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Todos os Tyls do Mundo Saberão Que Valeu a Pena a Dor

Escrito por  Carlos Ferreira
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Dizia meu Pai, e com muita honra o cito e apresento que "as pretensas artes estéticas puras, mistificações da teoria da arte Burguesa, que pretendiam ignorar as contingências materiais do mundo em volta e fixa.

Dogmática e definitivamente os cânones eternos do belo, opuseram-se os criadores com a arte social indissoluvelmente ligada a actividade dos homens em sociedade, como aliás, já reflectira Plekhanov", fim de citação.

A esta hora já não devia estar aqui presente para dar ao Jacques dos Santos, em primeiro lugar, o abraço de solidariedade que merece pelo esforço que vem desenvolvendo há anos em prol da Literatura Angolana, da sua divulgação e respeitabilização, quis o acaso que a minha partida fosse adiada e devo dizer que estou muito satisfeito por isso.

O Jacques sabe que tenho tentado manter-me, com modéstia e rigoroso sentido da minha pequenez, com a mesma lucidez do Tyl dos «Kasakas e Cardeais», como ele próprio e alguns outros e outras, infelizmente cada vez menos, que tendo condições objectivas para ajudar numa escala largamente superior à construção de uma terra nossa mais livre, mais igual e mais digna, termina (terminamos, terminaremos) em sendo uma voz, uma das poucas vozes da Angola, perdão, de Bassakas, clamando neste deserto, até as suas forças (as nossas forças) se exaurirem.

Perdoem-me a profunda apreensão e a grande falta de esperança, mas a verdade é que, chegando ao fim a geração do Uanhega Xitu, do Luandino, do Cardoso, do Arnaldo, do Abranches, do Jofre e do Jacques, resta o sentido de que muito pouco mais há a fazer, já que os instrumentos consciente em que nos transformámos ao longo dos anos se tornaram produtos para uso imediato e de transferência automática para a reciclagem, em ordem a qualquer momento, voltarmos a ser utilizado quando estrategicamente tal interessar ao mal menor que formos escolhendo e apoiando sucessivamente.

A grande lição de «Kasakas & Cardeais», particularmente na estrutura fabulesca que o nosso Jacques escolheu para lhe dar forma e conteúdo, é a mesma que Jacinto nos ensinou através da poesia, que Luandino fez triunfar na busca de todos os Musculosos do Mundo, que Agostinho Neto literariamente proclamou premonizando a nova África nas mãos dos novos Burgueses, que Cardoso matraqueou na sua poesia eterna de protesto e de coragem, que Pepetela anteviu em Mayombe, que Abranches genialmente re-concebeu no ovo magentino, que Uanhega Xitu tão bem denunciou no seu mestre Tamoda e que Jofre eternizou nos olhos dos meninos pobres e miseráveis.

Pelo menos isto, a história não nos vai tirar. Não nos vai poder tirar, independentemente dos trilhos de cada um, das opções individuais e até das pressões, dos medos, dos silêncio, das mediocridades e das invasões que visam reduzir a força, no mais curto espaço de tempo possível, das instituições culturais desta país, de modo a obriga-las a perder a sua essência multicultural e pluri-racial, a literatura angolana, a verdadeira, nunca pactuou, nunca se calou, nunca deixou de exercer o seu papel, mesmo que somente daqui a muito anos venha a ser entendido.

Não quero, propositadamente, entrar em detalhes a propósito de estilos literários. Quero saudar no Jacques o cumprimento de mais um passo nesta giesta triste, dolorosa, mas ao mesmo tempo corajosa e de uma dignidade sem limites de quem escolheu o mesmo caminho, contra todas a sorte de escolhas, de quem levanta a cabeça, e com os mesmos cabelos cada vez mais grisalhos e os olhos cada vez mais tristonhos, recusa ir pelos tortuosos caminhos da imposição da ignorância, da mentira, da jactância e do novo-riquismo. E obedece, apenas, social e literariamente, a sua consciência, ao justo, ao fraterno, ao verdadeiro.

Nós nunca ficamos de bico fechado. Parafraseando Salvador Allende, mais cedo que tarde, para além das traições e das cobardias, pode ser que se abram um dia as avenidas da fraternidade. E todos os Tyls do Mundo, mesmo já sem vida, saberão que valeu a pena a dor e a mágoa em que ainda está transformando o orgulho imenso de sermos angolanos.

Texto de apresentação da obra "Kasakas & Cardeais", livro de Jacques Arlindo dos Santos, Chá de Caxinde editora, 2002.

O título é da UEA-Digital

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