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Vocações Tardias

Escrito por  Dario Melo
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Diz-se que as vocações tardias são firmes e sem vacilações. Pela experiência de vida que as enriquecem; por namorada paixão que a pouco e pouco se ajuntou e cresceu; por obra de um desejo profundo de há muito estimado e apetecido.

Vocações tardias (as mais conhecidas e faladas) são a dos religiosos que chegam aos seminários e conventos já muito na idade adulta, deixando para trás uma vida estabelecida e confortável; Vocação tardias são também, as do homem mais-velho que descobre a escrita, do artista menos jovem que se encontra com a pintura, a escultura e outras artesanias, do homem sem pretensões, que acha que tem jeito para fazer coisas, e faz.

Pegai na Bíblia e vede, como Deus é também uma vocação tardia. Ele que Era o que É, sem antes nem depois, chegou às portas do tempo e pintou, na tela incolor do caos, o dia e a noite, e separou as águas e afastou as terra, moldou os animais e enramou as árvores, traçou o caminho dos rios e precipitou as águas pelas cachoeiras, córregos e torrentes, animou Adão com o seu sopro divino e rematou a Sua obra, trazendo ao mundo a perfeição da mulher.

Compreende-se melhor, a partir deste exemplo absoluto, como as vocações tardias podem ser tão absolutamente definitivas.

Assim Jacques dos Santos que chegou à literatura enganado no calendário, tendo começado à sexta-feira da sua meia idade, quando se aproximava já o sábado preguiçoso e apetecido do descanso. Esquecido dos ócios, foi andando pelas semanas dos livros seguintes, até chegar a hoje em que nos traz três historias reunidas num único livro: “ Kasakas & Cardeais”.

“O Coronel do Prédio do Cão” é o retracto fiel de Angola de hoje (estranha, esquemática, distante e egoísta, onde cada qual trata de si, solidária e próxima, onde cada um procura saber o que se passa com a vida do outro) instantâneo que já vos foi apresentado.

Ali estamos nós também: a espreitar varandas, a discutir vizinhanças, a cobiçar belezas, a namorar estórias, a sonhar vidas descansadas e prósperas que nunca nos acontecerão.

Do “Kasakas & Cardeais” que dá título ao livro, já vos disseram, como esta estória é uma espécie de “ Geração da Utopia” embora reescrita e inventada de um modo diferente.

Mesmo assim, apesar de serem pássaros, viverem na parte mais alta da nossa terra, morarem no cimo das árvores, beiras de rocha e muitos poucos ao rés do solo que pisamos, seremos ainda nós que aqui estaremos - quando olhamos o futuro e não vislumbramos mais que fragilidades e negruras; Quando regressamos ao passado e dele não recolhemos, além das mortas e estilhaçadas bem-querenças que sonhámos;

Quando sabemos o tanto que nos custou andar sem construir, caminhar sem abandono nem rendição e veremos hoje, e pensamos hoje, que talvez não tenha valido a pena o sacrifício teimoso da persistência.

«Kasakas e Cardeais» somos nós também que só na cegueira do desespero conseguimos adivinhar a sementeira da mudança nos sonhos apetecidos de Novembro.

Fiz o alinhavo das estórias já aqui tratadas, para melhor chegar à que me coube em sorte apresentar. Todas elas têm em comum a terra em que decorrem e a gente com quem convivem. Todas elas são Angola que se desenha, que se desenvolve, que se ilumina ou enegrece, consoante o ponto de vista de onde é retirado o pedaço de vida que o autor vos traz.

“A PRAGA DE NGANA ZUÁ DIÁ KIMUEZU” é uma narração que percorre toda História de Angola. Desde os tempos de Paulo Dias de Novais, até ao seu sobrinho tetraneto - o João Dias - que aqui aparece a reclamar o direito que tem aos teres e haveres que o seu avó lhe terá deixado, que faz pacto com o diabo, que morre nos momentos convenientes e ressuscita quando a ocasião é apropriada, que toma para si o que diz ser seu, que mata, que violenta, que pune, que não conhece a justiça, que não tolera a misericórdia, nem se revê no amor.

Aqui, não estaremos nós - que os mitos são feitos da carne pútrida da história, mas daqui nos alimentaremos nós, porque é aqui que a cultura vem beber também, o sentimento, a identidade e a diferença.

Esta é no fundo, uma história de guerra, e, como tal, ocupada em grande parte do seu espaço pela estranhíssima figura de Cyrus Dias Matapau - general que não se sabe muito bem de que lado combate, a que exércitos pertencem os seus galões, ora verdes, ora vermelhos, de que benefícios se apropria quando procura reconstruir a casa grande de seu pai.

Cyrus Dias Matapau que é e não é João Dias - mas seu filho; que é e não é o diabo, mas a continuidade de um pacto que com ele se cumpre; que vive num isolamento pesado e sem conforto, porque a febre do poder que pretende não se compadece como outro tipo de comportamento. Do tetravô herdou um nome (ninguém sabe se verdadeiro e seu); Do tetravô exibe um papel de donatário (que ninguém viu nem verificou); ao tetravô remete a legitimidade de uma herança que nunca foi sua.

Da guerra fala-se pouco. Das motivações desta guerra menos que nada. Como se ela unicamente existisse para justificar o general que existe.

E agora, que já começamos a falar de paz com a ligeireza de quem nunca teve guerra perguntaríamos: a guerra é uma vocação histórica, ou um acidente na história?

Os generais foram inventado por necessidade de um conflito, ou são eles a causa desse mesmo conflito?

Isto terá querido o autor perguntar. Não perguntou. Matou o general e, como nos contos de fadas, houve Paz e foram todos muitos felizes.

Texto de apresentação do Livro "Kasakas & Cardeais", de Jacques dos Santos (ler o seu verbete no link Bio-quem).

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