testeira-loja

Murmúrios do espio: uma leitura sobre o olhar marginal e exilado da escrita de Lídia Jorge e suas personagens femininas em "A Costa dos Murmúrios Destaque

Escrito por  Sumaya Machado Lima
Classifique este item
(0 votos)

Partimos do pressuposto de que o romance de Lídia Jorge A Costa dos Murmúrios apresenta uma escrita pós-colonial e um posicionamento político feminino em relação à Guerra Colonial de Portugal na África. Assim, este artigo apresenta um breve resumo da obra, para, em seguida, desenvolver questões sobre o posicionamento social das personagens exiladas; depois comentar a vivência da escritora como mulher e exilada e, finalmente, tecer comentários sobre o seu lugar de fala e propósito da obra. Em suma, o artigo pretende interpretar o texto de Lídia Jorge, considerando sua vivência de exílio e relacioná-la ao seu posicionamento político no momento da escrita do romance.  

Sobre a narrativa do romance

HOTEL

La puerta es un ilusión.

Aquí uno no se queda aunque

permanesca. Es un lugar

de negociaciones.

Funciona con el movimiento.

Deseo, dinero, miedo,

crímenes no le pertencen.

Pero no hay hotel sin ellos.

Las puertas que mantiene

Son antes y siempre pasajes

para lugares de exilio.

(PEREIRA, Signo cimarrón, 2005)

 

Divide-se a obra de Lídia Jorge em duas partes. A primeira tem o título Os Gafanhotos, trata de um episódio de festa matrimonial entre um alferes do exército português, Luís Alex, e uma estudante de História, Evita – a narradora – no terraço do hotel Stella Maris, em Beira, Moçambique, onde estão alojados os noivos e um grupo de oficiais portugueses com suas famílias. Nesse breve relato, a festa acontece num espaço e tempo em que nada é mais importante do que dançar e rir intensamente, enquanto a Guerra Colonial acontece aparentemente fora dali. Aliás, naquele terraço, as pessoas não diriam que há uma “guerra”, “apenas uma rebelião de selvagens” (JORGE, 2004, p. 12). No entanto percebe-se que a guerra tornou-se inveterada no comportamento de cada um, de forma a naturalizar certas atitudes e aflorar inúmeros graus de violência nas personagens.

N’Os Gafanhotos, há relato de, pelo menos, dois momentos dramáticos: a ocorrência de “uma chuva de gafanhotos que passa abaixo do nível superior do Stella Maris” e de muitas mortes misteriosas como a morte do noivo, a de muitos negros envenenados por metanol e o óbito de um branco no meio deles, “puxado por um carro do lixo”, os chamados dumpers.

A segunda parte do romance, narrada por Eva Lopo, contém nove capítulos, nos quais Os Gafanhotos de Evita são revividos nas lembranças de Eva Lopo. Os capítulos dizem respeito a vivências que ela desenvolve amiúde e os desconstrói com seu olhar de mulher testemunha de particularidades da Guerra Colonial.

Eva Lopo é Evita após descobrir os maus agouros da guerra em África. Ao deixar o codinome na primeira parte do romance, a narradora parece avisar que uma outra mulher, a partir de agora, passa a contar: é melancolicamente mais consciente. Esta percebe as sequelas da guerra in loco. Especialmente seus efeitos na transformação de caráter de seu noivo, Luís Alex, um brilhante estudante de Matemática em Portugal que, após ingressar nas forças armadas lusitanas em África, passa a espelhar-se no modelo de heroísmo de um tal Capitão Forza Leal. Transforma-se num isensato alferes, orgulhoso por participar de desumanas operações de “limpeza” na Guerra Colonial.

A personagem-narradora parece obstinada por esse relato “sobretudo pela verdade do cheiro e do som. Não, não é pouco o cheiro e o som”, diz Eva Lopo ao iniciar a segunda parte do romance. A linguagem exuberante é plena de metáforas e sinestesias, descrições minuciosas e poéticas, repletas de digressões que remetem o/a leitor/a ao espaço-tempo das lembranças, lugar inebriante, real, imaginário, quase surreal. O relato, sem ordem linear, mas circular, é contado ao sabor dos ventos da memória, como que num estado de vigília, daí a aproximação surreal para predicar o romance.

