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A influência da literatura ensaística no Diário de um missionário norte-americano no Brasil Destaque

Escrito por  João Cesário Leonel Ferreira
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Introdução

A relação entre religião e literatura é uma constante no campo literário. Se genericamente é possível dizer que a cultura ocidental foi influenciada pela Bíblia e pela religiosidade, casos de obras específicas são facilmente identificáveis, como, por exemplo, A Divina comédia, do italiano Dante Alighieri, e O paraíso perdido do poeta e puritano inglês John Milton.

Afinal, dos escritores bíblicos aos autores religiosos que tematizaram sua experiência pessoal ou a de seu grupo, identificar as influências recebidas de gêneros, linguagens, estratégias de persuasão etc. é uma tarefa que não se pode subestimar.

Neste capítulo opto por trilhar o segundo caminho. Para tanto, problematizo a relação entre literatura e protestantismo, indagando se houve influência da primeira sobre o segundo. Escolho como corpus de estudo o Diário[4] de Ashbel Green Simonton, jovem pastor e missionário norte-americano que veio instalar a Igreja Presbiteriana em solo brasileiro, aportando no Rio de Janeiro em 1859. Nesse momento o Diário já estava sendo escrito e continuou a sê-lo até 1866, cerca de um ano antes de sua morte com apenas 34 anos de idade. Assumo a hipótese de que houve influência da literatura sobre o texto do missionário.

Dentre os apontamentos sobre leituras de textos literários presentes no Diário, são de interesse particular aqueles referentes ao livro de ensaios de John Foster, Essays by a Series of Letters. Procuro, portanto, identificar as citações do livro e investigar como elas influenciaram na produção do Diário, tanto em sua forma quanto em seu conteúdo.

1 Surge um Diário

Antes de iniciar a análise propriamente dita, é necessário tecer algumas considerações preliminares a respeito do gênero “diário”, visto que no século XIX, quando Simonton redige, manter um diário havia se tornado “um hábito convencional entre pessoas de cultura”[5].

Um diário se constrói sob a tensão privado-público. Escrito em primeira pessoa, é o relato do indivíduo que dialoga consigo mesmo na busca da extensão da vida para o pós-morte, ainda que literária. Tal impulso pode motivar o autor a ser sincero e corajoso em seus registros. Soma-se a isso o desejo, geralmente inconfesso, de oferecer suas experiências como um estímulo aos que virão. Nesse ponto o objetivo do diarista identifica-se com o desejo de seus leitores religiosos que buscam por modelos de vida cristã.

No intento de produzir algo que perdure, o diarista extrapola o mero registro casual migrando para o campo literário[6] com o objetivo de comunicar-se. Ainda que escreva sobre acontecimentos cotidianos e corriqueiros, o tratamento que dá a eles será o de alguém que quer torná-los não apenas compreensíveis, mas também convincentes.

Dito isto, podemos passar às considerações propriamente ditas acerca do Diário. Ele contém em sua maior parte registros semanais, conforme indicação do próprio autor[7], começando logo após sua graduação no Colégio de Nova Jersey[8], em 1852. As primeiras linhas são escritas em 05 de novembro daquele ano. Simonton e o irmão James, que residiam com a família em Harrisburg, Pensilvânia, decidem viajar para o Mississipi, onde permanecem por cerca de um ano e meio trabalhando como professores. O Diário surge, portanto, como o registro da viagem de um nortista ao sul do país.

Não há nada de excepcional nos relatos iniciais. Apenas algumas situações pitorescas e observações não muito elogiosas quanto à cultura e aos costumes do sul, principalmente sobre a escravidão. São frequentes as anotações a respeito de moças que o diarista conheceu. Fato a ser observado é que nenhum registro desse período indica uma futura vocação missionária. Há, sim, elementos da vida de um jovem educado em uma sociedade protestante, com temor religioso, e algumas práticas como a freqüência à igreja e a visita a acampamentos religiosos. Nada mais.

