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A Actual Literatura Angolana: Pontes Ligando Gerações, Estéticas em Rupturas

Escrito por  Inocência Mata
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O presente não existe, é só o ponto de encontro entre o futuro e o passado. Pepetela, Muana Puó

Acompanhando a dinâmica editorial em Angola, pode afirmar-se que a literatura vive um período de singular produtividade. Na tentativa de perceber tal dinâmica no contexto de uma sociedade que vive um quotidiano de guerra e seus corolários, não é despiciendo observar que se trata, também, de uma reacção à corrente desestabilizadora que constitui a intrigante situação pós-colonial do país, a que a literatura reage actualizando uma técnica de diálogo transtextual e intergeracional. Isto é, resgatando e tentando reinterpretar os signos e os símbolos fundacionais do sistema literário angolano, para lhes engendrar uma outra significação. Porém, outros sujeitos e outras intenções finalísticas daqueles que moveram a produção anterior engendram estratégias diferentes e, consequentemente, escritas diferentes. Mesmo tratando-se de um mesmo escritor, o sujeito de escrita passa por uma metamorfose autoral, pois mudando o contexto (sociocultural, histórico e até psicológico), muda-se a mathèsis contextual do autor. Assim, hoje, o panorama do espaço literário nacional – de Angola, bem visto – é diversificado em termos semântico-pragmáticos e técnico-compositivos, após o período de agenciamentos ideológicos finalísticos, de exigência nacionalista, condicionada que estava a escrita por factores extraliterários. Tal eclectismo estético (no sentido em que me parece temerário caracterizar este período a partir de uma tendência estética ) é a face visível da visão individual – e, portanto, plural – do país, que continua a ser construção intelectual a querer-se nacional, e decorre do complexo dinâmico de factores físicos, históricos e etnoculturais (desde a língua à memória da história, ao imaginário cultural, à organização político-ideológica e à sabedoria popular), mas também de contingências do fazer histórico e humano dos vários segmentos da sociedade. São estes diversos segmentos que, actualizando visões autorais ou grupais determinadas, agenciam categorias como classe, cultura, etnia – denominadores objectivos que constituem os elos de união entre um indivíduo e a sua comunidade, categorias que, em concertação, configuram a(s) identidade(s) em presença ou são simbolicamente acopladas para a construção de uma identidade a fazer-se nacional. Por isso, rasteando o percurso das diversas identidades nas suas espacio-temporalidades (cultural, social, étnica), a literatura pós-colonial tem vindo a desestabilizar os lugares cativos da identidade (dita) nacional, apelando para a “consciência subjectiva”, individual, e perseguindo e tentando fixar as diversas memórias históricas através de figurações fragmentárias. Em suma, tentando reescrever a nação e intentando uma conformação identitária. Mas que terá restado dos nossos “antigos amores”, aqueles poemas pelos quais apreendemos a amar a pátria e que foram as letras das canções mobilizadoras da revolução nos anos 70? Que diálogo estabelece hoje a actual poesia angolana com a geração demiúrgica do sistema literário nacional para (continuar a) pensar o país? Pretendo trazer à discussão esse diálogo tenso e denso entre a geração precedente e a actual literatura angolana, através da poesia de Paula Tavares, Maria Alexandre Dáskalos, João Maimona, José Luís Mendonça e Adriano Botelho de Vasconcelos. Cinco poetas que se revelaram após a independência.