N’Os Gafanhotos, há uma visão espetacular, romântica e unilateral da guerra. O que interessa é a exposição da verdade oficial que o Império Colonial veiculou. Assim, imagens harmônicas e deslumbrantes desfilam pela tela da mente de quem lê, ligeiramente anuviadas de causas e efeitos da guerra. Nada que um olhar sensível do/a leitor/a não possa torná-las visíveis. Numa cena de descontração, a autora deixa avistar, pelo comportamento das personagens, a sombra nociva e insana de idéias coerentes resultantes da inveterada guerra.  Por exemplo, numa conversa muito descontraída entre amigos, Evita ouve sugestões de repetidas estratégias para um determinado fim: a “esterilização persuasiva” para a “travagem demográfica” contra a explosão dos cafres.

“Nunca ouviu falar de esterilização voluntária? Nunca ouviu? Nunca ouviu falar da oferta de um rádio, dum simples rádio a troco da castração voluntária? Nunca ouviu? Por mim, minha senhora, estou com o nosso General – bastaria apenas anular os serviços de assepsia, para a natalidade inflectir como uma linha que se some!” ( JORGE, 2004, p. 24).

Ou ainda efeitos mais sutis que se podia ver como os “vergões que muitas delas [mulheres de oficiais] tinham pelas caras”(Idem, p. 33), agredidas por seus maridos, no dia da nuvem intensa de gafanhotos sobrevoando o Stella Maris. Cenas sutis a priori, cuja densidade aumenta ao longo da segunda parte. Aos poucos, sorve-se um vinho quente em taça de cristal: um conteúdo encorpado, forte, envolvente, mas desagradável é apresentado de forma elegante e transparente ao/à leitor/a.

A memória e a documentação histórica são os instrumentos de que  a narradora dispõe para apresentar a sua verdade, da qual ela não abre mão de buscar, desfiá-la e tecê-la à sua maneira, meio rebelde, meio irônica, meio real, mas franca.

Essa necessidade de delatar verdades paralelas e o olhar especial que matiza os acontecimentos parece estar bastante relacionada com a posição de um olhar diaspórico, próprio de quem viveu um exílio. É isso que se apura em compreender, a partir de agora, na escrita de Lídia Jorge e em algumas personagens de A costa dos Murmúrios, no decorrer desta leitura. Isto é, interpretar o texto de Jorge, considerando sua vivência de exílio e relacioná-la a seu posicionamento político no momento de escrita do romance. Para esse exercício, serão enfocadas personagens femininas.

O exílio em algumas personagens de Lídia Jorge

Um emigrado pode ser considerado exilado? Se um expatriado é um emigrado, logo, está em exílio? Alguém pode se sentir exilado estando em seu próprio país? Certamente, há estados de exílio na escrita de Lídia Jorge e algumas de suas personagens no romance A Costa dos Murmúrios. Para começar a pensar nesses estados, é preciso esclarecer alguns significados do termo exílio, contudo, sem propósito de reduzi-los a definições.

Edward Said verifica algumas distinções entre exilados, refugiados, expatriados e emigrados. Afirma que

“o exílio tem origem na velha prática do banimento. Uma vez banido, o exilado leva uma vida anômala e infeliz, com o estigma de ser um forasteiro. (…) Os expatriados moram voluntariamente em outro país, geralmente por motivos pessoais ou sociais. (…) [Não são obrigados a viver exilados] “Eles podem sentir a mesma solidão e alienação do exilado, mas não sofrem  com suas rígidas interdições. O emigrados gozam de uma situação não ambígua. Do ponto de vista técnico, trata-se de alguém que emigra para um outro país. Claro, há sempre uma possibilidade de escolha, quando se trata de emigrar. Funcionários coloniais, missionários, assessores técnicos, mercenários e conselheiros militares podem, em certo sentido, viver em exílio, mas não foram banidos. Os colonos brancos na África, em partes da Ásia e na Austrália podem ter sido inicialmente exilados, mas em sua qualidade de pioneiros e construtores de uma nação, perderam o rótulo de “exilado””. (SAID, p. 54)

Desse modo, pode-se considerar respostas possivelmente afirmativas às indagações iniciais e considerar que, se há como alinhavar num tecido as distinções acima, a linha é o sentimento de Exílio, com ressalvas aos colonizadores e aos colonos de África, Ásia e Austrália.

Logo, Evita é uma expatriada, já que o motivo pessoal que a move é o casamento com Luís Alex. E este é um emigrante por razão militar imperialista. Assim, por extensão, podem-se classificar as outras mulheres dos oficiais expatriadas e os oficiais emigrados. É possível, identificar olhares e circunstâncias bem diferenciadas entre os que participaram da guerra num contexto privado e outro belicoso.

