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A Actual Crise da Cultura Angolana É Sobretudo Crise de Identidade Cultural

Escrito por  Jorge Macedo
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No nosso trabalho, intitulado Cultura da Diferença Solidária (1), editado pelo semanário Angolense, durante o ano de 2002, dizíamos, por outras palavras, que os valores culturais carecem de ser permanentemente inculcados, sob pena de os cidadãos abraçarem contra-valores.

E fundamentávamos esta oportuna alerta, lembrando que a pessoa humana é tão frágil que, solidamente bem formada, age para o lado em que a motivação é mais forte, mais arrastadora, mesmo contra os seus princípios.

Não admira que se colabore com comportamentos caóticos, desviantes e permissivos, aí onde os vectores de consciência não trabalhem acto contínuo, por formas a manter permanentemente activa uma atmosfera consciencializadora de condutas culturais, socialmente tidas como positivas, aceitáveis.

Firmemente convictos desta missão inalienável do agente cultural digno deste nome, escolhemos para suporte teórico da presente comunicação, alguns exertos da Declaração do México da II Conferência Mundial Sobre Políticas Culturais, realizada entre 26 de Julho a 6 de Agosto de 1982.

Com efeito, princípios, definições, regras e apelos insertos neste importantissimo Documento internacional permanecem tão actuais que vale a pena a recapitulação de alguns itens-chave. E dentre estes atemo-nos à definição de Cultura dada pelo colectivo mundial do Fórum do México ( 2) :

- “A cultura, no sentido mais amplo, pode ser entendida não só como um conjunto de traços distintivos, espirituais e materiais, mas também intelectuais e afectivos que caracterizam uma determinada sociedade ou grupo social, abrangendo letras e artes, os modos de vida, os direitos fundamentais do ser humano, os sistemas de valor, com as tradições e crenças.

- Que, ela mesma, conferindo ao Homem a capacidade de reflectir sobre si mesmo, nos torna seres especificamente humanos, racionais, dotados de um sentido crítico e moral. É por intermédio dela que o homem se exprime, tomando consciência de si mesmo e, reconhecendo que é uma obra imperfeita, põe em causa as suas próprias realizações, procura insatisfeito, novas ideias, criando obras que lhe são transcendentes.”

Em poucas palavras, esta ampla e complexa definição, que acabamos de transcrever, considera cultura toda a obra material e espiritual do homem, no contexto das mais diversas esferas de acção, feita à sua imagem e semelhança.

Definição esta que o Documento do México mais explicita, ao referir-se aos contornos fisionómicos da identidade cultural, nos seguintes termos:

“Toda a Cultura representa um conjunto único e insubstituível de valores, pois que é através de tradições e as suas formas de expressão que cada povo, de diversas maneiras, afirma a sua presença no mundo.

A afirmação da identidade cultural concorre para a libertação dos povos. E, inversamente, negam e comprometem esta identidade, todas as formas de dominação.

A identidade cultural constitui riqueza estimulante, fazendo crescer as possibilidades para o desabrochar da espécie humana, incitando cada povo, cada grupo a reviver do seu passado acolhendo valores estranhos compatíveis com as suas características próprias, continuando assim, processo da sua auto-continuação”.

Fazendo éco a estas definições universais sobre a identidade cultural o poeta Agostinho Neto pronunciou-se do seguinte modo ( 3 ) :

“A cultura angolana é africana, é sobretudo angolana, e por isso sempre consideramos ultrajante a maneira como o nosso povo foi tratado por intelectuais portugueses”. p 44

“Desenvolver a cultura não significa submetê-la a outras” p.44

“E já que tenho de exprimir uma opinião, gostaria que tudo quanto fosse dito para o nosso povo pelos agentes mais capazes da cultura angolana, representasse o desejo e as formas de expressão do povo”. p.48

Ainda sobre este assunto, em nosso texto intitulado Cultura da Diferença Solidária (1), a que atrás nos referimos, realçamos que desde muitos anos os angolanos vivem uma séria crise de identidade cultural colectiva o. Crise esta que procuramos realçar com maior acuidade em nosso ensaio intitulado Angola Entre a Realidade e o Mito, à espera de publicação, faz dois anos. Neste texto ensaístico demonstrámos por A mais B que a Antropologia Cultural e a História de Angola escrita por historiadores angolanos tardam a ser úteis ao derrube de comportamentos etnocêntricos, quanto anti-patrióticos, por se ter levado trinta anos sempre a adiar a criação da Faculdade de Ciências Sociais. A funcionar, esta Faculdade teria ajudado muito compatriota a avivar a sua memória, uma vez que povos banto e não banto teimam em esquecer que pertencem a consaguinidade de tronco e História comuns, no todo e em parte. Por esta falta irreparável de ensino destas duas disciplinas formadoras do patriotismo cava-se mais fundo fissuras na unidade nacional, ainda que caladas as armas de fogo. Quase todas as sub-comunidades angolanas alimentam uma doença que as leva a demarcarem-se umas das outras, por ignorância das origens, infelizmente apoiada por filósofos que teimam em continuar a alimentar mitos, segundo os quais cada sub-comunidade linguística constitui ainda hoje uma nação autónoma de facto e de direito, mesmo sabendo que desde séculos, os portugueses derrubaram os poderes reais das autoridades nacionais, transformando-as em meras figuras de retórica, poder cultural, simbólico, tornando-as, forçadamente, escravas da coroa de Portugal. Obtida a independência a soberania passou para a Angola de todos os angolanos, sendo descabida a impensável criação de soberanias locais das sub-comunidades linguísticas, sob pena de ruirem os alicerces do Estado angolano.

