectivamente libertar-se do processo de reificação a que parecia condenado. Nesse sentido, Craveirinha, como Neto e Noémia, afasta-se do matiz estetizante das teorias de Leopoldo Senghor e aproxima-se da postura de Aimé Césaire e Frantz Fanon, encarando o racismo no centro da engrenagem colonial. À proposta de recuperação das manifestações culturais estava vinculada a necessidade de alterar a correlação de forças que balizava a ordem social. Por isso, não se mantinha alheio ao sofrimento efectivo dos explorados, como demonstra o poema que tematiza o massacre de trabalhadores sulafricanos em Sharpevilhe. Para Craveirinha à questão racial articulava-se o sentido de classe, deixando clara a ligação com as camadas populares.

Do ponto de vista da construção poética, essa ligação se adensa na evocação da tradição oral. Sem hesitação, muitos dos poemas de Craveirinha assumem uma tonalidade narrativa que parece reflectir o quadro da interlocução que é própria da comunicação oral. É verdade que no mundo já tocado pela fragmentação não há lugar para a sabedoria épica do narrador tradicional, como nos ensina Walter Benjamim em seus brilhantes ensaios sobre o romance (10), mas o poeta não se quer desligar de suas matrizes e cultiva a cumplicidade da conversa, como a deixar que se perceba a origem de sua experiência. Em «Maria», cujo móvel é a morte de sua mulher, a situação de um hipotético diálogo se reproduz em quase todas as páginas. Numa espécie de “vida passada a limpo,’’ os poemas vão recolhendo, recompondo, avaliando e reavaliando, no penoso contacto com a solidão, as experiências abertas pela vida.

Mas o que é enfatizado em «Maria», já surgia noutros livros. Em «Karingana ua Karingana», um dos primeiros, essa atmosfera aparece expressivamente em “Dó sustenido para Daico’’(11), poema alusivo à morte de um famoso músico e companheiro do poeta. Como o escritor, Daíco integra um grupo de mestiços e negros que, graças a um talento particular, conseguia romper a barreira e projectar o seu nome para além das fronteiras do asfalto que dividiam a cidade. Entre esses vamos encontrar alguns que tiveram projecção internacional como Eusébio e Hilário (jogadores de futebol) e outros que, embora famosos, não ascenderam socialmente como o próprio músico. De qualquer modo, seu sucesso conferia uma mística ao bairro onde viveram todos: a Mafalala, que graças ainda a outras particularidades, ocupa um lugar especial no mapa cultural da capital da país e no repertório literário de José Craveirinha. Movido pelo silenciamento do músico, o poeta escreve:

“Carol:

acredita que lá fomos todos

o sentimento aumentado à branco nas gravatas pretas

aborrecidos levar à derradeira casa um poeta

que excedia o universo

certo à música do seu mundo

é que até os fatos largos que vestia, vê lá tu

coincidiam sempre com a pequenez das pessoas

que lhos davam em segundos mão.

estas a ver Carol

o Daíco chateado foi-se embora

mas ficou no “long-plaing’’ da Mafalala

mulato cafuzo a vibrar as cordas para sempre

e agora ele já não pensa mais em repetir o clássico

gesto indicador na minuta suburbana de explicar

as consequências dermotrágicas da vida

na contrapalma das próprias mãos.” (12)

Além da ligação com a matriz oral que está na base da tradição cultural moçambicana, em poemas como esse podemos perceber outra fonte de inspiração, também confirmada pelo próprio poeta em diversas ocasiões. Trata-se da presença da literatura brasileira na formação da literatura nacionalista dos países africanos de língua portuguesa. A cultura brasileira constitui para gerações de angolanos, cabo-verdianos e moçambicanos um terreno fértil de leituras e reflexões. A distensão linguística, o desejo de aproximação com os sectores populares, os movimentos de procura do referente nacional foram pontos apanhados pelos escritores africanos empenhados na constituição de sua identidade cultural. A valorização da coloquialidade como instrumento de resgate do universo à margem dos padrões lusitanos revelava-se como um dado positivo a ser incorporado pelo projecto literário em formação. Valorizar a língua falada dessa maneira era uma forma de valorizar as pessoas que assim falavam, tal como defendiam os protagonistas do Modernismo no Brasil.

