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" A Circuncisão Da Mulher Na Comunidade Luvale"

Escrito por  José Samuila Kakueji
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O povo Luvale tem origem étnica no Reino Mwantiavwa, ou seja, Lunda/Cokwe, e dele é símbolo de soberania a Rainha Nyakatolo – a Mãe dos Valwena ou Valuvale.

Este povo espraia-se por vastas regiões da Província do Moxico, nomeadamente na maior parte do território do Município do Alto Zambeze, no do Luacano, nas comunas de Lucusse e Luvuei, e com manchas étnicas consideráveis em quase todos os restantes municípios da Província, com penetração nas Repúblicas da Zâmbia e do Congo Democrático.

Tem-se propalado a condenação da prática da circuncisão da mulher por este acto tradicional dos povos constituir um atentado e violência à vida integral da mulher...

No povo Valuvale, esta prática ritual, ao contrário de outros povos não constitui qualquer ameaça, mutilação no corpo da mulher nem tampouco é um acto violento. A mukanda (iniciação de jovens), mais conhecida particular e vulgarmente por “wali”, no povo Valuvale, é uma autêntica escola de formação da futura mulher que se pretende se torne esposa, mãe elemento útil à sociedade.

Na comunidade Valuvale, uma filha enquanto pequena, ela fica em casa dos pais ou dos tios... Quando chega a puberdade, isto é atinge a idade de se tornar mulher, com o aparecimento naturalmente do primeiro ciclo catamenial, então é metida na mukanda isolada dos olhares indesejáveis masculinos, estranhos à família dela, durante 6 a 12 meses se tanto.

No decorrer deste precioso e aturado tempo, a preocupação de seus pais ou encarregados de educação é a sua formação moral, estética, cívica e física (pela dança). Para tal, é necessário que apareça em cena outra figura importante, convidada pelos pais para tomar conta da mwali a chamada “Cilombola” – a ama ou educadora, que pode ser uma tia, avó ou prima mais velha ou outra mulher qualquer, idosa, da confiança da família da moça, e versada na matéria educativo-formativa, para tomar conta da mwali (a iniciada). Aqui, o papel de Cilombola não é senão o da educação e formação multíplices da rapariga a si confiada.

Nesta conformidade, cabe a Cilombola abrir o jogo à sua aprendiza para esta poder passar a trilhar os caminhos de futura mulher útil à comunidade: ela aprende a maneira de se portar perante os futuros sogros, os cunhados, os sobrinhos, os parentes e contraparentes do marido e todo o respeito que lhes deve reservar. Aprende a executar tarefas, tais como confeccionar alimentos (e armadilhas), a dança (incluindo a da cama do marido); aprende também, particularmente, a forma especial de tratar o futuro marido, em todos os aspectos maritais, dentro do casal, incluindo os procedimentos no acto de fazer amor.

No capítulo da sexualidade, ao invés do que é uso noutras tribos, em que tem lugar a prática de actos de mutilação e violência quanto aos órgãos genitais da mulher, na comunidade Valuvale, esses actos convertem-se a estímulos, tais como desenvolver esses órgãos, para ganharem mais consistência, mais tamanho e comprimento, no escopo de se tornarem um tampão à entrada do canal vaginal. É claro que, acesso sem porta é um fiasco. Este trabalho cabe a Cilombola, que para realizar esta façanha, terá que recorrer a uma intensa metodologia de vária ordem, que passa por puxar várias vezes e dias os citados órgãos, mormente a clitóride, com os dedos, com a aplicação de ventosas a seco e, nalguns casos, com o uso de certas folhas/raízes medicinais, de molde a vedar a entrada do canal vaginal, pondo à prova a masculinidade e a virilidade do parceiro. Sem esses apetrechos todos, a coisa ficaria à mercê de qualquer estouvado de suposto interessado.

No caso de a candidata à mulher, de vida sexual activa, ter o seu órgão sexual encharcado de água, é tarefa de Cilombola enxugar todo esse líquido inútil e incómodo, através de outros tratamentos feminis, à base de banhos de assento a fogo, preparando a mulher para o sexo seguro perante o parceiro, quase sempre exigente.

Outro elemento também não menos relevante e apreciado pelo parceiro sexual, no acto de fazer o sexo, é a presença de escaras: estas são feitas no baixo ventre da mulher, nas partes opostas das coxas e em outros sítios do corpo susceptíveis de ser tocados necessariamente pelas mãos gulosas do parceiro, para lhe levantar o moral viril. Pois, há parceiros distraídos, dormentes, os quais só despertam para a navegação sexual ao apalparem as partes feminis cobertas por aquelas letras em relevo e/ou mexendo com os dedos os tentáculos artificialmente desenvolvidos por Cilombola. Sem este exercício preliminar, o parceiro não fica estimulado nem sequer interessado para o sexo, redundando em fracasso, uma vez que não existe outro estímulo prévio para ambos os antagonistas sexuais, e o beijo, nesta comunidade, era desconhecido ou ignorado e, portanto, impraticável.

Por conseguinte, o parceiro que nota na sua parceira a ausência dos requisitos referenciados atrás, perderá interesse e amor por tal velhaca . Neste caso, os pais da iniciada inculpam a Cilombola que fora incumbida da formação da mwali, por não ter levado a bom porto o barco das tarefas que lhe tinham sido atribuídas.

Muitos casos de rompimento de vida marital se devem irremediavelmente à falta dos requisitos mencionados, entre os Valuvale.

Por outro lado, as mulheres rejeitam pura e simplesmente todo o homem incircunciso, que não se sentou na carteira da mukanda – a escola tradicional.

Glossário:

Cilombola, (pl.vilombola), s.2 gén. – mulher incumbida de dar formação à mwali.

Mukanda, (pl.mikanda), iniciação dos adolescentes

Mwali, (pl. Myali, vamyali), - a jovem mulher na iniciação.

Valuvale, (sing.kaluvale), - povo luvale.

Valwena, (sing. Kalwena),- povo luvale

Wali, s.f. –estado ou condição da mwali.

Fontes: Recolha de tradição oral, com colaboração de Glória Jila Kajila, componesa, 53 anos, natural de Cazombo, Alto Zambeze – Moxico.

Morro Bento II, em Luanda, aos 14 de Janeiro de 2003.

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