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Camaxilo: A Metáfora do Espaço Infernal Em Castro Soromenho

Escrito por  Cândido Beirante
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O lexema espaço, correspondente ao lugar onde decorre a acção dos romances angolanos Terra Morta (1949) e A Chaga (1970), é geograficamente idêntico.

O lexema espaço, correspondente ao lugar onde decorre a acção dos romances angolanos Terra Morta (1949) e A Chaga (1970), é geograficamente idêntico. Estes dois romances de Castro Soromenho (1910-1968) têm o mesmo horizonte urbano, iniciando-se mesmo pela breve descrição das duas partes da vila de Camaxilo, a-de-cima e a-de-baixo. O narrador d’A Chaga sintetiza a situação: « duas povoações e um só nome Camaxilo» e, explicita, na mesma página: «A gente do governo, civis fardados, alcandorara-se no alto do vale, com vista rasgada sobre a povoação-de-baixo, as lojas dos colonos (...) a olho nu» (1). Em Terra Morta, várias vezes se alude à localização das duas povoações gémeas (2).

Camaxilo-de-baixo era uma povoação muito antiga, criada pelos primeiros sertanejos da época da escravatura e da borracha que ali se tinham fixado pelos finais do século passado. Camaxilo-de-cima, a mais de um quilómetro de distância, era uma povoação estratégica, erguida pelos militares das campanhas de ocupação da Lunda (1906) e posteriormente entregue aos funcionários. Administrativamente, foi sede de circunscrição, no período entre 1911 e 1936.

Na diegese dos dois romances em questão, há um mesmo e único pólo espacial: Camaxilo. O espaço fecha-se em torno do aglomerado urbano, pela convergência do discurso narrativo para um único lugar, referente obrigatório das personagens. Centro de conjunção das personagens principais e secundárias, só muito raramente funciona como ponto de partida de algumas personagens.

Ver-se-à que, em qualquer dos dois romances, Camaxilo assume as características típicas do espaço – fechado, quiça, do espaço concentracionário. Esta novelística do espaço urbano pode ser encarada como a expressão plástica ficcional do espaço prisional, afim do «locus horrendus» clássico. Prisão exterior, segundo todas as aparências, e prisão interior, principalmente, pelas cadeiras que acorrentam a alma das personagens.

A imagem, do espaço concentracionário pode aplicar-se a Camaxilo pelas referências explícitas do discurso do narrador que compra a vila-de-cima a uma praça forte e em que a prisão é um microcosmo paradigmático. O valor adquirido pela prisão de Camaxilo servirá para provar que ao falar-se da metáfora do inferno não se está a fazer uma leitura ousada.

A viagem do leitor desta ficção até Camaxilo – lugar saturado de história nos confins da fronteira nordeste de Angola é uma viagem até ao hades terráqueo ao «huis clos» sartriano. A ideia imaginária de espaço fechado ou concentracionário é-nos dada logo no início pelo narrador. Na primeira página de Terra Morta, aparece-nos Camaxilo como uma fortaleza situada por invisíveis inimigos, provavelmente, só existentes na mente do administrador que ordenara ridiculamente a vigilância nocturna permanente, com os competentes gritos de alerta dos cipaios. Era este o horizonte de expectativa no interior da fantasmática fortaleza habitada pelos administrativos: «Pela janela aberta (...) que há muito se fechara sobre a vila, entrava de momento a momento o grito de alerta dos cipaios que rondavam o edifício da administração da circunscrição e o paiol, um quilómetro afastado da povoação, à beira da estrada (3). Após a especificação dos motivos, o narrador conclui pela afirmação da vila como «praça–forte». Esta expressão representa exemplarmente o ghetto administrativo ou o universo concentracionário na sede da circunscrição.

O discurso narrativo de Terra Morta começa com um grupo de funcionários a jogar de noite às cartas, havendo «um deles, de costas voltadas para a porta que dava para a estrada (...). Neste huis clos, em que jogam e alternadamente brigam, os funcionários administrativos são obrigados a conviver ou, pelo menos, a coexistir. A casa onde jogam e se insultam é um microcosmo infernal, tendo uma espécie de olho aberto para o exterior: «Pela janela aberta para a noite que há muito se fechara sobre a vila» (7).

