testeira-loja

O Desejo de Liberdade E Humanização Em Agostinho Neto

Escrito por  João Maimona
Classifique este item
(2 votos)
Tomando como objecto de análise Sagrada Esperança e Renúncia Impossível, este estudo pretende apresentar uma caracterização sumária da démarche e prática poéticas de Agostinho Neto, como político e intelectual.

Para efectivação, esta abordagem passa em revista diversos eixos temáticos patentes na obra de A. Neto: a síntese de emoções colectivas, a conquista da liberdade, o acto de metamorfose, a apropriação da consciência colectiva, a descrição da existência humana e a fusão de esperança e engajamento. Palavras – chave: cortina de linguagem, memória literária, áreas temáticas, movimento social endógeno, Homem universal, cláusula moral, liberdade de concepção, linguagem événementille.

1- A modo de preâmbulo 2- As áreas temáticas 3- Tradução literária das angústias 4- Conclusão

Gostaria de começar esta comunicação retomando um parágrafo do meu trabalho As vias poéticas da esperança em Agostinho Neto. Optei judiciosamente por essa direcção por serem palavras que representam, em meu entender, o requinte da análise que tenho da poesia de A. Neto.

Ao chamarmos a nós a leitura do poeta da SAGRADA ESPERANÇA, estaremos em condições de descobrir um poema que anuncia um desejo, um acto de metamorfose por excelência. Teremos, então, algum prazer em observar os canais pelos quais a poesia de libertação se converte em libertação da poesia. O poema não faz senão projectar no espaço a imagem que o poeta tem da palavra como objecto de conquista de novos horizontes.

Procura aproximar-se da alma da comunicação. A circunstância de concentrar em suas mãos palavras plenas permite ao poeta adquirir os objectos mais íntimos para conceber os seus planos de expressão e de comunicação que se resumem numa cortina de linguagem (1).

SOBRE OS MARCADORES TEMÁTICOS

Estas palavras de introdução sugerem uma espécie de cruzamento onde podemos encontrar a espessura simbólica dos versos e a respiração de uma linguagem que caracteriza a perspectiva netoína. A. Neto oferece-nos uma memória literária dotada da faculdade de recapitular os principais marcadores temáticos de um mecanismo poético que invoca a profusão de imagens quotidianas que a interioridade colonial foi conferindo à África.

A enumeração dos marcadores temáticos configura a singularidade da tomada de consciência de um poeta e político que soube formular o mais sólido percurso do moderno nacionalismo angolano para o surgimento de uma Nação forte e coesa; o surgimento de um país independente, capaz de exercer efectivamente a sua soberania. Um intelectual que acreditava na existência de um povo com uma identidade própria, capaz de exercer e consolidar a sua influência no concerto das nações, graças à sua cultura, ao saber, ao talento e à habilidade de seus filhos; graças ainda à riqueza e diversidade dos seus recursos naturais. Um poeta que desejava o surgimento de uma África em movimento e não estática. Uma África viva e em constante desenvolvimento.

Se considerarmos a dinâmica poética como movimento social endógeno, podemos desanichar na poesia A.Neto diferentes segmentos temáticos que reflectem variadíssimas dimensões da acção individual com tendência para a colectiva: a fusão da esperança e engajamento, a caracterização do Homem universal, a descrição da existência humana, a aproximação da consciência colectiva, a apropriação do acto de metamorfose, a síntese de emoções colectivas.

Neste exercício de construção poética, cada região temática ocupa um lugar singular e assume uma função na démarche e prática de conquista da liberdade e manifestação de desejo da humanização.

Esta notável criatividade de linguagem, que se inicia em 1945 com o texto poético Partida para o contrato, indica a natureza da harmonia dos versos e a perspectiva de profundo humanismo que o Jorge Macedo apresenta quando diz: “Os textos poéticos de Agostinho Neto permitem ter no colorido estético grandes formulações do pensamento, feitos para de forma dupla conquistar humanizações do homem humilhado, inferiorizado, coisificado, denunciando, pois, situações injustas, desumanas, usando imagem–ideia. Estas imagens–ideia condensam traços mistos entrelaçados de descrição e interpretação universais e universalizantes” (2).