Cerca de um ano e meio após ter viajado para o sul Simonton decide retornar para casa. A última anotação no sul é de 13 de junho de 1854. A próxima, em 12 do mês seguinte, já é transcrita em companhia de seus familiares em Harrisburg, embora nesses registros o autor se preocupe em apresentar um relato retrospectivo da viagem de retorno ao lar e as impressões sobre o reencontro com pessoas e locais em sua terra após o período de ausência. Registra também suas dúvidas acerca do futuro profissional[9]. A partir daí o Diário traz uma série de anotações sobre atividades familiares, passeios, viagens, estudos, até o dia 20 de janeiro de 1855, aniversário de Simonton, quando lança no Diário: “A verdade é que chego aos vinte e dois anos, e ainda não fixei o objetivo de minha existência”[10].

2 A presença de John Foster no Diário

John Foster aparece no Diário de Simonton em citação de seu livro: Essays by a Series of Letters, em 7 de abril de 1855. Esta, por sua vez, liga-se ao tema iniciado em 10 de março, quando o diarista abandona a anotação de atos cotidianos para descrever algo novo. As igrejas da cidade foram tomadas por um fervor religioso que atinge a comunidade onde o jovem congrega, incluindo ele próprio. É perceptível o clima de devoção e sensibilidade espiritual que os envolve:

Anteontem convidaram-se os interessados na salvação da própria alma, que quisessem conversar sobre o assunto a ficar mais tempo, e um número grande ficou. Ontem novamente foi feito o convite e considerei meu dever ficar, juntamente com mais umas vinte pessoas. É uma decisão importante e, creio, um passo na direção certa. Religião é assunto sério, infinitamente mais importante que qualquer outro a que nos dediquemos [...] Meu objetivo quando permaneci, era principalmente fazer a declaração pública de minha intenção de colocar-me do lado do Senhor, e abafar o orgulho teimoso que me impedia de fazê-lo[11].

As anotações seguintes continuam expressando o impacto da decisão religiosa de Simonton. É bom dizer que ele não era alguém que se pudesse considerar distante de Deus, sob uma vida dissoluta. Pelo contrário, jovem criado segundo costumes e tradições protestantes presbiterianas, passava agora por uma experiência pessoal profunda, que o levava a rever seus caminhos. É nesse contexto que, como dissemos, em 7 de abril daquele ano Simonton cita pela primeira vez o texto de Foster:

Tenho lido ultimamente os Ensaios de Forster [sic]. Seu ensaio sobre Decisão de Caráter me agradou mais que qualquer coisa lida nestes últimos tempos, tanto pelo estilo como pelo assunto. É notável pelo tratamento metódico e claro da matéria e também pelo conhecimento acurado da natureza humana e das leis da mente, que exibe[12].

São úteis algumas informações a respeito do autor. John Foster (1770-1843) nasceu em uma fazenda nas cercanias de Yorkshire, Inglaterra. Como pastor protestante da Igreja Batista, passou por várias comunidades sem obter destaque em sua atividade. Mais inclinado à vida de meditação e estudos do que às obrigações diárias da vida pastoral, voltou-se para a literatura, tendo-se tornado um dos escritores de maior destaque em sua época. Ficou conhecido principalmente por seus ensaios, dos quais o mais famoso é o livro citado por Simonton, intitulado Essays by a Series of Letters, escrito em 1805, e que se constituiu em um clássico quase que instantaneamente.

Para Thomas B. Shaw, autor de um manual de literatura inglesa escrito algumas décadas após o livro de Foster: “[...] seus escritos, na forma de ensaios literários e religiosos, estão entre os mais importantes acréscimos à literatura inglesa. Em seu Ensaios a energia e a força de pensamento são apenas igualados pela beleza de suas expressões”[13]. Conforme outro escritor do período: “Esses ensaios são fruto de um pensador original e profundo. Sua moralidade é superior e seus princípios são liberais”[14]. Enfim, em ainda outro manual de literatura inglesa, publicado em 1876 por Thomas Arnold, o livro, em virtude da alta reputação alcançada, é citado como modelo de texto ensaístico[15]. A importância do autor e de seu livro pode ser avaliada não somente pelos comentários referidos, mas também pelo fato de que no momento em que Simonton o lê, 50 anos depois da primeira edição, ele ainda continua exercendo influência sobre os leitores. Além do mais, Essays by a Series of Letters foi reeditado inúmeras vezes, estando até hoje à venda em diversas livrarias[16].