Um tenso diálogo intrassistémico Esta geração de poetas, todos na casa dos quarenta anos, é historicamente caracterizada por uma disponibilidade para a construção da nação. Adriano Botelho de Vasconcelos e José Luís Mendonça, por exemplo, que se revelaram ainda nos anos 70, têm uma poesia ainda muito marcada por sinais de celebração utópica. Quem ler Voz da Terra (1974) e Abismos de Silêncio (1996), de Botelho de Vasconcelos, poderá pensar tratar-se de poetas diferentes; o mesmo se passará com a viagem de Chuva Novembrina (1981) a Ngoma do Negro Metal (2000), de José Luís Mendonça... Poéticas diferentes, sim, porque os primeiros livros – Voz da Terra e Chuva Novembrina – são de celebração da revolução, numa colagem aos desígnios da “escrita de combate”, realizada numa construção isotópica, isto é, numa rede semântica que remete, no caso de Botelho de Vasconcelos, para a reiteração da “voz da terra”, de cujos sinais, em urdidura simbólica e alegórica, os demiurgos do sistema haviam construído a angolanidade, enquanto no caso de José Luís Mendonça essa celebração realiza-se pela reiteração expansiva da semântica da fertilização do solo em tempo de liberdade (pela referência à independência de Angola, ocorrida a 11 de Novembro de 1975). Por outro lado, os últimos livros destes poetas – Abismos de Silêncio e Ngoma do Negro Metal – já denunciam a nostalgia de um futuro anunciado e não cumprido: o silêncio e o negro metal a denunciarem uma melancolia e uma nostalgia regressiva, distópica. É que as disposições históricas do vivido e do sabido e a sua interpretação, a nível literário, começam a engendrar, já nos anos 80, a dialogia intergeracional, com textos sempre em tensão dialéctica com a tradição. Entretanto, a história vai-se tornando explícita, como factor interior e explicativo do presente, e vai redefinindo o recorte do perfil identitário em construção, através dos fragmentos das múltiplas e variegadas vivências e experiências de actores, destinadores e destinatários, com reflexos na escrita que vai registando tais redefinições. Por isso, rasteando o percurso de identidades diversas nas suas espácio-temporalidades (cultural, social, étnica), a literatura do pós-independência – e principalmente a narrativa – tem vindo a desestabilizar os lugares cativos da identidade erigida a nacional, apelando para a “consciência subjectiva” e individual e perseguindo e tentando fixar as várias memórias históricas de todo o território através de figurações fragmentárias. Citem-se escritores como Pepetela, Boaventura Cardoso, Henrique Abranches, Manuel Rui, não esquecendo os mais novos, José Eduardo Agualusa (o de A Conjura e Estação das Chuvas), Sousa Jamba, Alberto de Oliveira Pinto ou Ismael Mateus (este revelado com o seu Tempos do Ya Kala Ya), e ainda o veterano Arnaldo Santos (que se estreou no romance em 1999 com A Casa Velha das Margens). Afirmando a diferença do olhar sobre a história e sobre o passado, e do lugar cultural de onde se olham estas instâncias, esse olhar pode desvelar também identidades diversas consoante historicidades que se podem dispersar por (outros) lugares que não faziam parte da nação, por entre-lugares, que mais não são do que identidades segmentais, grupais, que se conformam a partir de memórias imaginadas. Lembre-se, a propósito, a explosiva e desconcertante ironia do narrador de A Gloriosa Família, que vai ao longo da narrativa reiterando a sua incapacidade para expor visões globais, limitando-se a reafirmar que muitas dos segmentos da história são “preenchimentos” seus. Pois as memórias, sabemo-lo todos, são imagens construídas, e não reflexo do acontecido e, no caso de imagens evocadas, como as do passado histórico que se pretende fixar, a ideologia é o seu pivot e não as emoções, como no caso de imagens perceptivas. Em rigor, a memória, instância que também tem contribuído para dinamizar o sistema literário, é o resultado imagético de uma reconstituição, de uma reinvenção, com uma intenção finalística. Relembro a questão: que restou dos nossos antigos amores? Que diálogo estabelece hoje a actual poesia angolana com a geração demiúrgica dos sistema literário para continuar a pensar o país? Em período colonial-fascista, em que se consolidou a estética nacionalista, a produçãoliterária construiu-se em diálogo com a ideologia libertária, por terrenos temáticos e estilísticos que visa(va)m a rasura e o obscurecimento de conflitos e de pulsões divergentes. Por isso, a literatura nacionalista mobilizou uma retórica que buscou conciliar as diferentes vozes, partilhar memórias imaginariamente históricas e sociais e colectivizar angústias e aspirações. Esse recurso à harmonização gerou uma escrita de contaminação épica, de que a poesia negritudinista se fez paradigmática. Sob o anátema de contraproducente ao espírito de coesão e à luta libertária, o postulado da diferença e da identidade individual era visto, então, como contrário à identidade colectiva, de extensão nacional, com os seus signos e símbolos, valores e atributos (re)inventados e (re)elaborados intelectualmente, embora com base na geografia e nos sinais culturais ou culturalizados da natureza. Intentava-se, pelo poder incantatório da palavra, o estabelecimento de um elo social, psicológico e afectivo-sentimental entre indivíduos. A partir de índices simbólicos de lugares (gentes e culturas) que foram mantidos nos “arquivos do silêncio” (porque de grupos marginalizados pela ideologia colonial), e através de uma geografia metaforizada, a literatura angolana – tal como aquelas africanas suas congéneres – cumpriu, uma função extratextual performaticamente ideológica: por um lado, a elaboração do imaginário cultural, na sua vertente literária e, por outro, a libertação, pela palavra, do país ideal, pela pena de escritores-políticos – mormente poetas – como Agostinho Neto, António Jacinto, Viriato da Cruz, Maurício Gomes, Alda Lara, Costa Andrade, Aires de Almeida Santos, Luandino Vieira, António Cardoso, Arnaldo Santos e poucos outros... A interrogação que serve de mote à minha reflexão – “O que restou de nossos amores?” –, resgato-a de Antoine Compagnon que com ela inicia o seu livro O Demônio da Teoria, obra em que se debruça sobre as várias correntes da teoria literária e suas histórias e sobre o eclectismo do momento presente. Afirmando que a teoria literária, nesse vai-vém desconstrutivista, se institucionalizou, tornando-se uma técnica pedagógica frequentemente árida quanto a explicação de texto (Compagnon: 1999, p. 15), Compagnon fala da necessidade de redescobrir a teoria literária para que ela continue a ser “essencilamente, crítica, opositiva ou polêmica” (idem, p. 16). Eu parafraseio-o para reiterar a minha perplexidade face ao processo de canibalização estética – Compagnon, na esteira de Phillipe Sollers, falaria de “tédio” (idem, p. 14) –, olhando o espectro da produção literária: que “sobrou” dos nossos “consagrados”, afinal, os demiurgos da nossa literatura nacional? Causarão hoje tédio e necessitarão, por isso, de ser redescobertos? Se, como diz Homi Bhabha, “a nação preenche o vazio deixado pelo desenraizamento de comunidades e parentescos, transformando esta perda na linguagem da metáfora” (Bhabha: 1998, p. 199), pode dizer-se que, neste momento da sua história, a literatura angolana se estabelece como lugar de deambulações reflexivas sobre “identificações em curso”, (Santos: 1994, p. 117). Esta expressão quer significar a assunção de identidades várias que se vão aproximando, rumo a uma concertação sinfónica de uma variedade de vivências e memórias, de sentires, saberes e sabores no espaço territorial angolano, enquanto a literatura angolana continua ainda a cerzir a identidade na senda da história e das imagens construídas a partir da memória dela. Isto é, a escrita continua, portanto, na senda de um repaisamento identitário e de uma busca da cidade nacional. A conjugação destes dois lugares, propulsores de nacionalidade e de cidadania, constitui, então, a pedra angular da mudança do código semântico-pragmático dos novos modelos estéticos na literatura angolana. De facto, o que se pode inferir da natureza ideológica da nova escrita do corpo da nação é a diferença que reside entre esta produção literária, actual, e a anterior. O próprio Pepetela, cuja obra pode constituir a instância privilegiada para se olhar essa relação tensa entre escrita do passado e do presente, com mudança interna da dimensão finalística da sua própria escrita – contraponha-se, por exemplo, Muana Puó a Parábola do Cágado Velho –, o próprio Pepetela, dizia, confrontado com a intenção ideológica dos desafios que a sua ficção faz à história, assume essa intenção como “preocupação pedagógica”, numa das suas (muitas) entrevistas, em que afirma que – pode dizer-se que é ideológico considerar-se o passado como fonte de conhecimento do presente. Como não houve fim da História nem fim das ideologias, contrariamente ao que alguns fundamentalistas afirmavam (...), assumo na minha escrita uma coisa e outra, sem complexos. (Pepetela: 1999, p. 114)

