“ –Dívida, é dívida! - Mas... mana Marta... eu... - Dívida, é dívida! – lhe corta a palavra com voz seca. - ‘Stá bem. Dívida, é dívida. Eu sei. Mas a mana Maria Simão, podia me falar. Ela não mi falou. Não mi abriu. E logo-logo dois filho... eu que só tenho dois, não acha que é muito? Sá Marta não responde, lhe segura no ombro: - Vamos, vamos na sala. E foram até na sala. Na sala, Sá Marta apanha o dinhero e entrega na Sá Rosa: - Toma, leva o dinhero! - Ai, mana Marta, favor, m’ajuda já!... - Leva a merda do tô dinhero! – berra a Nga Fatita. – Não queremos dinhero, não intendeste ainda? - Mana Fatita, mi perdua já... mi perdua, mana Fatita! ... não mi mata os filho. Mi perdua, eu não sabia, mana Fatita...
Este é um extracto bastante ilustrativo do investimento que o autor faz no plano da linguagem literária, em todo o livro. É também ilustrativo da génese da narrativa e do conteúdo que enformam “A Dívida da Peixeira”.
Ao convidar-nos amavelmente à apresentar este seu terceiro livro, vencedor do “Grande Prémio Sonangol de Literatura/2001”, o autor – Jacinto de Lemos - , certamente, não se deu conta do duplo risco que corria: - em primeiro lugar, a nossa amizade não permitia que eu me recusasse; por conseguinte, se ele esperava um não redondo, recebeu um sim, embora indeciso, reticente. Em segundo lugar, ele acabara de atribuir tão nobre mas ingrata tarefa a um confrade, que se assume de peito aberto como um mero disparador de reflexões que, em meio a outras coisas, havia de cometer algumas “inconfidências”, ao falar deste belo livro e do seu autor, claro está.
Aceitamos o desafio. Mais um. E metemos mãos à obra: - fizemos a primeiríssima leitura, lúdica. Fizemos a segunda leitura, de fruição estética e, em razão disso mesmo, mais demorada.
Entretanto, desde o instante número um em que acedemos às primeiras páginas e começamos por ler as primeiras frases, desconseguimos abandonar o livro. “A Dívida da Peixeira”, que é, ao fim e ao cabo, o feitiço da peixeira, se tinha transformado no feitiço do autor. E, por isso, encontrávamo-nos presos ao livro.
Em primeira leitura, sorvíamos, numa só golfada, dezenas de páginas seguidas e, de tão prazerosa que era a narrativa, de tão empolgantes que eram os diálogos, fazíamos marcha atrás, pondo-nos a repetir tudo. Havia momentos de puro deleite, entrecortados por períodos de risos até às lágrimas, umas vezes, e de cortante tristeza e dramatismo até à secura, outras vezes.
Já durante a leitura de aferição estética e estilística, dêmo-nos conta que estávamos diante de um texto que, embora não sendo invulgar por enquadrar-se na linha ou corrente dos bons mestres da prosa angolana( ), impunha um novo ritmo, um novo andamento, uma nova dinâmica na actual prosa produzida em Angola.
Com esta obra, Jacinto de Lemos continua a impor rupturas quer no plano da linguagem, quer no plano da concepção e da estruturação do discurso literário, aliás rupturas essas que já vêm dos seus anteriores livros; primeiro, com “Undengue” (1989) e depois com “O Pano Preto da Velha Mabunda” (1997).
Na decorrência do seu discurso, da sua escrita, Jacinto de Lemos vai ajudando a erigir uma prosa angolana assente em novos cânones e, com isso, erigir um paradigma para aquilo que poderíamos chamar de “discurso literário legitimador”( ) em Angola. Dito de outro modo, com “A Dívida da
( ) – Dentre outros mestres da prosa angolana que, com fino trato, utilizam este estilo, e só para exemplificar (perdoando-nos o risco de omissão involuntária), nomeamos: Oscar Ribas, Luandino Vieira, Uanhenga Xitu, Jorge Macedo, Manuel Rui, Pepetela. ( ) - Este nosso pensamento surge como resultado do estudo comparativo, pluridisciplinar, entre o discurso literário e o discurso jurídico, analisando os seus pontos de confluência. A propósito do discurso legitimador, recomenda-se vivamente a leitura de “Introdução ao Direito e ao Discurso Legitimador”, de João Baptista Machado, que sustenta, a páginas 319 e 320, que a força persuasiva e legitimadora do discurso (para ele, o jurídico mas, para nós e para o caso, também o literário) assenta não “na eloquência da palavra fácil, nem simplesmente no encadeamento lógico das unidades discursivas, das palavras e das
Peixeira”, o autor propõem-nos novas leituras e nova visão sobre a dimensão ontológica de todo o discurso literário angolano.
