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"Xé Candongueiro"

Escrito por  XOSÉ LOIS GARCÍA
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O poeta angolano Décio Bettencourt Mateus, autor do poemário Xé Candongueiro!,   traz-nos uma oferenda, uma crítica, uma impressão, uma revelação e uma resistência,  que emerge, converge e unifica. É assim que a poesia se nutre, tanto do concreto como do imprevisível. A imagem que nos transmite o autor transcende além do que podemos imaginar.

A poesia que sai dessa caixa de tormentos, de fantasias e de realidades formadas pelo desejo do poeta, muito poucas vezes entra em contradição com a vida real. O personagem de Xé Candongueiro! está coberto por esse realismo trágico e tétrico convertido em memória colectiva. Um personagem dedicado à candonga (transporte de pessoas, no caso), a sua vida caminha também sobre as rodas das peripécias; ele vai sobre os seus sobressaltos rudimentares.

 

É assim que Mateus reconstrói uma história dum desses muitos homens da terra, do quotidiano desse mundo acelerado e sangranto. Em África todos sangram de diversas maneiras e intensidades. Todos compreendem que a Mãe Terra está ensanguentada, e qualquer poeira cheira a sangue. Assim foi configurado Xé Candongueiro!, por formar parte dessa terra viva que não esmorece, se bem que a pele ampara os ossos. Por isso o poema relata, simbolicamente, um homem comum que nos seus trabalhos excessivos representa para o poeta o protótipo de milhões de pessoas que lutam pela sua existência em Angola e no continente africano.

 

Neste livro há poemas que se fundem na presença poética de Agostinho Neto, o primeiro presidente de Angola. As tendências duma geração podem ser mostradas de diferente maneira por outras gerações posteriores, em equivalências bem distintas e sempre acopladas ao problema existencial da comunidade nacional. A necessidade de responder a problemas básicos que não tenham mudado, faz com que a configuração de vários poemas incidam e expliquem os desconcertos e as penalidades dum indivíduo, como Xé Candongueiro!, ou duma sociedade complexa. Mas as condições alegadas dum problema concreto não deixam de ampliar a denúncia que o poeta recolhe pontualmente, ampliando ou simplificando imagens dos guetos de miséria.

 

Em Xé Candongueiro! há um poema, titulado: O Silêncio das Gentes, em que Bettencourt Mateus retoma apreciados ecos da poesia da Geração de Mensagem, a grande expressão da poesia angolana. É por isso que Mateus aumenta a sua crítica contra os africanos que imitam a opulência dos colonizadores europeus e o neocolonialismo e o desfase dessa África assimilista. Digamos que os poemas deste livro expressão uma dose de beligerância contra formulas e condutas estereotipadas e tipificadas na cultura ocidental.

 

Estes poemas de supervivência existencial procuram dignidade para o homem e para os seus conterrâneos, no seu próprio grito de lealdade. Nestas contingências poéticas de Décio Mateus, não encontramos nenhum afã mesiánico ou profético, somente a crítica nua contra os poderes sociais e económicos que limitan presságios de igualdade.

Nestes poemas há a exaltação da terra angolana e, também, a crítica contra as convulsões e contradições pelas que passa a África toda. Como este poemário não é unitário, encontramos diversos registos, e, num deles, contempla-se a esperança. A esperança para o povo angolano tem muitos significados, um deles é a força do povo transformar o país, igual às águas do río Kwanza (o mais caudaloso de Angola) que faz com que germinem os campos secos. Agostinho Neto fala deste rio, como protótipo de esperança, de transformação e de desenvolvemento de Angola.

 

Outro dos registos deste livro é a invocação identitária que tem significados profundos na descoberta da cultura e das tradições angolanas. Estamos ante um poeta que emerge e conflui de problemáticas muito concretas e duma poesia desafiante e de esperança.

 

 

 

* texto livremente traduzido por Décio Bettencourt Mateus.

 

Fonte :

 

http://www.xoseloisgarcia.com/index.php?option=com_content&task=view&id=295&Itemid=48=48

 

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