Esta citação pretende demonstrar a necessidade de a investigação literária dever considerar também as feições e as particularidades das representações ideológicas na literatura angolana, dentro da dinâmica dos estudos culturais, e desmontar as (possíveis) estratégias de reescrita que intentam, em primeiro lugar, a transterritorialização da pátria – a pátria que se apreende, por necessidade afectiva ou por conveniência ideológica, lá longe: leia-se Fronteiras Perdidas, de José Eduardo Agualusa, em que, como já disse em outro lugar, se realiza uma “dispersão espacial que é também humana: personagens e rumos espácio-temporais espartilhados pelo mundo, em cumulativa actualização do olhar que se expande do nacional ao universal” (Mata: 2001, p. 203-204) . Por outro lugar, tais estratégias são contradiscursivas no sentido estarem na contramão de elucubrações retóricas de motivação ideológica que visam a legitimação de um segmento etno-cultural como modelo de angolanidade: conheça-se a discussão, nem sempre saudável, entre por um lado, Luís Kandjimbo, Pires Laranjeira e Leonel Cosme, e, por outro, José Carlos Venâncio, Francisco Soares e Carlos Pacheco, a que juntaria o nome de David Mestre com o seu último livro, Lusografias Crioulas (1997). Finalmente, há as estratégias da construção da cidade. Estas três funções parecem, pois, convergir para a reinvenção da imagem da nação, como intenção primordial, em tempo da mais abjecta condição em que vivem os seus filhos.