A noite que caíra sobre Camaxilo é uma imagem recorrente que abre e fecha o romance Terra Morta. De facto, na última página, o narrador anota significativamente: A «sombra da noite subia do vale para a terra morta de Camaxilo» (8) . Além da expressão epónima «terra morta», sublinhe-se a presença duma palavra-chave de todo o idiolecto literário soromenho, a noite.

A noite física que cobre a vila simboliza a noite mortal, cultural e sócio-económica em que estão mergulhados (quase) todos: negros, mestiços e brancos. Por contaminação semântica a noite evoca também a ruína, a decadência e a morte. Não é por acaso que no mesmo contexto nocturno aparecem, por fim, o incêndio da administração, a sua destruição e transferência, postulando a morte total e definitiva da vila de Camaxilo.

No romance A Chaga, a situação concentracionária que a todos envolve é interiorizada por duas personagens, Albino Lourenço e Gunga. O cipaio Gunga vive numa prisão interior permanente, vítima da raiva que o domina e se torna única razão de ser da sua vida. Desde a primeira página deste romance, Gunga sonha com a vingança contra o branco Lourenço que lhe havia roubado a mulher e a terra: «Gunga ficou preso naquela teia de raiva, sempre em chaga viva» (9). O romance fecha com a morte do colono Lourenço, objectivo da raiva impotente de Gunga. Porém, este não rejubila e parece mesmo que perdeu a razão para viver. Só o mulato Domingos compreende claramente o drama da existência do cipaio (10) e o próprio narrador termina o romance com Gunga desesperado e abúlico» (11).

Em qualquer dos dois romances, a narrativa parece iniciar-se «in medias res», isto é, num tempo médio entre as mais antigas referências temporais e o descalabro final. O passado – época da escravatura, das guerras de ocupação e, sobretudo, do apogeu da borracha – serve de contraponto à «apagada e vil tristeza» do presente. Qualquer das duas narrativas remete, de vez em quando para o passado morto e vai-nos encaminhando ao longo da diegese para um futuro sem saída, ou seja, para a «terra morta» dos administrativos e dos velhos colonos. Estes, abencerragens de tempos idos, memória duma colonização falhada, aguardam com suas companheiras negras que a morte venha pôr termo às suas existências.

Camaxilo–de-baixo, a povoação dos comerciantes, de suas mulheres negras e dos descendentes mulatos, é também um mundo fechado sobre si, onde nem sequer os negros das aldeias vizinhas passam a noite. As casas são guardadas por cães, a que respondem os uivos dos chacais e de outros animais nocturnos. Cada quintal é defendido por uma paliçada forte, a fim de impedir o assalto das feras e dos eventuais ladrões. Este aspecto de fortaleza rudimentar que cada casa dos colonos possui vai atingir proporções muito mais concentracionárias na Camaxilo dos administrativos. Refiro-me particularmente à prisão e o cemitério vizinho, cercado de muros altos, qual praça-forte defendida das investidas dos chacais necrófilos e necróvoros. A prisão é o espaço infernal por excelência com todos os ingredientes, desde a imundície mais completa até ser a câmara das torturas, onde não se respeitam minimamente os direitos humanos.

Entrar na prisão é, sem exagero, descer em vida ao inferno da objecção e atingir o coração do «locus horrendus» que é Camaxilo. O narrador guia-nos nesta peregrinação «ad loca infecta» até ao átrio do labiríntico universo dos terrores: «Bonifácio Pereira assomou à porta da cadeia, que fumegava como chaminé, e ia entrar, olhos semicerrados do fumo, mas um cheiro forte de urina e suor fê-lo recuar, a mão no nariz, asqueado» (12). Seguidamente, o narrador convida-nos a acompanhar o secretário até à cadeia das mulheres: « - Vamos à prisão das mulheres – disse o secretário. Mal a porta se abriu, uma baforada de cheiro nauseabundo, urina, suor e excremento, fez o velho Gunga recuar. Da varanda, Bonifácio Pereira lançou um jacto de luz para dentro da cadeia. Uma criança rompeu a chorar, ao colo da mãe - Fecha, fecha,- disse Bonifácio Pereira» (13).