Por este facto é que, ao respondermos ao desafio de lançarmos um olhar, chamemos assim, crítico sobre “A Dívida da Peixeira” e, deste modo, respondermos também aos imperativos impostos pelo exercício da análise textual, socorremo-nos de alguma bibliografia.
Assim, não sei porque estranha razão, lançamos logo mãos de um belíssimo livro, recomendável a todos quantos ousaram (e ainda bem!) ou ousem trilhar o tortuoso e doloroso caminho da escrita. Referimo-nos ao livro “Áreas Críticas da Língua Portuguesa”, de João Andrade Peres e Telmo Móia.
Muito rapidamente chegamos à conclusão que aquele era, seguramente, um utilíssimo instrumento de trabalho para quem pretenda escrever de forma escorreita, ou com o mínimo de correcção exigível. Mas chegamos também a não menos importante conclusão que, desde uma perspectiva da escrita criativa, da linguagem e da gramática específica da prosa angolana, aquele valioso livro era manifestamente insuficiente. E não podia ser de outro modo, i. é, a insuficiência não residia no livro em si mesmo; portanto, não constituía nem constitui demérito para o livro em causa e muito menos para o seus dois autores. Em boa verdade, nenhum livro ou manual de seja o que for ensina o indivíduo a ser escritor.
Com efeito, o escritor (mormente o da escrita ‘re-criativa’, portanto, aquele que recria a linguagem) não pode ficar agrilhoado ao paradigma da gramática normativa da língua comum. Deve conhecê-lo bem ou, ao menos, dominá-lo razoavelmente bem. Mas depois, deve partir para a conquista de novos universos de linguagens e da língua, tal como o autor de “A Dívida da Peixeira” o faz no rico contexto angolano.
Vejamos, por exemplo, como Jacinto de Lemos, em momentos particularmente significativos do seu livro, dá voz ao narrador:
“Vizinha Maria Simão nessa parte faltou pouco lagrimar” (pág. 11);
razões nele explicitadas. Essa força emana antes da própria ideia normativa ‘pro-ferida’ e tornada explícita no discurso que ‘negoceia’ a relação entre tal ideia e os contextos concretos de acção (situações ou casos típicos) e, assim, revela o conteúdo dessa ideia por uma forma mais explicitamente articulada no nosso horizonte comunicativo, assente em determinada realidade social comunicativa. Podemos assim dizer que o discurso persuade e vincula ao articular e ‘pro-ferir’ a ideia, quer dizer, ao revelá-la e ao revelar o seu alcance, ao ‘instituí-la’ no nosso horizonte comunicativo. Portanto, a sua força persuasiva e vinculante deriva da ideia que ele explicita, e não dele próprio enquanto discurso.” Para nós é essa também a ideia-charneira do discurso literário, do texto, da prosa de Jacinto de Lemos em “A Dívida da Peixeira”.
“Quando esses casos começaram, o sol tinha já passado do meio dia...” (pág. 15); “Sá Rosa apressa o passo em direcção às barrocas. Nas barrocas, no meio das barrocas, havia uma cacimba, na volta da cacimba cresciam paus de farinheira e paus de tabaqueiro.” (pág. 19); Nesse tempo, Dadão fazia bué de cumbú...” “... comprou uma bina mesmo boa. Bem nova ainda. Era monandengue de sorte. Muita sorte.” (pág. 19 e 20); “... Dadão duzava mais...” “Dadão, no meio daquela atrapalhação toda, não estava saber se vende no quem.” (pág. 20). “Aquela hora a cacimba do Roldão estava cheia de monandengues. Sá Rosa boamada com aquela gente toda...” “Mas ao ver monandengue Benedito ali, quase a s’atirar na água, o curação lhe ficou no lugar, de esperança.” (pág. 23); “Aquela hora estava já s’aproximar a hora do meio dia. O sol com aquele andar de caxexe, estava mesmo a subir. A subir parece cágado, parece dinongoena. E a maka, ali na Gajajeira, como que a subir também com o sol, chegou mesmo no ponto alto, das pessoas não poderem mais com raiva. E s’encostaram na Maria Simão p’ra lhe darem um atesto.” (pág. 52).