As personagens femininas descritas por Evita são descritas pateticamente, como figurantes; não apenas aquelas de sua festa de casamento, tão ornamentadas que parecem bonecas pouco articuláveis; mas também uma personagem mais significativa, como a ruiva mulher do Capitão Forza Leal:

Destacava-se por ela mesma e pela cabeleira que era constituída por uma espécie de molho audaz de caracóis flutuantes que lhe caíam de todos os lados, como uma cascata cor de cenoura, enquanto os cabelos das outras mulheres, por contraste, eram dum castanho-escuro, sarraceno, ora passado a ferro pelas costas abaixo, ora em balão tufado do feitio duma moita, como então se usava. Evita conseguiu perceber também que entre a cor das unhas e a cor do cabelo, apenas havia um tom intermédio. Isso quando ela estendeu a mão. (JORGE, 2004, p. 11)

As personagens femininas também são figurantes no sistema social do qual faziam parte e no sistema da Guerra Colonial. Não participavam politicamente, antes, delas eram ocultados os assuntos militares. Pareciam meros pares para seus oficiais de guerra. Matriz reprodutiva e reprodutora de lares para seus oficiais. Tão figurantes no relato de Evita, que podiam ser consideradas produtos ou propriedades de seus oficiais ou objetos de sua diversão. Divertiam-se com elas de acordo com seus humores. Às vezes, rodopiavam-nas e as enlaçavam numa dança. Outras vezes, elas serviam de exemplo de brincadeira menos doce nas mãos de seus oficiais, como o caso de Helena e Forza Leal. Num determinado momento, ele “naturalmente” a esbofeteou, por ser Helena tão bela a ponto de concitar “olhares que choviam como dardos”. Mas em seguida puxou-a para si e ela “entregou a cara, a lágrima e o cabelo, encostando tudo isso ao ombro dele, naturalmente”. Aliás, esse foi bom exemplo de diversão seguido por outro par, cujo impacto da mão fechada do marido fez a mulher quase saltar da borda do terraço do Stella Maris. Um ato romântico perturbador, pois imediatamente o marido lhe ampara com um golpe de judô e em seguida já estão a trocar “todos os líquidos que ali era possível trocar – um fio de sangue escorria do orifício do ouvido dela. Pingava no chão.” (Idem, p. 30)

Em geral, as personagens femininas descritas por Eva Lopo nem nome próprio têm: é a mulher do Astorga, é a mulher do Fonseca, é a mulher do tenente Góis, é a mulher do capitão Pedro Deus, a mulher do piloto Fernandes, a mulher do Ladeira, a mulher do Zurique.

O tipo de exílio que transparece nessas figurantes pode representar mulheres reais, cujo exílio está para além de serem expatriadas e privadas de seu lugar de origem. A reificação sofrida por essas figurantes no romance é agressiva aos olhos contemporâneos, e torna-se menos ficcionais, ao se problematizar a situação daquelas mulheres, tão vulneráveis quanto alienadas em terra estrangeira. Verificar as circunstâncias da vulnerabilidade e alienação dessas personagens na Guerra Colonial, mostra-nos outras faces desse conflito.

Por que uma daquelas figurantes não se rebelava? Poderiam recorrer por seus direitos, mas se o fizessem a quem o fariam? Que lei as protegeria na Guerra Colonial? Haveria um órgão que as apoiaria? Teriam consciência de que poderiam tentar se organizar e se defenderem umas às outras de alguma maneira? Parece que não, talvez a narrativa de Evita esteja lá para denunciar verdades paralelas, o olhar de quem viveu a Guerra Colonial numa outra posição, num outro lugar: aquele de dentro de casa, que olha para os que se consideram donos da casa, donos de tudo. É o olhar do privado para o público, para a guerra e paralelo à História Oficial. Relata, através de um olhar feminino, uma outra abordagem da História.

A narrativa de Evita apresenta a coexistência de um tipo de exílio metafórico. A privação daquelas figurantes está na pele, na privação do respeito, de seus direitos. Elas são, além de tudo, “naturalmente” reificadas pela cultura falocêntrica em que vivem.

Num texto de nome muito significativo, Exílio na Pele, Simone Schmidt analisa o romance Desmundo, de Ana Miranda e Tiara de Filomena Embaló e sugere que as personagens femininas desses romances vivenciam o Exílio como desterritorialização e como perda, mas também como exclusão, ou seja, como condição de quem perde seu lugar social de indivíduo no mundo.