Considerando Camaxilo como espaço urbano fechado sobre si verifica-se que lhe faltam todos os equipamentos sociais indispensáveis a uma vida com um mínimo de dignidade. Uma personagem d’A Chaga, revoltada contra a sua situação e definitivamente descrente das promessas oficias, afirma: «Nem escola, nem hospital, nem médico, nem enfermeiro, nada, nada!» (14). Para expressar a situação vivida neste beco sem saída, ocorre-me o lamento duma personagem d’A Chaga: «Vivos e mortos no Tarrafal» (15). De algum modo, também aqui em Camaxilo, é como se todos «vivos e mortos no Tarrafal» estivessem. Cada qual no seu papel, bem entendido: uns são os presidiários e outros os carcereiros. Uns e outros escravos da sua condição, submetidos à dialéctica do senhor e do escravo, estando este último sujeito ao ciclo do crime e do castigo.

Esquematicamente, poder-se-ia dizer que a situação concentracionária a todos atingia: negros, brancos e mulatos. Os negros com residência mais ou menos fixa nas senzalas dos arredores ou na senzala dos cipaios. Paradoxalmente, porém, a situação dos contratados nas minas da Diamang é ainda mais concentracionária do que a vida dos negros nas suas aldeias. Saídos do seu meio tradicional e familiar, os contratados das minas sentem-se lançados num mundo estranho e ferozmente hostil. É certo que a conduta dos brancos e dos auxiliares negros, durante o trajecto a pé até chegarem às minas e, principalmente, no trabalho forçado da extracção do cascalho, é de molde a tornar infernal a sua vida.

Os funcionários coloniais em geral, na improcedência e vazio das suas vidas, moviam-se entre a rotina burocrática e o «dolce far niente», ocupado pelo jogo, o álcool e o deboche sexual. Prisioneiros da sua situação e dos seus vícios, estavam cada dia mais pobres humana e financeiramente. Era a ruína completa dos agentes executores da política colonial. O espaço concentracionário, mais do que a prisão real ou imaginária, consiste principalmente no comportamento mútuo das personagens que se cruzam dentro de um lugar restrito. Paradigmático era o trem de vida dos funcionários, cuja missão prioritária lhes era indicada como sendo a de cobrar impostos coercivamente, para o que recorriam a todos os expedientes: prisão dos faltosos, «engajamento» para as minas ou, em alternativa, castigo das mulheres e dos sobas dos refractários.

Quanto aos comerciantes da outrora florescente Camaxilo vivem encafuados nas suas lojas e casas, entregues resignadamente à sua imobilidade. Um deles confessa mesmo que há quarenta anos que não sai dali nem vontade tem de o fazer. O seu destino último era o cemitério, horizonte próximo e confessado de alguns colonos, sem quaisquer ilusões acerca do mundo e da vida. No romance A Chaga, alude-se metonimicamente à sujidade existente nas lojas dos comerciantes brancos. Inês, mulher do administrador Santiago da Silveira, fala de «balcões imundos». Dá vómitos só olhar para eles, negros de sujidade, com catinga entranhada» (16). Diríamos que os brancos se bantuizaram, tendo-se habituado à porcaria, numa duvidosa aculturação, Dai, o apodo de «cafres da colonização que lhes davam então».

Por fim, os mulatos seus filhos viviam ao deus–dará, sem qualquer instrução e vítimas da sua própria condição: nem brancos nem pretos, rejeitados pelos pais por serem da raça da mãe e menosprezados pelos negros por serem filhos dos brancos. Esta visão racista era exibida, por exemplo, pelo colono José Paulino, pai de muitos mestiços: «Renegados. São elas no putedo e eles uns valdevinos». As mulatas com uma vida sem futuro e os mulatos que aparecem como «homens sem caminho» atingem o valor de símbolo no caso de João Calado. Desapossado dos bens do pai é sujeito a vexames, castigos e à prisão. Ele liberta-se deste ciclo infernal pelo roubo e incêndio da administração, tornando-se um marginal.