É bom esclarecer que embora tivessem adotado algumas das propostas veiculas pelos nossos modernistas de primeira hora, não foram esses os autores mais lidos e Moçambique, excepção aberta para Manuel Bandeira. De Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, um outro poeta bastante prestigiado entre os moçambicanos, a produção mais acolhida seria a de livros como Sentimento do mundo e A rosa do povo, publicados muitos anos após a famosa semana de Arte Moderna. O encantamento maior viria com o romance dos anos 30, ou seja, com os chamados regionalistas da prosa de ficção. Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queirós e, principalmente, Jorge Amado são referências obrigatórias na memória desses escritores. E é bom ouvir aqui as palavras do próprio Craveirinha sobre o tema:

“Eu devia ter nascido no Brasil, porque o Brasil teve uma influência muito grande na população suburbana daqui, uma influência desde o futebol. Eu joguei a bola com os jogadores brasileiros, como, por exemplo, o Fausto, o Leônidas da Silva, inventor da bicicleta. Nós recebíamos aqui as revistas (...) E também na área da literatura. Nós, na escola, éramos obrigados a passar por um João de Deus, um Dinis, os clássicos de lá. Mas, chegados a uma certa altura, nós libertávamos. E, então, enveredávamos por uma literatura errada: Graciliano Ramos... Então vinha a nossa escolha, pendíamos desde o Alencar. Toda a nossa literatura passou a ser um reflexo da Literatura Brasileira. Então, quando chegou o Jorge Amado, estávamos em casa. Jorge Amado marcou-nos muito por causa daquela maneira de expôr as histórias. E muitas situações existiam aqui. Ele tinha aqui um publico. Havia aqui a policia política, a PIDE. Quando eles fizeram uma invasão à casa, puseram-se a revistar tudo e levaram o que quiseram levar. Ainda me lembro: levaram uma mala e carregaram os livros, meus livros. Levaram os livros e as malas até hoje como reféns políticos. Depois de eles irem embora, é que minha mulher disse: - E o Jorge Amado? Onde estava o Jorge Amado? Nessa altura, já estavam atrás do Jorge Amado...’’ (13)

Pela pista do escritor, evidencia-se que o tratamento das situações, em certa medida comuns às duas realidades, estava no centro da aproximação. Isso significa que a denúncia das desigualdades sociais – essa injustiça quase estrutural na sociedade brasileira – tornou-se uma espécie de senha para a comunhão. Mas não estaria aí a única ponte entre os dois espaços. Como se pode notar na passagem transcrita, ao mesmo tempo vigorava uma vontade de pertencer a esse espaço, ou melhor dizendo, a um espaço como esse. O universo cultural fortemente preenchido por manifestações da chamada cultura popular como a música e o futebol fazia com que aos olhos dos africanos predominasse a imagem da ex-colónia que havia dado certo. A lenda da convivência racial e da cordialidade entre as classes era consumida como real e dinamizava-se um modelo que, mesmo sem corresponder à verdade, alimentava o desejo de transformação do inferno em que se constituía a vida no interior da sociedade colonial. O que é surpreendente, e para mim fascinante, é que sendo um país marcado pela crueldade das relações sociais, pela prática terrível do racismo, pela manutenção de estruturas coloniais em nossa forma de estar no mundo, o Brasil acabaria por ofercer uma imagem modulada pelas da utopia. O fato ganha ainda maior interesse se nos lembramos que a imagem do brasil como um espaço harmónico era usada pelo discurso metropolitano para propagandear a sua vocação colonizadora. Não é demais recordar a viagem de Gilberto Freyre às colónias portuguesas na África, nos anos 50 e a utilização feita pelo salazarismo de sua declaração sobre a especificidade da colonização portuguesa. Para azar da metrópole, o Brasil foi apanhado numa outra chave, catalisando a indignação progressista dos africanos. A poesia de Craveirinha não se limita aos contactos com a literatura brasileira. Seu olhar salta sobre as fronteiras e procura o encontro com outras formas de cantar a desagregação vivenciada pelos excluídos. Daí resulta a aproximação com a música negra norte-americana. O jazz e o blue assomam com frequência como a estabelecerem o diálogo que a História tentou cortar. Um diálogo que se torna mais forte e fecundo após a independência do país em 1975, a despeito das frustrações que também se fazem sentir no quotidiano do cidadão e estão sinalizadas no trabalho do poeta.