O diarista encontrou nos ensaios pontos de contato entre sua experiência e aquilo que o autor escreve, principalmente ao tratar da “decisão de caráter”, ensaio de onde retira a citação de 7 de abril de 1855. Anteriormente Simonton havia mencionado sua dificuldade em tomar e manter decisões. Em 10 de março afirmara: “Já houve ocasião em que cheguei a resolver ser o que devia – mas foram decisões fracas; dediquei-me à oração pessoal e à leitura da Bíblia, e continuei por longo tempo [...] Mas logo o sentimento passou e fiquei como antes, ou pior”[17]. Diante desse quadro de tentativas frustradas, é natural que Simonton se preocupe com a possibilidade de uma vez mais naufragar em sua decisão. É nesse momento que Foster vem em seu auxílio.

Simonton anota em 7 de abril: “A primeira e mais proeminente característica de um caráter decidido é a confiança total na correção de seus próprios juízos [...]”[18], citação literal retirada do ensaio “Sobre a decisão do caráter”[19]. A seqüência de seu comentário é uma referência indireta derivada do contexto em que se situa a referida carta, como segue:

[...] não se trata de crença teórica, mas convicção prática, que não varia conforme o sentimento, não é abalada por oposição, e não duvida de si própria quando a responsabilidade lhe é atribuída. Isto é visto por Forster [sic] como um dom raro, apesar de a maioria dos homens pensarem que é bastante comum; acredito que Forster [sic] está certo[20].

A leitura do Diário nesse intervalo indica que Simonton permaneceu resoluto em seu intento. Logo após decidiu estudar teologia. Para tanto, matriculou-se no Seminário de Princeton. É ali que a segunda citação de Foster ocorre, desta vez utilizando-se do primeiro ensaio: “Sobre um homem escrevendo suas próprias memórias”, no dia 13 de agosto de 1855, logo após sua chegada:

A vida de estudante flui tão calmamente e com tanta rapidez que os acontecimentos que vale a pena registrar neste “Semanário” são de todo desproporcionais aos dias em branco. De acordo com John Forster [sic], entretanto, o que se deve registrar num diário particular não são incidentes, mas sim a história do desenvolvimento do caráter, bem como as causas, influências e acidentes que acompanham cada passo desse desenvolvimento e determinam seu rumo e resultados. Desse ponto de vista, os acontecimentos têm importância a partir de seus resultados e uma época da vida que transcorre calmamente e parece fornecer pouco material pode na realidade ser considerada sem acontecimentos. Forster [sic] está certo em suas premissas”[21].

A monotonia dos estudos, experimentada novamente por Simonton, propicia a transcrição acima. A citação indireta de Foster é oriunda da carta 1, página 17. Foster comenta, a partir do interesse que a maioria dos seres humanos nutre pelos acontecimentos do passado, que orientou dois ou três amigos a:

[...] escrever, principalmente para seu próprio uso, memórias de suas vidas, se preocupando não tanto em enumerar meros fatos e eventos da vida, mas em descriminar os estados sucessivos da mente, e então traçar o progresso do que pode ser chamado de caráter[22].

Seguindo a argumentação, Foster lembra que mesmo quando o espaço de tempo se amplia para décadas, o material que valeria a pena ser transcrito poderia ser reduzido a um pequeno e modesto volume. De modo um tanto cético lembra que “[...] uma grande parcela do que tem ocupado os anos da vida de uma pessoa é sem valor para sua história; servindo meramente para a acomodação do tempo”[23]. A partir da citação, será natural para o jovem estudante selecionar os fatos que estejam colaborando para o desenvolvimento de seu caráter cristão segundo o critério proposto.

3 A influência de The Essays no Diário

As duas interferências de Foster no Diário de Simonton serão estudadas com mais atenção neste ponto. O objetivo é especificar de que modo elas influenciaram e/ou alteraram os registros. As duas citações estão interligadas. A firmeza de decisão que evidenciará um caráter diligente e os registros que demonstram a evolução desse caráter compõem uma mesma realidade. Elas dizem respeito ao conteúdo e à seleção das transcrições.