No mundo dos funcionários coloniais só a custo se salva deste naufrágio colectivo a personagem mais simpática para o narrador (e para o leitor, possivelmente): o aspirante Joaquim Américo de Terra Morta. Ele, que fora forçado a cobrar impostos e a castigar durante alguns anos, salva-se éticamente no último momento, quando a sua revolta interior explode, chegando ao ponto de esbotefear o secretário da administração que castigava barbaramente o mulato João Calado (18). Este acto de rebelião fez dele uma espécie de Américo Vespúcio da nova humanidade em África. Tão incrível parecia este gesto inusitado aos negros que de início nem queriam acreditar. Depois de bem certificados, comunicaram pelo tambor às aldeias vizinhas esta mensagem de honra e louvor à atitude de Américo: « - Povo! Nasceu o coração do branco!». Esta é a única excepção no «goulag» administrativo de Terra Morta. No «corpus» soromenho, porém, talvez se pudesse acrescentar outra excepção, embora com menos impacto na diegese:

Vasco Serra, aspirante d’A Chaga. Embora dotado de uma visão bem progressista, Serra nunca lutou abertamente como fez Américo.

Os administrativos em geral, bem como os comerciantes-colonos, aceitam pacificamente o regime colonial, havendo mesmo alguns que o glorificam publicamente, talvez mais por subserviência do que por íntima convicção. Com a excepção de Américo, os brancos em geral estão unidos em torno dos mesmos princípios e da prática quotidiana que mantinha sob o seu domínio a terra e a gente natural de Angola. O discurso do poder colonial é enunciado quase sempre aos gritos e berros, quando não aos pontapés e bofetões. A impulsividade lusitana parece imperar não só nas relações entre os brancos, mas principalmente nos contactos dos administrativos com os negros. Neste aspecto, os comerciantes revelam maior brandura de costumes e chegam mesmo a confraternizar com os seus clientes negros, a quem habitualmente dão o «tingo» ou gorjeta, aquando dos negócios, e com quem têm paciência para ouvir a história das suas vidas e dos seus.

A defesa do sistema estabelecido manifesta-se no comportamento, palavras e gestos dos funcionários, particularmente dos administradores e secretários. Funcionários e colonos defendem, por vezes à «outrance», a nossa colonização, partilhando da ideia de Valadas de Terra Morta e que veio a ser sintetizada pela propaganda oficial: «Angola é Portugal». As imperfeições do sistema colonizador e os abusos da prática administrativa e militar – bem representados na trilogia soromenha – são sistematicamente escamoteados pelos superiores hierárquicos que silenciam as vozes dos funcionários mais críticos. Isto é particularmente notado na obra final, A Chaga, onde a crítica de cariz político é esconjurada, se bem que venha a atingir o auge no diálogo privado de dois aspirantes. Estes condenam a polícia actuante em Portugal, denunciam o Tarrafal e revoltam-se contra o avanço do nazi-fascismo, de que se anuncia derrota na frente russa.

Quanto à situação angolana, e segundo as pistas do narrador e doutras personagens, o antigo regime tribal das aldeias de Xá-Mucuari e Xanvuri abre falência pela intromissão dos administrativos na escolha dos seus sobas e pela irreversível destruição do complexo tribal banto. Mundo perdido para sempre, nas brumas da memória dos homens novos que vão aceitando cada vez mais o mundo novo oferecido pelos colonizadores.

Nas relações interpessoais deste «huis clos» soromenho impera a rigidez e a frieza afectiva, para não falar das sevícias dos castigos frequentes. Para além dos choques e incompreensões subjectivas, a naturalidade e repetição das repressões violentas mostra ostensivamente que em Camaxilo «o inferno são os outros». Vejamos, a título de exemplo, o que se passa com as relações sexuais, a que são forçadas as negras presas, vítimas indefesas da lubricidade dos secretários administrativos e não só.

