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A Função Simbólica da Pedra na Poética Angolana Actual

Escrito por  Curry Duval
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A pedra, na canção poética angolana, assume não raras vezes uma função de regozijo, denunciadora, satírica, ou de lamento, face as constantes mutações sociais, biológicas, ideológicas e/ou espirituais, registáveis na sociedade humana, em geral.

Na poesia angolana actual, a pedra far-se-á emergir como sustentáculo das inquietações poéticas, simbolizando assim várias atitudes da realidade social ou humana, numa perspectiva de satirizar, por um lado a força de um acto humano, por outro, a indecência da grosseria humana ou ideológica.

Mas, antes da poesia escrita (porque quanto a nós existirá aquela identificável na espiritualidade ou na fala dos homens: oratura), as sociedades africanas do tipo de estrutura tradicional tinham na pedra um elemento prenhe de significações, susceptíveis de auxiliarem a moral social do indivíduo.

No Mali, por exemplo, a pedra significará a força que os deuses concederam ao homem, ou ao guerreiro da corte tradicional para a batalha com as tribos vizinhas. E os guerreiros, numa canção repleta de signos, evocavam a pedra, como símbolo de poder, segundo escreve o historiador camaronês, Boussary Aganheh, em Mali, Le mite e as Poesie, 1947 (p.243).

No Egipto, antes e depois da era Cristã, a pedra era tido como elemento sacro, na medida em que simbolizava também, para além doutras configurações, o poder divino, a força para a realização de várias intenções. As pirâmides construídas naquela fase traduziam, assim, a beleza do poder governamental e da própria força espiritual dos homens.

Segundo o arqueólogo sudanês, Muaril Nkaiet, num artigo publicado em 1953, no jornal francês Le Monde, a simbolização da própria pedra, pela sua dureza, tinha valor histórico –organizacional, pois serviria, no Egipto, para a defesa do território ou a ocupação de outros Estados.

O exemplo ou a batalha de David e Golias, segundo a própria Bíblia, viria a conceder uma importância extraordinária à pedra, no tocante à defesa, pois David derrubou Golias com o lançamento da pedra e, anos depois, esta luta seria recordado em canções ou na história universal.

No Mali, os griots (músicos e poetas tradicionais) cantavam ou evocavam, entre outros, o poder da pedra, diante do trono real. No próprio Egipto, ou nos vários reinos antes e depois da era Cristã, os poetas e magos, nos seus gestos de agradar ao rei, evocavam, de certo modo, a faculdade espiritual e humana da rocha, como sendo um bem, na perspectiva de Cláud Lévi Strauss, em Raça e Cultura.

Ainda no Egipto, a evocação da pedra em muitos poetas, na perspectiva oral, bem como o seu aproveitamento arquitectónico, demonstrava já, de certa forma, alguma obsessão por eles (poetas) pela sua função social e simbólica, pois o facto não viria perder o seu sentido de efervescência ou de continuidade, na medida em que não esvaziou, na literatura universal, a sua referência, sobretudo no plano das poesias lírico –concreta.

Assim, em Angola, e no que tocante às sociedades do tipo de estrutura tradicional, a pedra é referida como símbolo de poder e da produção espiritual e económica. Pois nas sociedades pastorícias do Sudoeste de Angola, a pedra é observada como um elemento sacral, onde os nativos lavam a roupa, outros sobre ela manifestam as suas orações ou petições.

Ainda no Sudoeste de Angola, ela, a pedra, talvez como resultado histórico –cultural da era primitiva, seria usada para caça, cozinha e defesa do próprio homem em relação as várias intempéries da vida.

Ainda neste tipo de sociedade de estrutura tradicional, os guerreiros, as dançarinas e cantores, evocam a pedra como elemento sagrado e sociologicamente influenciável na vida das populações. Aliás, o que se passa no Sudoeste de Angola (Namibe ou Huíla), passa-se noutras partes do país,tais como Moxico, Lundas, e isto a sua história o identifica.

Portanto, hoje, em Angola, os poetas com obras publicadas, farão referência à pedra mas, numa perspectiva moderna, isto é, servem-se dela para a crítica social, política, ideológica e espiritual. Sem nunca perderem de vista o sentido estético –formal e sociável do próprio texto.

Outros recorrem mesmo aos estigmas – passe o termo – do passado, para uma convivência de significações com o presente, isto é, com a realidade social actual, de maneira a reter os aspectos salutares e menos incongruentes da vida humana.

Por exemplo, o poeta Ruy Duarte de Carvalho, numa boa parte da sua poesia, trabalha estrutural e esteticamente os elementos da realidade cultural tradicional, social, económica e mitológica das populações do Namibe e Huíla, onde a rocha é um símbolo cultural.