A partir da intensificação da fé de Simonton fica nítido que existe um filtro religioso que norteia tanto sua preocupação em tomar decisões que manifestem um caráter cristão maduro, quanto a busca pelos critérios de seleção daquilo que deverá ser transcrito. Por esse prisma, o Diário pode ser dividido em dois. Aquele escrito antes da referida experiência e o que se concentra em relatá-la.

Como já foi indicado, a decisão de caráter e o exercício do juízo próprio se evidenciaram quase que imediatamente após a dedicação religiosa de Simonton, em oposição à fé inconstante vivida até então e pouco presente nas anotações. O jovem tornou-se membro da Igreja Presbiteriana da cidade, embora ainda lutasse contra a falta de manifestações emocionais que evidenciassem sua religiosidade[24], manifestações essas comuns no puritanismo influenciado pelos movimentos avivalistas de então. Às vésperas de ingressar no seminário teológico em Princeton, preocupado em seguir disciplinas espirituais, elaborou uma lista de deveres que o seguiriam diariamente[25].

Em registro de 14 de outubro de 1855 o jovem estudante comenta, após ouvir um sermão em Princeton: “[...] estou agora convencido de que devo considerar a possibilidade [de tornar-se missionário] seriamente”[26]. Duas semanas depois anota a participação em uma reunião com interessados em missões estrangeiras. Entretanto, julga prematuro decidir-se nesse momento: “Quanto a tomar agora minha decisão para o futuro, não acredito que seja aconselhável”[27]. Possivelmente pensa assim por ainda estar no primeiro ano de estudos. Vê-se, nas duas citações, o exercício da racionalidade como condutora de suas decisões.

A busca por um caminho racional para o desenvolvimento do caráter não nega as tensões que se apresentavam a Simonton. O Diário está repleto de interrogações quanto ao futuro. O jovem estudante não se contenta em registrar o que se tem passado com ele, mas anota repetidamente questionamentos acerca do que está por vir. Temos um exemplo em sua opção por ser missionário. A pergunta que surge é: para onde? A questão se apresenta em 4 de fevereiro de 1856[28] e retorna em 10 de outubro do ano seguinte[29]. Em 27 de novembro de 1858 é dada uma sinalização: Simonton envia proposta formal à Junta de Missões da Igreja mencionando o Brasil como país de seu interesse. Em 13 de dezembro recebe resposta afirmativa: irá para o Brasil[30].

Os registros desta segunda fase da vida de Simonton estão distantes daqueles transcritos antes de sua decisão religiosa e da leitura de Foster. Este é o ponto central da discussão deste capítulo. Cabe observar que as anotações de sua experiência sulina estão mais voltadas para o gênero “diário de viagem”[31]. Simonton emprega, inclusive, essa nomenclatura para referir-se ao “Diário que fiz durante minha viagem ao Sul”[32]. Este tipo de diário, trazido para os Estados Unidos por imigrantes europeus no século XVII, expandiu-se bastante nos dois séculos seguintes. A observação de Rosa Meire de Carvalho de Oliveira acerca desses textos traz um dado importante:

Na metade do século XVII, esse tipo de diário era também muito útil como rito de passagem na educação de rapazes. Uma das etapas para se tornar adulto, o Grand Tour, oferecia ao jovem a oportunidade de empregar o diário de viagem para desenvolver o hábito da observação e reflexão[33].

Podemos pensar na hipótese de que a viagem feita pelo jovem Simonton seja incluída na descrição acima. Ele e o irmão, terminados os estudos, lançam-se em uma viagem que marca o fim da adolescência e os apresenta ao mundo adulto. Nesse caso particular, o Diário teria como objetivo relatar acontecimentos e fatos pitorescos ocorridos durante a viagem.

Os registros que demonstram a busca pela maturidade seguem próximos daqueles que indicam a seletividade de fatos que testemunham a evolução do caráter cristão de Simonton. Quanto a isso, são mencionadas ocorrências felizes, dificultosas, e mesmo trágicas. Se na busca pela maturidade de caráter Simonton é quase sempre agente ativo, os eventos que comprovarão tal evolução se imporão muitas vezes a ele. Nesses casos, ele se tornará o receptor, quase passivo, de circunstâncias que envolverão sua vida.