A sexomania dos pioneiros brancos, representada nas personagens de Francisco Bernardo de Terra Morta e de José Paulino de A Chaga, tem analogias com a conduta debochada de certos funcionários, como Jaime Silva, Albano Sampaio e António Vasconcelos do primeiro romance e, ainda, Alves e Pereirinha do último romance. O código porno-erótico «ad usum lusitanorum» leva-os a mitificar o sexo como qualquer latino, mas tende aqui para uma doentia idolatria. Os bantos, ao invés, pela sua precoce iniciação ritual, não mitificam morbidamente o sexo, isto é, possuem uma perspectiva erótica, mas não revelam a pornografia descabelada exibida por certos latinos.

A sexomania de José Paulino, alentejano saído da sua terra com 17 anos atinge o paroxismo, ao evocar a sua chegada ao interior da Lunda e o seu encontro com uma civilização despida de pornografia, vivendo as mulheres numa ingénua e inocente nudez. Eis um excerto da evocação de J. Paulino: «Naquele tempo as negras do Quimbundo andavam nuas, nem tinham o trapito que nas outras terras elas usam a tapar a passarinha, nada, nuinhas como vieram a este Mundo. Era de pôr um homem em brasa! Eu disse logo cá pros meus botões: Zé Paulino, esta é qu’é a tua terra» (21). O citado episódio é aflorado igualmente no romance Terra Morta com pormenores inovadores.

Trata-se do comportamento libidinoso de Francisco Bernardo que até um soba ridiculariza. Ao longo da diegese de Terra Morta esta personagem exibe um machismo sexomaníaco: possui várias mulheres em sua casa ao mesmo tempo e desflora ainda a sua afilhada Flávia, mulatinha de 13 anos.

Numa evocação em «flash back», a negra Francisca lembra-se de Francisco Bernardo, na sua outrora rica casa, na florescente Camaxilo da era da borracha, «falar nas negras nuas que encontrara em Mona-Quimbundo, agachadas defronte das fogueiras, com as mãos abertas sobre o sexo. E ele, meses antes chegado da Metrópole (...) a ver aquele espectáculo com o olho a luzir de gozo, enquanto o soba o espiava soltando gargalhadas perguntando-lhe se na sua terra não havia mulheres» (22).

Aparentemente, Camaxilo poderia ser um lugar paradisíaco, mesmo para os sexomaníacos José Paulino e Francisco Bernardo que pensavam saciar-se em Mona-Quimbundo. Pois bem, o «locus amoenus» torna-se «locus horrendus», por culpa não da natureza animal ou vegetal, mas exclusivamente dos seres humanos. Quando a personagem de Garcin afirma no final da peça «Huis clos» de Sartre: «l’enfer c’est les Autres» (23), estava definido o que distingue um possível espaço paradisíaco de um infernal. Em Camaxilo, os outros são vistos como repelentes e, às vezes, odiosos, daí tornar-se um inferno a sua presença obrigatória todos os dias. Para provar a verdade disto, temos as rixas e quezílias entre funcionários, a repelência dos negros por alguns brancos e brancas e, nomeadamente, as exacções e sevícias que quotidianamente fazem nascer no coração do negro ou mulato o desejo de vingança.

A falência duma colonização assente na trilogia jesuíta do «pão, pano e pau» (24) decorre naturalmente do que se afirma profeticamente na novelística soromenha, no que diz respeito à nossa colonização na terra da borracha e dos diamantes. Além do que se disse já, acrescento ainda o acto de denominação, como índice de menosprezo desumano. O acto de dar o nome é, desde o berço da Humanidade, altamente significativo da instância do poder sobre o denominado. Em África, é sabido que este acto era escolhido propositadamente pelos colonizadores para humilhar os negros. Sem pretensões, de fazer uma lista exaustiva, eis alguns dos antropónimos ridículos e humilhantes atribuídos pelos brancos aos seus auxiliares ou empregados: Canivete, Aparo, Comboio, Batata, Cebola e Ratão (nome dado também a um cão, para provocar equívocos).