Sendo a pedra um dos referentes culturais daquele povo, a poesia de Ruy de Carvalho será compenetrada de várias significações e signos relativos à pedra como elemento participe da própria vida. A pedra, para este grupo etnolinguístico é um elemento que simboliza a própria dureza da vida, ou um sacrifício para correcção das maldades, portanto, terá uma importância vital na literatura angolana.

Esta importância na literatura angolana identificar-se-á no facto de o Projecto Ohandanji, por exemplo, de que ele, Rui Duarte de Carvalho foi é cultor, na década de 80, reter a pedra e a mulher mumuíla como significante de um processo artístico –textual e biológico da identidade cultural nacional.

Os textos de poesia publicados por Rui D. de Carvalho, Lopito Feijóo ou António Panguila na página cultural do Jornal de Angola, no período acima assinalado (1980, aliás fase de maior acção do referido projecto), eram estampados com desenhos de pedra e/ou uma mulher mumuíla. Ou simplesmente a pedra, simbolizando também a força pragmática da oratura e da própria mensagem poética.

Ana Paula Tavares, em Ritos de Passagem, obra poética editada em 1987, provavelmente, dedicará também uma atenção especial, à semelhança de Ruy Duarte de Carvalho, à estrutura comportamental das populações inseridas na sociedade do tipo tradicional de Angola, de uma forma geral .Na sua poesia, a mulher será comparada a uma rocha fogosa pelo seu sacrifício vivo na terra.

No entanto, João Maimona e Roderick Nehone, nos seus livros No Útero da Noite (reeditada pela Editorial Nzila, 2001) e Peugadas da Musa (Editorial Nzila, 2001) farão alusão a pedra num contexto de aflições sociais e espirituais, como que representando o amargor do processo humano.

Pois a independência de Angola, em Novembro de 1975, é entecedida de um processo político e bélico. Na era pós independência, o povo terá de experimentar as peripécias de uma longa guerrilha, que então influenciará sociológica, económica e espiritualmente o país. Daí a reflexão, na poesia destes dois poetas, da pedra como penhor da insatisfação biológica e económica.

Na perspectiva em que seguimos, Maimona dirá (p.58) que,

Na harmonia das sete sombras do poeta, Sou o silêncio da rua das angústias Sou a pedra atirada à música da noite.

Noutra exposição (p.71), o poeta, depois de manifestar a sua angústia pela insanidade na terra, em função da desarmonia semelhante à noite das convulsões humanas através da pedra, tentará conversar com a Bíblia para saber a origem de tanta dureza (aqui simbolizando a dureza da pedra) na imensidão terrestre:

(...) deviamos ter dito

duas vezes a oração bordada – a

estreita oração que nos ensinou

a bíblia de pedra

(...)

E o crepúsculo

estará na neve do crepúsculo que há

de vir congregado em pedras do

crepúsculo.

Roderick Nehone será o poeta mais aberto e, perdoe-nos o exagero, mais nervoso e peremptório na alusão à pedra como referente de uma tragédia humana. No seu poema intitulado Secura, constante do livro Peugadas de Musa, a insatisfação pela incontinência da pobreza e outros males fazem-no mostrar a pedra também como produto de uma melancolia.

O poeta não faz referência propriamente à pedra, isto é, denominando-a transparentemente. Usa de um objecto ligado à cozinha tradicional angolana, que é a panela de barro, feita de argila. A argila quando dura torna-se uma pedra, daí a perda do seu sentido original.

Ao fazer alusão à argila (a pedra, no aspecto subjectivo) o autor pretenderá tão somente fazer significar esta massa como sendo útil, quando muito bem utilizada pelos humanos, e dura, se mal utilizada, comparando assim à secura na terra, quando não existe água, comida e outros significantes para a sobrevivência humana. Vejamos (p.12):

ossos secos

na panela

de argila

queimada,

no fogo apagado

(...)

A mesma insatisfação pela vida, encontraremos num poema em que o poeta lamenta a presença da fome na terra, olhando para a secura do mar. Alguém terá resolvido ir pescar e, de sorte ou não, o mar não concedeu o seu produto. Pois na pedra (vide vós aqui a dureza da pedra, semelhante à dureza da fome) em que se sentara, testemunharia tal infortúnio (p.53):

Lancei meu anzol

e deixei-me sentado nas pedras,

bem longe vi chegar o Sol

Ígneo, sem manchas negras.

(...)

De grandes pescarias fiquei me lembrando.

Pra onde foi o peixe?... perguntamo-nos.

É o tempo, é o mar ... queixamo-nos.

Curry Duval

 

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