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A Saúde do Morto e Alguma (In) Continência Genérico - Narrativa

Escrito por  Curry Duval
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A Saúde do Morto, é o titulo do livro publicado em Setembro de 2002, em Luanda, pela Editorial Nzila, de autoria de Luís Fernando, no que constitui a primeira obra literária de ficção deste autor angolano, depois de nos ter brindado, na três anos, com Noventa Palavras, uma obra jornalística do mesmo.

A Saúde do Morto, 166páginas, é um livro onde a historia cinge-se a um homem (Soares Mulengo) que extermina a vida de um outro homem(João Kiomba), pela abusiva e exagerada condição de vida poligánica deste. Morto, Kiomba ressuscitará mais tarde, vivendo em silencio, afastado da comunidade, daí o título da obra.

Ao ter conhecimento da ressurreição do seu inimigo João Kiomba, Soares Mulengo agarrasse-a a uma vingança de cariz eterno. Mas, mais tarde verá, surpreendentemente, a sua intenção frustada, quando se apercebe que, ao constituir lar com uma mulher mais jovem, sendo ele velho, os filhos brotados desta relação eram netos do seu próprio inimigo. O Facto leva-o á morte súbita, por estupefacção, ficando João Kiomba, o alvo, em pleno gozo de vida: «O homem que pensava degolar, ainda que isso fosse o último acto da sua vida, era nada mais e nada menos que o pai de Teresa Luzolo, mulher dos seus sonhos, incansável amante de noites sem relato possível, mãe dos seus lindos gémeos. João Kiomba, ele mesmo, o abominável homem dos mil disfarces e mutações, que persegui sem sucesso e que odiou com paixão ao longo de uma era seu sogro. Caiu redondo, punho cerrado sobre o lado esquerdo do perito, e ninguém mais lhe viu esboçar movimento algum, coordenado ou inconsciente. Soares Mulengo necessitaria de dois corações para resistir àquele ataque fulminante, que o aniquilou sem dó nem protocolos e o levou deste mundo folhando para sempre o seu plano de punir, de maneira exemplar, o mais enigmático dos homens da sua época, João Kiomba, o único que esbanjara saúde depois de morto.» Dupla moral ou mensagem da historia: Primeiro, quem tudo quer, tudo perde; ou segundo, o feitiço pode virar contra o feiticeiro. Vide exemplos de máximas idênticas em Missoso, de Oscar Ribas.

1. Considerações do focus genérico, estrutural e artístico- literário

A Saúde do Morto apresenta – se eivada de uma vigorosa contundência verbal, que numa perspectiva ficcional descreve, com esmero, a historia da vingança de Soares Mulengo, numa sociedade do tipo de estrutura tradicional, no espaço longínquo da região norte de Angola, alias, terra de origem do autor.

Apesar de ser a primeira obra artístico – literário de Luís Fernando, não deixaremos de espore aqui e agora, algumas breves considerações sobre a estrutura narrativa da obra, pois na perspectiva do professor e ensaísta Eduardo Prado Coelho, a estrutura de uma obra literária será o sustentáculo para a sua consolidação.

Em A Saúde do Morto, assiste – se a uma descrição vigorosa dos factos, por intermédio, em certa medida, de uma plausível faculdade verbal, a qual concede elevado ênfase e relevo a varias situações sobre esta ou aquela cena, no livro narradas.

Todavia esta mesma vigorosidade é apenas relevante numa determinada fase do livro, e irrelevante noutra, pois assistiremos na obra, também, a algumas mordidas descritivas que de certa forma enfermarão a sua consolidação estrutural.

A estrutura descritiva ou narrativa de uma obra artístico – literário deve ser, quando a nós, simples e rigorosamente consolidavam pela capacidade de argumentação estilístico – verbal, a qual se circunscreverá na unicidade da forma discursiva(Abdel Lasserk, em Os discurso literários, México, 1956,pp.207-208).

Em A Saúde do Morto Luís Fernando, licenciado em jornalismo, parece-nos volátil. Ou seja, ao descrever uma determinada situação, fá-lo de maneira artístico – literária, isto é com esbelta fluidez da mente e das palavras. Mas noutra, fá –lo de uma forma ensaística, o que contrapõe, de certa forma, as regras normais da narrativa, mesmo numa obra de facção.

A determinada altura da narração, o discurso perde-se. Umas vezes torna-se canhestro, outras vezes assemelha-se a do ensaio e da crónica literária, empobrecendo ás vezes a essência estrutural do livro, na medida em que, na perspectiva do crítico norte americano Lois Furrel, é a forma artística do discurso literário, independentemente do estilo, que da ênfase a qualquer obra literária, sem o que, colmata João Mendes(em A Estética da Arte, Lisboa 1980), este perderia a sua própria estrutura.

Será necessário termos devida atenção na opção dos géneros e subgeneros, para a abordagem Literária de determinada historia, para situar – se também aqui o discurso, pois este difere, segundo os géneros literários a optar-se pelo escritor. O ensaio tem características próprias, o romance idem, o canto idem, a crónica literárias ou jornalística idem.

A Saúde do Morto, pela apresentação ás vezes de um discurso variante, será por nós aqui visto como uma simbiose paradoxal, do ponto de vista generico-narrativo. Esta simbiose aglutinara a prosa ensaistica, a crónica e a prosa romanesca. Pelo facto, não poderíamos deixar de propor, mesmo assim, a uma revisão da sua estrutura discursiva (João Mendes ), numa próxima reedição.

Com a publicação da A Saúde do Morto, pela grandeza da historia e sua arrumação sistemática, referimo-nos á organização dos personagens, Luís Fernando mostra, de facto, a sua incomensurável veia literária, que nos confirmará, certamente, com as próximas publicações do género.

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