Em Camaxilo, é impossível a amizade e o respeito mútuo. No «inferno dos outros», o egoísmo e a prepotência individual ou institucional sobrelevam sempre. Entre os administrativos fazem-se conhecidos mas nunca amigos. A personagem Vasco Serra d’A Chaga reconhece um velho companheiro que chega como funcionário, Eduardo Sales. Expõe-lhe o quadro real das relações humanas: «Vive-se em permanente intriga» (...) «No sertão não se fazem amigos» (...) «Não se criam raízes» (25). Exceptuando este caso e o de Joaquim Américo, atrás aludido, talvez só os comerciantes entre si partilhem das alegrias e tristezas quotidianas.

Quanto ao amor, no sentido global e pleno, nenhuma das grandes personagens o conhece e pratica, ao longo da diegese dos dois romances. O que avulta são os recalcamentos, as frustrações e os amores impossíveis, caracterizados sumariamente em termos de psicologia do comportamento. As personagens femininas são mais sensíveis e, por isso, sofrem mais as carências afectivas que, por vezes, a custo conseguem dissimular. D. Jovita, esposa do administrador de Terra Morta, desvenda num solilóquio o seu desejo amoroso reprimido e anula a abordagem feita a Américo numa festa de Natal. Dir-se-ia, parafraseando René Girard, que pratica a mentira romântica para escamotear a verdade romanesca. Tenta compensar ou sublimar por meio do amor pelas flores e dos afagos ao cãozinho «Ratão», descuidando-se do serviço do seu senhor – entenda-se do marido – que a repreende. Nessa troca de palavras agrestes entre ambos ficamos a saber que o marido anda metido com negras, pela expressão grosseira com que retruca à mulher: «Cheiram melhor do que tu!» (26). Com Inês, mulher do administrador d’A Chaga, passa-se algo de semelhante quanto à repressão do seu desejo. É que o marido é dado como impotente sexual, daí as suas cuidadosas informações acerca das drogas afrodisíacas conhecidas dos negros.(27).

Quanto ao amor sexual, as mulatas constituem nesta ficção o paradigma como animais de e para o prazer. Há personagens do texto soromenho que afirmam a sua crença no mito das mestiças como debochadas, isto é, «rabiosas» como ninguém no acto sexual. Em virtude do seu «sangue quente», parecem destinadas à prostituição, destino, aliás, de algumas mulatas, apenas aludidas de passagem como personagens ausentes da diegese. Trata-se de filhas dos colonos camaxilanos que confessam, amargurados, a sua vergonha e desilusão pelas filhas que em Malanje, Luanda ou Benguela se prostituem. As mulatas Maria Anacleto de Terra Morta e Josefa d’A Chaga remetem-nos para este destino da mulher –objecto coisificada, se bem que nenhuma delas faça amor mercenariamente, nos episódios diegéticos em que aparecem.

Continuando a considerar a condição feminina, atingimos o nível mais baixo quando se trata das relações sexuais entre os brancos e as negras. O nosso conhecido José Paulino afirma, como sujeito da enunciação, aos amigos: «Com as negras é outra coisa (...) porque é gado de pegar e largar» (28). A mesma coisificação pornográfica da mulher, definida em termos de animal de prazer, na fala de J. Paulino: «aquilo era fornicar a toda a hora. Cada pedaço de mulher... Com uma mão cheia de sal, zás, esteira com ela». Assim se chega à apologia da fornicação, no sentido estrito do termo. Glorifica-se como verdadeiro campeão «um tal Manaus que deixou 42 filhos. O filho-da-mãe até fez crias nas filhas».(30)

Nem esta libertinagem sexual satisfaz os fornicadores de, ao invés, a ausência de vida sexual torna felizes e realizadas as mulheres dos administradores. Num caso e noutro o tédio é inevitável. No horizonte cerrado de Camaxilo, o tédio é doentio, pois se entranha e leva mesmo às raias do desespero certas personagens, como é o caso de D. Jovita. A sua única evasão tem lugar na linha do onirismo ou nos monólogos interiores. Talvez por ciúmes maritais, a branca e loira D. Jovita odiava as negras: «às negras chegava mesmo a odiá-las. São uns bichos que cheiram mal – diziam sempre que se falava nelas» (31).

