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Uma Estória Com Ou Sem Moral

Escrito por  João Melo
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O mano mais velho Jacques dos Santos – homem de múltiplos instrumentos, todos eles tocados com maestria – continua, infatigável e laboriosamente, a colocar as suas pedras no edifício literário angolano.

É caso para dizer: - Jacques, tu és um quadro!, citando aqui uma piada exclusiva, da qual, infelizmente, não posso dar mais detalhes. O que posso acrescentar é que se todos os manos mais velhos fossem como Jacques dos Santos, Angola seria um país bem melhor do que é actualmente.

Este escritor aqui é um caso atípico na história literária angolana, pois como se sabe, só começou a publicar quando já estava à beira dos 50 anos de idade. Aliás, nos últimos tempos, têm surgido outros casos idênticos, dos quais o mais mediatizado foi o de Júlio de Almeida, o ex, ou melhor, o sempre comandante Jujú. Os que gostam de curiosidades têm aqui um tema interessante a explorar.

Eu acompanho a obra literária de Jacques dos Santos desde o seu primeiro livro, «Casseca». Naturalmente, não vou proceder neste momento a uma apreciação global da sua obra. Mais deixam-me, pelo menos, observar que se trata de uma obra que se vem afirmando a cada novo texto. A contribuição de Jacques dos Santos para a consolidação da narrativa angolana é já um facto indesmentível.

Pediu-me o autor que, hoje, apresentasse a primeira estória do seu novo livro, «Kasakas e Cardeas». O título da estória - “ Um prédio do cão” - pode suscitar várias interrogações aos leitores que não estiverem sintonizado com o contexto sócio-linguístico angolano, os quais talvez esperam encontrar as peripécias de algum canino tuot court. É preciso alertar, portanto, que a expressão “do cão” deve ser entendida simplesmente como “incrível” ou “inverosímel”. Assim, os animais de que fala são de outros tipo.

A primeira observação que me ocorre fazer de “Um prédio do cão” é de carácter formal. Isto é um conto ou uma crónica? Sendo, aparentemente, a descrição de um incidente, sem qualquer enredo sustentando a narrativa, poderíamos pensar que se trata apenas de uma crónica. Mas, então, seria uma crónica igualmente incaracterística, pois o próprio incidente relatado - a morte do coronel Kimbango, gestor do “prédio do cão” - não é desvendado no final, quer dizer, seria uma crónica sem conclusão, o que não é usual.

Na minha opinião, “Um prédio do cão” é um verdadeiro missosso moderno. À falta de melhor palavra, podemos dizer, portanto, que é uma estória (sem agá). Uma estória feita de outras pequenas estórias, introduzidas no texto como pensamento in timos, apartes, comentários, peripécias paralelas, mas que - esse detalhe parece-me fundamental - não tem qualquer desfecho, terminado apenas com uma espécie de moral. Na verdade, a estória á só um pretexto para pintar um fresco sobre esta cidade “do cão” que é Luanda. A modernidade deste missosso reside principalmente no facto de a moral com que termina ser verdade, e como veremos daqui a pouco, uma anti-moral.

Ainda do ponto de vista formal ou estilístico, chama a atenção a opção do autor, que usa uma narrador meramente descritivo e sem nenhum envolvimento emocional com as personagens e muito menos com a própria estória. O narrador relata, não toma partido. Isso poderia tornar o texto demasiado asséptico, mas Jacques dos Santos, sabiamente, usa certas reflexões das personagens - compostas, inclusive, num tamanho de letra diferente - como contraponto ao relato do narrador, conseguindo com isso um ritmo ágil e dinâmico, capaz, só por si, de prender o leitor.

Cabe-me dizer, a seguir - e sem me antecipar ao prazer que certamente experimentarão ao ler a estória -, que “ Uma prédio do cão” é uma espécie de microcosmos da actual sociedade luandense, quiçá, mesmo, da sociedade angolana. Ali há degradação, corrupção, inversão moral, intriga, comércio sexual. Mas também também há resistência, humor, paixão, esperança, vontade de viver e, sobretudo, de mudar.

O que Jacques dos Santos faz nesta estória é, obviamente, crítica social e de costumes. Mas fá-lo sempre literaimente, que é o que se pede a um escritor. Com isso, Jacques dos Santos faz jus a uma das mais fecundas linhagens da literatura angolana, que já vem da transição do século XIX para o XX, mas que continua ainda a dar frutos.

É verdade que a estória termina de uma maneira que alguns, apressadamente, poderão considerar pessimista. Com efeito, depois da morte do coronel Kimbanga, o seu cunhado, brigadeiro Teimosia, em vez de preocupar-se em desvendar essa morte, apressa-se a providenciar o seu funeral e logo começa a fazer planos para se aboletar com o prédio gerido pelo falecido. “Isto tudo vai ser meu”, pensou ele, intimamente.

Não pude, confesso, deixar de evocar o célebre romance romeno «Um homem sem moral». Ao que parece, todos os países atravessam épocas de profunda inversão de valores e até mesmo de absoluta anomia ética. Como o autor daquele romance, Jacques dos Santos também soube captar, portanto, em “Um prédio do cão”, o espírito do seu tempo. Melhor, do nosso tempo.

É, sem dúvida, um final cínico. Mas acontece que, no fundo, e como disse alguém, todos os cínicos são românticos. Quem duvida, pois, que Jacques dos Santos, quer como escritor, que como cidadão, não concorda, em absoluto, que tudo isto aqui seja propriedade apenas de alguém?

Maculusso, 7 de Novembro de 2002.

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