Na segunda parte do Diário há o aprofundamento de temas que são escolhidos criteriosamente para apontar ou para servir como indicadores da evolução do caráter do diarista. A partir desse ponto o Diário de Simonton deixa de ser um diário de viagem para se tornar, seguindo a classificação de Fothergill, um “diário espiritual”. A prática de escrever tais diários veio da Europa para os EUA no século XVII e se tornou muito popular, principalmente entre o clero. Suas características principais são a introspecção e a análise da vida a partir de uma ótica espiritual[34]. Obviamente o contexto missionário, com atividades em terra estrangeira, fornece os temas a partir dos quais o Diário desenvolverá suas reflexões.

Os registros a seguir permitem, a título de exemplo, a identificação do caráter seletivo e de aprofundamento das reflexões. O primeiro é a transcrição do aniversário de Simonton, ainda em Princeton, o primeiro após sua experiência religiosa.

Hoje é meu aniversário, o primeiro desde que fiz a profissão de fé em Cristo. Foi com dúvidas que fiz essa profissão. Minha fé era fraca e minhas impressões tão inadequadas que não podia deixar às vezes de me sentir indeciso quanto à minha verdadeira condição. E agora revendo minha vida, e o progresso que fiz na vida sagrada, embora possa lembrar tanta coisa boa, contudo muito há em mim que prova a fraqueza do princípio de minha fé, – se é que posso dizer com certeza que possuo a fé salvadora que o Evangelho exige.[...] Nessas dúvidas [no parágrafo suprimido Simonton enumera várias], a única certeza que posso encontrar é na palavra da promessa. Estou decidido a aceitá-la em seu mais claro sentido, e confiar nela como palavra de Deus. Quanto ao que experimento, tudo é ainda incerto. Hoje portanto renovarei meus votos ao Senhor e desejo ser consagrado a Ele inteiramente[35].

É interessante perceber como se manifesta a disciplina no exercício da razão em oposição aos sentimentos e como ela é o carro-chefe das decisões. Mas o principal é o reconhecimento de como as reflexões de Simonton neste momento contrastam com aquelas de anos antes. Dentre tantos temas que poderiam ocupar sua escrita, o religioso é central e é ele que o leva à avaliação da vida.

Outros exemplos se encontram nos desafios propostos ao missionário norte-americano por um novo país, uma nova língua, uma cultura estranha e a presença de uma religião oficial oposta ao protestantismo. Diante desse quadro, ao final do ano Simonton escreve:

Revendo 1859, cujas últimas areias correm enquanto escrevo, encho-me de gratos sentimentos. Reprovo-me pelo temor e tremores com que contemplei sua aproximação pois as provações então dolorosamente antecipadas foram mais leves do que eu imaginava, e Deus tornou-me possível suportá-la com firmeza. Tenho gozado mais paz, mais calma mental e certeza de estar no caminho do dever, e portanto felicidade mais verdadeira do que em 1858 quando hesitante debatia sobre o chamado para sair do país como missionário. Agradeço a Deus todos os caminhos por onde me levou e gostaria de estar exatamente onde estou, e em nenhum outro lugar pois este é, creio, meu campo de trabalho[36].

Tendo chegado ao Rio de Janeiro em 12 de agosto de 1859, passados 4 meses e meio o missionário faz uma retrospectiva teológica do ano que se encerra, reconhecendo a bondade e a direção de Deus para com sua vida e como, apesar de suas limitações, Deus o conduziu das dúvidas iniciais para a certeza a respeito do Brasil como campo para onde deveria ir.

O próximo e último estrato provém de duas experiências diametralmente opostas:

Nossa primeira filha acaba de nascer às onze horas, e já se passaram vinte e cinco minutos. Deus seja louvado por Sua bondade. Ouviu, e respondeu a nossas orações; eu o louvarei por Sua bondade. A lembrança dos sofrimentos de Helen está ainda muito viva para permitir que pense na criança[37].

Deus tenha piedade de mim agora, pois águas profundas rolaram sobre mim. Helen está estendida em seu caixão na salinha de entrada. Deus a levou tão de repente que ando como quem sonha[38].