“Se, em Desmundo, a condição do exílio de certo modo prolonga uma exclusão impregnada desde sempre na pele das órfãs expatriadas, em Tiara, o exílio é vivenciado pela protagonista como perda radical de direitos. Tiara é uma jovem pertencente a uma família de posses em um país africano dizimado pela guerra civil, que se segue à sua independência. Lutas fratricidas por motivos raciais tornam impossível a permanência de sua família em Porto Belo, seu país natal.” (SCHIMDT, 2004, p 198)

No caso do romance de Lídia Jorge, ser exilada igualmente representa a perda de direitos, de individualidade e de ânimo, como já mencionado, no caso das mulheres alojadas no Stella Maris, que são descritas por Evita como parte dos bens de seus maridos oficiais do exército português. Embora estejam elas do lado dominante da guerra, são excluídas em muitas decisões políticas.

Talvez haja uma outra semelhança na condição entre o exílio das órfãs de Desmundo, que partiam de Portugal para o Brasil, a fim de se casarem com os portugueses que no Brasil estavam e as mulheres do romance que partiam de Portugal para África, ou a fim de desposarem oficiais ou de acompanhar seus maridos militares. Sabe-se de histórias de mulheres portuguesas que iam para a África a fim de desposarem militares, cujas poucas informações sobre eles estavam descritas num pequeno anúncio de classificados de jornais. Ao chegarem à colônia, eram surpreendidas por um mundo bastante diverso e limitador. As órfãs de Desmundo também passaram por isso, mas numa outra instância. E no caso da personagem Evita, ela já conhecia o noivo antes de partir para a África, mas conhecia o jovem noivo, estudante de matemática, que terá seu caráter transformado ao servir as Forças Armadas em África – um indicador do romance para assinalar as consequências da guerra. O que há de semelhante entre essas histórias de mulheres que partiram de Portugal em exílio, é o fato de que elas são surpreendidas por um mundo completamente outro, mais misógino por ocasião da guerra, ainda mais confinador de sua liberdade e subjetividade. E veem a História sob um outro ângulo, não menos autêntica e fragmentada. De uma maneira geral, todas passam por esse tipo semelhante de exílio, de perda.

As protagonistas de Desmundo e Tiara analisadas por Schmidt, entretanto, são dotadas de um ânimo ausente na personagem-narradora, Eva Lopo, e na personagem Helena de Tróia, tão recobrada no romance. Evita parece desprovida de atitude. Ela permanece em sua posição de “olho gigante” observador dos acontecimentos e das pessoas, é alienada em solo estrangeiro. Ainda que todos já a chamassem “simplesmente de Evita” seu olhar é sempre de estranheza. Mas suas atitudes são de uma exilada quase apática, certamente, sem a indignação de Oribela e Tiara.

Não obstante, por um lado, isso parece realçar o estado atônito permanente das personagens (como se as forças lhes esvaíssem, ao presenciarem tanto absurdo no cotidiano da Guerra Colonial).  Por outro lado, ambas as personagens, Evita e Helena, parecem menos apáticas ao fugir de seus aprisionamentos sociais, quando experimentam transgredir a regra matrimonial mais elementar para oficiais tão viris: a fidelidade conjugal (de suas mulheres). Ambas traem seus esposos. Todavia, a maneira que o fazem, não parecem fazê-lo para afrontar desmando de marido ou para provar do sentimento de autonomia que uma escolha dessas suscita. Parece ser por motivo circunstancial, como que fossem levadas pela situação e sem conflitos íntimos. Aparentam um estado letárgico permanente e a autora destitui suas personagens de rebeldia. Há um indício de conformidade da repressão da ideologia predominante da Guerra Colonial entre elas, cujo propósito é o de mostrar a reprodução dessa ideologia por personagens que talvez devessem mostrar sensibilidade, questionamento e aversão a ela, não apatia, como Helena, cuja identidade é abafada por um marido militar dominador.

A personagem Helena experimenta a mesma situação de “desmando” que Oribela, quando estão “sem homem a ordenar” (SCHMIDT, p. 203) no espaço da casa, quando é tempo dos maridos saírem a guerrear. Porém, enquanto Oribela experimenta um momento de desierarquização em que “mulheres, branca e indígena, acham bom viver. Laços horizontais se estendem, enredando a partir de uma outra lógica, não vertical, aquelas que se encontram nas margens da ordem colonial” (Idem ibidem).