Uma citação para provar que o tédio escorre das almas e turva as vidas dos «brancos do governo» e das suas mulheres: « - Coitada, passa a vida metida neste buraco, sem ter nenhuma senhora para conversar. Vida estúpida a nossa, quanto mais a dela – comentou António de Vasconcelos. A solidão vive paredes meias com o tédio, pois o origina. O tédio ou o enjoo da vida apossou-se também dos comerciantes menos felizes nos negócios, dada a matéria real em que vivem, sem horizonte de esperança para si ou para seus filhos e filhas. A terra-morta caxaliana é-o porque a humanidade e a fraternidade não existem e as almas estão mortas ou catalépticas, aguardando apenas que os corpos se juntem no cemitério para que tudo acabe definitivamente.

Para exprimir o ódio e a malquerença, surgem com mais frequência nestes textos soromenhos as expressões «raiva» e «rancor». Aquela é mesmo uma das palavras–chave do romance A Chaga espécie de ferida não cicatrizada das guerras de ocupação, das espoliações posteriores e do sistema coercitivo implantado pela administração colonial. Os agentes que manifestam mais vezes a raiva ou rancor são os funcionários, muito embora os colonos e os próprios bantos não estejam isentos. Entre os comerciantes, a impetuosidade raivosa domina Alfredo Anacleto e José Calado, em Terra Morta, e Alfredo Cardoso, n’A Chaga. Ódio velho que não cansa é o que revela o soba Xá-Mucuari que odeia igualmente os brancos e os negros que os servem. Vive para se vingar das ofensas e da morte de seu pai na prisão de Camaxilo. A vítima do seu ódio foi o velho cipaio Caluis que o ia prender, como havia feito outrora ao anterior soba Xá – Mucuari.

No derradeiro romance soromenho, a personagem que melhor encarna a raiva odienta é Gunga. Como se disse já, alimentou masoquisticamente a sua raiva impotente durante 25 anos, dia após dia esperando a hora de se vingar do colono que lhe havia roubado a terra e a mulher. Numa leitura possível deste romance, dir-se-ia que a chaga – título e palavra – chave da obra – é, para Gunga, a raiva ou ódio que o consome. Além desta personagem outras há no mesmo texto que ostentam bem a desmesura do seu comportamento. É o caso de Alfredo Cardoso e dos administrativos Pereirinha e António Alves. Este, que no romance intervalar Viragem é a consubstanciação do ódio ao negro, dá também mostras do seu mau carácter no romance seguinte A Chaga.

Para ficar provado sem apelo que Camaxilo é uma imagem do «inferno dos outros», bastaria citar três práticas: a escravatura, o trabalho forçado e o sistema de castigos corporais.

Quanto à escravatura, evocada em ambos os romances, deve dizer-se que é anterior ao tempo da «história» e mais anterior ainda ao tempo da «escrita». Essa brutal animalização dos bantos, verdadeiro grau zero da Humanidade, chega a ser glorificado na pessoa de dois heróicos sertanejos: Braz Vicesse, em Terra Morta e, particularmente, Silva Porto, em A Chaga. Este último é reabilitado pelo narrador e, como personagem histórica, mereceu as honras das autoridades portuguesas pelo seu estoicismo suicida. Personagem extra – diegética, é recordada por algumas personagens da diegese que foram suas contemporâneos. Procuram mesmo falar da escravatura como algo de banal e natural nesse tempo, entre os potentados bantos e os brancos.

Do tráfico esclavagista – que um decreto de Sá da Bandeira (1836) havia proibido – nenhum dos intervenientes se penitencia, com a única excepção de Lourenço que vive atormentado por esta e outras angústias. O humanismo laico e a consciencialização revelada por Lourenço fazem dele uma personagem simpática. A adesão ao seu caso humano depende eventualmente de um episódio narrado em ar de censura por José Paulino. Muitos anos antes, nos confins imprecisos da fronteira angolana, Lourenço opôs-se ao castigo de flagelação de um escravo que pertencia a outro negreiro, o mestiço Alves, que levou a mal a conduta de Lourenço. Este abraçara-se ao ensanguentado escravo negro, redescobriu a sua humanidade e abandonou imediatamente o tráfico de «cabecinhas», para se dedicar exclusivamente ao comércio dos produtos criados na terra angolana.