Simonton havia partido para os EUA em março de 1862, antecipando viagem programada para o final do ano, em virtude do estado de saúde debilitado de sua mãe. Na terra natal conheceu Helen Murdoch, vindo a casar-se com ela em 19 de março do ano seguinte. Retornaram ao Brasil em julho. Quinze meses depois nascia a filhinha, a quem deu o nome da mãe. Após nove dias, em decorrência do parto traumático, falecia a jovem esposa. Simonton, esposo e pai, faz questão de registrar os dois acontecimentos. O primeiro, misto de alegria pelo nascimento e de preocupação com a saúde da esposa, deveria causava-lhe sentimentos antagônicos. O segundo, momento de tristeza abissal, é apresentado por meio de metáforas, na tentativa de relatar o que é indescritível. Sua jovem esposa havia partido! Tais experiências, desafiadoras da fé e da sanidade mental desse ainda jovem missionário, são apresentadas como exemplos de desenvolvimento do caráter cristão, mesmo que sob a dor da perda. Elas são as maiores e mais profundas demonstrações de que esse homem preocupava-se em examinar e avaliar sua vida espiritual. Seu Diário foi um instrumento para isso.

Conclusão

A análise do Diário de Simonton neste texto foi tópica. Estudou-se um entre outros tantos elementos que participaram de sua composição e estruturação. Não pretendi fazer uma análise extensiva do texto, mas pesquisar apenas um aspecto de sua composição: a relação entre literatura e a produção do Diário.

Há no Diário, conforme apontado, uma ruptura entre dois momentos da escrita. Aquele da viagem ao sul do país, texto leve, casual, com apontamentos que versavam em sua maioria sobre questões pitorescas. A segunda parte, densa, desenvolve-se a partir da decisão de Simonton em estudar teologia e, posteriormente, em vir para o Brasil como missionário.

Simonton poderia ter escrito seu Diário, como se encontra hoje, sem a leitura dos Essays de Foster? Provavelmente, sim. Sem o escritor, o texto possivelmente continuaria com sua subdivisão informal. Contudo, a presença das citações do ensaísta permitiram a maior organização e estruturação dos pensamentos de Simonton. Penso que se pode dizer que Foster forneceu os elementos essenciais para que o diarista organizasse os registros de suas experiências e desejos espirituais. Se isso for acentado como razoável, ficará provado, neste caso particular, como a literatura influenciou a expressão protestante em um de seus produtos mais importantes nos dois últimos séculos: os diários em suas variadas formas.

Referências

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FOTHERGILL, Robert. Private Chronicles: A Study of English Diaries. London: Oxford University Press, 1974.

OLIVEIRA, Rosa Meire Carvalho de. Diários públicos, mundos privados: Diário íntimo como gênero discursivo e suas transformações na contemporaneidade. 2002. 214 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Cultura Contemporâneas). Universidade Federal da Bahia, Faculdade de Comunicação, Salvador – BA. Disponível em:< http://bocc.unisinos.br/_listas/tematica.php?codtema=21>. Acesso em: 05 de jun. de 2009.

SHAW, Thomas B. A Complete Manual of English Literature. 2a. ed. New York/Chicago: Sheldon &¨Company, 1865. Disponível em: <http://www.archive.org/details/completemanualof00shawiala>. Acesso em 05 de jun. de 2009.

SIMONTON, Ashbel Green. Diário, 1852-1867. Tradução de D. R. de Moraes Barros. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1982.

THOMAS, Joseph. Universal Pronouncing Dictionary of Bibliography and Mithology. Philadelphia: [s.n.], 1870. Disponível em:

<http://www.archive.org/details/universalpronoun00thomrich>. Acesso em 15 de jun. de 2008.


[1] Sobre o artigo: Texto originalmente apresentado como comunicação no XI Congresso Internacional da ABRALIC (Associação Brasileira de Literatura Comparada), São Paulo, julho de 2008. Esta versão apresenta algumas alterações em relação ao original.

[2] Sobre o autor: Doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp; pós-doutorando em História da Leitura pela Universidade Nova de Lisboa, Portugal. Professor na graduação e pós-graduação em Letras, Universidade Presbiteriana Mackenzie.

[3] A título de exceção, cf. o livro do crítico literário norte-americano, Robert Alter: A arte da narrativa bíblica. Tradução de Vera Lúcia Duarte do Valle Pereira. São Paulo: Cia. das Letras, 2007.