Helena, porém, acentua as verticalizações e abismos sociais e ignora estar à margem da ordem colonial. Ela reproduz a situação de colonizador e colonizado, dominador e dominado com a negra mainata, Odília, que vem servi-la, vestindo luvas brancas – apropriadas para as mãos de homem. A mainata serve refrescos em bandeja prateada e no seu caminhar, vê-se sapatos inadequados para seu tamanho, sapatos que ela arrasta pela sala. Odília não usa uniforme, mas luvas brancas. A propósito, o que está na metáfora das luvas brancas que Helena impõe à Odília? A cor da pele de Odília é contrastante com as luvas brancas. Brancas para encobrir sua origem e identidade ao cobrir suas mãos de cor negra? O que encobriria essas luvas? Que resistência, como sinônimo de transgressão, estaria na cor por baixo das luvas brancas tão insistentes no romance? Em que a cor da pele de Odília poderia perturbar a submissa palidez de Helena? A Helena submissa política, social e sexualmente…

Desse modo, há uma posição de testemunho dos acontecimentos por parte dessas personagens, sem a interferência consciente e transgressora neles. Talvez isso assinale a imensa repressão em que viviam, ou sua voluntária ignorância. Desse modo, o propósito da autora parece ser o de deixar para o/a leitor/a a tarefa de elaborar sua crítica na crítica subliminar do romance. A escrita de Lídia Jorge provoca-o/a, sutilmente, a fazer sua própria transgressão da História Oficial.

Na verdade, o livro mostra como o Colonialismo apaga a identidade de todos nas relações das personagens. Ou se pensa que apenas a mainata tem sua identidade encoberta pelas luvas brancas? Os oficiais do exército português, no romance de Lídia Jorge, estariam safos do apagamento de suas identidades?

No romance, a representação desse apagamento sutil está na pouca importância que se dá ao aprofundamento psicológico das personagens militares. No fato de que poucos oficiais têm seus nomes originais completamente citados, assim como as mulheres do Stella Maris. Os homens ou são citados por Evita pelos seus codinomes ou por suas funções militares e adjetivos. Temos o Major de dentes amarelos (para Evita, parece sujo, mas “ele é um africanista”); o Pára-quedista lesionado: o Comandante da Região Aérea (de passagem a caminho de Mueda); outro Pára-quedista lesionado; o Ajudante de Campo do Comandante da Região Aérea. Enfim, somente dois nomes são citados logo na primeira parte da narrativa. O nome do noivo, Luís Alex e de seu capitão Jaime, cujo sobrenome é bastante sugestivo para o contexto de guerra: Forza Leal.

Todas essas personagens são planas. Luís Alex poderia surpreender ao final da narrativa, porque parece ter consciência de que quem faz a guerra fica no seu gabinete a manejar a vida de seus subordinados como se eles fossem marionetes.

“[Luís Alex] já não tinha mais pena dos velhinhos que não tinham ido a nenhuma guerra, agora achava indecentes esses velhinhos que mandavam mal, faziam fugir o inimigo em vez de o surpreender, que nem acabavam a guerra nem a desenvolviam e vinham mentir nas conferências de Imprensa. Fingiam.” (JORGE, 2004, p. 272)

Mas, apesar de Luís Alex surpreender Eva Lopo com essa observação, não a convence. A repentina demonstração de sua capacidade para compreender, à sua maneira, as metáforas do poeta jornalista Álvaro Sabino, que ele ouvia na declamação de Eva Lopo igualmente não a convence. A desesperança de Eva desconstrói a possibilidade do alferes conter ainda a essência de si mesmo:

“O antigo estudante, criador actual de letras de canções de mato, não tinha paciência para ler, mas de facto decifrava de ouvido todas as metáforas [nas notícias de jornal lidas por ela para ele]. Eu estava errada – tinham-no transformado num músculo animado por um pedaço de espírito que nunca lhe tinha pertencido – era um pedaço de espírito estrangeiro e exterior” (JORGE, 2004, p. 275).

No caso do alferes, o motivo de sua emigração provocou-lhe o banimento de si mesmo. Perdeu-se de si, esvaziou-se de seus princípios. E ao seguir as observações do olho gigante de Eva, vê-se que a perspicácia de Luís Alex em decifrar de ouvido aquelas metáforas, nada mais é que sua fome por combate e morte. Talvez buscasse a própria. Talvez já estivesse morto, pelo menos, para Eva.

O exílio na escrita de Lídia Jorge

O sentimento de exílio será o diferencial na leitura-escritura de mundo de Lídia Jorge, especialmente, em A Costa dos Murmúrios. Interessante notar que, na biografia da escritora, há a experiência de expatriação e como já foi observado, no seu romance, Evita igualmente é expatriada e o exílio pode ser verificado nas personagens de uma forma ou de outra. Said faz um comentário que parece dar sentido a essa correspondência entre a vida da escritora e de suas personagens.