SOBRE A TRADUÇÃO LITERÁRIA DAS ANGÚSTIAS

Eu tomaria os veículos da Esperança como um mosaico de instrumentos para a tradução literária das angústias de uma comunidade humana.

A partir do equilíbrio formal que conforma esses veículos da Esperança. A. Neto procura colocar-se em percursos que lhe proporcionem utensílios necessários para recriar atmosferas, habitats e episódios que assinalam o nosso passado comum. Ao evocar estas linhas, pretendo apresentar o poeta que não ficou indiferente ao movimento das independências africanas. A exemplo de outros ilustres intelectuais de sua geração, defendia a consolidação de uma cláusula moral e de solidariedade para o progresso económico do continente.

Num ambiente de conflito permanente e de contradições históricas, o olhar de A. Neto procurou um acasalamento com a realidade objectiva e a linguagem que nela se desenvolvia. E foi exibindo, ao longo de seu percurso, sinais evidentes de portador de esperança para o desenvolvimento e desfecho de uma luta claramente libertadora ou emancipadora; a recuperação da dignidade do Homem africano; a consolidação de uma consciência de progresso com um perfeito conhecimento e respeito pelos valores do passado:

“ás nossas tradições havemos de voltar...” Essa dimensão da palavra poética é fundamental para a compreensão da liberdade de concepção que o poeta pretende erguer e ampliar. É aqui onde o poeta descobre o sentido da liberdade com invólucros de certeza e fé. De facto, estamos perante uma bela ilustração da evidenciação do élan poético que faz transparecer a identidade colectiva, como se as colectividades integrassem a própria história do poeta. A cadeia significante da elaboração poética reside nesse registo voltado para a interioridade das colectividades humanas.

Pelo que até aqui foi dito sobre um percurso com características próprias, ter-se-ia a tentação, à guisa de conclusão, de afirmar que não existe na perspectiva netoína divórcio de sentido entre a gestão da comunidade de palavras e a gestão da exteriorização de voz pessoal que se desenvolve numa linguagem événementielle. Do ponto de vista conceptual, poder-se-ia deduzir que essa cadeia significante da elaboração poética em A. Neto assenta num mosaico.

De áreas temáticas que libertam caminhos de convergência onde se pode efectuar a leitura da essência da liberdade e da reformulação de utensílios que concorram para a corporificação da humanização.

Vila Verde, 17-09-02

BIBLIOGRAFIA

  • AUTORES vários,- A voz igual – Ensaios sobre Agostinho Neto, Luanda – Edição 1996 do MPLA, 509 p.
  • MONS, Alain – La métaphore – Presses universitaires de France, Paris, 263 p. 1992
  • SENGHOR, Léopold Sedar – La poésie de L’action –Stock, Paris, 360 p. 1980

Para o estudo analítico de Sagrada Esperança e Renúncia Impossível, o autor consultou respectivamente, a edição especial realizada por Sá da Costa Editora, 1979, Portugal; a edição especial realizada pelo INALD – Instituto Nacional do Livro e do Disco – Ediciones Cubanas, 1985, Cuba.

Nota – Este texto foi especialmente escrito para o Colóquio comemorativo do 80º-.aniversário natalício do poeta Agostinho Neto – Roma, 17/ 18 de Outubro de 2002.

*Poeta, ensaísta, crítico literário e membro da União dos Escritores Angolanos.

(1)- Cf., Maimona, João –As vias poéticas da esperança em Agostinho Neto, p 176, in A voz igual-Ensaios sobre Agostinho Neto, 1996, Luanda

(2) Cf., Macedo, Jorge- Agostinho Neto: uma escrita humanista, p.225, in A voz igual – Ensaios sobre Agostinho Neto, 1996, Luanda.

Ler 7097 vezes

Contacto

AV. Ho-Chi-Min, Largo das Escolas
1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

Telefone: (222) 322 421 Fax: (222) 323 205

e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Blogs

blogspotuea1    blogspotueamulembeira           blogspotueanguimba
         
ytlogo2   blog-poetenladen   logotips