Diálogos sob o signo de uma nostalgia projectiva Na verdade, a ideia de uma pátria rica cantada, entre outros, por Agostinho Neto no poema “Havemos de voltar”, ou por António Jacinto em “Monangamba” e em “O rio da nossa terra”, ou “Quando os meus irmão voltarem”, de Aires de Almeida Santos, é desqualificada pela visão da desapropriação das riquezas nacionais por uma entidade imperial, globalizada, uma entidade com alcance biopolítico na medida em que esse poder, sem rosto, sem raça ou sem marcação nacional, por que transnacional, é um sistema que descentraliza e desterritorializa (Negri & Hardt: 2001, p. 12), uma máquina que integra as diversas modalidades (económico, cultural, familiar, alimentar, até afectivo), sequestrando o próprio corpo social, o bios social. É esta preocupação que a obra de Pepetela também tece nas bordas do texto: em A Geração da Utopia, por exemplo, é legível a mesma entidade imperial interna, representada na figura de Malongo, que substitui a ordem imperialista “tradicional” – afinal aquele imperium que já não significa “colonizar, controlar terras que não são nossas, que estão distantes, que são possuídas e habitadas por outros” (Said: 1995, p. 37). Se em “Havemos de voltar” o poeta preconiza a certeza de regresso à pátria e às suas riquezas, em A Geração da Utopia tal profecia do poeta sobre o regresso à pátria concretizou-se e Malongo voltou à bela pátria angolana, à “Angola libertada/Angola independente” (Neto, “Havemos de voltar”), e se instalou na terra: [Malongo] estava lá há muito tempo preparado para a paz. Começou a vir à banda para pequenos negócios. Servia de intermediário de firmas belgas, francesas e holandesas, de médio porte, que queriam vender produtos ou tecnologias. Como era amigo antigo de responsáveis importantes (...) conseguiu os primeiros negócios. (...) Ele tinha de repartir a sua comissão. Mas mesmo assim ganhava muito dinheiro. Ganhou dez vezes mais num ano que em toda a vida anterior. Estava preparado para a paz tão esperada.” (GU, p. 259-261)

Também em O Desejo de Kianda, esse novo imperium com suporte interno é textualizado por via da referência metafórica a competitivas equipas multidisciplinares de sismologia e vulcanólogos que se deslocam a Luanda para estudarem o fenómeno da inusitada queda suave dos prédios e serem os primeiros entre todos a encontrar a chave da explicação (DK, p. 79-80-81). Porém, o interlocutor de Agostinho Neto neste canto das riquezas da pátria – feitas de recursos naturais e até paisagísticos e de potencialidades culturais (a marimba, o quissange, o carnaval), funcionando, nas palavras de Antonio Candido, “como construção ideológica transformada em ilusão compensadora” (1989, p. 149) – parece ser, quase quarenta anos depois, um poeta da geração seguinte, José Luís Mendonça, particularmente em Quero Acordar a Alva (1997). Este macropoema (que se desenvolve em três momentos – as três partes do livro denominadas livros) responde à eufórica “sagrada esperança” do regresso à pátria com a tenso “nocturno coração de África”. Na poesia de José Luís Mendonça reescreve-se a contaminação que desde dos tempos de combate nacionalista se operava entre pátria (a entidade institucional) e terra, e se sustentava na natureza, num movimento de identificação que se aproxima daquele que também ocorreu nos anos 30 na América Latina para cuja literatura Antonio Candido olha quando assim equaciona esse fenómeno de cantar a terra e pensar a pátria, transformando aquela (a terra) em justificativa desta (a pátria):

A idéia de pátria se vinculava estreitamente à da natureza e em parte extraía dela a sua justificativa. (...) Um dos pressupostos ostensivos ou latentes da literatura latino-americana foi esta contaminação, geralmente eufórica, entre terra e pátria, considerando-se que a grandeza da segunda seria uma espécie de desdobramento natural da pujança atribuída à primeira. (Candido: 1989, p. 141-142)

Subvertendo a vinculação que, por um lado, então se operava entre nação e riqueza e, por outro, entre esta categoria e felicidade colectiva que se intentava construir, hoje, o poeta José Luís Mendonça considera que –

O africano está a escorrer

como um saco de sal

somos filhos do crude e a cinza

de um sol eterno negoceia nossos ventre

quando nos deitamos noite e dia

de orelhas cortadas pela guerrilha.

A preto e branco nos cassumbularam

os dentes no siso e no

maximbombo dos mortos a infância

do pólen sitiado toma assento.

E içam gruas de vazias bocas o porão

dos nossos sonhos a escorrer

como um saco de sal.