Somos de opinião que o tratamento da revisão do poder das autoridades tradicionais, alvo de Conferência Nacional no decurso de 2002, carece de ponderação à luz do equilíbrio das normas constitucionais de Estado moderno, único e indivisível.

Os independentismos reivindicados há anos atrás por alguns separatistas para algumas províncias de área linguística comum resulta da crise de identidade cultural, de gritante desconhecimento dos ditames da História Política internacional por parte dos desidentificados, uma crise da nossa personalidade colectiva, de raiz artificial, mais do foro afectivo que efectivo.

Esta crise urge aos vectores de consciência, aos agentes culturais qualificados, grandes realizações, para vencerem os desafios de permanente mobilização geral, para que todos se reconheçam de uma vez por todas membros da mesma comunidade em igualdade de origem e de direitos, não obstante os envolverem diferenças secundárias.

A não terçarem forças e determinação para a devolução dos angolanos à sua indentidade colectiva, o país verá agravar a chaga da despersonalização cultural, devido em parte à inércia de líderes destas causas, até agora indiferentes ao imperialismo dos programas de televisão negativos de países estrangeiros, contra o qual – reconheça-se – levará tempo a contrapor, enquanto o telespectador angolano não for capaz de ser educado a se apoderar de mecanismos mentais-culturais selectivos, capazes de o levar a separar o trigo do joio, e por outro lado, não lhe forem postos à disposição produtos culturais alternativos. De sua parte e colaborando com a invasão da maré negra cultural estrangeira, o Cú Duro e o Rap angolano, aliaram-se aos programas televisivos estrangeiros não recomendáveis, ensinando a crianças, juventude e adultos a civilização das asneiras, das palavras ocas e obscenas, da permissividade ética, dos pontapés a toda a espécie de ética aceitável, da substituição da riqueza musical do país, transbordante de poliritmias, e melodias fascinantes, por uma pancada rítmica monocórdica e de muito mau gosto estético.

Por outro lado, alguns jornalistas responsáveis de programas de rádio e de televisão nem sempre são críticos em relação à divulgação de superabundante joio cultural.

Que fazer para nos contrapormos a tanta humilhação da nossa cultura por nós próprios e pela poluição estrangeira? Mobilizar e apoiar materialmente os vectores de consciência (escritores, pensadores, artistas, lideres sociais, religiosos) para que mantenham viva a chama da identidade cultural, da nossa personalidade colectiva, usando os mais diversos meios de persuasão divulgação! Formar e valorizar os agentes culturais, estimulando talentos para que aumentem os produtos culturais em quantidade e qualidade. Favorecer o incremento do jornalismo cultural com jornais da especialidade e apoiar os responsáveis de programas nos Meios de Comunicação Social. Sugerir ao Governo o investimento a sério no pelouro da Cultura. Instar junto da comunidade política, governamental e civil para que os angolanos, de uma vez por todas não vejam a Cultura como parasita da economia, mas como produtora de bens rentáveis ( o disco, o livro, o filme, os quadros de pintura, as peças de escultura, o espectáculo artístico, os sítios e monumentos ligados ao turismo, se bem geridos).

É esta a nossa susgestão despretensiosa, apenas ditada por longos anos de experiência como teórico, criador e gestor de pelouros culturais

Sendo vastos os temas sobre a Cultura, preferimos ater-nos à questão da Identidade Cultural que julgamos fulcral, na mais profunda convicção que, despidos dela, rejeitando-a, agredindo-a até, aprofunda-se o distanciamento de nossa imagem semelhança como povo, tornando-nos pretensos e acéfalos cidadãos universais. O que é um contrasenso à luz da Filosofia, que no capítulo da Lógica Formal, ensina que do particular se vai ao universal, sendo o termo genérico universal o somatório da essências comuns dos valores culturais dos povos e não as suas diferenças específicas.

Luanda, 2 de Janeiro de 2002

Jorge Macedo

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