Por aqui, e com esses pequenos exemplos, se pode inferir claramente sobre a ruptura consciente não só com a norma do português padrão, como também com a estrutura de pensamento subjacente aos personagens que não os do universo angolano. É uma opção inteligentemente feita por Jacinto de Lemos. Ele (re)cria uma outra forma de reflectir o meio, de reflectir a língua e a linguagem, criando novos sentidos e nova linguagem, obrigando-nos a pensar numa eventual nova epistemologia da linguagem ou, melhor ainda, numa eventual nova “epistemologia do sentido”( ).
Quem lê “A Dívida da Peixeira” facilmente se dá conta que, saído da língua falada (português popular falado em certas zonas de Luanda e não só), o pretérito perfeito simples( ) é a forma verbal que constitui a pedra
( ) – A propósito, fazendo recurso a um velho e conhecido adágio, segundo o qual “na língua não há senão diferenças”, e também partindo do princípio que, em muitos momentos do texto, o narrador se faz ‘diferente’ pelo uso daquilo que se designa ‘idiolecto’, i. é, pelo uso de linguagem própria, corporizando uma ‘língua’ com vocabulário específico, estilo e ritmo próprios, etc, importa referir o que Fernando Belo afirma em “Epistemologia do Sentido”(vol. I). Com efeito, segundo aquele autor, e referindo-se a Balzac), “a narrativa de ficção também pertence a esta tipologia textual (história e discurso), razão pela qual o termo de ‘história’ cedeu ao de ‘narrativa’: - chamar-lhe-emos o tipo narrativo. O termo ‘discurso’ tende modernamente a confundir-se com o de ‘texto’, ultrapassada a oposição tradicional oral/escrita que os distinguia.” ( ) – No dizer de Rland Barthes, em “O Grau Zero da Escrita”, na parte III – “A escrita do romance”, “através do seu pretérito perfeito simples, o verbo faz parte implicitamente de uma cadeia causal, participa num conjunto de acções solidárias e dirigidas, funciona como o signo algébrico de uma intenção; sustentando um equívoco entre temporalidade e causalidade, exige um desenvolvimento, isto é,
angular de toda a narrativa, dando uma dinâmica muito sui generis, quer à recorrência dos diálogos e monólogos, ao longo do texto, quer à contextualização dos cenários e dos factos “históricos” apresentados.
Ao falarmos de tempos verbais no Romance e, mais precisamente, em “A Dívida da Peixeira”, importará, sobremaneira, ilustrarmos isso com alguns diálogos, que assomam aqui e ali, com muita frequência ao longo do texto, como já o dissemos.
A páginas tantas , descrevendo um diálogo renhido onde se acusava Maria Simão de bruxa, diz o narrador, que “vizinha Maria Simão sentada ali, não podeu responder uma palavra só. A boca lhe estava seca. E os fala-fala na frente dela acompanhado com apontar de dedos na cara, continuaram.” - O uanga que você tem, tem que chegar pra fazer calar as nossas bocas, porque senão, Ah! Ah! Ah! Vamo ti rir Maria. - Vamo ti rir e vamo ti interrar! – Acrescentou a vizinha Lemba – Aqui muita gente ponha a mão no fogo só pra sarvar a vizinha Rosa. Ouvisti? Ouvisti? - Lemba!, xeié sacana, não ‘stá ouvir cala inda?! ‘Spera só velha Masoxi, deixa cabar só... - Cabar quê? Him? Cabar quê, desde que cumeçaram a falar? Você pensa que aqui tem conversa de brincação?! – Velha Masoxi fitucou já. – Não ‘stão ver que essa é conversa grande?! - Mana Lemba não liga... - Vai a merda ouviu? Só sacana. Vai a merda. Você ‘stá mi brincar né? ‘Stá mi brincar ó Lumingo! ‘Stá mi brincar?! – Velho lhe encostou até na boca. Velha estava atada. Desde que se juntaram nem conversa vai. – ‘Stás mi brincar só sacana. - Hi! É a quem...? É a Sesá que falou na mana Lemba pra não ti ligar é sueu... - É a Sesa mazé tuji! Kadié tuji! - Ah! Ah! Ah! – Gargalhadas. - Sós fiticeros de merda! - Ah! Ah! Ah! – Outras gargalhadas. - Caté você Lumingo, ‘stás levar essa conversa na brincação?!, caté você?! - Olha só antão a velha Masoxi! Não é sueu, é a Se... - Vai a merda! É a buatala, é a buatala... ( pág. 51 )
E só assim a velha conseguiu pôr silêncio. ( pág. 52 )
uma inteligência da Narrativa. É por isso que ele é o instrumento ideal de todas as construções do universo; é o tempo factício das cosmogonias, dos mitos, das Histórias e dos Romances.”