“Grande parte da vida de um exilado é ocupada em compensar a perda desorientadora, criando um novo mundo para governar. Não surpreende que tantos exilados sejam romancistas, jogadores de xadrez, ativistas políticos e intelectuais. Essas ocupações exigem um investimento mínimo em objetos e dão um grande valor à mobilidade e à perícia. O novo mundo do exilado é logicamente artificial e sua irrealidade se parece com a ficção.” (SAID, p. 198)

Lídia Jorge é considerada uma das romancistas de maior sucesso na literatura portuguesa contemporânea. Em 1970, ela parte para a África, onde dá aulas em Angola e Moçambique. Posteriormente regressa a Lisboa, leciona na Faculdade de Letras de Lisboa e interrompe sua ocupação docente para desempenhar funções na Alta Autoridade para a Comunicação Social. Assim, a sua vivência no ambiente da Guerra Colonial, será rememorado mais tarde, através do olhar da mulher de um oficial do exército português, no romance A Costa dos Murmúrios (publicado primeiramente em 1988 e rapidamente traduzido em sete línguas).

Esse romance é menos sobre a guerra colonial e seus massacres, que as motivações das violências físicas ou simbólicas sofridas ou agenciadas pelas personagens do romance. Há uma visão distanciada e interpretativa dessas motivações, pelo olhar de quem fica, não de quem vai guerrear. Está ligado aos problemas coletivos e cotidianos desse período, especialmente problemáticas relativas à mulher.

A propósito, seu livro rendeu um filme homônimo de Margarida Cardoso, cuja biografia, ironicamente, contém traços semelhantes à da autora, pois Margarida Cardoso igualmente viveu na Guerra Colonial, todavia, no período de 1965 a 1975, na atual Maputo e em Beira, Moçambique, cidade do romance de Lídia Jorge.

Ressaltar brevemente suas biografias é apontar para correspondências, a fim de se entender verdades desse contexto colonial, de se ficar mais próximo da verdade, conforme o desejo da narradora. A intenção de sabê-las é tocar noutras realidades pelo olhar de quem viveu um Exílio, neste caso, especialmente pela lente do universo feminino. Afirma-se isso sem nenhum receio de ferir pensamentos pós-estruturalistas derridianos ou bartesianos que consideram a morte do autor. Logo, que desconsideram qualquer diferença entre escrita de mulher e de homem. Ora, para além das ressalvas sobre esse posicionamento (que renderiam discussões para um outro artigo), há uma entrevista concedida em 2002, na qual Lídia Jorge comenta o que seu posicionamento de indivíduo no mundo interferiu na leitura da Guerra Colonial. E afirma o seguinte a respeito das correspondências entre biografias, filme e livro:

Livro e filme teriam sido certamente diferentes se assinados por alguém que tivesse feito a guerra, tivesse passado pela experiência directa da morte e do decepamento, ficando assim definitivamente aniquilado para a subtileza. É preciso dizê-lo, a guerra colonial portuguesa foi sádica e violenta. A sua componente trágica é que a família de alguns militares estava lá, para que tudo parecesse natural, como se a guerra não passasse de uma simples “missão de soberania”. As famílias eram voyeurs que não combatiam, mas ouviam os relatos, e a quem acontecia tomarem  um pequeno-almoço com um piloto pela manhã, e verem-no chegar horas depois morto, dentro de um saco. Essa experiência recuada permite um outro tipo de leitura dos acontecimentos. O que me une à Margarida Cardoso foi o termos sido poupadas à experiência directa, é isso que nos permite ter guardado não o distanciamento, mas o olhar da espia1. [Grifo nosso]

E a entrevista de Margarida Cardoso coaduna com o depoimento da escritora. Ao ser indagada sobre em que sentido A Costa dos Murmúrios não é uma história, mas uma história autobiográfica, Margarida Cardoso responde:

“No fundo é [autobiográfico], mas só no sentido em que são as minhas experiências pessoais, as minhas emoções e recordações – muito mais que uma lealdade cega à adaptação do livro –, que me serviram de referência para o filme. Por exemplo, agora quando vejo o filme parece-me claro ser mais um filme sobre a violência do que sobre a guerra. Porque senti a guerra, e ainda a sinto, como uma espécie de violência em ricochete, uma violência em eco… O que chegava ao mundo a que eu pertencia, que era o mundo das mulheres e das crianças, era uma violência quase “doméstica”, vinda neste caso dos homens que tinham estado na guerra e que, ao voltar, exerciam essa violência sobre tudo o que os rodeava, de uma forma inconsciente. A violência sobre as mulheres era muito comum, por exemplo. Estava sempre latente, sentia-se imenso e era algo muito ofensivo.” 