Do jazz e do blue, Craveirinha incorpora o legado do ritmo apoiado no virtuosismo poderoso dos contrastes expressos na força das imagens inesperadas, das antíteses espelhando a riqueza desgovernada do canto que procura reinventar a vida onde ela parece interditada. Os volteios, as repetições, os jogos sonoros são trazidos para o texto, confirmando a adesão a um universo de valores que, localizado num solo definido, não se exime de buscar correspondência com outros sistemas culturais. Dessa maneira, ao lado de Daíco e Fani Fumo, dois dos grandes nomes da música popular moçambicana, aparecerão Dizzie Gizlepie e Bessie Smith, numa indicação de que a noção de pureza cultural é nota sem sentido na dinâmica que as trocas culturais podem instaurar desde que impulsionadas pela força das identidades. Desse modo, o fenómeno da apropriação ganha legitimidade, porque abre espaço para a revitalização de formas e sentidos.

A ampliação do universo de José Craveirinha, esse escritor tão identificado com sua terra e suas gentes, se revela ainda mais intensamente em Maria, quando os textos traduzem a densidade de um exercício poético no qual interfere o processo fino da maturação de tantas vivências. No construído diálogo com a mulher recordada em cada poema montam-se as cenas que o passado é também resgatado para dar conta da explicação do presente, fragilização pelo vazio que a solidão multiplica. A dor da perda pessoal compõe com as notas do descanto colectivo uma melodia dilacerada, totalizada pela insolubilidade da ausência da parceira. Quando, anos antes, o adversário ameaçador era o regime colonial que o manteve preso, impondo o risco da desagregação à vida familiar, os versos deixavam transparecer, com a revolta, a convicção de que era possível e preciso resistir:

“Havia uma formiga

compartilhando comigo o isolamento

e comendo juntos.

Estávamos iguais

Com duas diferenças;

Não era interrogada

e por descuido podiam pisá-la.

Mas aos dois intencionalmente

Podiam pôr-nos de rastos

Mas não podiam ajoelhar-nos.’’ (14)

Agora o inimigo maior é a “Grande Maldita’’(15) que levou Maria, condenando-o a um canário caracterizado pelo pó cobrindo as coisas e pela ausência de qualquer hipótese de luz. Diante do inevitável, todas as noções se desfazem: o ser perde-se na incapacidade de lidar com o tempo e o espaço por onde se movia.

No confronto com esse inimigo odiado, essa “fera sem forma’’, o poeta encerra-se na solidão e o distanciamento que permitiria ver melhor também lhe sequestra a intimidade com o familiar. A banalidade do quotidiano fabrica o estranhamento:

“Fio de linha branca.

Na mesinha-de-cabeceira

Teu compassivo olhar.

Vou passajando abstracto.

Pica-me o dedo a agulha.

Nas minhas pretas peúgas rotas

São reais as sarcásticas

Gargalhadas de linhas brancas”.(17)

Nas coisas triviais, nos actos repetitivos do dia-a-dia, o trabalho poético insiste em recolher os pedaços para refazer os mundos que a poesia quer espelhar: “Em meus livros

cinzentos buços denunciam

desditoso abandono.

(...)

Paciência, Zé,

me insinua este sudário

de poalha nos livros.’’(18)

Nessa espécie de roteiro retrospectivo que os poemas compõem, vive algo que vai além da dor individual. A experiência do sofrimento, captada pela capacidade criativa da linguagem lírica, supera as margens da pena pessoal e incursiona pelo terreno dos limites do homem diante da morte. Na enumeração dos objectos desorganizados pela falta de quem lhes assegurava ordem e sentido, na montagem das imagens recortadas pelo moldes do desânimo e da angústia, na descrente procura de um significado para os dias que, implacáveis, se sucedem, espelha-se, mais que o sofrimento pessoal, o drama da condição humana, a pena do homem em confronto com o irreversível, com inexorável da finitude da vida. O poeta sente-se só com a consciência de que nem mesmo a capacidade fabuladora da linguagem pode remediar o absurdo da situação que tem que enfrentar.

Desconfortável na perdida intimidade com as coisas, o corpo transfere para a memória a faculdade de recompor o mundo. E ela vai buscar a companhia de seres que povoando o imaginário do poeta enriqueceram o seu universo tão seguramente calcado nas matrizes africanas. Convicto de que “o poeta é sempre os outros’’, como afirmou numa entrevista ao escritor e jornalista Nelson Saúte, Craveirinha aceita a companhia de representação da música, do cinema, da literatura, de todas aquelas formas de vida que respondem à necessidade de fantasia do homem. E, nesse momento, as muitas possibilidades de encontro seduzem-no como um movimento compensatório, a driblar o isolamento imposto pelas circunstancias do presente. Se a escrita converteu-se em forma de resistência, nesse momento de tormento pessoal, também a leitura transforma-se em fonte de energia e saltam nas páginas as referências aos que vêm acompanhá-lo na duríssima lida do quotidiano:

“No verão

ou no inverno

fiel espera-me um jantar

irrefutavelmente frio.