- Mana Sesá!, colocaste boa pruguntação! Quenhé mesmo que nunca adeveu o outro?... - Se até mesmo o... o capuete que andamos pensar tem tudo, ... ( pág. 53 )
- Se quiser ti bater, eu ti bato. Sou home de ti poder. Nga Lumingo lhe olha dos pés até no findilo e diz: - Ua camb’o findilo-é! E diz o kota: - Gostas muito de mi repontar o findilo. Não sei se andas querer o quê? - Ando a querer o tô canhão! - Ah! Ah! Ah! – Gargalharam as que ouviram. E a vizinha Lemba dá um assobio e diz: - Maka a toala! - Lhi mostra mana Lumingo! Lhi mostra! – Diz a Nga Sesá. – Que és viúva alegre. Viúva que tem vontade ... de...” ( pág.s 53 e 54 )
Com a leitura dessas passagens, pensamos ter demonstrado a potente memória para registos dos flashs da vida, a veia nata do contista e a imaginação fértil do escritor que é Jacinto de Lemos.
É assim que essa criativa pena das letras angolanas faz a sua inscrição social( ), enquanto intelectual seriamente apostado na criação de novas utopias e na consolidação de uma nação para todos.
Entre o romancista e o contista, prefiro ver Jacinto de Lemos como um sulcador de águas mistas, navegando entre o conto e o romance. Aliás, nisso de géneros do discurso literário já Tzevetan Todorov, abordando a problemática da “Origem dos Géneros”, discutia a pertinência ou não da separação dos géneros literários, no que ele advogava a dificuldade de separá-los já que “não há hoje nenhum intermediário entre a obra singular e individual e a literatura inteira, género último; não há, porque a evolução da literatura moderna consiste precisamente em fazer de cada obra uma interrogação sobre o próprio ser da literatura” e, citando Maurice Blanchot, “Só importa o livro uma vez que ele está afastado dos géneros e fora das
( ) – É particularmente interessante ler, por exemplo, o livro “L’inscription sociale de l’intellectuel” que, sob a direcção de Manon BRUNET e Pierre LANTHIER, reúne uma considerável gama de textos críticos sobre a inscrição social do intelectual, que vai desde a interrogação do que se entende por ‘intelectual’, passando pela abordagem do ‘intelectual e os meios profissionais’, terminando de maneira lapidar, indagando da razão da presumível ‘morte do intelectual’. Outra obra de leitura, diríamos, tão obrigatória quanto à da primeira é “A Demissão dos Intelectuais”, de Alain Caillé.
rubricas, prosa, poesia, romance, testemunho, nos quais se recusa a incluir e aos quais denega o poder de lhe marcar um lugar e de lhe determinar a forma. Um livro já não pertence a um género, todo o livro releva da única literatura, como se essa já detivesse, na sua generalidade, os segredos e as formas que lhe permitem por si só dar ao que se escreve a realidade do livro.”
Reafirmamos: - este livro de Jacinto de Lemos é uma feliz fuga aos géneros. É um belo livro e pronto. Aliás, mais não fazemos que labutar, mas de modo crítico, na esteira do mesmo Tzevetan Todorov, que afirma que “O facto de a obra desobedecer ao género não o torna inexistente.”