Parte dessa declaração é passível de se fazer uma associação com as vivências das personagens de Lídia Jorge, especialmente o que se grifou. Quando ela relembra do ambiente opressivo em que começam a morrer muitos militares e, no hotel onde ela vivia, havia sempre um ambiente de morte nele, mulheres consolando outras, diante de crianças estupefatas.

Enfim, aproximar essas biografias é tangenciar verdades da História ignoradas na História oficial. É ampliar a leitura e a compreensão de mundo, de culturas, de vidas.

Murmúrios do espio: propósitos de um olhar marginal

Para tanto, siga-se o conselho da personagem-narradora em A Costa dos Murmúrios, quando se dirige-se ao/a leitor/a com ar de ironia, daquele tipo de ironia com a qual os leitores/as de Machado estão habituados/as: desconcerta o pensamento e deixa um fio de riso num canto de lábio do leitor:

“Aconselho-o, porém, a que não se preocupe com a verdade que não se reconstitui, nem com a verossimilhança que é uma ilusão dos sentidos. Preocupe-se com a correspondência. Ou acredita noutra verdade que não seja a que se consegue a partir da correspondência? Por favor, estamos longe do tempo em que se acreditava no Universo como uma criação saída dum espírito preocupado com a inteligência e a verdade, quando tudo – julgava-se – se reflectia em tudo como uma amostra, um espelho e um reflexo.” (JORGE, 2004, 42-43)

A personagem-narradora parece convidá-los/as a abandonar qualquer ingenuidade, sem ignorar, contudo, a imaginação para preencher lacunas da realidade. Eva Lopo soa amadurecida pelas reflexões que fez da vida e parece não se iludir com as armadilhas da memória, “Convenhamos que me lembro imperfeitamente, o que não deve ter nenhum significado secundário”.  Mas há imensa necessidade de registrar o que se lembra, já que “uma memória fluida é tudo o que fica de qualquer tempo, por mais intenso que tenha sido o sentimento, e só fica enquanto não se dispersa no ar. Embora, ao contrário do que pensa, não ignore a História.” (Id. Ibidem, 2004, 42)

Não tem pretensões de esclarecer as obscuridades, “é assim que me lembro ainda que para nada” (Idem, 2004, 142), diz Eva Lopo diante de documentos confidenciais em caixas seladas e rotuladas para serem destruídas, guardadas num cofre na casa do admirável capitão Forza Leal.

Não obstante, a personagem-narradora precisa relatar, tentar preencher lacunas, importando muito pouco se o/a leitor/a lhe dará credibilidade. Para ela, basta “uma correspondência pequenina, modesta, que ilumine apenas um pouco da nossa treva (…) isso não seria uma conquista razoável?” (Idem, 2004, 42).

Desse modo, A Costa dos Murmúrios faz notar que não existem verdades absolutas, mas verdades relativas ou posicionais. A costa dos murmúrios é uma porta que dá passagem a outros lugares, outras memórias, outros exílios, outras verdades não inseridas na História Geral, como no poema Signo cimarrón de Edimilson Pereira (2005). O propósito maior está no esforço de não se deixar morrer a memória das vivências paralelas à História. E, quem sabe, ampliar o entendimento de ambas. É possível deduzir esse propósito não apenas na narrativa ficcional, mas também das observações da própria autora:

“À medida que os anos se passavam - e não eram tantos assim -, apercebia-me que a memória das coisas desaparecia completamente. Comecei a ser assaltada pelo sentimento de que tinha espreitado um momento particular da história da Europa em relação a África. E de que a história o traíra na sua essência. Porque se estava a dar apenas os relatos oficiais das coisas. E os sentimentos humanos? E os milhares de mortos não tinham uma cruz verdadeira sobre a sua sepultura? Então, fiquei com uma necessidade enorme de fazer reviver figuras, figuras que eu tinha conhecido no auge da juventude. A maior parte delas já não existiam - umas porque tinham morrido fisicamente, outras porque desapareciam em vidas lamentosas e anódinas -, mas eu tinha um desejo enorme de as fazer viver. Naturalmente, não sou capaz de criar figuras a partir de seres existentes. São, portanto, abstracções, criações laterais em relação às figuras verdadeiras. Mas são uma homenagem para que elas não se apagassem. Aliás, é por isso que esse livro se chama “A Costa dos Murmúrios”. É a ideia de que a história se apagava.”[2]