Vou ter com Dostoiewski

e janto quente.’’ (19)

Ao escritor russo, virão juntar-se muitos e muitos nomes, emergindo de matrizes variadíssimas ratificando a certeza de que o mundo da arte se pode abrir a fecundos contactos. Com Jorge Amado, Soeiro Gomes, Hemingway, Steinbeck, convive no palco que sua memória recupera a luminosidade dos astros do cinema, essa imbatível usina de fantasia. E ele convoca Ava Gardner, Liz Taylor, Buster Keaton, Richard Burton, todos intervindo nas histórias de que se alimenta a sua própria. O fundamental, no entanto, é que tal evocação nem de longe se confunde com qualquer cedência à alienação. Rejeitando com altivez o lixo que o mercado globalizado insiste em servir, a poesia revitaliza-se no contacto com os valores que se tornaram património dos que apostam na beleza como forma de superar o desânimo e o conformismo. Mesmo que os tempos também no plano colectivo sejam de muita aspereza, como traduzem os poemas reunidos em «Babalaze das hienas», publicados em 1997. Na linguagem crua que a hora exige, o poeta mergulha no mundo instituído pela guerra que arrasou seu país.

Nesse novo tempo de “homens partidos’’, para criar citar o belo verso de Carlos Drummond de Andrade, Craveirinha empenha seu talento e sua sensibilidade no desvendamento de um mundo de horror, não hesitando em descrever a crueldade dos sinais que evidenciam a pungente desagregação. Segundo Fernando Martinho, o poeta retoma o caminho do jornalista, assumindo-se como um narrador a quem cabe o ofício de noticiar a desgraça reinante.(20)

“Uivam

as suas maldições

as insidiosas hienas

própria sanha

Rituais

de tão escabrosa gulodice

que até nos esfomeados

aldeões da tragédia

a gula das quizumbas

se baba nas beiças

das catanas

dos machados.’’ (21)

Incansável na luta contra o colonialismo, Craveirinha ergue seu canto agora contra a nova escuridão que insiste em vitimar os que não podem escolher os caminhos. As catanas, os machados, as balas, as rajadas, as explosões, as minas compõem o menu dessa orgia de destruição que segue asfixiando a vida. Secos e ásperos, seus versos guardam, contudo, o frescor do compromisso que nem mesmo o cansaço e uma boa dose do desencanto fizeram desbotar.

Ao abraçar o mundo dos mitos e símbolos, como vimos nos muitos poemas de Maria, Craveirinha não foge ao universo do concreto, mantendo-se atento ao que se passa ao lado das paredes de sua biblioteca, transformada em sala de convívio com os nomes que a memória retém. A vitória contra o colonialismo parece lhe conferir serenidade para recuperar alguns dos signos utilizados sem cerimónia pelo sistema que discriminava e excluía. Assim é que o mitificado Camões se dissocia da “estátua do Sr António Enes’’ e do tal dia da raça, a que o poeta alude em “Incladestinidade’’(22), para se tornar “o dos Lusíadas”, inserido então na linhagem dos que merecem a sua imensa admiração. Ainda que a “próspera colónia, ’’onde nasceu o poeta, tenha passado a ser vista como o “país pobre’’ onde ele agora vive, a libertação, pela qual empenhou-se, libertou-o também para escolher os heróis a quem deseja saudar, permitindo-lhe ainda libertar paixões às vezes esmagadas pela força da opressão externa. Nesse contexto, a própria lembrança de Maria se mistura ao elenco dos nomes sacralizados por outras formas de amor:

É quando se me incrustaram nirvana E a evocação dos sagrados nomes Em nossas almas inesquecem Como por exemplo quando digo:

Olá, mestre Cervantes o do Quixote de la Mancha Olá, Miguel Angelo, o da Pietá. Olá, Luís de Camões o dos Lusíadas Olá, Drummond, olá, Manuel Bandeira e ola, Graciliano Ramos o trio avançado no time do tiradentes E Olá, Pablos: o do Chile, outro da Guernica e outro do violoncelo. Olá, ilustre Charles Gounod O da Ave-Maria. Ou ... Olá, insigne Duke Ellington o de uma Cabana no Céu. E também Olá, mano Gabriel García Marques O dos Cem Anos de Solidão. E neste meu desabafo Ergo minha mais justa confissão: - Olá, querida Maria Imerecida esposa toda a vida De um tal Zé Craveirinha.’’(23)

Pela diversidade dos signos culturais pode-se reconhecer a disponibilidade para a comunhão que caracteriza a visão de um homem que os apertados limites da sociedade colonial não conseguiram turvar. Revigorado na sua incansável batalha contra as hienas que se embebedam “na pândega das metralhadoras’’(24) José Craveirinha no extraordinário exercício da escrita capta com vigor a intensa multiplicidade dos matizes de que a vida se reveste, a despeito de tanta “renúncia de homens quase vivos’’(25). No pacto estabelecido, contra a “afiada gramática das facas’’(26) o escritor impõe a graça do seu verbo, sempre alimentado no diálogo com outros verbos, com outros formas de vida. A cada passo. A cada página. E a mundividência adquirida na força da experiência invulgar vai abrindo ao poeta a possibilidade de transitar por incontáveis caminhos sem que se perca a direcção do país que ajudou a fundar e do universo que sua poesia veio enriquecer.

Notas

1-Cf. Formação da literatura brasileira. 2-“Ao meu belo pai ex-imigrante’’, In. Karingana ua Karingana,p.107-10 3-“Manifesto. In: Xigubo. p. p 29-31. 4-“Ao meu belo pai ex. - imigrante’’ 5-“Barber’ s shop, boarding house, ice cream today e outras barbaridades’’, In: Contacto e outras Crónicas. 6-“Hino à minha terra’’, In: Xigudo, pp. 16-9) 7-Cf. Literatura de dois gumes’’, In: A educação pela noite & outros ensaios. 8-“Mulata Margarida’’, In: Xigubo, p.37. 9-“Grito negro’’, In: Xigudo, p.9. 10- Cf. Obras escolhidas. 11- In: Karingana ua Karingana, p.111-3 12- “Do sustenido para Daíco’’, In: Karingana ua Karingana, PP.111-3 13-Passagem extraída da entrevista por mim realizada em Fevereiro de 98 na casa do poeta em Maputo. 14-“Aforismo’’ In: Cela1, pp 16.. 15-“A Grande Maldita’’, In Maria, p. 103. 16-“Tempo”, In: Maria,p.236 17-“A linha’’, In: Maria, p.151. 18-“A poalha’’, In: Maria, p. 190. 19-“Dostoiewski’’, In: Maria (1988).p.62 20-“Prefácio’’, In: Babalaze das hienas, pp. I- V. 21-“Gula’’, Idem.p.22. 22-In: Cela 1,p.85. 23-“Olá, Maria’’, In: Maria.p.115-6 24-“Babalaze na linha de caminho de ferro’’, In Babalaze das hienas. p 39. 25-“Porta’’, In: Babalaze das hienas. P. 41. 26-“Abecedário’’, In: Babalaze das hienas. P.41.

Referências Bibliográficas:

1-Benjamin, Walter.Obras escolhidas.3ed. São Paulo, Brasiliense, 1987. 2-Cándido, António. A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo, Ática,1987. 3-Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 6 ed. Belo Horizonte, Itatiaia,1981. 4-Craveirinha José. Babalaze das hienas. Maputo, Associação dos escritores Moçambicanos,1997. 5-Cela1. Lisboa / Maputo, Edições 70 / Instituto Nacional do Livro e do Disco, 1980. 6-Contacto e outros crónicas . Maputo, Centro Cultural Português, 1999. 7-Karingana ua Karingana. Lisboa / Maputo, Edições70 / Instituto do livro e do Disco,1982. 8- Maria. Maputo, Ndjira,1998 9-Xigubo. Maputo, Associação dos escritores Moçambicanos, 1995.

Resumo:

O texto reconhece a relação entre poesia e experiência como um elemento central na produção de José Craveirinha e partindo desse ponto examina o percurso dessa escrita que, ao colocar-se ao lado dos excluídos da ordem, empenha-se numa luta contra a exclusão enquanto principio. Processo utilizados pelo poeta moçambicano para fazer de sua poesia um exercício de resistência ao canto da dominação (do tempo colonial às trapaças do presente) constituem o objecto do artigo.

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