Em suma, a caixa de Pandora que encerra todos os males e que faz de Camaxilo uma antecâmara do inferno onde o homem vale zero é o colonialismo. Não só o colonialismo africano, mas também o nazismo e fascismo europeu, como bem é recordado em A Chaga, anulam e destroem o ser humano. Isto decorre directamente da leitura do texto soromenho e é igualmente instruído por algumas personagens mais conscientes: Joaquim Américo, de Terra Morta e Vasco Serra, d’A Chaga. Este último, em confidência ao amigo recém–chegado, declara que as sementes da violência semeadas ao longo dos séculos serão, a seu tempo, seara madura de sangue. Desde 1961 até 1974 esta profecia foi realizada, atingindo bastantes portugueses, continuando, infelizmente após a descolonização. Na sua profecia, V. Serra utilizara o símile da queimada africana: «esse negro que anda por aí com ar de medo é como a raíz da terra queimada. Sob a humildade, a resignação, o medo, ele vive com desespero e ódio» (33). Continuando a sua confidência a Eduardo Sales, Vasco Serra compara o colonialismo a uma chaga viva: «Para a sua vida o colonialismo é como uma queimada, uma chaga, mas eles são as raízes vivas dentro dessa terra queimada» (34). E conclui, peremptoriamente, dando a chave que explica a causa de todos os males:«O colonialismo aviltou o negro. O fascismo fez o mesmo ao português.(...) O colonialismo fascista cavou mais fundo o abismo entre o branco e o negro» (35).

O espaço presidiário de Camaxilo é o símbolo da situação colonial portuguesa ou outra e aparece como uma teia de aranha que prende nas suas malhas - «malhas que o Império tece» - colonizados e colonizadores. Um dos maiores valores poético–pragmáticos da derradeira ficção soromenha consiste precisamente nesta sua postura ética. NOTAS

(1) A Chaga, Editora Civilização Brasileira S.ª, Rio de Janeiro, 1970, p.2 (2) Terra Morta, Lisboa Editora Arcádia Lda., 1961, pp.34,35 e 36, lendo-se nesta: «Era a povoação-de-baixo, o bairro comercial de Camaxilo. Como se fosse outra vilória, a um quilómetro e meio de distância das casas dos funcionários, indo pela estrada». (3) Idem, p.7 (4) Idem, p.8 «todos se insurgiram contra o administrador Gregório Antunes que punha os cipaios a soltarem aqueles gritos monótonos sobre Camaxilo, como se a vila fosse uma praça –forte». (5) Camaxilo foi cabeça da administração colonial da zona entre 3.3.1911 e 21.3.1936, data em que foi transferida para Caungula a sede da circunscrição. Estes elementos verídicos que podem ser cotejados em Mário Milheiros, Índice «Histórico-Corográfico de Angola» I. I.C.A. Luanda, 1972, p.63, têm o mérito de dar à ficção soromenha o seu quê de histórico. (6) Obra citada, p.7 (7) Idem, ibidem. (8) Idem. P.28 (9) Obra cit., p.3 (10)Idem, p.189. «Branco morreu, acabou raiva, acabou tudo. Como é qu’êle vai viver?» (11)Idem, Ibidem.«(... caminho da senzala, de costas voltadas ao vale e à terra» (12)Idem, p.79 (13) Idem, p.81. (14) Idem, p.48. (15) Obra cit., p.158 (16) Idem, p.78. (17) Idem, p.91. (18) Terra Morta, p.222. (19) Idem, p.224. (20) Idem, p.23.Cf. também A Chaga, pp.15,25 e 99. (21) A Chaga, p.107. (22) Terra Morta, p.231. (23) J.-P:Sartre, Huis clos suivi de Les Mouches, Ed. Gallimard/Le Livre de Poche, Paris,1964, p.77. (24) A Chaga, p.77. (25) Idem, p.153. (26) Terra Morta, 41. (27) Obra cit., 75-76. (28) Idem, p.107. (29) Idem, ibidem. (30) Idem, p. 109. (31) Terra Morta, p.42. (32) Idem, p.82. (33) A Chaga, p.151. (34) Idem,ibidem. (35) Idem, ibidem.

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