Assim, A Costa dos Murmúrios parece ser a costa – ou o ponto limítrofe – do quase apagamento, do quase fim, do quase derradeiro fim. É o que se pode conferir nas últimas palavras da narradora no relato que elaborara sobre suas vivências na Guerra Colonial de África: “A pouco e pouco as palavras isolam-se dos objectos que designam, depois das palavras só se desprendem sons, e dos sons restam só os murmúrios, o derradeiro estádio antes do apagamento – disse Eva Lopo, rindo. Devolvendo, anulando Os Gafanhotos”. Mas que é preciso delatá-lo.

A consciência de existirem outras verdades e – procurá-las através das correspondências – remete ao reconhecimento de um hibridismo, de uma consciência diaspórica de fronteiras mais como lugar de passagem (Cf. HALL, 2003, p. 27). Es un lugar de negociaciones. (PEREIRA, 2005). E o intuito maior nisso está não no propósito de lamuriar perdas e atacar Histórias Oficiais que deixam exilados à margem. Mas de repensar lugares e certezas. Stuart Hall comenta que esse desvio através de passados capacita, através da cultura, produzir a “nós mesmos” de novo, como novos tipos de sujeitos, portanto, de repensar a sociedade, de questionar e de renegociar o posicionamento que se tem no mundo.  Afirma Hall que a questão não está no que as tradições fazem de nós, mas “daquilo que nós fazemos das tradições” (HALL, 2003, p. 44). Mesmo porque o devir jamais será um retorno no lugar que se estava ou a que se achava pertencer. Antes, é preciso negociar o devir a todo momento.

Finalmente, do exílio que se lê na leitura-escritura de Lídia Jorge, fica o aprendizado de realidades outras. Da certeza de que tudo é incerto. E de que apreender toda a verdade talvez seja possível apenas no ficcional. Mas nele também é fácil se perder em tantas outras verdades… As realidades podem ser variadas e inúmeras.

Enfim, nada como o olhar gigante de um poeta para dar desfecho às considerações do olhar aprendiz.

 

VERDADE

A porta da verdade estava aberta,

Mas só deixava passar

meia pessoa de cada vez.

 

Assim não era possível atingir toda a verdade,

Porque a meia pessoa que entrava

só trazia o perfil de meia verdade.

E sua segunda metade

Voltava igualmente com meio perfil.

E os meios perfis não coincidiam.

 

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.

Chegaram ao lugar luminoso

onde a verdade esplendia seus fogos.

Era dividida em metades

Diferentes uma da outra.

 

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.

Nenhuma das duas era absolutamente bela.

E carecia optar. Cada um optou conforme

Seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

(ANDRADE, 2010)

 

 

Bibliografia

ANDRADE, Carlos Drummond. Verdade. Disponível aqui. Acesso em: 26 out 2010.

HALL, Stuart. Pensando a diáspora, reflexões sobre a terra no exterior, in: SOVIK, Liv (org.). Da diáspora – identidades e mediações culturais, trad. Adelaine La Guardiã Resende, Belo Horizonte: Editora UFMG, Brasília: Representação da Unesco no Brasil, 2003.

JORGE, Lídia. A Costa dos Murmúrios, Rio de Janeiro, Record, 2004.

AZEVEDO, Andréia. Considerações sobre A costa dos murmúrios, Revista Buala. Disponível em BUALA. Acesso em: 19 out 2010.

PEREIRA, Edimilson de Almeida. Signo Cimarrón, Belo Horizonte: Mazza Edições, 2005.

SAID, Edward W. Reflexões sobre o exílio e outros ensaios, tradução Pedro Maia Soares, São Paulo: Cia das Letras.

SCHMIDT, Simone. Com o Exílio na Pele, In: COSTA, Cláudia de Lima & SCHMIDT, Simone (org). Poéticas e políticas feministas, Florianópolis: Editora Mulheres, 2004.

 

Artigo originalmente publicado na Revista Labirintos: revista eletrônica do núcleo de estudos portugueses. Universidade Estadual de Feira de Santana.

Fonte. Site Bula

Ler 4827 vezes

Contacto

AV. Ho-Chi-Min, Largo das Escolas
1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

Telefone: (222) 322 421 Fax: (222) 323 205

e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Blogs

blogspotuea1    blogspotueamulembeira           blogspotueanguimba
         
ytlogo2   blog-poetenladen   logotips