No que tange ao investimento nas técnicas formais de escrita, Jacinto de Lemos estrutura cada vez mais um estilo próprio, livre, despretensioso, mas onde se podem notar, de forma clara, como ele faz a integração da palavra no pensamento, recorrendo aos tempos verbais (como já o dissemos antes), à exploração dos sentidos e à determinação; também é notório o modo como explora até a exaustão o poder da frase oral, aqui por ele trazida para o papel: inteligente tratamento do volume da frase, com o uso de frases curtas, elípticas, umas vezes, a acumulação e a frase parentética, outras vezes, e ainda o recurso à pausa, por via das reticências; impõe rupturas no equilíbrio das frases, criando no texto um ritmo próprio para elas (as frases), por forma a obter ganhos na expressividade.( )
Por conseguinte, e para terminarmos, se é verdade que Angola é um país de poetas, não é menos verdade que este portentoso país possui também prosadores de nomeada. A prosa angolana tem bons cultores, na velha geração de escritores, como já o afirmamos antes. E na nova também. Tanto assim é, que entre os escritores da nova geração, temos um verdadeiro “operário” da palavra, um “griot ”, um prosador de palavra simples, límpida, fluindo como a água da fonte. É ele, Jacinto de Lemos que, tal como Agostinho Neto, filho de Icolo-e-Bengo.
Com o presente livro, “A Dívida da Peixeira ” (Grande Prémio Sonangol de Literatura/2001), Jacinto de Lemos consolida o seu belo, ligeiro, cativante, às vezes hilariante e recriado discurso em prosa, assente no linguajar popular, aliás um discurso iniciado com o seu primeiro livro, “Undengue”, e continuado no segundo, “O Pano Preto da Velha Mabunda”. Mas, como acontece com todos nós, o autor tem ainda muito caminho por caminhar, passe a redundância.
( ) – Dentre as várias leituras possíveis, para o entendimento do que aqui se diz sobre “A Dívida da Peixeira”, no plano estilístico, aconselhamos “O Estilo e as suas Técnicas”, de Marcel Cressot.
Jacinto de Lemos, aos 41 anos de idade (2/1/61), confirma, com “A Dívida da Peixeira”, a sua forte veia de prosador nato e, com isso, confirma também a pujança da literatura angolana no espaço dos países de língua portuguesa.
Membro da U.E.A. desde 7 de Junho de 1995, Técnico Médio de Bioquímica, este autor é também um homem das artes cénicas (de referir que o seu livro “O Pano Preto da Velha Mabunda” foi adaptado ao teatro e levado à cena com muito êxito) e um homem das artes plásticas. De há uns anos a esta parte decidiu fazer da escrita, da literatura, a sua residência primeira; a sua maneira de estar na vida. Aposta arriscada, certamente. Mas nobilíssima.
É, pois, caso para dizer: - os “mais velhos”, os mestres angolanos na arte de produzir boa prosa, não têm porque ficar preocupados. Com Jacinto de Lemos o testemunho está bem entregue. Pois, com certeza!
Agora que nos prestamos a terminar é que nos damos conta que, contrariamente ao que anunciamos no princípio, não cometemos inconfidência nenhuma.
Meus amigos, vale a pena comprar e ter este livro nos nossos escaparates. Porque quem o não fizer, como diz o próprio Jacinto de Lemos numa das passagens deste seu livro, ficará “buamado” e, com mãos na cintura, dirá: - Afinale é isso que si passou aqui?!
MUITO OBRIGADO.
Luanda, 25 de Fevereiro de 2002.-
CONCEIÇÃO CRISTÓVÃO
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- BARTHES, Roland – O Grau Zero da Escrita, Lisboa 1984.
- BELO, Fernando – Epistemologia do Sentido (vol. I), Lisboa 1995.
- BRUNET, Manon et LANTHIER, Pierre – L’inscription Sociale de l’intellectuel, Canadá 2000.
- CAILLÉ, Alain – A Demissão dos Intelectuais, Lisboa 1997.
- CRESSOT, Marcel – O Estilo e as suas técnicas, Lisboa 1980.
- MACHADO, J. Baptista – Introdução ao Direito e ao Discurso Legitimador, Coimbra 2000.
- PERES, J. Andrade e MÓIA, Telmo – Áreas Críticas da Língua Portuguesa, Lisboa 1995.
- REIS, Carlos – Técnicas de Análise Textual, Coimbra 1976.
- TODOROV, Tzevetan – Os Géneros do Discurso, Lisboa 1981.
*Texto de apresentação do livro “A Dívida da Peixeira”, Grande Prémio Sonangol de Literatura/2001, de Jacinto de Lemos, em Luanda, aos 25 de Fevereiro de 2002. **Poeta, ensaísta e Deputado.