[4] Aqui será utilizado o texto editado em 1982, com tradução de D. R. de Moraes Barros, pela Casa Editora Presbiteriana.

[5] FOTHERGILL, Robert. Private Chronicles: A Study of English Diaries. London: Oxford University Press, 1974, p. 34 apud ALASZEWSKI, Andy. Using Diaries for Social Research. London: Sage Publications, 2006, p. 9. Tradução nossa.

[6] Embora seja difícil, talvez impossível, distinguir entre o que é o que não é literário. Quanto a isso, cf. o livro: AGUIAR, Flávio; MEIHY, José Carlos Sebe Bom; VASCONCELOS, Sandra Guardini T. (Orgs). Gêneros de fronteira: cruzamentos entre o histórico e o literário. São Paulo: Centro Ángel Rama, 1997.

[7] SIMONTON, Ashbel Green. Diário, 1852-1867. Tradução de D. R. de Moraes Barros. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1982, p. 9.

[8] O que viria a ser mais tarde a Universidade de Princeton.

[9] SIMONTON, op. cit., p. 63-73.

[10] Ibid., p. 87.

[11] Ibid., p. 90-91.

[12] Ibid., p. 93.

[13] SHAW, Thomas B. A Complete Manual of English Literature. 2a. ed. New York/Chicago: Sheldon & Company, 1865, p. 464-465. Tradução nossa.

[14] THOMAS, Joseph. Universal Pronouncing Dictionary of Bibliography and Mithology. Philadelphia: [s.n.], 1870, p. 944. Tradução nossa.

[15] ARNOLD, Thomas. A Manual of English Literature. Boston: Ginn Brothers, 1876, p. 514.

[16] O livro pode ser adquirido, por exemplo, no site: http://www.amazon.com/

[17] SIMONTON, op. cit., p. 90.

[18] Ibid., p. 93.

[19] FOSTER, John. Essays by a Series of Letters. New York: Robert Carter & Brothers, 1864, carta 2, p. 94. Tradução nossa.

[20] SIMONTON, op. cit., p. 93.

[21] Ibid., p. 102. Grifo nosso.

[22] FOSTER, op. cit., p. 17. Tradução nossa.

[23] Ibid., p. 18. Tradução nossa.

[24] SIMONTON, op. cit., p. 95-98, 3 a 6 de maio.

[25] Ibid., p. 104-105, 4 de setembro.

[26] Ibid., p. 107.

[27] Ibid., p.107, 28 de outubro.

[28] Ibid., p. 111.

[29] Ibid., p. 123.

[30] Ibid., p. 125.

[31] Oliveira define o gênero: “Como o próprio nome sugere, o diário de viagem agrupa relatos de experiências de inúmeros diaristas em torno de viagens [...] Os diários de viagem, muito comuns entre os séculos XV e XVIII, refletiam as viagens de caráter exploratório ou não, trazendo informações sobre a geografia específica, terreno, possibilidade de rotas, fauna e flora, mas também curiosidades sobre os povos nativos e a expressão do sentimento associado a cada uma dessas experiências” (OLIVEIRA, Rosa Meire Carvalho de. Diários públicos, mundos privados: Diário íntimo como gênero discursivo e suas transformações na contemporaneidade, 2002, p. 32-33). Pelo tom dos registros no Diário, parece-me claro que Simonton se enquadra melhor como registro de “curiosidades sobre os povos nativos e a expressão do sentimento associado a cada uma dessas experiências”. O Diário manteve anotações de viagens após o retorno do sul, principalmente quando veio para o Brasil e por aqui se locomoveu por várias regiões. Entretanto, a característica superficial e meramente descritiva, presente na primeira parte do texto, sai de cena.

[32] SIMONTON, op. cit., p. 9.

[33] OLIVEIRA, op. cit., p. 33.

[34] Ibid., p. 39-43.

[35] SIMONTON, op. cit., p. 108-110, 20 de janeiro de 1856.

[36] Ibid., p. 156, 31 de dezembro de 1859, grifo do autor.

[37] Ibid., p. 190-191, 19 de junho de 1864.

[38] Ibid., p. 191, 28 de junho de 1864.

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