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Kimpa Vita, uma tragédia inacabada Destaque

Escrito por  Simão Souindoula
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A leitura da obra do congolês da margem direita, Serge Mboukou, Messianismo e Modernidade, aborda Dona Beatriz Kimpa Vita e o movimento dos Antonianos, livro que acaba de ser publicada, em Paris, nas edições L’ Harmattan, na sua colecção «Religiões, Culturas e Sociedades».

Na continuação da sua tese de doutoramento em antropologia social, sobre os movimentos messiânicos de África subsaariana, o autor estabelece os parâmetros do quadro da inevitável continuidade histórica entre a extraordinária epopeia da jovem « apóstata » kongo (1684 – 1706) e o insuperável proselitismo no qual assistimos, actualmente, nesta parte do continente.

O autor, visivelmente influenciado pela inflexível reapropriarão pelo regime marxizante de Brazzaville dos anos 70, da figura da « Profetiza Ardente », esforça-se por analisar, numa metodologia comparativa, perspicaz, entre o agitado movimento dos « Ntoni » (1704 – 1706) e as centenas de entidades neo-cristãs, negro - africanas, os contextos históricos de emergência, o perfil dos sincretismos produzidos, as pretensões teológicas evocadas, as orientações casuísticas traçadas assim como os constrangimentos sociais e políticos suportados.

O Professor da Universidade francesa de Metz inscreve a aparição do « cismo » da iniciada da « Marimba do Kongo » e das suas réplicas contemporâneas, nas, respectivamente, dramáticas crises social e política que o Reino do Kongo vivia, antes e depois, da severa derrota de Ambuila, em Outubro de 1665, tornada mais pesada pelo forte desenvolvimento do tráfico de escravos, belicista e corruptor, assim como por uma evangelização bem fracturante e o relativo marasmo económico no qual mergulha a maioria dos Estados subsaarianos, a imagem dos gigantes tais como a Nigéria ou o Congo da margem direita, terras de todas as vocações neo-cristãs, com os seus escorregamentos regionais.

 

Inculturação

Serge Mboukou examina, em seguida, as opções dos sincretismos tomadas pela jovem profetiza kongo e os actuais « apóstolos », ilustradas, nas duas situações, pela criação de ambiência de desenrolamento, verdadeiramente, festivo, graças a poderosos membranofonos, e, uma persistente promiscuidade; que faz lembrar as cerimónias  tradicionais, secretas, tais como as do kimpasi e outras animadas pelos nganga, tradi- práticos.

Na dinâmica deste pano de fundo de inculturação, convergente, o antigo aluno da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais da capital francesa sublinha, nos dois casos, a lealdade à figura do Cristo, numa afirmação, francamente ou meio, niger, respectivamente, para Santa Negra ou dos novos pastores.

Como os fiéis da veloz sacerdotisa ligada a Santo António, os adeptos das capelas, modernas, esperam, dos seus condutores, fecundidade e saúde.

Mergulhados no desespero social, alguns desses dirigentes, como  a grande voz do século XVIII  apeando ao « Kiadi », a Misericórdia para o Reino do Kongo, sugerem, igualmente, em pleno século XXI, a restauração  do antigo conjunto federal.

As linhas de análise postas em relevo por Mboukou, antropólogo da modernidade, constituem balizas essenciais na procura de soluções, a proliferação de seitas religiosas em África, fenómeno que se exacerbou nos fins dos anos 80, a favor da liberalização do quadro histórico, global, do continente.

Esta mudança é resultado de um conjunto de efeitos derivados da implacável mecânica da mundialização cujo imparável desenvolvimento fez-se, paralelamente, com a outra globalização, o bem nomeado catolicismo, e que afogueou a Kimpa Vita.

Esses desenlaces não devem inspirar-se da cruel sentença decidida contra a jovem profetiza  e os seus companheiros. Devem, pelo contrário, ser os resultados de diagnósticos, profundos, de carácter histórico, antropológico e sociológico.

 

Fogos de inquisição

Com efeito, esta perspectiva é a única aceitável sobre dois contextos históricos que produziram efeitos quase concordantes.

A tragédia da queimada de Evolulu, nos arredores da actual capital da província angolana do Zaire, é uma das páginas mais emocionantes da história de África; e, por isso, tem suscitado vários trabalhos científicos, pedagógicos e literários, tais como o do guineense Ibrahima Baba Kaké e do francês Bernard Rouzet, Dona Béatrice: la Jeanne d’Arc congolaise»  e a célebre peça de teatro,  Beatrice du Congo do escritor ivoirense, Bernard Dadie.

Este dramático episódio suscitou, igualmente, uma nova vaga de reapropriação, como a decisão tomada por Angola, há quatro anos, de associar  o nome da «Vítima» dos Padres italianos Bernardo da Gallo e Lorenzo di Lucca, a uma das Universidades nacionais do país.

Em suma, para Serge Mboukou, a história do Planalto incendiado de 2 de Julho de 1706, é de uma pertinente actualidade.

Com efeito, como os habitantes da « Kongo dia Ngunga » (Kongo dos Sinos) apressaram-se a recolher, na madrugada, do dia seguinte, o fogo da inquisição, os restos calcinados da Mártir; centenas de milhares de africanos integram, hoje, piedosamente, os neo-baptistérios a fim de diminuir as suas lancinantes angústias existenciais.

Enfim, as cinzas, certamente quentes, da Santa Dona serão ressentidas durante o Colóquio sobre Simon Kibangu, que terá lugar, em Julho próximo, em Kinshasa e Nkamba, a « Jerusalém Negra ».

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