(“Como um saco de sal”, Quero Acordar a Alva, 1997) O que ressalta neste diálogo, sempre na contramão, é que à ideia de africano – na sua versão metonimicamente angolana –, que ainda tem a Mãe África como superpátria, se liga a de orfandade (material, cultural, espiritual) e de desapossamento da terra e do homem, ainda criança: “(...) no/maximbombo dos mortos a infância/do pólen sitiado toma assento”. E é esta última que percorre a poesia angolana contemporânea. Portanto, mais do que da orfandade do indivíduo em relação à pátria, é dela própria, a pátria, que os poetas contemporâneos falam, de uma instituição que já não espera uma entidade – quase messiânica – propulsora de mudanças e de transformações dialécticas, como em “Adeus à hora da largada” e “O içar da bandeira”, de Agostinho Neto. Tanto Paula Tavares como Maria Alexandre Dáskalos desfazem a semântica da espera esperançosa e transformam-na numa espera infrutífera, injectando-lhe sinais de um nostalgia que se prolonga pela desventurosa existência perante a indiferença daqueles por quem esperaram: ......... tristezas os olhos

de onde me olhas

detrás de um tempo passado,

o tempo das promessas antigas.

Teus olhos, amado,

são os olhos de alguém

que já morreu

e ainda não sabe.

(PT, “Sombras”, Dizes-me Coisa Amargas como os Frutos, 2001)

Os filhos de Eva

não têm a memória do Éden.

Foi com o silêncio

que a serpente se fez pagar.

Eles passam por ela indiferentes e

caminham sem retorno.

Nem a solidão de Eva

nem o pranto de Adão

lhe arrepiam os passos.

(MAD, Lágrimas e Laranjas, 2001, p. 8)

Já não há o enlevo dos poetas por um corpo pródigo, igualitário, harmonioso e sem fissuras. Contra a ilusão da “bela pátria/nossa terra”, a poesia contemporânea de Angola instaura o diálogo tenso com os discursos poéticos fundadores. É o que acontece com o sujeito da enunciação do poema de Maria Alexandre Dáskalos, poetisa revelada em 1991, cuja poesia sintetiza essa busca de um olhar menos bipolarizado e mais prescritivo do maniqueísmo:

As cores estão

na natureza

O mundo não é

a preto e branco.

(Jardim das Delícias, 1991)

Realiza-se, em surdina, um diálogo tenso em duas direcções: com António Jacinto em “Poema de alienação” (“O meu poema/sou eu branco/montado em mim negro/ a cavalgar pela vida”), e com Ernesto Lara Filho que “confessa” no poema “Sinceridade”, que gostaria de ser negro... É este diálogo – como essoutro entre Agostinho Neto e João Maimona – que se me afigura subversivo, iconoclasta até, produtivamente pós-moderno (no sentido de constante questionamento da doxa), ao contrapor à tradição dos filhos de uma pátria de promissora glória a sua actual condição mendicante e subhumana. De novo José Luís Mendonça:

Subsarianos somos

sujeitos subentendidos

subespécies do submundo

subalimentados somos

surtos de subepidemias

sumariamente submortos

do subdólar somos

subdesenvolvidos assuntos

de um sul subserviente.

(“Subpoesia”, Quero Acordar a Alva, 1997)

Coteje-se este poema com essoutros “Poema de alienação” de António Jacinto e “Poema” e “Adeus à hora da largada” de Agostinho Neto. A nação – a comunidade imaginada do “nós” – categoria que da terra se expandiu a corpo uno e coeso, e a pátria como instituição, antes entidades dialogantes e conformantes na literatura fundadora, já não o são na actual literatura: esta quer agora, para além da nação, fazer funcionar a dimensão de cidadania. É assim que se chega, na actual literatura angolana, ao lugar da cidadania, até então inexistente na configuração do local da cultura e da nação, e que começa a insinuar-se para resgatar o seu lugar no discurso sobre a identidade e na escrita da nação. A cidadania, qualidade de teor legalista concomitante de qualquer nação (Smith: 1997, p. 147), transporta implicações que se actualizam sobretudo no lugar da pátria, que pode definir-se – de novo Anthony Smith – como “uma comunidade de leis e instituições muito centralizadas e unitárias com um propósito político” (1997, p. 23). O cenário de ruínas da condição humana, e não apenas de precariedade socioeconómica, inclui também a desorganização da memória, dos espaços e dos afectos. A pátria prometida que o enunciante do poema “O içar da bandeira” (Agostinho Neto) profetiza, pela convocação das vontades, lugares e entidades (históricas, culturais, afectivas e espirituais) que outrora tiveram uma performance heróica e pela recuperação de um novo início com a participação de todos – releiam-se os versos “Todos tentavam erguer bem alto/a bandeira da independência” –, cede lugar a um “sindicato macabro” (Lima Barreto: 1961, p. 226) . Porém, com José Luís Mendonça – assim como com Adriano Botelho de Vasconcelos, com João Maimona, com Paula Tavares e com Maria Alexandre Dáskalos –, a poesia resgata da latência e dos sussurros a fala do país real, ora complacentemente justificativa, ora fortemente crítica e iconoclasta. Isso mesmo vê-se sobretudo na fala das mulheres, até pelos títulos dos seus últimos livros, que causam produtivo estranhamento: Dizes-me Coisas Amargas como os Frutos (2001) e Lágrimas e Laranjas (2001) –, processando a transfiguração dos signos de ruína e em ruína para, na contramão dialógica – e ideológica –, dizerem ainda da possibilidade de uma pátria amada, não obstante a crueza da condição humana. Porém, nem sempre esta é uma nostalgia projectiva, que intenta um reconstrução. Atente-se no diálogo entre dois poetas – João Maimona e Paula Tavares, respectivamente – sobre a visão catastrófica da pátria e o urgência do sonho adiado, num discurso marcado por um tom elegíaco, resultado de uma nostalgia crepuscular:

Atrás da sombra

tive em dias meus as festas da sombra.

tudo era sombra. princípio e decadência:

a essa cores eu chamo palavras adiadas:

não me farto de contemplar suas ruínas.

(Idade das Palavras, 1997)

Origens

Guardo a memória do tempo

em que éramos vatwa,

os dos frutos silvestres.

Guardo a memória de um tempo

sem tempo

antes da guerra,

das colheitas

e das cerimónias.

(Dizes-me Coisas Amargas como os Frutos, 2001)

Não obstante essa nolstalgia por vezes regressiva (porque crepuscular), o que a poesia contemporânea, afinal, intenta não é a negação da feição celebrativa da terra e suas gentes e a feição histórica do poético. Contra a corrente de solidariedade que, prosopopeicamente, se constrói no poema “Carta dum contratado”, celebrando a comunhão entre homem e natureza como partes da mesma terra, Adriano Botelho de Vasconcelos fala do “olhar das mães [que] adormece as agonias/que infecundam os signos das/fraternidades” (Abismos de Silêncio: 1996, p. 24). Em vez da euforia e da corrente de germinação emancipatória que figuras do (então) presente histórico (Amigo Liceu, Benge, Joaquim, Gaspar, Ilídio, Manuel e outros “amigos e irmãos”) e cultural (o Ngola Ritmos, os Intelectuais, a Liga e o Farolim) e do passado (Ngola Kiluanji e Rainha Ginga) tentavam então empreender o que o poeta encontrou quando voltou (“O içar da bandeira”), hoje – de novo Botelho de Vasconcelos –

A sanzala ficou deserta e os velhos

não enterraram os seus mortos, nenhuma felicidade

se ouve senão pelo vinho. Sonharam com a cabeça

viciada de sinais até perderem

a confiança. (...)

(Abismos de Silêncio, 1996, p. 30)

Aqui, muitas décadas depois, a germinação e o cataclismo revolucionários que se anunciavam não se concretizaram: “os filhos de Eva não têm memória do Éden” (Maria Alexandre Dáskalos) porque o Éden não chegou a existir! Em vez disso, no poema supracitado, de Botelho de Vasconcelos, há a sugestão da interrupção da dinâmica histórica pela não continuidade do ciclo da ancestralidade para o que remete a imagem dos mortos insepultos. De tal desestruturação psico-sociocultural resulta a alienação do homem, indiciada pela bebedeira, pela perda do sonho e pela deseperança. Do que se trata, com efeito, é do redimensionamento crítico do discurso sobre a nação, sempre ainda a partir dos elementos de coesão, a fim de que a nação continue a conceber-se para além da comunidade imaginada e da terra, “como uma pátria territorial, o local do nosso nascimento e da nossa infância, a extensão do coração e do lar (...) o local dos nossos antepassados, e dos heróis e das culturas da nossa antiguidade” (Smith: 1997, p. 146). Porém, porque o país real já não permite a euforia do canto celebrativo, a voz do passado parece interpelar, desta vez, João Maimona, que reage:

Procura

impalpável país fúnebre quando procurado

se cobre de noite. fugitivo cresce no rio

donde o oceano mais distante que se vê

chora conhecer o fruto as cinzas

que aos poucos se tornam janelas alheias.

(Retrato das Mãos. Festa da Monarquia , 2001)

O campo semântico de caracterização do país constrói uma isotopia crepuscular em que pontuam semas como “país fúnebre” e “fugitivo” em que as “cinzas” frutificam contra “janelas alheias”... Chamo a atenção para as datas da poesia com a qual ponho a dos consagrados em diálogo: Maria Alexandre Dáskalos, Jardim de Delícias (1991) e Lágrimas e Laranjas (2001); Adriano Botelho de Vasconcelos, Abismos do Silêncio, 1996; José Luís Mendonça, Quero Acordar a Alva (1997); João Maimona, A Idade das Palavras (1997) e Retrato das Mãos (incluído em Festa da Monarquia, 2001); e Paula Tavares, Dizes-me Coisas Amargas como os Frutos (2001). Poesia que ainda intenta a (re)construção da nação, porém pela mobilização de outros temas e recursos estilísticos e retóricos, a que subjaz uma outra filosofia: tanto a da escalpelização das responsabilidades (por que o advento não se tornou evento), como a da heteroglossia, isto é, a da pluriferação de visões sobre o país e sobre a nação que, afinal, ainda se vai fazendo dolorosamente. Nestes novos tempos históricos, de mudança de regime dito socialista para o da democracia parlamentar e da economia planificada para a de mercado, caracterizada por um neo-liberalismo extremado, Pepetela problematiza também, tanto em A Geração da Utopia como em O Desejo de Kianda, já citados, um dos factores de condicionamento das novas identidades: a ordem internacional, não apenas económica, senão também étnico-cultural – e, infelizmente, parece que por este mundo fora, também religiosa! É por isso que no arco tenso entre o nacional e o universal há quem queira ver esta questão da identidade como uma falsa questão, de tal forma supérflua que desta categoria, a identidade, se possa dizer ser “cor de burro a fugir”, verso de Arlindo Barbeitos que João Melo resgata para epígrafe do seu último livro, Os Filhos da Pátria (2001). Talvez valha a pena, neste contexto de minimização das identidades, lembrar Boaventura de Sousa Santos para quem, mesmo considerando a questão da identidade como sendo semifictícia e seminecessária, considera que – Quem pergunta pela sua identidade questiona as referências hegemónicas, mas ao fazê-lo, coloca-se na posição do outro e, simultaneamente, numa posição de carência e por isso de subordinação. Os artistas europeus raramente tiveram de perguntar pela sua identidade, mas os artistas africanos e latino-americanos, a trabalhar na Europa vindos de países que, para a Europa, não eram mais que fornecedores de matérias primas, foram forçados a suscitar a questão da identidade. (...). É, pois, crucial conhecer quem pergunta pela identidade, em que condições, contra quem, com que propósitos e com que resultados. (Santos: 1994, p. 119)

Não importa, como se viu, as formas estéticas que tomam esses questionamentos. A “escrita da nação” é ainda o caminho privilegiado e, por consequência, a “escrita da identidade” funciona, ainda, como subsidiária desse processo que se pode denominar canibalesco, no sentido de, não recusando a “tradição”, a reescreve nos seus elementos de celebração fundacionais. E, às vezes, carnavalesco na sua processualidade canibalesca, como acontece, por exemplo, na teatral apoteose do culto da Igreja da Esperança e Alegria do Dominus, no final de A Geração da Utopia, com a união dos esforços entre instituições antes em dissenso segundo a filosofia ortodoxa do regime monopartidário, a saber: o poder político (representado por Mundial), o poder económico (Malongo) e o poder espiritual, por via da religião (Elias). Este poderes, cuja concertação pareceria contra-natura, na percepção analítica de Aníbal, o Sábio, formam um pacto que se processa com vista ao enriquecimento individual – e não já ao bem estar colectivo, como a tradição literária nacionalista nos habituara. Por isso é que importa buscar o sentido histórico da escritura desse questionamento – que visa tornar visível a corrupção da tradição –, com o selo contratual do diálogo entre linguagens, sobretudo as da “representação factual”, que parecem apontar para direcções diferentes, mas que acabam por convergir para o mesmo lugar: a narração da nação . Isso não parece contradizer o projecto utópico, que pressupõe o obscurecimento de particularismos (como, por exemplo, a identidade individual) e a invenção de uma identidade colectiva, seja ela segmental ou mais abrangente. Pelo contrário, ele revitalizar-se-á com a criação de um “espaço intersticial” num entre-lugar contínuo de identificação ou, como equaciona Homi Bhabha –

Essa passagem intersticial entre identificações fixas abre a possibilidade de um hibridismo cultural que acolhe a diferença sem uma hierarquia suposta ou imposta. (Bhabha: 1998, p. 22)

Hoje, a rarefazerem-se os radicalismos, criativos e críticos, os estudos literários angolanos, uma vertente africana – e aqui destaco Luís Kandjimbo nesse seu afã em fazer dialogar a literatura angolana com outros sistemas literários africanos (leiam-se a primeira e a terceira partes de Apologia de Kalitangi), contra a obsessão das especificidades que nos dão a falsa ideia de “caso único em África” –, os estudos sobre a literatura angolana, dizia, vão-se construindo a partir desse equilíbrio entre as dimensões do nacional e do universal, entre a especificidade angolana e a universalidade das questões equacionadas. E cabe ao estudioso da literatura – o professor, o crítico, o teórico e o historiador –, proceder a um cruzamento metodológico de base interdisciplinar a fim de retirar das sombras as margens da unidade, da pluralidade e da totalidade do corpus da literatura angolana.

Luanda, 13 de Fevereiro de 2002 Inocência Mata

Bibliografia de referência citada: BHABHA, Homi, O Local da Cultura, Belo Horizonte, Editora da UFMG, 1998 BARRETO, Afonso Henriques LIMA, Numa e a Ninfa. Obras Completas, volume III, São Paulo, Editora Brasileira, 2ª edição, 1961 CANDIDO, Antonio, A Educação pela Noite & Outros Ensaios, São Paulo, Editora Ática, 1989 COMPAGNON, Antoine, O Demônio da Teoria (Literatura e Senso Comum), Belo Horizonte, Editora da UFMG, 1999 HARDT, Michael & NEGRI, Antonio, Império, Rio de Janeiro-São Paulo, Editora Record, 2001 [trad. Berilo Vargas] MATA, Inocência, Literatura Angolana: Silêncios e Falas de uma Voz Inquieta, Lisboa, Mar Além, 2001/Luanda, Kilombelombe, 2001. PEPETELA, “Pepetela por Inocência Mata”. Entrevista a Inocência Mata. Camões – Revista de Letras e Culturas Lusófonas (Lisboa), número 6, Julho/Setembro de 1999 SAID, Edward W., Cultura e Imperialismo, São Paulo, Companhia das Letras, 1995 SANTOS, Boaventura de Sousa, Pela Mão de Alice – o Social e o Político na Pós-Modernidade, Porto, Edições Afrontamento, 1994 SMITH, Anthony D., A Identidade Nacional, Lisboa, Gradiva, 1997

* Texto escrito da palestra a ser proferida no dia 14 de Fevereiro na UEA – União dos Escritores Angolanos, Luanda.

Embora eu ensaie esse trabalho num capítulo do meu livro Literatura Angolana: Silêncio e Falas de uma Voz Inquieta, (Lisboa, Editora Mar Além, 2001/Luanda, Kilombelombe, 2001) – intitulado “Uma reflexão sobre os modelos de representação na literatura angolana) –, fazendo uma classificação das tendência estéticas mais reiterativas, numa tentativa de mapeamento da história literária angolana...

Vejam-se os casos de negros no Brasil, de negros e xicanos nos Estados Unidos ou de corsos e antilhanos em França. Exemplos de regionalidade? Lembro, propósito, que a nacionalidade cultural de São Tomé e Príncipe, a são-tomensidade, se alimenta de uma marcante componente etnocultural – a angolaridade.

O que implica que o sentimento de pátria – chamemos-lhe patriotismo – pode gerir um alcance mais privado, interno, e outro mais abrangente e público, este movido por uma dinâmica ideológica externa, porque essa vivência pode ser extensiva a grupos menos restritivos ao meio de onde procede o indivíduo e com o qual se identifica: região, “território étnico”, comunidade clânica, memória e figuras históricas...

Em 1961, a visão de pátria de Lima Barreto sintetiza aquela que eu gostaria de expressar como relevando da poesia angolana contemporânea. Cito-a por isso: “(...) a Pátria, esse monstro que tudo devora, continuava vitoriosa nas idéias dos homens, levando-os à morte, à declaração, à miséria, para que, sobre a desgraça de milhões, um milhar vivesse regaladamente, fortemente ligados num sindicato macabro.” Afonso Henriques Lima Barreto, Numa e a Ninfa. Obras Completas, volume III, São Paulo, Editora Brasileira, 2ª edição, 1961. p. 226.

Quando alinhavei este texto (que só comecei a redigir há três dias), não conhecia o livro Festa da Monarquia (2001), de João Maimona, apesar de um dos segmentos do livro, Retrato das Mãos, ser precedido de um prefácio da minha autoria. De facto, quando o fiz, desconhecia que o livro seria parte de uma publicação, Festa da Monarquia, e não um todo de per si.

Um exemplo dessa centripetação de objectivos das várias modalidades discursivas nos estudos sociais angolanos pode ver-se em Mário Pinto de Andrade – um Intelectual na Política (Organização de Inocência Mata & Laura Padilha), Lisboa, Edições Colibri, 2000. Nessa colectânea várias abordagens – literária, sociológica, histórica e antropológica (Luís Kandjimbo, Bonavena, António Faria, Virgílio Coelho e Rosa Cruz e Silva) – buscam a verificação de um “discurso nacional”, quer dizer, aqui, endógeno, sobre Angola. Cito, a propósito, a reflexão do argentino Juan Bautista Alberdi, ainda no Séc. XIX: “una nación no es una nación sino por la consciencia profunda y reflexiva de los elementos que la constituyen.” (Apud Raúl Antelo, Algaravia: Discursos de Nação, Florianópolis, Editora da UFSC, 1998. p. 116).

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